↫─☫ Capítulo 07.3
↫─☫ Esconde-esconde – 07.3
Até que a estridente sirene se tornasse um som distante, houve alguém que permaneceu no lugar. Kwon Taekjoo. Preocupado com a mãe, rondava a frente de casa quando ela justamente saiu, e ele acabou seguindo seus passos. Como, uma vez baixado o mandado, as pessoas próximas costumam ser as primeiras a serem vigiadas, ele pretendia observar de longe e ir embora.
Sabia que a mãe, que já não dormia em paz de tanto se preocupar com o filho mesmo em tempos normais, não estaria bem. Mas não imaginava que a veria sendo levada numa maca. Sem ter cometido crime algum, tendo de assistir a tudo de mãos atadas — isso o enfurecia.
Puxou a aba e enterrou o boné ainda mais fundo. Enquanto dava passos rápidos e firmes, os punhos de Kwon Taekjoo ficaram brancos. Havia agora mais um motivo pelo qual precisava revelar a verdade.
Em seguida, procurou uma lan house. Foi até o canto mais afastado e acessou o jogo de tiro de que Yun Jongwoo gostava. Ao fazer login com o ID de Yun Jongwoo, havia uma mensagem à sua espera. Fora enviada por Yun Jongwoo através de outro ID. Assim que verificou o conteúdo, apagou-a permanentemente. Então saiu dali sem que se passassem sequer cinco minutos desde que entrara.
O lugar onde Kwon Taekjoo voltou a aparecer foi certa estação de metrô. Caminhou misturado à multidão de passageiros que desembarcava em massa e depois se desgarrou do fluxo. Andando por uma passagem subterrânea pouco movimentada, surgiram moradores de rua reunidos em duplas ou trios. Ainda que rissem e conversassem, indiferentes ao desconhecido, dava para sentir certo ar de cautela dissimulada. Passou direto por eles e parou diante de um homem deitado sobre folhas de jornal.
No lugar do homem havia uma caixa de Bacchus toda surrada. Tudo o que havia dentro eram algumas moedas. Quando Kwon Taekjoo sacou um maço de notas, como havia sido instruído, o homem se levantou num salto. Então arrancou o dinheiro que ele ia colocar na caixa e contou a quantia às claras.
Logo o homem lhe entregou uma sacola preta na qual estivera até então apoiando a cabeça. Kwon Taekjoo a recebeu em silêncio, e o homem se largou de volta ao chão, como quem já havia terminado o que tinha a fazer.
Abriu a sacola e conferiu primeiro o conteúdo. Havia o celular clandestino que pedira, uma bebida de ginseng vermelho e um bilhete escrito num pedaço rasgado de jornal.
Enquanto caminhava, abriu a tampa da bebida de ginseng. Presa à parte interna da tampa, havia uma memória externa lacrada. Ele a destacou, encaixou-a no slot do celular e conferiu primeiro os dados armazenados. Os materiais de que precisava estavam organizados um a um. Enfiou o celular no bolso e saiu apressado da passagem subterrânea.
Pouco depois, embarcou num ônibus expresso rumo a Taebaek. Antes de começar a agir para valer, havia alguém que precisava ver. Durante o trajeto, revisou novamente os documentos da investigação relacionados a Kim Younghee que estavam na memória.
Kim Younghee, no ano em que completou vinte anos, atravessou para o Japão passando pela China. No ano seguinte, partiu para Nova York, onde permaneceu cerca de dez anos lavando a nacionalidade. Na época em que entrou no país, sua identidade já havia se transformado na de uma perfeita imigrante de segunda geração.
A investigação sobre Kim Younghee, desde o início, foi conduzida por iniciativa da própria inteligência. A central obteve informações de espionagem a respeito dela, e Kwon Taekjoo, como sempre, recebeu de seus superiores a missão de capturá-la. Após rastrear diversos registros de comunicação de Kim Younghee — redes sociais, e-mails e afins —, foi possível confirmar as ordens que ela recebera da Coreia do Norte.
No entanto, resultados de escuta ou interceptação não têm valor como prova. Para comprovar as suspeitas de espionagem de Kim Younghee, era preciso obter provas por meio de instrução direta. Era uma situação em que, mesmo tendo fisgado todos os peixes, não se podia efetuar a prisão por falta de provas cabíveis. Foi então que, por sorte, Kim Younghee se moveu por conta própria. A investigação ganhou impulso repentino, e correram até Busan, surpreendendo-a em flagrante enquanto ela fazia contato com Ri Cheoljin. Tudo transcorreu sem percalços.
Mas terá sido mesmo assim? Não teriam deixado escapar algo importante? Desde o processo de identificar a existência da agente até a investigação e a captura, tudo parecera fácil demais. Em contrapartida, o gosto que ficou não era nada bom. Kim Younghee e o oficial do Exército se suicidaram, e Kwon Taekjoo e Yun Jongwoo, que haviam sido designados à operação de captura, cada um por um motivo diferente, não puderam responder pelo caso até o fim. Por isso, o caso foi encaminhado à promotoria com algumas provas materiais desaparecidas. Quanto mais remoía, mais incômodo e cheio de dúvidas ficava.
Vendo apenas o relatório que o chefe de divisão Im teria submetido em seu lugar, as peças se encaixavam com perfeição. O material que Kim Younghee tentava entregar a Ri Cheoljin era segredo militar, e as pessoas com acesso a ele eram limitadas. O oficial do Exército que se suicidou era um deles, e mantinha uma relação bastante íntima com Kim Younghee. Ele proclamou a própria inocência até o fim, mas o relatório presumia que, por ter uma posição social elevada, não suportara a pressão psicológica e se suicidara. Não havia motivo específico para desconfiar, nem provas. Até os que poderiam refutar haviam desaparecido. A essa altura, chegava a se perguntar se não estaria ele próprio criando um mal-entendido sem fundamento.
O ônibus chegou ao destino em três horas. Ao redor, já havia escurecido. Do local até o endereço que Yun Jongwoo anotara ainda era preciso adentrar bastante. O ônibus, que passava só duas vezes ao dia, já havia encerrado o serviço, então decidiu pegar um táxi.
Só conseguiu partir depois de acertar um valor extra com o motorista, que ficara contrariado ao ver o endereço. Saindo do centro, o táxi rodou por uma estrada de montanha longa e sinuosa. Cada vez que parecia chegar ao topo, descia rodeando exatamente a mesma distância, correndo sem descanso.
Quando o GPS encerrou a navegação, os arredores eram trevas absolutas.
— Pelo endereço, parece ser aqui em algum lugar…
O taxista, com olhar desconfiado, espiava para fora da janela sem parar. E não era para menos: ao redor, não se via nem a luz de uma casa, muito menos um poste. Era um emaranhado de montanhas onde, de forma alguma, parecia haver gente vivendo. Ainda assim, Kwon Taekjoo pagou a tarifa de ida e volta combinada e desceu do carro.
Sem hesitar, seguiu a pé pela estrada de terra escura. O táxi logo deu meia-volta e refez o caminho de onde viera. O ruído do motor se afastou depressa, mas ele não se importou. Tendo ficado preso numa ilha desabitada, parecia ter se acostumado até a um silêncio de morte.
Continuando a caminhar, até a estrada de terra irregular desapareceu, e começou uma trilha montanhosa densa de vegetação. Era um monte sem trilha de caminhada definida. Haveria um cemitério no meio da montanha? Ou teria mesmo vindo ao lugar errado?
Estava rondando a entrada, sem certeza, quando ouviu de algum lugar o som de uma porta de carro se abrindo. Ao se virar, viu um homem descer de um caminhão velho que estava encoberto pela escuridão. Com um colete grande e um chapéu de montanhismo bem enterrado, parecia ser um guarda florestal.
— Ei, você aí. Não pode entrar. A trilha designada…
O homem, que tentava dissuadir Kwon Taekjoo, deteve-se de repente.
— …Hã? Quem é você?
— Há quanto tempo, doutor.
Kwon Taekjoo reconheceu o homem primeiro e o cumprimentou. O homem, surpreso com o reencontro inesperado, logo suavizou a expressão.
— O que o traz aqui? Não veio fazer trilha em plena madrugada, imagino.
— Vim ver o senhor, doutor.
— Doutor coisa nenhuma. Já faz tempo que larguei essa vida.
O doutor Jo também fora, até dois anos atrás, membro do Serviço Nacional de Inteligência. Sua função era fabricar equipamentos de ponta necessários às atividades de espionagem. Por conta do volume de operações que executava, mais do que ninguém, acabou naturalmente cultivando amizade com ele. Mas, desde a aposentadoria dele, nunca mais se encontraram. Em parte porque o trabalho era corrido, mas também porque ele não deixara sequer um contato decente.
— Não vamos ficar aqui; venha logo até minha casa.
A convite do doutor Jo, subiu no caminhão velho. Ao dar a partida, ouviu-se um ruído que lembrava um escarro preso.
— Não me diga que veio de mãos vazias.
— Como assim?
Balançou a sacola que carregava. Lá dentro, as garrafas de bebida se entrechocavam com um som cristalino. O doutor Jo riu satisfeito.
— Como sempre, você tem lá seus modos.
E acrescentou que lhe daria a chance de se hospedar no quarto mais miserável deste país.
O caminhão velho seguiu cambaleante pela escuridão. Passados uns dez minutos, surgiu um pequeno vilarejo. Havia no máximo umas cinco ou seis casas, e, dessas, pareciam ser bem poucas as de fato habitadas. Como já era tarde, não havia nenhuma luz acesa.
O lugar onde o doutor Jo morava ficava na posição mais recôndita mesmo dali. O quintal da frente estava repleto de sucata indefinível. Quem não conhecesse poderia confundir aquilo, não com uma residência, mas com um ferro-velho.
Dentro de casa não era muito diferente. Num canto do cômodo, o edredom estava estendido como estava, e uma mesa de refeição, coberta às pressas depois de uma refeição interrompida, permanecia intacta.
— Sente-se em qualquer lugar.
Pendurou na parede as roupas espalhadas pelo chão, tirando-as do caminho. Nesse meio-tempo, o doutor Jo preparou a mesa da bebida. De tira-gosto havia apenas kimchi com cheiro azedo e atum. Ainda assim, os dois, um servindo o outro, esvaziaram duas garrafas de soju num instante.
— Você não veio só para ver esta cara enrugada, né? Por que apareceu assim, do nada?
— Vou precisar que o senhor me ajude.
Respondeu com sinceridade à pergunta. O doutor Jo riu e acertou em cheio.
— Deixar de lado a rapaziada ágil da ativa e vir procurar este velho… Pretende se mexer sem a central saber?
— Sim. Tenho meus motivos.
— Vou precisar entender que situação é essa. Servidor público não pode viver de qualquer jeito só porque se aposentou.
De fato, não dava para simplesmente pedir ajuda sem explicar toda a história. Contou os acontecimentos do período de forma tão simples quanto possível.
O doutor Jo, que ouvia atentamente, sugeriu outra saída.
— Não seria mais confortável fingir que não sabe de nada e enterrar esse assunto? Se está preocupado com o futuro, pode confrontar o chefe de divisão Im agora mesmo e tentar um acordo. E se você cair em desgraça com os de cima e acabar levando toda e qualquer acusação? Você não desconhece a lógica desse meio. Ainda é jovem, então pense bem sobre qual dos lados é mais vantajoso. Eu achava que você não era do tipo que arriscaria a vida pela realização da justiça.
— Observou bem, mas é que eu também não sou do tipo que fica quieto apanhando. Se houvesse margem para acordo, a central não teria baixado um mandado logo de cara, sem mais nem menos. Agora só resta o jogo do covarde.
— Tsc, tsc. Vai se arrepender quando ficar velho. Quando os ossos estiverem em frangalhos, vai se envergonhar da imprudência de hoje e dar tiros no escuro.
— O senhor diz isso porque não sabe. Sabe pelo que passei, abandonado na Rússia? Levei um dano que vai me marcar a vida inteira.
Sorria de canto, como quem exagera, mas era admirável que ainda estivesse com a sanidade intacta. O doutor Jo lhe serviu mais uma dose.
— Então, você quer que eu me torne seu cúmplice?
— Se eu for pego, direi que agi sozinho. Se precisar, diga que fui eu quem o chantageou.
— Ah, claro.
Riu de canto. O doutor Jo olhou para aquele Kwon Taekjoo como quem observa um pilantra e resmungou.
— Eu que queria só viver de forma comum e tranquila depois de me aposentar. Lá vem semente impura fazer bagunça de novo.
— Muito obrigado.
— Não me agradeça, ainda não decidi. Por ora, vamos pregar o olho.
O doutor Jo foi rastejando até a cama e se estatelou de bruços. Não demorou para que dele viesse um ronco satisfeito.
Kwon Taekjoo também apenas afastou a mesa suja da bebida e encostou as costas no chão. Fazia quanto tempo que não se deitava confortavelmente? Olhando para o teto baixo, foi fechando os olhos aos poucos.
Naquela noite, não se lembra de como adormeceu.
Vagou desnorteado pelos becos de Moscou. Então descobriu um pequeno bar sem letreiro. Ao abrir a porta e entrar, uma fumaça acre de cigarro o recebeu. Fosse por não haver ventilação alguma, a vista estava turva. Abrindo caminho pelo ar carregado, seguiu mais para dentro. A cada passo, olhares insistentes o acompanhavam. Os olhos que examinavam o oriental destemido não eram nada acolhedores.
Parou diante do balcão. O homem que parecia ser o dono serviu-lhe vodca, como de costume, e estendeu o copo. Kwon Taekjoo empurrou-o para o lado e foi direto ao ponto.
— Preciso de um passaporte.
— Por que procurar passaporte aqui? Como pode ver, isto é só um bar.
O homem fez-se de desentendido. Os que observavam os dois riram de forma vulgar. Alguns deles se viraram na direção do balcão, contorcendo os corpos avantajados. Havia até quem estalasse as juntas dos dedos, ameaçador.
— Estou ocupado, então não vamos perder tempo um do outro.
Mesmo diante da advertência de Kwon Taekjoo, o homem escancarou um sorriso escarninho. Em seguida, ouviu-se atrás dele o arrastar de uma cadeira. Ao sentir a nuca ser subitamente comprimida, abaixou a cabeça. O punho de um brutamontes cortou o ar em vão. Num instante, agarrou um banquinho de madeira e o desferiu contra a cabeça dele. O brutamontes soltou um grito e tombou.
Vendo aquilo, os outros homens se lançaram sobre ele sem exceção. Apoiando-se no balcão com as costas, chutou com os dois pés ao mesmo tempo. Dois deles, atingidos no peito, caíram de costas, derrubando a mesa atrás.
Num átimo, o interior do estabelecimento virou um pandemônio. Diante do desenrolar inesperado, um dos homens sacou uma faca. Lambendo os lábios finos, enrolou a mão firme no cabo. Os olhos semicerrados brilhavam com intensidade fora do comum. Depois de espicaçar como quem ia esfaquear a qualquer momento, atacou de surpresa.
Mas não foi longe: estremeceu e parou. Isso porque Kwon Taekjoo sacara uma Colt e mirara diretamente na testa dele. Num instante, todo movimento e ruído dentro do bar cessaram. Só a respiração ofegante do sujeito exaltado ecoava com estardalhaço.
O sujeito, revirando os olhos à espera de uma brecha, brandiu a faca de repente. Sem dificuldade, ele desviou do ataque e puxou o gatilho.
— Aaargh!
Junto com um estampido nítido, a faca caiu. O dono dela segurou a mão direita, de onde um dedo voara, e xingou como se fosse morrer. Kwon Taekjoo apanhou a faca que ele deixara cair e a cravou na vertical sobre o balcão. A faca, incapaz de conter a força aplicada, tremeluziu de um lado a outro. O dono do estabelecimento, antes tão arrogante, indicou a contragosto, com o queixo, a parte de trás do balcão. Ele o seguiu para dentro.
Como imaginava, dentro do cômodo havia um arsenal variado de equipamentos de falsificação. Da falsificação de documentos de identidade, como passaportes, a diversos certificados e crachás, a variedade negociada era realmente enorme. Tirou na hora uma foto para o passaporte e adiantou metade do valor. Combinou pagar o restante ao receber o passaporte. Acrescentando mais algum dinheiro, pediu também uma passagem de trem para Pequim.
Naquela noite, recebeu a passagem de terceira classe do trem para Pequim e o passaporte falsificado. O passaporte, com um nome e dados pessoais desconhecidos, era japonês e, mesmo aos olhos de Kwon Taekjoo, impecável. Enquanto acertava o saldo, o dono do estabelecimento perguntou, dissimulado.
— Ouvi dizer que alguém anda procurando um oriental que quer falsificar passaporte. Esse alguém é você?
— Quem?
— Psikh Bogdanov.
Naquele instante, o coração deu um solavanco. Não era algo totalmente inesperado. Imaginava que Zhenya, nem que fosse para revidar o golpe que sofrera, viria em seu encalço. Ainda assim, diante da notícia de que ele estava de fato se movimentando, seu peito martelava sem controle.
Zhenya previa perfeitamente como Kwon Taekjoo se movimentaria. Se caísse de novo nas mãos dele, aí sim seria difícil preservar a própria vida. Se ele descobrisse ao menos o bar que Kwon Taekjoo usara, ser rastreado seria questão de tempo.
Primeiro, embarcou no trem sob o olhar do dono do estabelecimento. Por fim, o trem fechou todas as portas e deixou a plataforma. O dono do estabelecimento observou a cena até o fim e depois foi embora. Dentro do trem, Kwon Taekjoo, que espreitava a oportunidade a todo instante, abriu a janela na mesma hora e saltou para os trilhos. Graças a não ter tomado velocidade adequada, conseguiu evitar ferimentos.
Sumiu na mesma hora e depois se deslocou para um aeroporto do interior. Então comprou em dinheiro uma passagem aérea para Xangai. O funcionário do controle de saída folheou o passaporte de um lado a outro e carimbou-o sem qualquer objeção. Um suspiro de alívio escapou por si só.
Mesmo depois de embarcar na aeronave, não conseguia baixar a guarda. Nem imagina como foram angustiantes aqueles breves momentos de preparação para a decolagem. Logo a porta de embarque se fechou, e os comissários também seguiram cada um para o seu posto. A aeronave, com todos os preparativos concluídos, começou a recuar lentamente.
Enfim deixava a detestável Rússia.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna