↫─☫ Capítulo 07.2
↫─☫ Esconde-esconde – 07.2
Na sala do promotor Seok Jaehui, da 1ª Divisão de Segurança Pública da Promotoria Central de Seul, os preparativos para a audiência estavam a todo vapor. Aproximava-se a 5ª sessão do julgamento em primeira instância de Kim Younghee — que permanecera cerca de dez anos nos Estados Unidos, lavando sua nacionalidade antes de entrar na Coreia para conduzir atividades de espionagem — e de seu contato, Ri Cheoljin. Como Kim Younghee, figura central do caso, morrera durante a prisão, o julgamento dava sinais de que terminaria mais cedo do que o previsto.
Justamente por isso, era hora de definir a pena a ser requerida contra Ri Cheoljin. O promotor Seok, folheando incessantemente a pilha de documentos sobre a mesa, mergulhava em preocupação. A pena requerida pelo promotor exerce enorme influência também sobre a sentença. Esclarecer os crimes com absoluta clareza, de modo que nenhuma das partes sofra injustiça, e aplicar castigo à altura do crime cometido. Era um princípio simples, mas segui-lo não era nada fácil.
Estava conferindo precedentes anteriores quando ouviu uma batida na porta, e o assistente Kim entrou.
— Aqui estão os documentos que o senhor pediu.
Entregando os casos internacionais solicitados, perguntou se ele já tinha ficado sabendo. Só então Seok ergueu os olhos e fitou o assistente Kim, que se aproximou um pouco mais e sussurrou.
— Encontrei o assistente Park, da 2ª Divisão de Segurança Pública, no caminho. Sabe aquele agente do Serviço Nacional de Inteligência que investigou o caso conosco da última vez? Parece que baixaram um mandado de captura contra ele.
— E qual é a acusação?
— Pelo que parece, esteve em conluio com um agente da inteligência russa. Não seria crime de vazamento de segredos de Estado?
O promotor Seok também se lembrava de Kwon Taekjoo. Haviam cooperado por três ou quatro meses por conta da investigação sobre o grupo de Kim Younghee. Como se encontraram pessoalmente pouquíssimas vezes, não havia qualquer intimidade, nem base para avaliar a índole, o patriotismo ou a integridade do homem chamado “Kwon Taekjoo”. Ainda assim, não fazia sentido. Ter capturado o grupo de Kim Younghee com as próprias mãos e, agora, estar sendo caçado ele mesmo por suspeita de vazar segredos de Estado.
— Conte-me com mais detalhes.
— Também não é que eu tenha ouvido direito… Parece que, logo depois de prender o grupo de Kim Younghee em Busan, ele partiu imediatamente para a Rússia. Solicitou férias ao Serviço de Inteligência alegando ser aniversário da mãe, e disfarçou completamente até a identidade. Se baixaram um mandado, é porque devem ter provas concretas do conluio, não é?
Pensando bem, desde que o caso fora encerrado, não encontrara Kwon Taekjoo nenhuma vez. Todos os documentos necessários foram recebidos diretamente do Serviço de Inteligência.
Em casos de segurança pública, os envolvidos costumam ser figuras inesperadas. Kwon Taekjoo não era exceção. Só que o que mais o intrigava e lhe parecia suspeito era saber que segredo de Estado ele havia vendido com tamanha pressa.
Ouviu-se novamente uma batida na porta. Como não tinha nenhum compromisso marcado, olhou para o assistente Kim com estranheza. Ele também deu de ombros, como quem não sabia de quem se tratava.
— Pois não.
Concedida a permissão para entrar, a porta se abriu. O rosto que surgiu dizendo “bom dia” era bastante familiar. Talvez fosse por estarem justamente falando de Kwon Taekjoo. Era Yun Jongwoo, o subordinado que Kwon Taekjoo com frequência trazia consigo.
— Ah, sim. Bom dia. Mas o que o traz aqui…?
— Sei que o senhor está ocupado com os preparativos da audiência, mas tenho uma pergunta a fazer e tomei a liberdade de vir.
— É mesmo? Então entre, por favor.
Mesmo sendo prontamente convidado a entrar, Yun Jongwoo continuava hesitante do lado de fora da porta. Com expressão constrangida, lançava olhares de esguelha ao assistente Kim, como se quisesse conversar em particular.
O promotor Seok levantou-se de imediato e vestiu o paletó. Ainda havia uma montanha de trabalho a resolver, mas mandar embora alguém que se dera ao trabalho de vir não lhe pareceu adequado.
— Volto em trinta minutos.
Após avisar o assistente Kim, saiu da sala junto com Yun Jongwoo.
Os dois entraram num café próximo à promotoria. Por ser fim de manhã, quase não havia ninguém. Ainda assim, Yun Jongwoo fez questão de ir até uma mesa mais ao fundo. A postura dele, sempre atento aos arredores, tornou ainda mais intrigante o motivo da visita. Assim que pegaram as bebidas, Seok perguntou primeiro.
— Agora pode falar. O que aconteceu?
— Ouvi dizer que Kim Younghee se suicidou.
Diante das primeiras palavras de Yun Jongwoo, ele inclinou a cabeça, intrigado. Kim Younghee morrera havia mais de três meses. Sendo Yun Jongwoo o responsável pela investigação, era impossível que não soubesse disso. Então, por que trazia à tona um assunto tão ultrapassado? Estranhou, mas assentiu de bom grado.
— Sim. Como o senhor sabe, ela morreu durante a prisão. Quando a Guarda Costeira chegou ao ferry, ela já havia expirado, pelo que dizem.
— Qual foi a base para concluir que a morte de Kim Younghee foi suicídio?
— Pela autópsia, concluiu-se que Kim Younghee aplicou força física ao molar esquerdo momentos antes de morrer. Nesse molar, detectou-se cianeto. Parece que revestiram o dente com cianeto contido numa substância especial que se quebra ao receber certa pressão. Uma precaução para o caso de a missão fracassar.
— E o lenço?
— Lenço?
— É que o sênior Kwon disse ter enfiado um lenço na boca de Kim Younghee justamente para impedir esse tipo de autolesão. A mão direita, atingida por um tiro, estava praticamente inutilizada, e o braço esquerdo fora torcido para trás e amarrado à grade, então teria sido difícil para ela remover o lenço da boca por conta própria. E, com a boca cheia, ela também não conseguiria morder o molar.
— Não recebi nenhum relatório de que um lenço tenha sido encontrado no local.
O rosto de Yun Jongwoo se enrijeceu. A expressão do promotor Seok também ficou séria. Se, como dizia Yun Jongwoo, Kim Younghee estava impossibilitada de se mover voluntariamente e ainda com uma mordaça na boca; e se ela ainda estava viva enquanto Kwon Taekjoo permanecia no ferry — então quando e como teria tentado o suicídio? Era uma informação que não se podia confirmar nas imagens de CCTV obtidas.
Havia uma única possibilidade a considerar: a existência de um terceiro. Houve um pequeno intervalo entre o momento em que Kwon Taekjoo perseguiu Ri Cheoljin em fuga e a chegada da Guarda Costeira ao ferry. Foram apenas alguns minutos, mas tempo suficiente para levar Kim Younghee à morte. Claro, isso só se sustentava caso as medidas seguras tomadas por Kwon Taekjoo tivessem de fato impossibilitado Kim Younghee de se autolesionar.
— Ou seja, o senhor está agora sugerindo a possibilidade de homicídio de Kim Younghee?
— É que me parece que vale a pena verificar mais uma vez. O lenço desapareceu sem deixar rastro, Kim Younghee morreu justo antes da prisão, e o material que ela desviara era um documento ultrassecreto ao qual só se tem acesso sendo alto oficial… Tudo isso me deixa com uma sensação incômoda.
— O senhor não concluiu que esse material foi entregue por um oficial do Exército que mantinha um caso com Kim Younghee? Ficou difícil obter uma confissão porque ele também se atirou do alto ao receber a intimação. Mas, considerando que ambos eram agentes secretos, tentar o suicídio após o fracasso da missão não é algo totalmente incompreensível.
— Hmm… então, por acaso, o senhor viu aquele anel?
— Que anel?
— Kim Younghee não estava usando um anel?
— Não. Sobre isso também não recebi nenhum relatório.
Lenço, anel — eram histórias que ele desconhecia por completo. O julgamento vinha transcorrendo desde o início com esses elementos excluídos. Se o que Yun Jongwoo dizia fosse verdade, todas as audiências realizadas até então teriam sido em vão.
— Ou seja, o que o senhor quer dizer agora é…
— E se alguém tivesse forjado este caso inteiro?
— Forjado? Está dizendo que os réus foram acusados injustamente?
— Não. Não é bem isso, mas pode haver mais envolvidos no caso. A alegação do oficial do Exército morto, de que não tinha nada a ver com as atividades de espionagem, pode ser verdade. E pode haver outra pessoa que desviou os segredos para Kim Younghee.
Yun Jongwoo insinuava repetidamente novas possibilidades. Mais precisamente, aquilo se aproximava de uma teoria da conspiração. O promotor Seok também havia achado o timing do caso curiosamente conveniente. Kim Younghee, que ocultara tão bem sua identidade por anos, tentara o contato de forma precipitada demais. Isso num momento em que não haviam se passado nem dois meses do início da investigação. Nesse processo, o oficial do Exército suspeito de manter um caso com ela tirou a própria vida, e ela também fez uma escolha extrema. Excetuando Ri Cheoljin, todas as figuras centrais do caso haviam se evaporado.
No entanto, por mais incômodo que fosse, por ora não passava de especulação sem substância. Sem provas materiais, era o mesmo que algo que não aconteceu.
— A verdade é uma só, mas sempre surgem dezenas, centenas de versões. Como cada pessoa tem interesses e pontos de vista distintos, as disputas não têm fim. As histórias do lenço ou do anel que teriam sumido do local também não passam, no fim, de alegações unilaterais de alguém. Se precisa da minha ajuda, traga provas mais evidentes.
Traçou o limite com clareza. Dali a alguns dias, teria de requerer a pena contra Ri Cheoljin na audiência. Se, antes disso, Yun Jongwoo trouxesse provas decisivas, ainda que todo o tempo e esforço investidos até então se perdessem, ele revelaria a verdade como era devido. Mas, se não conseguisse, jamais poderia concordar.
Yun Jongwoo assentiu, como quem compreendia. O rosto ficou visivelmente desanimado.
— Se não tem mais nada a dizer, vou me retirar primeiro.
O promotor Seok logo se levantou. Yun Jongwoo se ergueu apressado atrás dele e fez uma reverência. Retribuindo com um aceno de cabeça, o promotor Seok, por algum motivo, caminhou não em direção à saída, mas para o lado de Yun Jongwoo. Passou por Yun Jongwoo, que o observava intrigado, e foi até a mesa atrás dele. Ali estava sentado um homem com um boné bem enterrado na cabeça. Embora tivesse a cabeça baixa e o rosto quase invisível, dirigiu-lhe a palavra sem hesitar.
— Soube que há pouco baixaram um mandado de captura contra você. Como ainda não recebi um pedido oficial de cooperação, desta vez vou deixar passar. Mas, se nos cruzarmos de novo, aí não terei escolha senão prendê-lo. Pessoalmente, espero que isso não aconteça.
Advertiu em voz baixa. Do homem não veio resposta alguma. Depois de fitá-lo por um instante, o promotor Seok se virou e saiu do café.
Yun Jongwoo desabou na cadeira.
— Sênior, parece que ele descobriu.
— O que fazemos? — perguntou, olhando para trás. O homem sentado de costas para ele não era outro senão Kwon Taekjoo. O promotor Seok o reconhecera cedo e, ainda assim, não tentara prendê-lo. Isso equivalia a Seok manifestar concordância com a dúvida de Yun Jongwoo — ou, mais precisamente, com a de Kwon Taekjoo. Bastava garantir as provas materiais que ele agiria conforme a lei a qualquer momento.
Claro, para além da exigência do promotor, ele precisava de provas irrefutáveis para limpar seu nome.
— Por ora, você volta para a central. Com um mandado já baixado, continuar grudado em mim não vai dar em coisa boa.
— E o sênior, o que vai fazer? Se cair numa blitz surpresa…
Passou a mão bruscamente pelo rosto pálido de Yun Jongwoo. Com a súbita circulação sanguínea, o rosto inteiro ardia. Yun Jongwoo soltou um “aaah” e cobriu o próprio rosto.
— Cuide da sua própria vida, moleque. Eu vou dar meu jeito de me virar.
Apertou e massageou com força até a nuca do zeloso subordinado. Os gemidos de Yun Jongwoo não cessavam.
A mãe de Kwon Taekjoo estava parada diante da pia com uma expressão aturdida. O arroz na tigela estava inchado e mole. Preparava a refeição pensando em alimentar o filho e ficara horas ali, alheia a tudo.
Voltando subitamente a si, ela recomeçou a mexer as mãos de forma mecânica. Então, movida por algum pensamento, correu apressada para o quarto principal.
Ao olhar o celular que carregava, viu que chegara uma mensagem nesse meio-tempo. Com mãos trêmulas, conferiu a mensagem recebida. Mas não era o contato que aguardava ansiosamente — era spam. Já fazia cerca de três meses que não sabia se o único filho estava vivo ou morto.
— …
O desânimo durou apenas um instante; com o rosto de repente carregado de determinação, ela se levantou. Pegou um casaco qualquer e saiu de casa às pressas. Cada um de seus pés calçava um sapato diferente.
Passou sem sequer ouvir o cumprimento de uma vizinha que a reconheceu e perguntou aonde ia. Também não percebeu que alguém a observava.
Pouco depois, a mãe de Kwon Taekjoo chegou ao posto policial do bairro. Os policiais fizeram cara de contrariedade assim que ela apareceu. Um jovem soldado raso, observando as reações, aproximou-se dela e disse que ela tinha vindo.
— Encontraram meu filho?
A mãe de Kwon Taekjoo agarrou desesperadamente o braço do policial. Diante da situação que se repetia toda vez, ele apenas sorriu sem jeito. Conduziu-a a uma mesa próxima, dizendo que ela se sentasse. Um cabo que observava trouxe-lhe um copo de água morna.
Mas a mãe de Kwon Taekjoo apenas olhava alternadamente para os dois com olhar aflito, insistindo repetidamente.
— Perguntei se encontraram meu filho.
— Ah, é que… nós também estamos nos esforçando. Só que, como já dissemos da última vez, quando um adulto some sem dar notícia, a tendência é tratar mais como fuga voluntária do que como desaparecimento. Especialmente sendo seu filho…
— Ele não é esse tipo de pessoa! Nós nos falávamos todos os dias sem falta. Acontecesse o que acontecesse, ele sempre respondia, nem que fosse tarde. Ele não é do tipo que some assim, sem dizer nada!
— Sim, claro que deve ser. Mas, senhora. O seu filho não lhe contou nada direito. No centro comunitário onde ele diria trabalhar, disseram que não há nenhum funcionário assim, e, mesmo vasculhando toda a lista de servidores públicos daquela região, não encontramos nem um homônimo. A senhora mesma viu.
O policial argumentou com calma. Mas a mãe de Kwon Taekjoo negava incessantemente, dizendo que era impossível.
— Deve ter havido algum engano. Com certeza aconteceu algo terrível com ele. Rastreamento pela localização do celular, dá para fazer isso, não dá? Quem sabe o celular já não foi religado a esta altura. Vamos, façam isso. Vamos!
— Senhora, acalme-se. Beba um pouco de água primeiro…
— Vocês disseram que iam encontrar meu filho! Encontrem logo! Encontrem meu filho!
Com o gesto exaltado, o copo de água foi ao chão. Quando seguraram seus dois braços, temendo que ela se machucasse, ela se debateu de forma ainda mais frenética. Os policiais que tentavam contê-la foram empurrados e feridos por unhadas.
Um cabo, que observava a cena com desagrado, dispensou os outros policiais. Então estendeu à ofegante mãe de Kwon Taekjoo uma folha impressa.
— Senhora, olhe só isto. É o seu filho, não é?
Ao ver o papel fotográfico distraidamente, a mãe de Kwon Taekjoo arregalou os olhos. Ela se soltou dos policiais que a seguravam e agarrou a folha de impressão. A qualidade da impressão não era das melhores, mas o que estava ali estampado era, sem dúvida, uma foto de Kwon Taekjoo. Ela assentiu repetidas vezes.
— Sim, é o meu filho. Encontraram?
— É por isso que perdem contato. O seu filho, senhora, é um foragido.
— …O quê?
— A senhora não entende o que estou dizendo? Ele cometeu um crime, o Kwon Taekjoo. Não foi capturado por gente má; ele mesmo cometeu algo terrível e fugiu. Como é que a gente vai encontrar um sujeito que sumiu de propósito?
As últimas palavras foram quase um resmungo para si mesmo.
A mãe de Kwon Taekjoo ficou parada, atônita, e balançou a cabeça. Os olhos sem foco piscavam como se convulsionassem.
— Não pode ser…
— Sim. “Meu filho não é esse tipo de pessoa” — todos dizem a mesma coisa. De todo modo, seu filho agora é foragido por ter cometido um crime grave, e não é a nós que a senhora deveria pedir para encontrá-lo; a senhora é que teria de encontrá-lo e trazê-lo pessoalmente. Se conseguir contato com ele, transmita que se entregue e volte para o bom caminho.
Ele despejava as palavras sem dar a ninguém a chance de contê-lo. A mãe de Kwon Taekjoo ficou completamente atordoada, como se tivesse sido bombardeada. Vez ou outra apenas repetia, como quem geme, “não pode ser”.
Só depois de um bom tempo é que se virou, cambaleante. Olhares carregados de preocupação a acompanharam. E, como era de se esperar, ela desmaiou antes mesmo de cruzar a porta.
— Senhora!
— Nossa, chamem a emergência!
— O que estão olhando parados? Depressa, para cá!
Os policiais, atrapalhados, gritavam sem ordem. Alguém ligou para a emergência, e outros transportaram a mulher desmaiada até um banco, deitando-a. Umedeceram um lenço e o colocaram sobre a testa dela, e, por emergência, massagearam-lhe os braços e as pernas para ajudar na circulação. A ambulância chegou uns dez minutos depois.
A mãe de Kwon Taekjoo foi levada inconsciente na ambulância. Na falta de um responsável, o jovem policial decidiu acompanhá-la até o hospital. A ambulância, com o giroflex ligado, deixou o posto às pressas.
↫────☫────↬
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna