↫─☫ Capítulo 07
↫─☫ Esconde-esconde – 07
— Hã? O que é isso.
Yoon Jongwoo franziu o cenho ao tentar entrar no jogo. Digitou o login e a senha e, ao apertar o botão de conectar, apareceu uma mensagem de erro dizendo que já havia uma conexão ativa. Fechou a janela ativa e tentou de novo, mas o resultado foi o mesmo. Se não fosse um erro no servidor, alguém provavelmente havia roubado sua conta.
Já fazia um bom tempo que havia sinais disso. Toda vez que entrava, a experiência acumulada estava sutilmente diferente, e apareciam itens no inventário que ele não possuía antes. Achava que talvez houvesse algum evento que ele desconhecia e deixava passar, mas hoje parecia ter finalmente flagrado o culpado.
Ousar hackear um funcionário do Serviço Nacional de Inteligência. Fosse quem fosse aquele desgraçado, tinha uma audácia e tanto.
— Você, seu desgraçado, se ferrou.
Digitou outra conta para entrar no jogo. Era uma conta que havia criado só para participar de um sorteio e depois abandonado. Por isso, não tinha nada além dos itens básicos.
Procurou sua conta original na busca de usuários. A localização do ladrão apareceu na hora. Entrou naquele servidor. O ladrão estava se preparando para uma partida prestes a começar ali. Tentou falar com ele, mas outros usuários o pressionaram para completar logo a preparação. Sem alternativa, apertou o botão de entrar na batalha.
Logo o jogo começou. Um cenário vívido, digno de um campo de batalha real, preencheu a tela. No fone de ouvido, o som dos disparos ecoava de forma exageradamente realista. Naquele ambiente onde todos estavam obcecados em se matar uns aos outros, Yoon Jongwoo só perseguia o ladrão. Ele estava jogando descaradamente absorto no jogo. Selecionava e atirava com precisão apenas nos jogadores de alto nível, obcecados em massacrar civis. Era uma precisão surpreendente, cem por cento certeira.
— Aaaargh! Eu estava guardando esse item de propósito!
Yoon Jongwoo, que ficava de olho nele o tempo todo, gritou de indignação. O item que o outro acabara de usar sem hesitar era raríssimo, difícil de conseguir mesmo pagando dinheiro real. Aquele tesouro, jamais equipado, guardado com todo cuidado, o desgraçado estava desperdiçando descaradamente. Não podia mais tolerar aquilo.
Yoon Jongwoo, com uma expressão bastante determinada, solicitou uma partida 1 contra 1. Esquecendo até que a conta usada pelo adversário era a sua própria, reforçou a determinação de dar uma boa surra nele.
Logo o ladrão respondeu.
>> Para de ficar de bico e vai brincar lá longe, novato.
Ficou tão indignado que soltou um suspiro exasperado. Solicitou o duelo de novo. Foi recusado. Solicitou de novo. Recusado outra vez, na hora.
— …esse filho da mãe.
Insistiu persistentemente até que ele aceitasse. Talvez por engano, o ladrão de repente aceitou o duelo. Ficou até meio atordoado com a mudança repentina.
Assim que o duelo começou, avançou impetuosamente. Mas havia algo que Yoon Jongwoo tinha esquecido. A conta na qual havia investido tanto tempo, acumulando experiência mesmo sem tempo sobrando, não era mais dele. Ele agora era apenas um jogador fraco, de nível baixo e sem equipamento.
Utilizou habilidades sofisticadas, desferindo todo tipo de ataque, mas não conseguiu causar sequer um arranhão no ladrão. Em contrapartida, bastava um roçar de bala dele para que sua barra de vida despencasse drasticamente. Chegou a se levantar meio de pé, socando teclado e mouse com fúria.
— Aaaaaaargh! Morre, morre, morreeee!
O adversário havia equipado uma armadura especial. Com ela, ataques comuns não causavam dano algum. O problema era que toda a força de fogo de Yoon Jongwoo se enquadrava justamente nessa categoria de “ataque comum”. Mesmo mirando com precisão e puxando o gatilho, não deixava sequer um arranhão fino no adversário. Ao sair decidido do abrigo, só conseguia desgastar sua própria vida.
Numa situação sem saída, o ladrão desferiu o golpe decisivo. A visão se inverteu ao levar um tiro na cabeça.
— Não, não, nãooo…!
Gritou desesperado, agarrando o monitor, mas o jogo já havia terminado. Droga. Praguejando, pesquisou de novo a conta que o ladrão havia roubado. Mas ele já havia se desconectado. Sem poder gritar no meio da noite, apenas puxou os próprios cabelos com raiva, dando chutes no ar em vão.
Foi só bem mais tarde que Yoon Jongwoo notou uma mensagem não lida. O remetente era justamente aquele ladrão de pouco antes. Verificou o conteúdo na hora. Ali, sem nenhuma explicação adicional, estavam escritos um local e um horário. Ele era a vítima ali, e o outro estava propondo um encontro pessoal, tipo um confronto direto? Era um absurdo.
O horário marcado era em trinta minutos, e o local era uma lan house em Incheon. Gentilmente, o outro até havia deixado anotado o número do assento. Se corresse agora mesmo, conseguiria chegar a tempo. Yoon Jongwoo, ainda bufando, pegou um casaco e saiu de casa.
A iluminação da lan house indicada era bastante fraca. Parecia ser proposital, para aumentar a concentração. Devido ao horário, muitos assentos estavam vazios. O funcionário de meio período no balcão cochilava e nem percebeu a chegada de Yoon Jongwoo.
Semicerrando os olhos, atravessou o ambiente escuro com passos decididos. Havia corrido quase trinta minutos, ardendo de combatividade, mas, ao chegar de fato, o coração começou a bater descontroladamente. Depois de respirar fundo uma vez, foi até o assento número 59, indicado pelo ladrão. Ao passar pelas fileiras dos números 30 e 40, entrando na fileira dos 50, o coração batia tão forte que parecia prestes a saltar pela boca. Deu passos cuidadosos e finalmente chegou ao assento 59.
— …o quê.
O rosto, até então corado de excitação, se encheu de decepção. O assento número 59 estava completamente vazio. Aquele maldito ladrão tinha chamado alguém até ali só para dar o cano. Talvez estivesse rindo escondido em algum canto do estabelecimento. Olhou bruscamente ao redor. Ninguém cruzou o olhar com ele. Nenhuma pessoa se destacava especialmente. Não bastava ter sido humilhado de forma catastrófica no jogo, agora tinha sido enganado de verdade pelo cara.
— Aaargh, esse desgraçado…!
Cerrou o punho, indignado. Sem poder gritar de raiva, apertou os dentes e se contorceu. Diante daquele alvoroço silencioso, outros usuários lançaram olhares de desaprovação.
Assim, chamando a atenção de todos, tentando conter a raiva, mexeu sem querer no monitor. Com isso, o modo de economia de energia foi desativado, e a tela acendeu. O que o intrigou foi um texto que preenchia toda a tela, com uma fonte de pelo menos 200 pontos.
Senta.
Que tipo de brincadeira era essa? Muito incomodado, Yoon Jongwoo, mesmo assim, sentou-se em silêncio no lugar. Fingindo tranquilidade com esforço, olhou repetidamente ao redor. Suspeitava que aquilo fosse mais uma peça do ladrão, mas também estava curioso sobre o que ele pretendia fazer.
Mas, mesmo depois de esperar por um bom tempo, ele não apareceu. Os outros usuários só se concentravam em seus próprios jogos. Será que tinha sido enganado de novo? Uma raiva ardente subiu por dentro.
Precisava deixar bem claro quem exatamente ele havia mexido. Iria encontrá-lo por qualquer meio necessário. Rangendo os dentes, se levantou de um salto.
Nesse momento, alguém falou de repente.
— Um adulto feito querendo confronto pessoal por causa de jogo, hein.
— …?
Estranhamente, aquela voz soava familiar. Assustou-se e olhou para o assento ao lado. Logo, o outro também recuou lentamente para fora da divisória. Os olhos de Yoon Jongwoo se arregalaram.
— Sênior!
— Fala baixo, desgraçado.
Kwon Taekjoo tapou apressadamente a boca de Yoon Jongwoo. Depois, examinou minuciosamente os arredores. Yoon Jongwoo também, meio sem entender, ficou alerta ao redor. Só depois de confirmar que estava seguro é que o soltou.
— O que aconteceu? Achei que estava morto!
— Não era isso que você estava esperando, por acaso?
— Que tipo de coisa é essa para dizer. Eu fiquei preocupado com o senhor dia e noite…
— Ocupado jogando, provavelmente.
— Sim. Joguei dia e noite… não, não é isso, de verdade!
Yoon Jongwoo, arrastado sem perceber, corrigiu apressadamente o que dissera. O rosto ficou quase choroso. Kwon Taekjoo deu um sorriso zombeteiro, fez um gesto com a cabeça para que o seguisse e se levantou primeiro.
Descendo a escada estreita e íngreme, Yoon Jongwoo perguntou:
— Ah, e aquele ladrão de agora pouco, era o senhor?
— ID cherryboy, senha pure1004@@. Já não é hora de trocar isso?
Admitiu sem hesitação. Tinha roubado descaradamente a conta alheia e ainda por cima agia com total sem-vergonhice. Yoon Jongwoo encarou com ressentimento a nuca de Kwon Taekjoo, que ia à frente. Por dentro, repetia várias vezes “se não fosse meu sênior, eu ia…”
— Se não fosse meu sênior, eu ia…
— …hein?
Será que tinha resmungado em voz alta sem perceber, o que estava pensando sozinho? Yoon Jongwoo se assustou e cobriu a própria boca.
— Não sabia? Eu também sei ler mentes.
Yoon Jongwoo perguntou, ingenuamente, “é sério?”. Kwon Taekjoo apenas riu debochado, sem responder. Estava claro que tinha sido enganado de novo. Por que ele, Yoon Jongwoo, tinha ido parar com um sênior como Kwon Taekjoo? Por que tinha que ser justamente ele? Hoje também protestava em vão contra a deusa do destino.
Sob a luz do poste, a aparência de Kwon Taekjoo estava péssima. Onde quer que se olhasse, havia faixas ou curativos. O porte físico continuava o mesmo, mas os traços do rosto estavam mais afiados, como se ele tivesse perdido pelo menos cinco quilos. Talvez por não ter dormido direito, também havia olheiras fundas. Estava tão lastimável que já nem dava vontade de continuar ressentido com ele.
Yoon Jongwoo não tinha como saber onde Kwon Taekjoo tinha estado ou o que tinha feito durante todo aquele tempo. Isso porque, quanto às missões designadas, era preciso manter sigilo até mesmo diante dos colegas do próprio Serviço Nacional de Inteligência. Durante operações, era mais comum ficar sem contato algum, então achava normal ele ter ficado meses sem dar sinal de vida. Achava que ele saberia se virar muito bem sozinho e que, ao concluir a missão em segurança, apareceria de repente como se tivesse acabado de vê-lo ontem, propondo comer alguma coisa juntos.
Nunca tinha se preocupado de verdade com a segurança de Kwon Taekjoo. Mas dessa vez foi um pouco diferente. Desde que Kwon Taekjoo tinha ligado da Rússia, ficara inquieto. Naquela época, o tal “Yegveni Visarionovich Bogdanov” com quem ele dizia estar acompanhado era uma pessoa sobre a qual não havia informações oficiais disponíveis. Isso, por si só, já não era um bom sinal, e quanto mais investigava, mais perigoso o homem parecia. Tentou repassar essa informação a Kwon Taekjoo, mas, como o contato foi cortado, não conseguiu. Ele também não voltou a ligar depois disso. Bastante inquieto, relatou ao chefe Im, mas ouviu de volta que Kwon Taekjoo estava bem, e que não precisava se preocupar. Depois disso, achou que estava sendo excessivamente cauteloso e deixou o assunto de lado.
Mas, ao reencontrá-lo depois de tanto tempo, Kwon Taekjoo não parecia nada bem.
— Trouxe o carro?
— Sim, ali.
Abriu a porta do carro discretamente. Os dois entraram, um no banco do motorista e outro no do passageiro.
— Para onde vamos?
— Conversamos aqui mesmo.
Kwon Taekjoo desligou a ignição que Yoon Jongwoo tinha acabado de dar e tirou o cartão de memória do caixa preta. Também apagou as informações de localização registradas no GPS. Sem luz dos faróis nem luz interna, o interior do carro ficou completamente escuro. Do lado de fora, ninguém sequer perceberia que havia pessoas ali dentro.
Só depois de apagar minuciosamente todo o próprio rastro, ele abriu a boca.
— O chefe não disse nada? Sobre mim.
— Aliás, da última vez que falei com o senhor no telefone, a ligação simplesmente caiu, não foi? Depois disso, ficou sem contato nenhum. Aquele cara com quem o senhor estava andando junto também deixou tudo estranho, então relatei tudo ao chefe. Ele me disse que o senhor estava bem e que eu deveria parar de me meter. Que era abuso de autoridade da minha parte.
— Bem… não morri, então não é exatamente mentira. E aí, como está o clima no departamento ultimamente?
— Ah, nem me fale. Ultimamente não tem nem tempo de respirar. Fiquei três noites seguidas até ontem trabalhando até tarde. Sabe aquele boato de que ia rolar uma grande reorganização de pessoal? Que a Casa Azul ia nomear um dos vice-diretores atuais para o próximo diretor do Serviço Nacional de Inteligência.
Esse tipo de boato realmente circulava com frequência. Surgiu quando o atual diretor manifestou intenção de renunciar por motivos pessoais. O diretor do Serviço Nacional de Inteligência é nomeado pelo presidente, e geralmente é ocupado por alguém de fora da instituição. É o cargo de maior comando, mas, para evitar concentração excessiva de poder, tem principalmente um caráter simbólico. Isso também não era alheio ao fato de que, entregando o cargo a alguém próximo à Casa Azul, seria mais fácil de controlar.
Por isso, um dos vice-diretores assumir o cargo de diretor seria uma medida extremamente incomum. Se o boato fosse verdade, só os funcionários de baixo escalão sofreriam mais. Cada departamento se esforçaria ao máximo para acumular mais um resultado a mais.
O desabafo seguinte de Yoon Jongwoo era prova disso.
— O chefe também ficou super tenso e está nos tratando feito escravos, sabia? Este mês eu queria tirar umas férias longas, mas já ficaria feliz se pudesse simplesmente ir para casa todo santo dia. Nem consigo falar que vou embora do trabalho, de tão pressionado que me sinto.
— Fora isso, mais alguma coisa?
— Deixa eu ver. Ah, tem uma coisa. Fui transferido recentemente para a equipe de suporte de informações.
Kwon Taekjoo, que até então olhava fixamente para frente, finalmente virou a cabeça para Yoon Jongwoo. Diante do “por quê”, ele deu de ombros, como se fosse algo sem importância.
— Sabe que eu não tenho muita afinidade com a equipe de investigação, né? Nem foi para lá que me candidatei desde o início. Quando entrei, o chefe até prometeu que, assim que a equipe de investigação tivesse reforço, ele me transferiria para a equipe de suporte. Ele só cumpriu a promessa agora, só isso. Não tem nada de ruim nisso. Como esperado, o trabalho na equipe de suporte é uma corrida contra o tempo, mas não tem perigo como em campo. E o seguro de vida de cento e dez mil wones por mês, não preciso mais pagar, então isso também é vantagem. É tudo bom, mas…
— Mas, o quê.
Não deixou escapar a frase de Yoon Jongwoo, que ficou vaga no ar. Yoon Jongwoo calou-se por um instante. Parecia hesitar se devia dizer algo ou não. Enquanto esperava em silêncio, ele logo continuou.
— É que fiquei meio incomodado, sabe. Nossa equipe ainda não recebeu reforço. Não ouvi dizer que outro funcionário tenha sido transferido de time além de mim, naquela época. Também não cometi nenhum erro grave no trabalho, nem tive um resultado excepcional. Não faz sentido ser transferido de repente para a equipe de suporte, nem como punição, nem como recompensa. Chegar atrasado umas poucas vezes vira motivo para transferência de pessoal?
Pelo jeito que reclamava, parecia que nem tinha recebido uma explicação clara. Geralmente, esse tipo de decisão de pessoal tem grande probabilidade de ser conforme a necessidade dos superiores.
— Qual foi a última missão que você teve na equipe de investigação? Aquela de eliminar a gangue de Kim Younghee em Busan?
— Isso é sigiloso, não posso revelar.
— Que folga você tem. Mesmo depois de ser demitido, vai continuar assim?
— …é, foi aquela mesmo.
Ao ouvir a resposta, ficou absorto em pensamentos. Repensando bem, tudo tinha começado exatamente naquela época. Logo depois de capturar a gangue de Kim Younghee em Busan, foi convocado pelo chefe Im, e pouco depois partiu para a Rússia. Foi também depois disso que Yoon Jongwoo, seu parceiro naquela missão, foi subitamente realocado para outra equipe. Definitivamente havia algo estranho. Existiria mesmo um caso em que a transferência de um subordinado não fosse informada ao sênior responsável?
“A rigor, você não é o candidato adequado para esta operação.”
“Desde o início, você agindo tão desajeitado assim, como posso ficar tranquilo aqui de tão longe? É igual a uma criança deixada perto da água. Por isso, arranjei alguém para te ajudar.”
Repensando bem, havia muitos pontos estranhos. Normalmente, um parceiro é designado antes de ser enviado a uma operação. A ideia de que ele mesmo preferia trabalhar sozinho, e que, sabendo que seria recusado, tinham adiado para depois, não era uma desculpa adequada. Mesmo concedendo que houvesse algum motivo válido para isso, o envio errado das fotos de Salman e Zhenya não era um erro no nível de um simples engano.
“Aliás, parece que você também é mal-visto por lá? Numa instituição chamada, veja bem, Serviço Nacional de Inteligência, enviarem minha foto por engano… isso não faz sentido nenhum.”
“Eu tinha mais uma missão.”
“Foi uma ordem vinda do lado coreano. O que exatamente você aprontou lá na sua pátria? O que você fez para quase ser executado aqui?”
As palavras que Zhenya e Salman haviam deixado escapar voltaram à mente. Chegando a esse ponto, não parecia ser simplesmente uma situação que tinha se complicado por acaso. Definitivamente, era necessário investigar a fundo.
— Os que foram capturados em Busan, o que aconteceu com eles?
— Ah, o senhor talvez não saiba disso. Foi um pouco de escândalo na época. Como foi uma operação de eliminação num navio de passageiros, com um monte de reféns e testemunhas, não dava para simplesmente abafar. Talvez pensando em quem seria responsabilizado depois, mudaram o anúncio de “captura de agentes secretos” para “a guarda costeira eliminou uma quadrilha armada de contrabando de drogas”.
Era algo comum. Civis, mesmo nos dias de hoje, não sabem que agentes infiltrados do Norte ainda existem. E o governo prefere, sempre que possível, evitar qualquer tipo de agitação social.
— E sobre Kim Younghee, parece que ela tomou veneno pouco antes da captura.
— …tomou veneno?
O cenho de Kwon Taekjoo se franziu. Yoon Jongwoo, balançando a cabeça, disse que quando a polícia chegou, ela já estava morta.
Kim Younghee também havia tentado se autolesionar quando foi capturada por Kwon Taekjoo. Mas logo em seguida, tiveram sua mão esquerda algemada e presa ao corrimão, e a mão direita ficou totalmente destroçada por um tiro. Até um lenço tinha sido colocado dentro da boca dela, para impedir que mordesse a própria língua. Então como diabos ela teria conseguido se automutilar?
— Me conta mais detalhes. Como isso aconteceu?
— Eu também não sei bem. Logo depois disso, minha equipe foi trocada. Como o senhor não estava lá, parece que foi o próprio chefe quem escreveu o relatório de captura.
Sem desconfiar, nenhuma dúvida surge. Se quisesse entender de alguma forma, seria possível encontrar explicações. Mas, uma vez que a suspeita se instalou, tudo aquilo passou a parecer suspeito. Sabia que a situação estava se desenrolando de forma bastante artificial, mas não conseguia identificar a causa. Sentia que estava deixando escapar alguma pista importante.
Parecia necessário voltar ao início e reconstruir tudo, com calma, mais uma vez. Para isso, precisaria de tempo. Também seria necessário manter em sigilo, por enquanto, o fato de ter voltado à Coreia. Firmando a decisão, chamou de repente, com carinho:
— Jongwoo.
— Sim, o que foi…?
— Você não pode contar a ninguém que me encontrou, tá?
— Por que não posso?
— Porque provavelmente vou receber uma ordem de captura. Se descobrirem que você me encontrou hoje, você pode ser tratado como cúmplice.
— O quê? O que exatamente o senhor fez!
Yoon Jongwoo gritou, chocado. Os olhos arregalados pareciam prestes a saltar das órbitas. Deu um leve peteleco na testa dele. Yoon Jongwoo gemeu de dor, esfregando o local atingido.
— Se eu tivesse feito alguma coisa, você acha que eu estaria aqui parado assim? Já teria fugido há muito tempo.
— …verdade? Um criminoso não apareceria descaradamente na frente de um agente do Serviço Nacional de Inteligência mesmo. Que audácia.
Murmurou consigo mesmo e logo se convenceu. Kwon Taekjoo virou a cabeça e riu de leve. Yoon Jongwoo percebeu na hora o significado daquele sorriso e, corando, pediu para ele não zombar. É, vendo que ele era tão viciado em jogo de tiro, pelo menos no coração devia ser o melhor agente em campo.
Nesse momento, o celular de Yoon Jongwoo tocou. Ele disse “espera aí um pouco” e verificou a mensagem recém-chegada. Logo, a janela do lado de fora começou a clarear com o amanhecer. Não havia transeuntes, mas não relaxou a vigilância.
— Que spam infernal.
Yoon Jongwoo colocou o celular no bolso rapidamente. Tentou fingir tranquilidade com esforço, mas o tom da voz parecia um pouco rígido. Analisou-o apenas com os olhos, sem mover a cabeça. Ele mexia nervosamente na arma presa à cintura. Voltando o olhar para a janela, avisou com calma:
— Não faz nenhuma besteira. Não quero ter que nocautear você também.
— Não, não sei do que o senhor está falando.
— Nã, não sabe? Desgraçado, pelo menos disfarça melhor.
Diante da provocação zombeteira, Yoon Jongwoo soltou um suspiro profundo. Os ombros, antes tensos, também relaxaram.
— Como o senhor disse, acabou de sair uma ordem de captura interna. Assim que eu tiver contato com o senhor, devo relatar imediatamente aos superiores.
— Qual é a acusação?
— Suspeita de conluio com um agente da inteligência russa, ao que parece. Está falando daquele cara, não é? Yegveni Visarionovich Bogdanov.
Escapou uma risada amarga. Era absurdo demais. Todo o envolvimento com Zhenya tinha sido culpa exclusiva da sede. Contra a própria vontade, teve que aguentar aquele homem por todo tipo de perigo, e, mal conseguindo voltar vivo, agora estavam tentando incriminá-lo assim. Claro, gostando ou não, era fato que tinha se relacionado com ele, e também era fato que o tinha acompanhado a reuniões que só reuniam figuras importantes da Rússia; só essas circunstâncias já seriam suficientes para o acusarem de vazamento de segredos de Estado com relativa facilidade. Também tinha se passado pelo chefe Im diante de Sergei. O próprio Yoon Jongwoo não sabia qual missão exatamente Kwon Taekjoo tinha ido cumprir lá, e tampouco havia outro meio de comprovar. Todas as evidências relacionadas àquilo tinham sido destruídas quando Zhenya explodiu o hotel. O mesmo valia para o caso das fotos de Zhenya enviadas por engano. Se a sede negasse tudo, ele acabaria carregando sozinho todas as acusações.
Alguém estava montando um esquema. Ele, Kwon Taekjoo, era apenas uma peça sendo manipulada dentro dele. Desde quando esse esquema tinha sido armado? Depois que ele mesmo partiu para a Rússia? Ou depois de capturarem a gangue de Kim Younghee em Busan? Talvez até a própria eliminação daquela gangue já fizesse parte do roteiro.
O que era certo era que a operação realizada na Rússia tinha dois alvos: “Anastasia” e ele mesmo, Kwon Taekjoo.
— Mas o que diabos está acontecendo? Falam em suspeita de conluio, mas, se as coisas piorarem, pode virar até acusação de vazamento de segredos de Estado. Não faz sentido nenhum… Não tem como o senhor ter conspirado com aquele russo. Se fosse esse o caso, o senhor não teria me ligado pedindo para investigar quem era ele. Isso praticamente comprova, na cara dura, que estava em contato com ele, não é? E também, sabendo perfeitamente que ia sair uma ordem de captura contra ele, não teria voltado…
Yoon Jongwoo já estava quase chorando. Havia sinais claros de ansiedade nos olhos que tremiam. Como funcionário do Serviço Nacional de Inteligência, deveria naturalmente seguir as ordens da sede, mas, ao surgir dúvida sobre essa ordem, parecia estar em confusão.
Sem alternativa, contou resumidamente o que havia acontecido na Rússia. Ouvindo atentamente, Yoon Jongwoo inclinou a cabeça, intrigado com o fato de a sede ter simplesmente deixado a situação chegar a esse ponto sem fazer nada. Normalmente, quando a identidade de um agente é descoberta durante uma operação, o Serviço Nacional de Inteligência corta o suporte para o agente em questão, visando à proteção nacional. Mesmo assim, dentro da sede, costuma-se, no mínimo, elaborar alguma estratégia de resposta.
Mas Yoon Jongwoo até então não tinha percebido esse tipo de ambiente. A ele, que estava preocupado com a segurança de Kwon Taekjoo, o chefe Im tinha, ao contrário, dito para ficar tranquilo. Havia algo, com certeza, muito estranho ali.
— O senhor, o que acha disso tudo?
— Também não sei ao certo. Vou descobrir a partir de agora.
— Ainda não há provas concretas, tudo bem assim? É um risco grande demais agir apenas com suspeitas. Se, como suposto, alguém dentro da sede armou tudo isso, dificilmente vai deixar o senhor circular livremente por aí. Se transformarem isso não apenas em suspeita de conluio, mas em vazamento de segredos de Estado, vão até envolver a promotoria. Se o senhor for pego nessa hora, está tudo acabado.
— De um jeito ou de outro, vou acabar sendo pego mesmo. Já que alguém está tentando me esmagar sem parar, pelo menos vou resistir até o fim. Primeiro, vou investigar Kim Younghee de novo. Por mais que eu pense, sinto que deixei passar alguma coisa naquele caso.
— Mas já é um caso encerrado, será que ainda tem algo a investigar?
— Talvez. Talvez estivéssemos tão focados na árvore Kim Younghee que não víamos a floresta. Pode ser que ela tenha sido usada como isca para desviar nossa atenção. Pensando bem, ela foi capturada com facilidade demais na época.
— Realmente, a situação foi bem parecida com a de agora. Tínhamos fortes suspeitas, mas nenhuma prova concreta. E, justo naquele momento, Kim Younghee entrou em contato com Ri Cheoljin.
Coisas que se resolvem fácil demais merecem desconfiança logo de cara. Naquela época, focado em capturá-la em flagrante, não sobrou tempo para pensar assim. O plano era capturar primeiro e investigar mais a fundo depois, mas essa oportunidade também nunca surgiu. Isso porque ele mesmo, Kwon Taekjoo, foi enviado à Rússia, e Yoon Jongwoo foi realocado para outra equipe.
— Como você disse, não vai ser fácil por causa da ordem de captura. Se as coisas derem errado, vou ser demitido com certeza, e ainda por cima acabar carregando toda sorte de acusações e indo parar na cadeia. Mas não posso simplesmente ser usado e depois descartado.
Os agentes costumavam comparar sua própria situação à de um cão de caça. Isso porque, embora se dediquem de corpo e alma à nação, quando estão em crise, são abandonados sem qualquer piedade. Sabia que não havia jeito. Desde o momento em que se tornou agente, já tinha se resignado com isso. Mas não podia ser sacrificado apenas pela conveniência de alguém, sem que fosse realmente inevitável.
Yoon Jongwoo, gemendo, bateu a cabeça no volante, sem culpa alguma. Devorando toda sorte de filmes de super-heróis, ação e jogos de tiro, sempre imaginava a si mesmo como o protagonista dessas histórias. Candidatar-se ao Serviço Nacional de Inteligência também fazia parte desse desejo. Mas, agora que uma situação digna de filme realmente estava acontecendo, não sabia mais o que fazer.
A ordem de captura contra Kwon Taekjoo já tinha saído. Ajudá-lo, nem que fosse em algo pequeno, poderia render acusação de cumplicidade. Se a sorte fosse ainda pior, seria facilmente enquadrado como coautor.
Quem trabalha em cargos públicos, mais cedo ou tarde, passa por um momento de agonia entre revelar a verdade e permanecer em silêncio. Sendo humano, era inevitável hesitar.
Pensando apenas em sua própria situação, o correto seria seguir a ordem da sede. Não havia motivo para se colocar em risco por uma lealdade ou camaradagem sem sentido. Bastaria seguir o princípio de “viver longe dos holofotes, mas por muito tempo”. Era um mundo em que já era difícil o suficiente cuidar da própria vida. De qualquer forma, ninguém mais se responsabilizaria pela vida dele.
Yoon Jongwoo, repetindo essa racionalização várias vezes, finalmente conseguiu abrir a boca.
— O que exatamente eu preciso fazer?
Traindo a razão que buscava sua própria segurança, sua consciência perguntou.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna