↫─☫ Capítulo 07.6
↫─☫ Esconde-esconde – 07.6
Mesmo diante da advertência afiada, pisou no acelerador sem hesitar. Quando o carro disparou de súbito, os funcionários que barravam a frente também se atiraram para os lados, buscando refúgio.
Contra Kwon Taekjoo em fuga, dispararam tardiamente. Mas as balas, sem mira precisa, apenas roçaram por um triz o para-choque, o escapamento ou a lateral da carroceria. O carro logo empurrou até a cancela que descera e sumiu num instante para além do horizonte.
No meio do caminho, abandonou o carro e vagou sem rumo por uma feira deserta. De vez em quando, ouvia-se o som de viaturas vindo da avenida. Nessas horas, escondia-se por um instante na escuridão e só voltava a se mover quando os ruídos se acalmavam.
Era como se tivesse sacos de areia amarrados aos dois pés. A cabeça, ainda que apenas desperta, não conseguia levar adiante nenhum pensamento. Isso porque, desde que fugira da ilha de Zhenya, não conseguira dormir em paz sequer um dia. Queria deitar o corpo um pouco, nem que fosse por breves instantes.
Quanto teria andado? De repente, algo enroscou em seu pé. Era a placa de pedestal de certa pousada. Mas ao redor não se via nem nada parecido. Só por via das dúvidas, espiou o interior de um beco que se abria como um atalho. Havia um prédio velho que se presumia ser a pousada. Sem pensar muito, dirigiu os passos para lá.
Estaria mesmo funcionando? Ao redor, tudo estava profundamente silencioso. O balcão também estava tão escuro que, de dentro ou de fora, não seria possível distinguir o rosto de ninguém. O ruído de uma televisão, que chegava de quando em quando, apenas comprovava que havia um dono. Pela fresta estreita, estendeu uma nota de cinquenta mil wones. Logo, uma chave foi empurrada para fora.
Recebeu-a e subiu ao segundo andar. Enquanto percorria o corredor, as vozes de outro quarto vazavam por inteiro. Bateu-lhe cedo o ceticismo de que conseguiria descansar em paz.
Entrou no quarto designado e acendeu primeiro a luz. A lâmpada fluorescente velha piscou uma vez, mas, em vez de acender por completo, ficou piscando repetidamente. Ainda assim, sem reclamar ao balcão, apenas fechou a porta. Sem sequer tirar os sapatos, desabou no chão. Escapou-lhe uma expiração longa como um suspiro. Toda a força se esvaiu do corpo.
De repente, tornara-se um patife que vazara segredos de Estado e que tentara, sem êxito, assassinar o superior. Para provar a própria inocência, precisava esmiuçar até o fim as maquinações do chefe de divisão Im e do 1º subdiretor.
Nesse ínterim, a ligação recebida durante o dia não lhe saía da cabeça. Não pode ser. Mesmo negando assim continuamente, não conseguia afastar a ansiedade que insistia em brotar. Era um sujeito que, sob a alegação de legítima defesa, sempre devolvia mais do que recebera. Não se podia garantir que um sujeito desses tivesse desistido limpamente só de Kwon Taekjoo.
E a mãe, o que faria? Desde que a vira sendo levada da delegacia, não conseguira ir procurá-la nem uma vez mais. Como, por causa do episódio com o chefe de divisão Im, a vigilância ficaria ainda mais rigorosa, agora seria difícil até vê-la de relance a distância.
Deitou-se para trás com um baque. Depois de olhar o teto que insistia em escurecer e clarear, esfregou o rosto longamente. Estava exausto demais. A cabeça estava tão embaralhada a ponto de dar câimbra.
Correndo dia e noite num mundo barulhento e caótico, sentiu saudade daquele silêncio que só o desamparava. Quando a consciência foi se distanciando, imaginou-se soterrado num campo de neve branquíssimo.
A porta se abriu. O corpo continuava em contato com o chão duro. Um ar gélido que invadia do corredor subia-lhe pelas pernas. Em meio ao sono, revirou-se. Mas não lhe ocorreu a ideia de se levantar logo e fechar a porta. Será que não trancara a porta direito? A lembrança disso não estava clara.
De súbito, sentiu um estranhamento. Era uma dúvida que nascia mais da familiaridade do que da estranheza. Agora, o frio que se espalhava pelo corpo inteiro era anormal. Ainda mantinha os dois olhos fechados, mas era como se, para além das pálpebras, enxergasse o corredor. O que se estendia ali não era escuridão, e sim um campo de neve.
Uma nevasca densa turbilhonava para dentro do quarto. Ao redor tudo era tão silencioso que não se percebia sinal algum. Ainda assim, num relance surgiu-lhe o pensamento único de que precisava se levantar logo. Era por causa de uma sensação vaga de perigo, de que a situação se desenrolaria numa direção que ele não queria. Mas não sabia, de forma alguma, como escapar daquele sonho. Só com a consciência de que precisava despertar, os olhos não se abriam.
Nesse instante, sentiu vagamente a presença de alguém. Sobressaltou-se de antemão, mas, felizmente, não era um vulto avantajado. Um garoto de aparência jovem estava de costas. Aquela imagem despertou um curioso déjà-vu. O garoto enxugava sem parar os olhos com o dorso da mão. Parecia estar chorando. Por que estava chorando? Assim que se perguntou, uma lembrança lhe veio de súbito. E logo compreendeu. Quem fizera aquele garoto chorar fora o próprio Kwon Taekjoo. Porque o garoto segurara sua mão com tanta força que, se fosse pego assim, parecia que jamais conseguiria fugir.
O garoto de repente virou a cabeça. Era um rosto que ele nunca vira. E, ainda assim, parecia saber de quem se tratava. Tum, tum. O coração, que até esquecera de bater, pulsou intensamente. Ao mesmo tempo, um pressentimento sinistro se ergueu. Uma chama negra chamada ansiedade se alastrou como um incêndio no mato.
Fuja. Foi no instante em que recuava obedecendo à ordem do instinto. O garoto veio correndo de supetão. Tentou se afastar, mas o corpo deitado feito cadáver não se mexeu um milímetro. O corpo do garoto que se agarrou a ele era gélido feito gelo. Estremecendo, empurrou o garoto por reflexo.
Mas o garoto não caiu com facilidade como antes. Por mais que o repelisse com toda a força, foi em vão. Só se somava mais força a apertar-lhe a cintura.
— Taekjoo, por que…
Uma voz sentida ecoou-lhe ao ouvido. Perplexo, olhou para baixo. Então o garoto desaparecera por completo e, sem que percebesse, surgira Zhenya esmagando-lhe o corpo inteiro.
Não, não era ele. Ainda que visse claramente com os dois olhos, negava a existência dele. Ele não faz uma voz daquelas. Nem chama Kwon Taekjoo de forma tão sofrida assim.
Nesse ínterim, a paisagem se transformara num campo de neve completo. Um leve aroma de Macallan e o cheiro de bétula pareciam roçar a ponta do nariz. O ar antes sujo também assentava sereno. A vista estava toda tomada por ele. Sem que estivesse propriamente amarrado, não conseguia se mexer nem um pouco.
Por isso, teve de receber por inteiro o olhar dele, que descia pesado e insistente. Nas pupilas cor de âmbar transbordavam emoções que não combinavam com ele. O coração começou de novo a arfar por conta própria. Embora tudo não passasse de ilusão, só as batidas do coração eram como se fossem reais, sufocantes e opressivas. A respiração também não vinha com folga.
De súbito, o rosto dele se aproximou. Não sabe por quê, não teve coragem de desviar. Não era uma situação em que se deixasse levar pelo clima como antes, mas jazia quieto sob ele. Os dois lábios ficaram suspensos no limiar de se tocar. Um ar gélido espalhou-se rapidamente dos lábios por todos os vasos do corpo. Os membros congelaram.
Por quê.
A voz que o repreendia serpenteava como um vento impetuoso. No instante, um formigamento indefinível o atravessou de ponta a ponta.
— …!
Os olhos se abriram de uma vez. Grossas gotas de suor escorriam pela lateral do rosto até o pescoço. Diante da sensação horrível, o cenho se franziu por si só.
Dizem que, quando se tem muitos pensamentos, o sono também fica agitado; nesses últimos dias, fora uma sucessão de pesadelos. O coração disparava com uma intensidade que chegava a doer. Como um reflexo autonômico, bastava ver aquele sujeito para entrar num inequívoco estado de excitação. Ao menos no que dizia respeito à atividade cardíaca, medo e ânsia pareciam separados por uma folha de papel.
Com o peito arfando, ajeitou a respiração a duras penas. O corpo inteiro estava impregnado de suor, pegajoso. Embora um banho fosse imprescindível, não se levantou logo e ficou apenas deitado, quieto.
Foi só depois disso que percebeu uma sensação dolorida e tesa vindo de um lugar delicado. Assustado, olhou para baixo e viu que sua parte inferior estava enrijecida. Por mais que esfregasse os olhos e olhasse de novo, aquele estado não se alterava.
Por causa do quê…?
Por mais que tentasse encontrar outro motivo, o que vira no sonho fora apenas Zhenya. Por mais vezes que repensasse, não houvera nada além de ter esfregado os lábios com ele. Não pode ser. Não é possível que tenha levantado a cabeça só com aquilo. Encarou o próprio centro insensato. Mas ele não se acovardava nem um pouco. Apenas balançava o corpo devagarinho, como que provocando Kwon Taekjoo. Irritado, embaraçou os cabelos.
— Merda, sou viado mesmo, porra!
Diante do debater-se cheio de raiva, veio do quarto ao lado uma reclamação. Alguém bateu com força na parede fina, mandando fazer menos barulho.
Nessa hora, a paisagem que espiou pela janela já clareava vagamente. Para quem estava fugindo, dormira até que bem. Como é que, tanto acordado quanto em sonho, vivia sendo perseguido? “Que droga”, lamentou, e ergueu o corpo. Saiu do quarto naquele estado. Por conta do horário, tanto o corredor quanto o balcão estavam quietos.
Apressou os passos rumo à rua, onde o dia começava a raiar.
Na casa de banhos, recém-passado o horário de entrada no trabalho, quase não havia gente. No máximo, Kwon Taekjoo e uns dois idosos.
Graças a isso, praticamente alugou a sauna só para si. Um calor abafado espalhou-se lânguido pelo corpo inteiro. Recostou o pescoço à vontade e desfrutou por um instante daquela paz. Era um luxo que não sabia quando voltaria a usufruir. No teto havia inúmeras gotas de água. Contando-as sem propósito, organizou a cabeça complicada.
A figura central deste caso não era Kim Younghee, nem o chefe de divisão Im, e sim o 1º subdiretor. A questão era se ele mantivera com Kim Younghee uma relação amorosa pura, ou algo além disso. Se, como alegava o chefe de divisão Im, o 1º subdiretor também tivesse sido vítima de Kim Younghee, sua culpa se limitaria a ter abafado o caso. Mas, se ele a ajudara sabendo perfeitamente da identidade dela, ou se agira recebendo diretamente ordens da Coreia do Norte, o preço do crime seria inevitavelmente bem mais pesado. E a natureza das provas a serem encontradas para esclarecer a verdade também mudaria.
Lembrou-se do 1º subdiretor, que encontrara na central antes de partir para a Rússia. Na ocasião, ele parecia extremamente sereno. De forma alguma era a imagem de alguém que perdera a pessoa amada. Numa relação tão profunda a ponto de prometer um futuro, seria possível manter tamanha placidez mesmo após saber da verdadeira identidade e da morte da outra pessoa?
Também era suspeito o fato de Kim Younghee ter se movido justo naquele momento em que a investigação conjunta do Serviço de Inteligência e da promotoria estava a todo vapor. Por uma coincidência irônica, pode ser que a ordem tenha vindo da Coreia do Norte justamente naquela hora. Ou alguém pode ter atraído Kim Younghee e Ri Cheoljin de propósito. Uma coisa era certa: se o 1º subdiretor se preocupava com sua ascensão, incluindo o cargo de diretor do Serviço de Inteligência, com toda a certeza desejaria evitar a todo custo o escândalo amoroso com Kim Younghee.
Se o 1º subdiretor tivesse ultrapassado o nível de simples participação e se envolvido até nas atividades de espionagem, a probabilidade de ter contatado também Ri Cheoljin era grande. Ri Cheoljin era o único sobrevivente entre as figuras centrais do caso. Parecia melhor encontrá-lo primeiro.
Tomou um banho rápido e saiu para o vestiário. Então, antes de tudo, tirou o celular e o ligou. Havia um monte de registros de chamadas perdidas e mensagens acumulados. Eram todos de Yun Jongwoo. Como já devia ter chegado ao trabalho, ele também já teria tomado conhecimento das notícias que circulavam na central. Ligou para ele, que devia estar aflito. O som de chamada mal completou uma vez e foi atendido. Yun Jongwoo, que atendeu, indagou de forma unilateral sem nem respirar.
— Sênior, cadê o senhor? Está bem? Dizem que veio aqui ontem à noite? A atmosfera na central agora não está para brincadeira. O senhor virou praticamente um terrorista!
— Ah, é mesmo?
— É mesmo? “É mesmo?” Como o senhor está tão tranquilo?! Dizem que o senhor tentou matar o chefe de divisão, tentativa de homicídio e o escambau! O mandado de captura foi reforçado. Vão pedir cooperação a todos os órgãos de investigação do país.
Parecia estar telefonando escondido em algum lugar. Mesmo abaixando bastante a voz e sussurrando baixinho, a fala saía como uma metralhadora. Enquanto rasgava com os dentes o plástico da roupa de baixo, disse “Jongwoo”.
— O-o quê?
Ao ser chamado com carinho, logo se encolheu.
— Você também acha que fui eu que atirei no chefe de divisão Im?
— Isso… não sei. Se não foi o senhor, quem atirou? É verdade que o senhor veio aqui ontem à noite e se encontrou com o chefe de divisão. Ah, sério… O que o senhor pretende fazer daqui pra frente?!
— Os outros que pensem o que quiserem, mas você tem de acreditar em mim. Agora não há outro jeito. O chefe de divisão Im também já deve ter percebido que você está me ajudando.
— O quê? C-como assim!
— Além de você, quem mais eu teria aí para me ajudar? Você já foi amarrado como meu cúmplice faz tempo. Bom, quem sabe. Talvez, com a condição de você largar o Serviço de Inteligência, tirem de você ao menos a acusação de cumplicidade.
— Aaah! Ferrou! Tá tudo ferrado!
— Então eu não posso ser pego, certo? Se não quer se complicar, pare por aí e recite o que investigou.
— …É sobre o 1º subdiretor. O senhor sabe que ele esteve antes na Embaixada da Coreia nos EUA, né?
Abriu o assunto com voz abatida. No tom, sentia-se uma resignação precoce quanto à própria situação.
— Parece que foi por essa época que ele conheceu Kim Younghee. Dizem que os dois atuavam numa organização de ajuda chamada “POC”, e parece que também saíam com frequência para trabalho voluntário no exterior. Suspeito que, se houve contato com o lado norte-coreano, tenha sido naquela época, quando havia pretexto para sair a um terceiro país. É grande a possibilidade de ele ter contatado ao menos uma ou duas vezes também Ri Cheoljin, que sempre fez o papel de contato e transportador de Kim Younghee. Por coincidência, o período e os países-alvo do trabalho voluntário do 1º subdiretor batem quase perfeitamente com o itinerário de Ri Cheoljin.
— Realmente vou ter de encontrar Ri Cheoljin primeiro. Bom trabalho. Jongwoo, você continua fuçando o 1º subdiretor e os que estão ao redor dele. Enquanto eu não for pego, o chefe de divisão Im não vai fazer nada com você, então não se preocupe.
Deu as ordens de forma unilateral e encerrou a chamada. Por hábito, desligou logo também o aparelho.
Nessa hora, entrou um novo cliente. Desta vez também era um idoso de cabelos totalmente brancos. Vestiu-se como se nada tivesse acontecido.
Estava justamente prestes a puxar a calça quando, de repente, sentiu um olhar. O idoso de há pouco observava as costas de Kwon Taekjoo com o cenho franzido. Ao cruzarem os olhos, ele estalou a língua, “tsc, tsc”, e virou o rosto.
— …
Refletiu as próprias costas no espelho de corpo inteiro. Logo acima das nádegas via-se uma tatuagem nítida. Como não tivera tempo algum de olhar num espelho, esquecera-se completamente dela.
Ao reconhecer a existência da tatuagem, uma lembrança vergonhosa veio junto. A dor aguda da agulha que perfurava impiedosamente a pele, o toque ardido da tinta se espalhando sobre a ferida, e até a força da ponta dos dedos que pressionava serenamente a carne febril.
Balançou a cabeça. Terminou logo de se vestir. Veio-lhe à mente a primeira coisa que precisava fazer.
— Vai arder bastante.
Diante da advertência do médico, assentiu com a cabeça. No mesmo instante, um campo cirúrgico cobriu a área do procedimento.
— …Hum. Parece que foi feita há pouco tempo?
O médico, apalpando a tatuagem de um lado a outro, murmurou para si mesmo. Pouco depois, com um clique, o aparelho de laser foi ligado.
— Então, vamos começar.
Fechou bem os olhos. Emitindo aquele ruído mecânico característico, o tratamento a laser começou. Era como se faíscas saltassem sobre a pele tensa. Sem perceber, estremeceu. Uma dor ardida e escaldante transmitia-se de forma insistente. O cheiro de carne viva queimando também subia repetidamente.
O laser era disparado continuamente sobre a área já estimulada e latejante. Embora estivesse firmemente preparado, diante do estímulo de dilacerar repetidas vezes a carne viva, escapou-lhe um gemido por si só.
— Nngh… ugh…
Como o pigmento penetrara até a derme, a ferida para o tratamento também se aprofundou. O médico, que verificava a área cauterizada pelo laser, estalou a língua, “tsc, tsc”.
O tratamento, que parara por um instante, recomeçou. Diante da dor aguda, o suor frio se acumulava sem parar, e rangia os dentes. Recebendo o laser conforme o formato da tatuagem, a humilhação daquele dia ressurgiu naturalmente.
— Dizem que alguns chamam isto de símbolo do desejo.
Como se não bastasse ter sido brutalmente violado, ainda fora marcado com um selo como gado ou escravo. O toque da agulha ardentemente aquecida ainda estava vívido. Assim como o toque da tinta, que se infiltrava dolorida sobre a ferida remexida.
— Não passa de um mero contrato ligando senhor e servo.
Também se lembra nitidamente do escárnio de Zhenya.
Franziu o cenho. Embora estivesse decidido a cortar tudo, os acontecimentos da Rússia vinham à tona sem ordem e iam ocupando a cabeça complicada. O rosto dele se desfazendo em vazio, no instante em que fugia da ilha que não passava de uma prisão, permanecia como uma imagem residual intensa. Ficou arrepiado. O queixo também se retesou com força.
Se por um breve momento se deixara levar por ele, fora por não haver mais que os dois naquele espaço isolado. Porque a única pessoa com quem falar era ele. Em situações extremas, busca-se onde quer que seja um apoio. Numa concessão temporária pela sobrevivência, não havia lugar para os sentimentos se intrometerem. Portanto, nem os sentimentos por ele nem a própria identidade haviam mudado em nada. Assim, repetiu inúmeras vezes aquela racionalização, quase como um mantra.
Só por ter recordado uma lembrança desagradável, o coração recomeçou a martelar. Era como se tivesse tido um pesadelo terrível. Um pesadelo que jamais queria reviver.
A pele ardia em chamas, e no sulco cavado se acumulava secreção. Junto com a dor escaldante, foi apagando uma a uma as lembranças passadas.
Não haveria por que voltar atrás.
Saguão de desembarque do Aeroporto Internacional de Incheon. Um grande painel eletrônico anunciava, um após o outro, a chegada das aeronaves. As pessoas que vieram receber familiares, parentes, clientes, parceiros de negócios e afins aglomeravam-se diante do portão. Os passageiros que passavam pela alfândega jorravam sem parar. Como os pontos de partida eram todos diferentes, os traços e as roupas também eram variados.
Entre eles, havia um homem que atraía o olhar em especial. Era tão alto que se via num relance mesmo de longe. Por isso, não só os passageiros que saíam junto, mas até os que aguardavam lançavam-lhe olhares de esguelha. Havia quem parasse no meio do caminho para se virar e olhar. Talvez a atenção fora do comum se devesse à aparência extraordinariamente deslumbrante.
O homem, indiferente à atenção alheia, percorreu lentamente o interior do aeroporto com o olhar. Para onde quer que olhasse, era tudo repleto de coreanos, e o coreano enchia o ar. Silenciosamente, um sorriso espalhou-se pelos cantos de seus lábios. As pupilas azuis brilhavam com um fulgor estranho.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna