↫─☫ Capítulo 08.4
↫─☫ Checkmate – 08.4
— Diga incondicionalmente que vai fazer. Só assim eu falo.
— Sem nem saber que pedido descabido é?
— Não é pedido, é ameaça, desgraçado.
Franziu o cenho de forma severa, mas ele custava a se assustar. Pelo contrário, apenas riu de canto, como quem acha ridículo. Era um escárnio na acepção estrita.
— Taekjoo. Não te ocorre que propor um acordo, em vez de me ameaçar, traria menos dor de cabeça depois? Precisa pensar no futuro também.
Aconselhou rindo à toa. Claramente sorria, mas o coração de quem via não ficava nem um pouco à vontade. Era como se a ameaça se voltasse contra ele. O fato de a atitude dele para consigo ter mudado não significava que o sujeito em si tivesse mudado.
Na verdade, tanto fazia ser ameaça ou proposta. O que pretendia dizer era, de qualquer modo, uma coisa só. Deu de ombros e explicou de forma um tanto abstrata.
— Como fico irritado de acabar sucateado assim, pensei em fazer uma organização do trânsito, e preciso da sua ajuda. Então me ajuda um pouco.
— Isso é problema seu, pessoal. Não há fundamento para eu me meter.
— Fundamento, isso tem.
Cheio de convicção, ergueu de leve o queixo. Um olhar de suprema segurança dirigiu-se reto a Zhenya. O sujeito inclinou a cabeça como quem diz “que história é essa”, mas ele podia afirmar com ousadia. A própria vida, ainda grudada intacta ao corpo, era a prova disso.
— Você, meu chapa, precisa ficar bem comigo.
Sem falta, o cenho de Zhenya se contraiu. Mas isso durou pouco; o sujeito logo riu de forma franca. Parecia ter entendido direito o sentido.
De quebra, tirou o cartão de memória e o pôs diante do sujeito.
— Aí está o motivo pelo qual estou sendo caçado. Quero que você entregue isso ao promotor responsável pelo caso. Provavelmente não vai ser fácil. A esta altura, a polícia já deve estar espalhada por toda parte. Talvez até tenham dado ordem de execução. Por mais que este país chamado Coreia do Sul pareça acanhado, quando mexem no arroz dele, fica agressivo. Por isso mesmo preciso da sua ajuda. Eu vou atrair a atenção, então, na brecha, entregue isso.
O tom com que fazia o pedido era bastante sério. Zhenya tinha uma expressão pouco disposta. O plano de Kwon Taekjoo não garantia nem a segurança dele próprio. Diante de Zhenya, que perguntou “é o único jeito?”, apelou mais uma vez.
— É o original, então tem de ser entregue sem falta. Por mais que eu pense, na situação atual não há outro jeito além desse. Outro qualquer eu não sei, mas você, monstro, é alguém em quem posso confiar essa entrega, por isso peço.
Sendo algo confiado com confiança, não havia mais o que dizer. Não é que ele desconhecesse por completo a situação de Kwon Taekjoo ou como as coisas se desenrolavam.
Docilmente, tomou o cartão de memória na mão. Então protestou, balançando-o de leve.
— Não é regra pagar quando se contrata um mercenário?
Kwon Taekjoo, como quem já previa que ele viria com essa, riu de canto.
— Claro. Se este assunto se encerrar sem incidentes, vou considerar você digno. Domesticar um sujeito como você também parece ser bem divertido.
— Quem vai domesticar quem?
Fez uma careta como quem ouve um absurdo. Ele acrescentou a explicação com gentileza.
— De todo jeito, aonde quer que eu vá, você vai me seguir. Agora eu também estou de saco cheio de fugir. Para desistir dessa coisa, vou ter de fazer algum acordo com a realidade. Então, este que vos fala vai ficar junto de você. Vai ser difícil eu me derreter de amor agora, mas vou te tornar mais humano.
Por um átimo, o rosto de Zhenya ficou atônito. Era a expressão de quem levou uma pancada na nuca.
Nas pupilas azuis, Kwon Taekjoo se refletia por inteiro. Raramente ele sorria olhando para si, mas não parecia estar dizendo baboseira. Ainda assim, não dava para concluir que aquilo fosse o verdadeiro sentimento de Kwon Taekjoo. A não ser que fosse o mal menor escolhido num beco sem saída.
Recuando o corpo, moveu os dedos na direção de Kwon Taekjoo, chamando.
— O senhor cliente tem crédito zero, então primeiro vou precisar de uma garantia.
Comerciante nato. Conforme a exigência do sujeito, subiu na cama. Logo se aproximou a uma distância em que bastava estender a mão para alcançar. Zhenya, que fitava Kwon Taekjoo em silêncio, agarrou de repente a nuca dele. Logo em seguida, os lábios dos dois se encaixaram de forma um tanto rude.
Zhenya, com o cenho amargamente contraído, degustou os lábios de Kwon Taekjoo. Havia, de algum modo, uma sensação de afeto. Em comparação ao gesto ansioso, o ato de tomar e soltar devagarinho só o lábio superior era bastante cauteloso. Após observar aquela imagem inusitada do sujeito, fechou os olhos aos poucos. O corpo inteiro foi arrastado por uma força intensa. Como mentira, o coração começou de novo a pulsar. Uma vez que a paixão cega o toma, não há remédio.
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Na sede do Serviço Nacional de Inteligência, decretou-se estado de emergência. Foi a partir do momento em que se captou o indício de que Kwon Taekjoo havia se infiltrado no hospital. Com a perseguição ocorrida no centro da cidade, não houve como escapar do fogo cerrado da imprensa. Ainda que tivesse paralisado o trânsito de toda uma região e causado até danos a civis, ao se divulgar o fato de que perderam o foragido, choviam vozes criticando a incompetência do poder público.
Ainda por cima, com Ri Cheoljin — preso como réu em um caso de segurança pública e à espera de julgamento — sofrendo um envenenamento suspeito, o alvoroço interno e externo se agravou. Era a razão pela qual precisavam capturar Kwon Taekjoo a todo custo. Alguém tinha de assumir a responsabilidade por aquilo.
Como a situação era grave, até o chefe de divisão Im, que estava internado, compareceu à sede. Desde a noite anterior, sem nem ir para casa, recebia relatos da situação a todo instante. O paradeiro de Kwon Taekjoo era um total mistério. Investiam todos os meios disponíveis, vasculhando como quem cata piolho, mas não encontravam vestígio.
Não é que não houvesse colheita alguma. Foi graças ao inesperado surgimento de Psikh Bogdanov. Por alguma razão, ele até ajudara na fuga de Kwon Taekjoo, então, se os apanhassem enquanto os dois estivessem juntos, a suspeita de conluio com o sujeito também se tornaria consumada. Talvez Kwon Taekjoo já tivesse partido desta para a outra pelas mãos do sujeito.
Ainda que tenha havido certo alvoroço, tudo estava conforme o planejado. Bastava obter a oferenda que consumaria o feito, e seria, então, prosperidade em tudo. Uma única coisa, o fato de não haver muito tempo, era o único empecilho.
Nesse instante, soou uma batida na porta, e um funcionário entrou no gabinete. A ele fora designada a missão de rastrear em tempo real o histórico de uso do celular de Yun Jongwoo. O 1º subdiretor, que estava junto, sem conseguir esconder a inquietação, perguntou o que era.
— Há pouco, chegou uma ligação para o celular de Yun Jongwoo.
— O remetente, foi identificado?
— Sim. É uma linha em nome de um russo chamado Yegveny Vissarionovich Bogdanov.
— E a região de origem da chamada?
— Confirmou-se que é nas imediações de Pyeongtaek, na província de Gyeonggi.
— Ótimo.
O 1º subdiretor cerrou o punho com força. O chefe de divisão Im também assentiu de bom grado. Era o momento de encerrar o que havia começado. Como os ingredientes estavam suficientemente preparados, bastava temperá-los bem.
Transmitiu ao tal funcionário que aguardava as instruções subsequentes.
— Mande já um ofício de cooperação à delegacia da área. E deixe também nossos agentes de elite de prontidão para a operação.
— Como será o comando em campo?
— O comando fico eu.
O funcionário que ouvia a ordem fez uma expressão intrigada. Isso porque, normalmente, gestores ou pessoas de nível de chefia recebem relatos e dão instruções na sala de controle, e não vão em pessoa a campo comandar a operação. Claro, ao recordar que o chefe de divisão Im era ex-agente, não era algo descabido. Ainda assim, verificou se por acaso não ouvira errado.
— O senhor vai em pessoa?
— Tenho de ir. De um jeito ou de outro, era meu homem; recolhê-lo também não deveria ser feito por minhas próprias mãos?
— Então eu também vou.
Até o 1º subdiretor, que ouvia, se prontificou. Achou aquilo estranho, mas, como a situação era tão excepcional, deixou por isso mesmo.
— Vou preparar conforme o senhor determinou.
— Antes disso, mais uma coisa. Yun Jongwoo, da equipe de apoio, chegou ao trabalho?
— Não. Ainda não.
— E foram à casa dele?
— Sim. Captou-se a imagem dele saindo bem cedo, de madrugada.
O chefe de divisão Im esfregou o maxilar inferior e mergulhou por um instante em pensamentos. Logo após receber contato de Kwon Taekjoo, Yun Jongwoo desaparecera. Com certeza recebera alguma instrução. Como o tempo que passaram juntos não fora curto, conhecia bem Kwon Taekjoo. Ainda que fosse pego, não era o tipo de gente que encerraria a coisa docilmente assim. Devia ter preparado ao menos algum estratagema para desferir um golpe em quem o sacaneara. O fato de ele ter procurado Ri Cheoljin antes de desaparecer também o incomodava.
— Então descubram também onde está Yun Jongwoo e o mantenham detido até eu dizer que basta.
— Entendido.
O funcionário que recebeu a instrução fez uma reverência respeitosa e saiu. Até que os sinais de sua presença se dissipassem, não houve conversa alguma entre os dois que restaram. O chefe de divisão Im só abriu a boca depois que o som dos passos sumiu por completo.
— Agora é hora de pôr o ponto final.
— Se este assunto se encerrar sem incidentes, isso será tudo graças a você. Eu não vou esquecer.
Diante do agradecimento precoce, o chefe de divisão Im apenas riu em silêncio. Logo, levantando-se, abriu a gaveta trancada. Dentro dela havia um fuzil desmontado. Tirando as peças, montou-o rapidamente. Apontou para o vazio o fuzil concluído num átimo. O olhar que fitava a mira era simplesmente cego.
— O senhor enviou mesmo ontem, né?
Yun Jongwoo, segurando a porta de entrada que o dono ia fechar, perguntou insistindo, para confirmar. Não sabia mais quantas vezes fizera a mesma pergunta. Por causa dele, que aparecera de repente, arruinara o plano de dormir até tarde. No estúdio, deixara apenas um contato de emergência, então não dava para entender como ele descobrira o endereço da casa e viera. Cheio de fastio, puxou a porta de entrada.
— Ah, eu já disse que sim! Na véspera de folga, mando todas as fotos razoáveis antes de sair. Não é que eu teria separado especialmente as fotos que aquele homem deixou, ora?
— Então, senhor, pelo menos me diga a transportadora que usou. Normalmente, em um dia chega tudo, né?
— Uso a Transportadora Cheollima. E a data de entrega não é a mim que deve perguntar; tem de confirmar direto com a transportadora. Agora chega, né?
O dono do estúdio, dizendo “agora pode ir”, empurrou Yun Jongwoo. A porta de entrada se fechou bem à frente dele, sem piedade. Não conseguira nem descobrir o número da nota de remessa. Contrariado, pensou em tocar a campainha mais uma vez, mas, se fizesse isso, parecia que ele chamaria mesmo a polícia. Sem alternativa, virou-se, arrastando os pés.
Ao sair para o beco, tirou o celular. Não houve contato adicional de Kwon Taekjoo. Na noite anterior, soubera das notícias dele pelo noticiário. Enquanto não conseguia dormir de tão assustado, recebera a ligação dele. Conforme a instrução dele, hoje nem fora ao trabalho. Agora, se Kwon Taekjoo fosse mesmo pego, o próprio Yun Jongwoo também se tornaria irremediavelmente um cúmplice.
Um longo suspiro escapou por si só. Já que chegara até ali, agora não havia mais o que fazer. Não restava senão cumprir seu dever e apenas torcer para que tudo desse certo.
Conectou-se à internet e pesquisou a Transportadora Cheollima. Sem o número da nota de remessa, não dava para consultar o status da entrega. Sem alternativa, ligou para o número principal. Só depois de um bom tempo foi conectado a uma atendente.
— Sim, Transportadora Cheollima.
— Obrigado pelo trabalho. Queria perguntar uma coisa. Aqui é o número 1724 de Seocho-dong. Uma encomenda que eu devia ter recebido ontem não chegou.
Disse desembaraçado o endereço da Promotoria Central de Seul. Então veio a resposta que previra.
— Ah, é mesmo? Por acaso o senhor não sabe o número da nota de remessa?
— Não. Isso eu não… A empresa remetente está de folga justo hoje. Nem atende o telefone. Seria difícil consultar pelas informações do remetente e as minhas?
— Então poderia me passar?
Desta vez também recitou as informações de remetente e destinatário que Kwon Taekjoo lhe soprara. Logo veio a resposta de “obrigada”.
— Cliente, consultando aqui, confirma-se que a encomenda ao menos chegou à região em questão. Vou lhe passar o contato do entregador responsável. Poderia entrar em contato com ele?
Depressa, anotou o número que ela lhe passou. Kwon Taekjoo dissera que aquela foto seria uma prova definitiva. Se aquilo fosse verdade, precisava entregá-la ao promotor Seok sem incidentes antes de ele ser preso. Pela natureza das entregas, não dava para ter certeza de quando exatamente chegaria nem se seria entregue direito, e isso o angustiava.
Tentou ligar para o entregador. Logo caiu o toque de chamada característico. Vagando sem destino, aguardou a resposta com ansiedade. Mas apenas se ouvia a mensagem automática de que o cliente não podia atender.
— …Vou enlouquecer. Por que não atende?
Devia ser só que ele não conseguia atender por estar ocupado com o trabalho. Casos assim eram bem frequentes. Ainda assim, o pensamento insistia em pender para o lado ruim. Como era um objeto que precisava sem falta ser entregue, não conseguia largar a preocupação de que se perdesse no caminho ou de que alguém o interceptasse no meio.
Tentou a ligação de novo. Desta vez também apenas prosseguia o longo toque de chamada. Enquanto olhava o próprio celular, checando se não surgira algum problema, por trás dele avançou a sombra de outra pessoa.
— Yun Jongwoo.
Diante do som que o chamava, virou-se para trás com inquietação. Dois homens de terno preto estavam plantados ali. Por instinto, decifrou a identidade deles. Eram agentes vindos da sede, enviados pelo chefe de divisão Im.
O celular de Yun Jongwoo cai ao chão. Dele, mais uma vez, ecoava a mensagem de que o cliente não podia atender.
Kwon Taekjoo, ao sair do motel, subiu ao terraço de um centro comercial. Ao redor, prédios de alturas semelhantes estavam grudados uns aos outros. As vias que davam para a grande avenida eram várias, mas a maioria eram becos estreitos, difíceis até de um único carro passar. Vista de cima, a própria vizinhança parecia um labirinto.
Como uma sirene não parava de soar em algum lugar, sujeitos que pareciam policiais à paisana começaram a se destacar aqui e ali. Rastreando de trás para frente o registro do celular de Yun Jongwoo, pareciam estar vasculhando minuciosamente a área da estação-base. A partir dali, precisava se tornar a própria isca e prender firmemente a atenção deles.
Sacou a Colt da cintura. Em seguida, puxou o gatilho na direção de um veículo de investigação equipado com giroflex. Graças ao silenciador, não houve estampido. Só que o projétil disparado acertou o pneu do carro e concentrou de imediato a atenção. Os detetives que estavam por perto se abaixaram bruscamente. Vasculhando os arredores, aflitos, procuravam o ponto de disparo. Logo, um deles apontou para o terraço.
— É ali!
Os detetives e policiais que estavam dispersos se aglomeraram no prédio onde Kwon Taekjoo estava. Num instante subiram a escada correndo e irromperam no terraço.
— Parado!
Cada um sacou a arma e mirou Kwon Taekjoo. Kwon Taekjoo, indiferente, arrancou do lugar e correu. Os policiais o observaram, atônitos, correr de repente para o parapeito. Fizeram advertência de disparo, mas, se puxassem o gatilho imprudentemente, ficariam com a culpa de repressão excessiva. Kwon Taekjoo, que corria veloz como se fosse até se suicidar, saltou por cima do parapeito. O corpo dele caiu de vez para baixo. Os policiais, que estavam paralisados, correram apressados ao parapeito.
Kwon Taekjoo estava aterrissado não no chão, mas no prédio bem ao lado. Como se não tivesse se ferido, levantou-se logo e fugiu. Os policiais, que olhavam estupefatos, abriram fogo em uníssono. Mas ora se disparavam balas de festim, ora nem os projéteis reais atingiam Kwon Taekjoo, cravando-se no inocente muro. Nesse meio-tempo, Kwon Taekjoo saltou mais uma vez de terraço em terraço.
— Ele está ali!
O pessoal que aguardava embaixo, ao avistá-lo, gritou. Um amontoado de policiais o perseguiu por todos os lados. As viaturas também seguiam, informando repetidas vezes sua posição pelo rádio.
Por ser uma região densa de comércios baixos e residências, ainda que Kwon Taekjoo passasse bem diante dos olhos, não dava para puxar o gatilho à toa. Isso porque, ainda que o alvo fosse um criminoso perigoso, a segurança dos cidadãos era prioridade máxima. Num momento como agora, com a atenção da imprensa concentrada e a desconfiança no poder público em alta, era preciso ter ainda mais cuidado. Fosse para se aproveitar disso, Kwon Taekjoo rondava o tempo todo apenas ao redor da área residencial.
Quando os detetives, avançando pela quantidade, foram fechando o cerco progressivamente, ele saltou de supetão para um muro de pedra de 3 m de altura. Então correu velozmente por cima do muro, cuja largura mal chegava a 15 cm. Mesmo em condições em que, a qualquer descuido, despencaria ao chão, seguia sem hesitação. Na brecha em que o pessoal que o perseguia não conseguia acompanhar com facilidade, saltou para baixo do muro e sumiu. Diziam ser um agente de campo do Serviço de Inteligência, mas era uma verdadeira chita humana.
— Alvo avistado. Deslocando-se para o oeste, deslocando-se para o oeste.
Enquanto corria ouvindo o rádio, de repente ouviu um forte ruído de motor. Diante de um detetive que olhava ao redor, um carro irrompeu. Como trafegava em alta velocidade, não houve tempo de verificar quem estava dentro. Mas, vendo as viaturas que o seguiam em fila, deu para saber que o motorista era Kwon Taekjoo.
Os detetives também subiram apressados no veículo de investigação. Como a equipe de apoio aguardava controlando a via, bastava tocá-lo para aquele lado e capturá-lo. Dali em diante era questão de tempo.
Na aconchegante área residencial, sirenes estridentes soavam sem parar. Kwon Taekjoo, atravessando aquele tumulto, dirigia o carro à vontade. Mesmo numa via estreita, por onde mal passava um carro, não reduzia a velocidade.
Quanto teria corrido? A porta lateral de certo sobrado de vários andares se abriu de repente, e um homem saiu para jogar o lixo. Ao virar a cabeça diante do movimento inquietante, ele viu o carro de Kwon Taekjoo arremetendo em sua direção e gritou.
— Uaaaaaah!
Colou o guidão bem à direita. A carroceria colou-se por completo à parede, e o retrovisor se espatifou. Graças a isso, sem causar vítima, conseguiu passar por ele a duras penas.
As viaturas que vinham atrás não conseguiram passar ao lado do homem, que caíra sentado, e pararam. Enquanto os policiais desciam do carro e levavam o homem para um lugar seguro, Kwon Taekjoo saiu tranquilamente do beco.
Descendo a ladeira, adentrou a avenida. A equipe de apoio, em espera nas imediações, o seguiu sem falta. Quando duas viaturas barraram a frente em sequência, cruzou sem hesitar a linha central e trafegou na contramão. Talvez tivessem controlado a via, pois felizmente não passava um único carro.
Por fim, acima da cabeça, ouviu-se o som das hélices. Um helicóptero militar veio no encalço do carro de Kwon Taekjoo. Via-se também o atirador de elite mirando o cano. Para uma rápida imobilização, parecia disposto a não descartar até a execução. Os veículos de investigação também investiam em sequência, atrapalhando a condução. Um deles cruzou uma via de três faixas e bateu de vez na traseira do carro de Kwon Taekjoo.
Com isso, a carroceria girou, descrevendo um grande círculo. Conforme o pneu deslizava, formou-se uma marca escura de derrapagem. Os carros que perseguiam de perto pisaram apressados no freio. Mas, pela freada brusca, a colisão entre eles próprios foi inevitável. Desenrolou-se a cena rara de umas seis ou sete viaturas colidindo em sequência. Até os veículos de investigação que vinham do lado oposto pararam junto.
Entre os carros emaranhados uns aos outros, fumaça se erguia. Não dava para distinguir em qual deles Kwon Taekjoo estava. As viaturas que chegavam uma após a outra cercaram os arredores como uma barricada, e a região virou um cemitério de automóveis.
Logo, as portas dos carros se abriram, e policiais armados saíram. Precavendo-se contra um eventual tiroteio, abrigaram-se atrás das portas deixadas abertas. Então, expondo para fora apenas os canos negros das armas, observavam com atenção o carro silencioso de Kwon Taekjoo.
Por essa hora, um sedã preto chegou à cena. Dentro estavam o chefe de divisão Im e o 1º subdiretor. Ao descer do carro, o chefe de divisão Im revelou sua identidade ao policial que tentava barrar a aproximação. Depois chamou o responsável pela cena e recebeu um megafone.
— Você está completamente cercado. Largue docilmente a arma e se renda.
Na via em que só rondava o som das sirenes, a voz do chefe de divisão Im ecoou ondulante. Mas, do lado do carro de Kwon Taekjoo, continuava sem qualquer sinal. Os transeuntes barrados na aproximação e as pessoas nos prédios das imediações esticavam o pescoço e observavam a situação. Nas mãos, todos, sem exceção, seguravam celulares.
— Advirto mais uma vez. Saia já com as duas mãos para o alto. Assim, ao menos a vida eu pouparei.
Diante da fala digna de filme, o semblante dos curiosos se exaltou. Sem saber da gravidade da situação, todos, sem exceção, estavam absortos em fotografar ou filmar. Os policiais tentaram impedir, mas não adiantou muito. O conteúdo relacionado já devia estar se espalhando aos borbotões pelas redes sociais.
Foi nesse momento. A porta do motorista do carro de Kwon Taekjoo, antes silencioso, abriu-se bruscamente. O motorista que enfim se revelou pisou no capô do veículo e subiu ao teto. Estava com uma máscara de personagem, dessas que só crianças usariam, enfiada na cabeça. Diante do desenrolar inesperado, todos tinham um olhar perplexo, mas só o chefe de divisão Im percebeu, com facilidade, que era Kwon Taekjoo.
Kwon Taekjoo, que subira ao teto do carro, ergueu lentamente os dois braços para o alto. Os detetives e policiais reunidos na cena empunharam as armas em uníssono. A cada pequeno movimento de Kwon Taekjoo, o ar se agitava.
Assim, veio mais uma vez o silêncio. Todos, prendendo a respiração, aguardavam apenas a ordem do chefe de divisão Im, que segurava o megafone. Bastava capturar Kwon Taekjoo, e tudo terminaria. E, ainda assim, o chefe de divisão Im, girando as pupilas em silêncio, procurava alguém.
Desde que Kwon Taekjoo fora exposto, não recebera nenhum relato de que alguém se movesse junto dele. Mesmo agora ele estava sozinho. Psikh Bogdanov não se via. Não estavam juntos? Sem estar mesmo em conluio com o sujeito, seria possível ser solto assim, intacto, como agora? Estava confuso. Não conseguia adivinhar a causa do incômodo que subia furtivamente pela nuca.
Diante do mau presságio, olhava sem parar ao redor quando captou uma cena inesperada. O vidro do sedã em que estava o 1º subdiretor desceu devagar, e por aquela fresta despontou o longo focinho de um fuzil. Como toda a atenção estava concentrada em Kwon Taekjoo, exceto o chefe de divisão Im, ninguém percebeu.
Kwon Taekjoo estava praticamente capturado. Já que o arroz estava pronto, o que mais ele pretendia fazer? Franzindo bruscamente o cenho, fuzilou o 1º subdiretor com o olhar. Por um átimo, no vazio, os olhares dos dois se tocaram. Balançou a cabeça, dizendo para parar. Mas o 1º subdiretor, diante da contenção obstinada do chefe de divisão Im, fitou a mira e fechou um dos olhos.
Os brotos passíveis de trazer problemas futuros devem ser eliminados com antecedência. O silêncio eterno só se garante por um único método.
— Só os mortos é que não falam.
Como Kim Younghee e Ri Cheoljin. O indicador, que estava no gatilho, dobrou-se por completo. Logo em seguida, do cano negro surgiu chama.
Na Promotoria Central de Seul, também rondava uma tensão inquietante. Isso porque o foragido, que perderam repetidas vezes mesmo mobilizando tanto poder público, estava prestes a ser capturado. As notícias relacionadas chegavam sem parar, não só pela rede de contatos entre órgãos de investigação, como também pela imprensa e pelas redes sociais. Justo por o caso a cargo da Divisão de Segurança Pública local estar envolvido, não havia como não atrair a atenção, ainda que se quisesse.
Com o promotor Seok não era diferente. Claro, capturar Kwon Taekjoo e esclarecer os crimes dele estava fora da alçada do promotor Seok. Só que precisava saber se fora mesmo ele quem envenenara Ri Cheoljin e, se sim, por que teria de fazê-lo. Kwon Taekjoo alegava que a série de casos que o cercava era uma conspiração de alguém. Mas até então não apresentara prova a respeito. Talvez o fato de ter procurado o próprio promotor Seok também tivesse sido uma encenação para confundir a investigação.
— Promotor?
Enquanto estava mergulhado em pensamentos, o assistente Kim se aproximou e chamou-lhe a atenção. Despertou de sobressalto.
— Sim, o que houve?
— Chegou uma encomenda endereçada ao senhor.
Estendeu um envelope de entrega prateado. Ao verificar a nota, era de fato para ele. No campo do remetente estava impresso, solitário, o nome comercial “Estúdio Fotográfico Garam”.
Nunca recebera correspondência de uso pessoal na promotoria. Logo, aquela encomenda também fora enviada unilateralmente por alguém. Em geral, pedidos, subornos de bajulação, denúncias anônimas, cartas de ameaça e afins costumavam ser entregues desse modo, mas, por vezes, era também uma pista enviada por um informante anônimo.
O assistente Kim soprou “parece que são fotos”. No fundo, parecia curioso quanto ao conteúdo. Fosse pelo momento oportuno, associou-se por si só a Kwon Taekjoo. Negando com um “não pode ser”, abriu o envelope.
Dentro havia centenas de fotos. Ao tentar puxá-las sem pensar, parte delas se derramou no chão. O assistente Kim, com um “opa”, apanhou-as depressa. Então soltou uma exclamação baixa, “ah”. O promotor Seok também congelou ao ver a foto na mão. Na maioria das fotos estava registrada a imagem de Ri Cheoljin.
O que o surpreendeu, mais que isso, foi por causa da pessoa que estava junto dele. Era uma impressão que parecia, de algum modo, familiar, e ao mesmo tempo não. O assistente Kim parecia sentir o mesmo déjà-vu que o promotor Seok. Inclinando a cabeça sem parar, dizia “onde foi que eu vi”.
— Este homem, o senhor não sabe quem é?
— Sei lá. Parece que já vi em algum lugar…
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna