↫─☫ Capítulo 07.7
↫─☫ Esconde-esconde – 07.7
— Que sorte que a ruptura ficou restrita apenas ao músculo. Se tivesse roçado um pouco mais para baixo, o prognóstico não seria bom. Ainda assim, o senhor não pode se exceder. Até cicatrizar por completo, precisa manter repouso absoluto e seguir bem a reabilitação.
Diante da recomendação do médico responsável, o chefe de divisão Im apenas assentiu por alto. Com isso, a equipe médica que concluíra a consulta saiu, e o 1º subdiretor entrou. Quando ele, de praxe, tentou se levantar, “ah, fique deitado”, ele o deteve. Quando por fim se ergueu e sentou, o subdiretor estalou a língua, como quem não consegue com ele.
— Esse sujeito, francamente.
No quarto, além dos dois, policiais à paisana permaneciam de prontidão o tempo todo. Fazia parte da proteção pessoal.
— Desculpe interromper em serviço, mas deem uma saidinha um instante.
Diante do pedido do 1º subdiretor, os policiais se entreolharam. O chefe de divisão Im também apoiou, dizendo “é só um momento”. Não eram seus superiores, e não havia motivo para seguir necessariamente as ordens dos dois. Ainda assim, sem grande resistência, deixaram o recinto.
Assim que a porta se fechou, o sorriso benevolente do 1º subdiretor desapareceu.
— Aquele rapaz, ainda não localizaram a posição dele?
— Como agora até a polícia entrou por conta deste episódio, logo virá notícia de algum lugar. De um jeito ou de outro, é o talento mais aproveitável do Serviço de Inteligência; não será pego com facilidade. Foi por isso que, desde o início, eu lhe disse para escolher outro rapaz, lembra?
— Você é bem tranquilo, mesmo em meio a isto tudo.
O 1º subdiretor deixou transparecer, afinal, seu desconforto interior. O chefe de divisão Im, com aquele sorriso matreiro característico, mudou de assunto dizendo “mais do que isso”.
— Não é mais urgente calar a boca do lado do Ri Cheoljin?
— Quanto a isso, não se preocupe. Como falhou em cumprir a ordem, ele deve saber muito bem que só lhe resta a morte. E, mesmo que ele seja assassinado, todos vão atribuir ao lado do Norte.
O 1º subdiretor fanfarronava e, veladamente, acrescentou uma frase.
— Provavelmente não vai passar de hoje.
De longe, ouviu-se o som de um portão de ferro se abrindo. O agente penitenciário, que atravessara sucessivas portas uma a uma, deteve os passos diante de certa cela.
— Número 342. Entrevista com advogado.
O mecanismo de travamento se soltou, e a porta se abriu. Mas Ri Cheoljin, sentado lá dentro, não teve intenção de se levantar logo. O agente, como se estivesse habituado, puxou-o para fora com as próprias mãos. Algemou os pulsos esqueléticos e empurrou-lhe de leve as costas.
Só chegar à sala de entrevistas já levou um bom tempo. O advogado de Ri Cheoljin, que chegara cedo, levantou-se do lugar. Diante do convite “sente-se”, ele puxou a cadeira por alto e sentou.
— Há quanto tempo.
Ao cumprimento que se seguiu, apenas assentiu com a cabeça. O advogado observou por um instante Ri Cheoljin, sem qualquer vitalidade. A aparência irreconhecivelmente arruinada não parecia dever-se apenas à dura vida no cárcere. As marcas de autolesão em seu pescoço e braços eram evidentes. Também soubera que, na noite anterior, ele amarrara a manga do uniforme prisional ao pescoço e apertara.
— Senhor Ri Cheoljin. Por que o senhor insiste em tentar se autolesionar?
— Você sabe o que é aguardar só o dia de morrer?
Parecia não dar a mínima para o resultado do julgamento na Coreia. Independentemente disso, parecia acreditar que, de todo modo, morreria. Em vez de esperar vagamente ser eliminado, escolhera dar cabo de si mesmo.
Apesar da situação grave, o advogado riu de canto. Então recostou languidamente para trás as costas antes eretas. Também tirou com uma das mãos os óculos que usava e os pousou sobre a mesa. O contorno dos olhos, assim revelado, parecia de certo modo estranho. Tinha um ar afiado, a ponto de fazê-lo duvidar se sempre fora assim.
— Ouvi dizer que Kim Younghee tinha um amante.
De repente, a fala se tornou informal. Até o tom mudara por completo, como se fosse uma pessoa totalmente diferente. Mas aquela voz, ao menos, soava estranhamente familiar. Onde a ouvira?
— Vi com clareza no barco, mas dizem que sumiu. Falo do anel que Kim Younghee usava.
O advogado ergueu a mão esquerda e mexeu o anelar. Os dois olhos de Ri Cheoljin se arregalaram. Enfim, parecia compreender a origem daquele déjà-vu incômodo. O homem à sua frente não era seu advogado, mas ele. O agente coreano com quem se atracara na máquina de vendas do ferry. O próprio responsável por deixar Ri Cheoljin trancado ali.
Levantou-se de um salto. Então o advogado — não, Kwon Taekjoo disfarçado dele — ergueu o olhar sereno para Ri Cheoljin. Fitando os olhos vacilantes de Ri Cheoljin, atônito, indicou com a cabeça para que se sentasse de novo.
— Para ela não poder se matar à toa, eu tinha até posto uma mordaça. E até isso sumiu como que por encanto.
A confusão se agravava no semblante de Ri Cheoljin. Ele compreendia claramente o significado das pistas que Kwon Taekjoo lançava aqui e ali. Os olhares dos dois travavam no ar um cabo de guerra tenso. Ri Cheoljin custava a abandonar a desconfiança.
— Sente-se. Não vim negociar com o seu lado.
— Então veio pra quê?
— Vim ver se, por acaso, você também sabe que levou uma facada nas costas.
O cenho de Ri Cheoljin se contraiu de vez. O ar de desconfiança, ao contrário, ficou ainda mais denso. Parecia acreditar que não haviam cumprido a missão unicamente por falha deles próprios. E que a morte de Kim Younghee fora apenas ela mesma assumindo a responsabilidade. Retomando a situação da época, não havia nada de suspeito. Mas Kwon Taekjoo surgira de repente e trazia à tona uma história de dimensão totalmente diferente.
A morte de Kim Younghee, que estava incapaz de se suicidar, e o anel desaparecido. Só por essas duas dúvidas, já havia uma figura que lhe vinha à mente. Mas Ri Cheoljin não agiu de forma precipitada. Com o olhar cheio de vontade de perguntar isto e aquilo, resistia de boca firmemente fechada.
— Talvez aquele sujeito venha a se tornar o próximo diretor do Serviço Nacional de Inteligência.
— …Disse diretor do Serviço de Inteligência?
— Por mais que fosse um figurão que vendia o país, deve ter babado. Quem sabe, começando pelo cargo de diretor, ele consiga até ingressar na política. Os concorrentes são dois, e não é um posto que se conquiste acumulando méritos medianos. Ainda por cima, nos bastidores todos estão obcecados em desenterrar as trapaças uns dos outros. Imagine como ele deve ter ficado aflito. Se a identidade de Kim Younghee, ou a relação dele com ela, viesse à tona, não só o cargo de diretor estaria fora de cogitação, como seria difícil até manter o status atual.
O semblante de Ri Cheoljin ficou ainda mais sombrio. As pupilas que vacilavam sem rumo representavam à perfeição sua confusão. A essa altura, endireitou o tronco que vinha recostando para trás. Então, fitando fixamente os dois olhos de Ri Cheoljin, apertou o cerco de vez.
— Se você tem algo a dizer, é melhor dizer agora. Eu não vou voltar aqui nunca mais, e, além de mim, ninguém vai dar ouvidos ao que você diz. Nem mesmo o seu advogado.
— Por que você veio me revelar isso? Não é coisa que de dor de cabeça?
— Claro que é um estorvo. Mas o que fazer, se já levei o golpe? O que não se pode desfazer tem de ser retribuído.
Mostrou os dentes alinhados e riu de canto. A expressão de Ri Cheoljin ficou bastante contrafeita. Dizem que não se cospe num rosto que sorri, mas Kwon Taekjoo era exceção. Toda vez que ele sorria, não dava, de forma alguma, para sentir um clima agradável. Fora assim desde o início. Devia ser por ter sofrido nas mãos dele.
O julgamento, que se arrastava havia meses, agora se encaminhava para a reta final. Só pela atmosfera que corria no tribunal, já dava para estimar sua pena. No mínimo, dez anos. Seria uma sorte se, antes disso, não fosse eliminado por outra pessoa.
— Não há motivo para pensar de forma complicada. Foi o outro lado que abandonou você primeiro. Há necessidade de manter lealdade a um sujeito desses?
Tentou persuadir Ri Cheoljin de novo. Mas ele apenas mantinha a boca firmemente fechada e a cabeça baixa. Não fazia um único movimento.
Como se esperava, não daria certo. Seria difícil acreditar docilmente nas palavras de quem o prendera. Além disso, para provar as suspeitas sobre o 1º subdiretor, ele teria de revelar tudo — a própria identidade, a filiação e até o propósito da infiltração. Isso seria justamente trair o próprio dever e atraiçoar a pátria.
Por mais que esperasse ainda um bom tempo, de Ri Cheoljin não vinha reação alguma. Tampouco havia sinal de que fosse ceder. Não estava em condição de permanecer muito tempo num só lugar. Sem alternativa, levantou-se.
Mesmo assim, Ri Cheoljin não se moveu. Só que aquele indício tinha algo de estranho. Olhando com atenção, viu que o corpo dele tremia em convulsão. No instante em que disse “ei”, ele de repente agarrou o próprio pescoço.
— …Urgh!
Da boca de Ri Cheoljin, que tombava sobre a mesa, escorria uma espuma branca. As pálpebras estavam completamente reviradas, mostrando só o branco dos olhos.
— Ei! Não tem ninguém aí fora?!
Gritou em direção à porta fechada. Nesse momento, Ri Cheoljin, em convulsão, agarrou-o com força. Então, fazendo um esforço supremo, levantou o próprio uniforme prisional. Ao arrancar de uma vez o esparadrapo colado no abdome, revelou-se uma ferida que parecia ter sido suturada havia pouco tempo.
— Gaaargh…
Ri Cheoljin remexeu aquela ferida com os dedos de qualquer jeito. A área suturada se abriu, e da ferida que mal cicatrizara escorreu sangue. Diante da dor insuportável de suportar, um gemido escapou por si só de entre os dentes cerrados. Só de olhar, era como se aquela dor se transferisse por inteiro.
Logo, na mão de Ri Cheoljin, manchada de sangue, saiu apanhado um pequeno chip. Ri Cheoljin, sem forças, estendeu-o a Kwon Taekjoo. Como Kwon Taekjoo apenas franziu o cenho e ficou olhando, chegou a colocar-lhe o chip na mão em pessoa.
— O que está havendo?!
Logo os agentes penitenciários acorreram. Eles retiraram Kwon Taekjoo da sala de entrevistas e prestaram os primeiros socorros a Ri Cheoljin. As redondezas antes silenciosas da sala de entrevistas ficaram, num átimo, alvoroçadas.
Um agente penitenciário aproximou-se de Kwon Taekjoo, atônito e paralisado.
— Ele tentou se autolesionar?
— Não. No meio da entrevista, ele de repente convulsionou. Por acaso houve algum problema na dieta, ou ele tinha alguma doença?
— Não… isso não…
O agente penitenciário deixou a frase no ar e desviou o olhar. Temendo ser inutilmente culpado pelo advogado do detento, poupou as palavras.
No fim, teve de sair da penitenciária como quem é enxotado. O lado da penitenciária disse que avisaria assim que a causa da convulsão fosse confirmada. O último Ri Cheoljin que vira estava totalmente inconsciente. O rosto lívido, sem que se pudesse garantir se estava vivo ou morto. Talvez o lado do 1º subdiretor tivesse tentado eliminar até Ri Cheoljin. Se descobrisse que Kwon Taekjoo era um advogado falso, também esse crime lhe seria imputado.
Assim que saiu da penitenciária, arrancou e jogou fora a pele artificial. Precisava se mover ainda mais rápido.
O que Ri Cheoljin lhe entregara era um cartão de memória. O que estaria contido ali? A julgar por tê-lo escondido bem fundo, rasgando a própria carne, não seria um dado qualquer.
Caminhava distraído em direção à avenida quando estacou. Foi porque três ou quatro viaturas passaram uma atrás da outra, com as sirenes ligadas. Dobrou de imediato no beco lateral e se moveu sem parar apenas por ruelas estreitas por onde carros não passavam.
Então, por sorte, encontrou um estúdio fotográfico. Ao entrar, o fotógrafo, que fazia uma refeição, levantou-se meio sem jeito e disse “seja bem-vindo”. A ele, que enxugava a boca, estendeu primeiro o cartão de memória.
— Revelação, por favor.
O fotógrafo, que virava o cartão de memória de um lado a outro, logo o inseriu no leitor. Por mais que tivesse limpado o sangue impregnado, ele não parecia ser bem lido, e o fotógrafo o retirou e reconectou várias vezes. O cartão, enfim reconhecido, continha fotos e vídeos.
— É bastante coisa… tudo isso mesmo?
O fotógrafo virou-se para Kwon Taekjoo em busca de confirmação. Como ele dizia, só de fotos armazenadas havia mais de várias centenas. Dentre elas, viam-se as figuras de Ri Cheoljin, Kim Younghee e do 1º subdiretor. Havia também as em que só Ri Cheoljin e o 1º subdiretor apareciam a sós. Pela aparência dos retratados e pelos cenários, todos diferentes, o local e a época em que as fotos foram tiradas pareciam variar. A menos que Ri Cheoljin também tivesse feito trabalho voluntário no “POC”, era evidente que se tratava de flagrantes do momento das instruções de contato. Para se precaver contra uma eventual traição de um cúmplice.
— Estas fotos, quanto tempo levaria para revelar todas?
— Como é muita coisa, deve levar facilmente umas duas horas.
O fotógrafo respondeu enquanto transferia todas as imagens para a pasta de revelação. Nessa hora, de fora soou de novo uma sirene. Desta vez não vinha da avenida distante, mas de um beco adjacente. Teria o trajeto sido captado por alguma câmera de CCTV?
— Aconteceu alguma coisa aí fora? Está barulhento sem parar desde há pouco.
O fotógrafo, espiando para fora da loja, devolveu o cartão de memória cujo backup terminara. Sem responder nada em especial, ele escreveu algo num bloquinho. Então o entregou ao fotógrafo e pediu encarecidamente.
— Poderia enviar as fotos para este endereço assim que ficarem prontas?
— …É a promotoria?
No papel estava escrito “Sala do promotor Seok Jaehui, 1ª Divisão de Segurança Pública, Promotoria Central de Seul”. Ao desconcertado fotógrafo, Kwon Taekjoo não explicou a situação. Apenas sacou notas de cinquenta mil wones à medida que as pegava e as pôs sobre o balcão.
— Então, deixo com o senhor.
O fotógrafo assentiu, atordoado. Kwon Taekjoo fez uma leve reverência, apanhou o cartão de memória e saiu do estúdio.
Sozinho, o fotógrafo olhou, contrafeito, o dinheiro deixado sobre o balcão. Grandes lucros costumam vir acompanhados de um preço proporcional. Não estaria se enredando por descuido em algo suspeito? Preocupou-se, mas o lugar para onde pediram que enviasse as fotos não era outro senão a promotoria. Ao menos, não parecia haver risco de se envolver em crime.
O fotógrafo logo guardou o dinheiro e começou o trabalho de revelação.
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No hospital, detetives à paisana estavam posicionados em grande número. Só à frente da entrada principal havia três ou quatro; no ponto de táxi e no ponto de ônibus também, ficavam dois a dois, vigiando os arredores. Provavelmente, no interior havia ainda mais pessoal alocado.
O certo era não entrar. Ainda assim, Kwon Taekjoo adentrou o hospital com ousadia. Precisava confirmar se a mãe estava a salvo. A cada passo largo e firme, as abas do jaleco esvoaçavam. Sob o jaleco branco, vestia uma camisa cinza e gravata. O cabelo estava repartido e fixado de forma adequada, e óculos de armação preta escondiam o olhar afiado. Os detetives à paisana lançavam olhares de esguelha a ele, que passava. Mas ninguém se aproximou para conferir sua identificação. Para qualquer um, ele tinha exatamente a mesma aparência de um clínico geral daquele hospital.
Não só na recepção e no guichê de pagamento, mas também no café e no banheiro do primeiro andar, detetives estavam entrincheirados. Passou naturalmente diante deles. De vez em quando, quando alguém da equipe médica ou funcionário o reconhecia, respondia com desenvoltura.
Graças a ter verificado a localização de antemão, chegou à ala de clínica médica sem se perder. Os detetives rondavam também em torno do posto de enfermagem. Após uma respiração funda, dirigiu-se com naturalidade até ali. Ao dizer “bom dia”, as enfermeiras que trabalhavam cumprimentaram de volta. Os olhares dos detetives, que por um instante se concentraram em Kwon Taekjoo, desviaram-se sem desconfiança.
Pesquisou no computador o nome da mãe. Era para confirmar em qual quarto ela estava internada. O resultado da consulta saiu na hora. Fosse por ser alvo de vigilância especial, parecia ter sido designado um quarto individual.
Quando dizia “até logo” e tentava se retirar, justamente nessa hora a enfermeira-chefe saiu para o posto. Ao ele fazer, de praxe, uma reverência, ela inclinou a cabeça, intrigada.
— Ora, doutor. Hoje não era sua folga?
— Ah…
Diante da voz cheia de dúvida, os detetives voltaram a observar atentamente a direção do posto.
— Mudei para amanhã.
Disfarçou com o rosto sorridente e afastou-se do posto. Aos detetives que observavam, também acenou primeiro com a cabeça. Os detetives, sem querer, retribuíram o cumprimento. Passou serenamente ao lado deles e subiu de novo no elevador. Então subiu ao 8º andar, onde ficava o quarto da mãe.
O problema era dali para frente. Como o lugar onde a mãe estava era um quarto individual, provavelmente não seria qualquer um que pudesse se aproximar. Também era alta a probabilidade de haver mais pessoal policial concentrado ali. Tinha de se aproximar com cautela.
O elevador logo parou no 8º andar. A porta se abriu, mas, em vez de descer de imediato, primeiro examinou o que se passava no corredor. Por alguma razão, não se percebia sinal algum de gente. Depois de esperar mais um pouco, saiu.
Logo ficou aturdido, pois, inesperadamente, o corredor estava completamente vazio. Não havia detetives, nem sequer a sombra de uma pessoa. Ainda desconfiado, atravessou o corredor.
Foi por volta de quando chegou diante da saída de emergência, no meio do caminho. O estranhamento atingiu o auge. A porta, que deveria estar fechada, estava ligeiramente entreaberta. O que se projetava pela fresta era a mão de alguém. Abriu mais a porta. Então viu, caídos na escada de emergência, uns seis ou sete homens robustos. Pareciam ser detetives e seguranças.
Esquadrinhou de novo todos os lados, mas não conseguiu captar nenhum outro sinal. Aproximou-se com cautela e verificou o estado dos inconscientes. Mal se detectava a respiração, e todos estavam com os membros completamente frouxos. Quase não se viam ferimentos externos. Parecia que alguém mirara com precisão apenas os pontos vitais e os dominara em curto tempo. Alguém invadira aquele lugar. Sem provocar grande alvoroço. E aquela habilidade não era nada comum.
Então, e a mãe? O coração deu um baque. Um ar gélido espalhou-se por sua nuca. No mesmo instante, saltou de pé e escancarou a porta do quarto.
— …!
Estava prestes a irromper para dentro do quarto quando estacou. Alguém estava sentado diante do leito da mãe. Seria o invasor? O coração martelava e agitava-se sem controle. O estômago também revirou de repente. Não era simplesmente por hostilidade contra um invasor desconhecido. Era algo mais próximo de uma convulsão, originado de um pressentimento ainda mais sinistro.
As costas daquele que estava sentado, de dorso voltado para ele, eram familiares. Não são muitos os que, só pela silhueta de costas, exalam tamanha opressão. Ele não se virou para olhar Kwon Taekjoo. Apenas permanecia sentado, imóvel, contemplando com indiferença a mãe inconsciente. E olha que ele certamente devia ter ouvido o som da porta se abrindo.
Seria melhor fugir agora mesmo? Para preservar a própria vida, era exatamente o que deveria fazer. Mas deixar a mãe nas garras dele? Isso era inadmissível.
Talvez não fosse descoberto. O próprio Kwon Taekjoo tinha, aos olhos de qualquer um, a aparência de um médico daquele hospital. Ainda que fosse ele, seria difícil desmascará-lo num relance.
Firmou a decisão e entrou. Aproximou-se do leito e primeiro verificou o soro pendurado. Só então um olhar fixo pousou sobre ele, ao lado. Ao virar a cabeça, os olhares se cruzaram de imediato. Aquele que guardava tranquilamente o lado da mãe, sentado, era justamente Zhenya.
O coração arfava como se fosse rasgar a carne e saltar para fora. Temia que aquele som chegasse até ele. A coragem de que se orgulhara logo baixou a guarda e fugiu. Não conseguia entender como ele viera parar ali, nem qual era a intenção dele para com a mãe; a cabeça estava em confusão.
— …Com licença, o senhor é o responsável pela paciente?
Contendo a duras penas a perturbação, abriu a boca. Como era em coreano, não havia como ele entender. A voz também era bem diferente da verdadeira de Kwon Taekjoo.
Como esperado, ele apenas fitava Kwon Taekjoo fixamente. A ele, disse “vou verificar por um instante o estado da paciente”. Então examinou minuciosamente o rosto sem cor da mãe. Nem é preciso dizer que as olheiras estavam fundas, e os lábios, ressecados. O que se via cristalizado em branco nas pestanas e no canto dos olhos eram marcas de lágrimas. Vendo as bochechas e o pescoço emagrecidos, parecia que ela nem se alimentava direito. Algo pesado como um bloco de chumbo comprimiu-lhe o peito.
Fingindo verificar a agulha do soro, acariciou o dorso da mão descarnada da mãe. A julgar apenas pelos sinais vitais — batimentos, pressão, ondas cerebrais e afins —, não parecia estar em nível crítico. Até que a acusação fosse completamente desfeita, talvez fosse melhor mantê-la ali.
O problema era Zhenya. Não podia deixá-lo ao lado da mãe.
— Venha comigo um instante. Tenho algo a lhe dizer.
Indicou com a cabeça a saída, dirigindo-se a ele, que não teria como ter entendido. Pretendia, antes de tudo, arrastá-lo para fora do quarto e, aproveitando o momento oportuno, fugir. Com policiais espalhados por toda parte, nem mesmo ele poderia se descontrolar à toa. Não era um plano lá muito promissor, mas, por ora, não havia senão apostar tudo naquilo.
Virou-se primeiro. Em seguida, ele se levantou devagar. Tendo de caminhar à frente dele, a distância até a porta parecia mais longa do que nunca. Nem a respiração vinha com folga. Era como se o cheiro dele já enchesse por completo o quarto. O coração também disparava de forma desagradável, pressionando repetidamente o peito. Com a tensão, até as mãos formigavam.
Empurrou a porta para o lado. A porta, que se abrira criando uma fresta por um átimo, no entanto, logo se fechou de volta. Uma mão que se estendera por trás já segurava a porta. O cheiro característico dele fez-se sentir intensamente. Era como sufocar. A sombra dele já engolira Kwon Taekjoo por completo.
A cabeça ficou vazia. O corpo, completamente enrijecido, não conseguia se mexer um milímetro. Não era possível que ele o tivesse reconhecido; de verdade, não era possível. Sentia como se, a qualquer instante, o pescoço fosse quebrado por ele.
De repente, a mão dele entrou em seu bolso. Sem querer, encolheu o ombro. Indiferente, ele tirou o celular e, ligando-o, encostou-o na porta. Era bem diante dos olhos de Kwon Taekjoo. Em seguida, com o próprio celular, ligou para algum lugar. O som de chamada característico chegou também com nitidez ao ouvido de Kwon Taekjoo.
Drrr… drrr…
Logo em seguida, o celular encostado à porta tocou estridente. Na tela, apareceu a mensagem “Número privado”.
Diante da risada que escapou, os cabelos se agitaram de leve. A cabeça soava sem parar alarmes tardios, num relampejar contínuo.
Logo, o rosto dele aproximou-se do ouvido de Kwon Taekjoo.
— A brincadeira de esconde-esconde foi divertida?
Na voz que sussurrava a pergunta transbordava um prazer intenso. Era como se o chão em que pisava desmoronasse, escuro, sob seus pés.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna