↫─☫ Capítulo 06.5
↫─☫ Koschei, um solitário – 06.5
Abriu os olhos, vagamente. A cabeça parecia pesada, esmagada. O corpo também parecia estar fervendo por dentro. Talvez por causa da febre alta, sua visão estava turva, como se os próprios olhos estivessem derretendo. Sentia a presença de alguém ao lado, mas não tinha forças nem para abrir os olhos e confirmar quem era.
Uma toalha fria foi colocada sobre sua testa. Um gemido involuntário escapou. Por trás das pálpebras fechadas, algo frio parecia balançar continuamente. Estendeu a mão e o agarrou. O ser surpreendido pelo gesto repentino de Kwon Taekjoo se assustou momentaneamente.
— Você está acordando?
Era a voz de Olga. Forçou os olhos a se abrirem. Então, Olga, sentada bem perto da cama, apareceu diante dele. Tinha uma expressão preocupada. O que teria acontecido? Não se lembrava de nada a partir de determinado ponto.
De repente, a unidade especial “Vympel” do FSB havia invadido, e ele havia fugido deles, pulando do penhasco. Logo depois, lembrava-se de uma dor aguda perfurando o corpo. Parecia que, com as últimas forças, havia se refugiado numa caverna qualquer. Por causa do ferimento à bala, sua temperatura corporal caiu rapidamente, e as forças foram esvaindo do corpo.
Assim, por muito tempo, ninguém apareceu. Sozinho, não havia como escapar. O vento soprava cada vez mais forte, e a visão foi ficando cada vez mais turva. Se ninguém procurasse com afinco, seu corpo poderia ficar sem ser recuperado ali mesmo, sem que a respiração se apagasse. Pela primeira vez, encarou a solidão completa. Achava que estava acostumado a ficar sozinho, mas o pensamento de que poderia ser abandonado para sempre daquela forma o deixou desesperado e apavorado. Dizem que quando o corpo enfraquece, o espírito também enfraquece; era exatamente isso. Vendo que estava vivo e bem, parecia que fora encontrado antes de morrer.
Tentou levantar o tronco, mas sentiu uma dor forte no flanco. Ao gemer e hesitar, Olga rapidamente o deitou de volta. Dizendo “vai piorar, fica deitado”.
— Você ficou inconsciente por bastante tempo. Sabia?
Olga confirmou, suspirando. Balançou a cabeça. Depois de perder a consciência, todos os sentidos ficaram embotados, e não conseguia perceber a passagem do tempo. Nem sabia como havia sido trazido até ali. Como as forças de Olga sozinha não seriam suficientes, imaginava que alguém mais havia ajudado.
Olga não explicou tudo em detalhes. Para um paciente física e mentalmente exausto, o repouso absoluto era essencial. Molhou a toalha na água e a torceu bem.
— Você suou muito, e a febre está alta, então acho melhor limpar um pouco. Tudo bem?
Assentiu, dizendo “por favor”. O corpo inteiro estava pegajoso de suor, o que era desagradável. Depois de um ferimento à bala, seria difícil tomar banho por um tempo.
Olga ergueu com cuidado o cobertor que cobria Kwon Taekjoo. Nesse momento, alguém agarrou de repente o braço dela. A toalha que ela segurava também foi arrancada. Era Zhenya.
Fez um gesto com a cabeça para Olga, que o encarava, indicando que saísse. Olga hesitou, com o olhar cheio de preocupação. Se acontecesse mais um confronto entre os dois, desta vez Kwon Taekjoo não sobreviveria. Zhenya a apressou, ainda hesitante.
— Sai.
Era silencioso, mas transmitia bastante pressão. Olga relutantemente se levantou e saiu do quarto. Precavendo-se para qualquer eventualidade, deixou a porta entreaberta.
— …
— …
Os olhares se encontraram. Na prática, era o primeiro encontro depois da briga, mas a hostilidade, a raiva e o ressentimento mútuo já haviam se dissipado. Depois de um caos daqueles, nada disso importava mais. Ainda assim, Kwon Taekjoo parecia bastante exausto. Não tinha energia nem para travar um confronto psicológico com Zhenya.
Zhenya, sem dizer nada, retirou o cobertor. O ar frio grudou de imediato no corpo febril. Estremeceu e gemeu baixinho. Observando-o atentamente, ergueu um dos braços. Sem perceber, retraiu o braço. O olhar se cruzou novamente. Zhenya, que normalmente já teria mudado a expressão, exercendo uma paciência incomum, puxou o braço de volta. Depois, com a toalha úmida, limpou devagar a pele suada.
No início, apenas o toque da toalha já era suficiente para arrepiar, mas aos poucos foi se acostumando. Além disso, Zhenya também se concentrava apenas em limpar, em silêncio. Ao limpar cada dedo com cuidado, chegou até dentro das axilas com atenção. Ficou logo mais leve e satisfeito, mas o fato de ele examinar cada canto do corpo com tanta atenção o deixava constrangido sem motivo. Era só um paciente sendo cuidado, mas parecia que cada detalhe estava sendo exposto.
Molhou a toalha de novo e a colocou no pescoço quente. Diante da diferença de temperatura terrível, franziu o cenho e gemeu. Então, ele esperou um pouco e limpou suavemente o pescoço e o queixo, ainda enfaixados. Também passou a toalha cuidadosamente pela clavícula reta e pelo monte do peito, como se os contornasse.
O corpo, antes pegajoso, ficou rapidamente refrescado. Kwon Taekjoo, como se tivesse esquecido que era Zhenya do outro lado, entregou-se com tranquilidade. Ele retirou também o cobertor que cobria a cintura. Kwon Taekjoo estava completamente nu. O fato de nem sequer uma cueca cobrir seu corpo o fez se encolher discretamente, mas não demonstrou nada. Já tendo visto e feito de tudo um com o outro, não havia motivo para constrangimento.
Sem se incomodar, Zhenya esfregou o baixo-ventre e as coxas de Kwon Taekjoo. Em seguida, limpou cuidadosamente a virilha, o pênis e o períneo, sem deixar nada de fora. Ao sentir o toque da toalha fria, os testículos se contraíram instintivamente. Zhenya, que normalmente faria comentários obscenos zombando, permaneceu em silêncio. Ele apenas se concentrava na tarefa, de boca fechada. Estranho. Parecia que Zhenya não era o homem que Kwon Taekjoo conhecia.
Por fim, Zhenya ergueu o joelho de Kwon Taekjoo, fazendo com que a sola do pé encostasse em seu peito. A perna de Kwon Taekjoo se dobrou em forma de “L”. Esticou o braço fundo e limpou também a parte de trás do joelho e as nádegas, com facilidade.
— …por que você continua tentando fugir? Não é como se eu quisesse te matar.
Depois de um longo silêncio, ele finalmente falou. O tom era como se estivesse, sem perceber, revelando um dilema guardado por muito tempo. Kwon Taekjoo não respondeu de imediato. Apenas fitou o rosto dele. Era estranho ele fazer aquele tipo de pergunta de repente. Chegou a se perguntar se estava realmente perguntando por não saber.
Logo, Zhenya também o encarou. Diante dele, aguardando calmamente a resposta, respondeu com naturalidade.
— Porque não tenho motivo para ficar aqui.
A voz não estava alterada, apenas calma. Desde o início, ele não tinha vindo por vontade própria. A partir desse ponto, aquela ilha era, para Kwon Taekjoo, nada mais do que uma prisão. As diversas tentativas de fuga não eram apenas por causa de Zhenya. Simplesmente não havia nenhum desejo de permanecer ali.
Será que aquela resposta o desagradou? Zhenya parou de mover as mãos e fitou Kwon Taekjoo em silêncio. Não franzia o rosto nem mostrava mudanças bruscas de expressão.
Mesmo assim, não sabia por que sobrepunha aquele rosto ao da criança ferida que tinha visto no sonho. Parecia até que havia cometido algo terrível. O olhar dele, que não se desviava por nem um instante, era incômodo demais. Evitando aquele olhar, baixou as pernas por conta própria.
Com a conversa interrompida, um silêncio pesado se instalou. Também não conversavam muito em outros momentos. Portanto, também não havia razão para o silêncio agora ser tão constrangedor. Mas, quanto mais o silêncio se prolongava, mais desconfortável ficava.
Pouco depois, Zhenya se levantou. Assustou-se sem perceber, mas ele não fez nenhum gesto de ameaça. Apenas colocou a toalha que segurava sobre a mesinha. Prestes a sair, abriu a boca.
— Faz, então.
Dormiu profundamente por um bom tempo e acordou. Devido a tanto gemido, a boca e a garganta estavam completamente secas. Não sabia quanto tempo havia se passado. Parecia que já era noite fechada de novo. Achava ter ouvido, entre sonhos, o som de um contrabaixo, mas ao abrir os olhos o ambiente estava em silêncio.
Saiu da cama e foi para fora. A dor pesada no flanco ainda persistia, mas era mais ou menos suportável. Foi até a cozinha e primeiro molhou a garganta seca. A água doce percorreu rapidamente todo o corpo. A cabeça, um tanto entorpecida, pareceu despertar por completo.
Enquanto recuperava o fôlego, olhou para fora pela janela. O olhar, lançado sem propósito, logo se fixou num ponto. Parecia haver uma luz, e logo notou Zhenya sentado fora da mansão. O que ele estaria fazendo ali, a essa hora tão tarde?
Continuou bebendo água enquanto se aproximava da janela. Depois, observou Zhenya abertamente. Estranhamente, ele não fazia absolutamente nada. Nem sequer uma fogueira comum; apenas permanecia sentado. A direção para onde ele olhava era apenas a vasta planície de neve. Mesmo o corpo assustadoramente grande dele parecia insignificante diante da natureza. Talvez por causa desse contraste, as costas dele, imóveis, chamavam a atenção de forma inexplicável. Um monstro não deveria sentir solidão, mas as costas sombrias dele pareciam particularmente melancólicas.
Quem estava sentindo pena de quem, afinal? Balançou a cabeça e estava prestes a se virar quando ele, de repente, olhou para trás. Sem chance de desviar, os olhares se cruzaram. Será que esse desgraçado tinha olhos na nuca? O coração disparou de susto.
Contrariando as expectativas, Zhenya não fez nada. Apenas observava em silêncio Kwon Taekjoo, que ficara sem graça. Aquele olhar, tão direto e cru, o deixava constrangido sem motivo. Já que não fazia sentido continuar assim parado, virou-se bruscamente.
O destino de Kwon Taekjoo, surpreendentemente, não foi o quarto, mas o closet. Resmungando “o que é isso a essa hora da noite”, vestiu um casaco. Também pegou com cuidado o uísque Macallan que havia encontrado na cozinha e saiu.
Diante da presença na porta, Zhenya virou a cabeça de novo. Ao avistar Kwon Taekjoo, fez uma expressão de surpresa.
— Achou uma coisa boa aí, não foi?
Sacudiu a garrafa diante de Zhenya, que o observava atônito. Depois se sentou ao lado dele. Sem falta, o flanco doeu, arrancando um “ai” involuntário. Zhenya permaneceu em silêncio o tempo todo. Também não parava de observar Kwon Taekjoo com intensidade.
Sem copo, bebeu o Macallan direto da garrafa. Não era bom beber com um ferimento à bala, mas ficar bêbado talvez amenizasse a dor. Depois de se saciar bem, entregou a garrafa a Zhenya. Ele, sem hesitar, colou os lábios no gargalo já umedecido.
Assim, revezaram a garrafa mais algumas vezes. Foi Kwon Taekjoo quem quebrou o gelo da conversa.
— Isso eu realmente quero saber: por que raios você comprou uma ilha dessas?
— Porque é boa. Tranquila, sem nada.
Que ótimo, hein. Kwon Taekjoo fez uma expressão de descrença e arrancou a garrafa das mãos dele. Já sabia disso, mas o gosto dele era realmente peculiar demais.
— Você não tem amigos, tenho certeza.
Diante da pergunta seguinte, Zhenya apenas o fitou sem responder. Kwon Taekjoo balançou a cabeça e concluiu por conta própria.
— Não deve ter mesmo. Não tem como ter.
— E você?
— Não sei qual é a intenção da pergunta. Eu, sim, sou completamente normal. Tenho gente de sobra para chamar quando quero beber. Só que meu trabalho exige que eu esconda muita coisa, e não posso ver todo mundo com frequência.
Aproveitou para acrescentar, de forma sutil.
— E também tenho uma mãe que provavelmente nem consegue dormir de tanta preocupação comigo. Será que ela está bem?
Era para fazê-lo sentir culpa. Mas o rosto de Zhenya não mudou em nada. Era assim mesmo. Estalou a língua e perguntou de novo.
— De qualquer forma, seu desgraçado estranho. Você acha divertido ficar assim sozinho?
— Não é divertido, é apenas familiar.
Não era uma resposta tão melancólica assim, mas de alguma forma não conseguiu debochar como antes. Apenas, o clima estava assim.
Observou por um instante o rosto de Zhenya. Muitas pessoas adorariam que ele ficasse assim, quieto e comportado. Quando resolvia fingir de propósito, sua eloquência era considerável. E que tal a técnica de sedução que exibiu no trem transiberiano?
De repente, estendeu a mão. Zhenya observou com estranheza a mão que se aproximava de repente. Logo depois, o dedo dele tocou de leve a testa de Zhenya, um lugar onde havia se ferido recentemente. O rosto sempre indiferente se abriu num sorriso maldoso.
— Com isso, quantas mais você vai conseguir seduzir?
Fez uma zombaria sutil de que ele deveria tratar o ferimento em vez de deixá-lo assim. A mão, que estava prestes a se retrair, foi agarrada de repente. Em seguida, foi empurrado e caiu de costas na neve. A neve acumulada amorteceu suavemente as costas.
O céu negro da noite preencheu todo o campo de visão. As inúmeras estrelas bordadas nele pareciam prestes a despencar a qualquer momento. Mesmo passando tantos dias ali, era a primeira vez que observava as estrelas.
— Ah…
Enquanto olhava distraidamente, apontou de repente para o céu. Um véu de luz púrpura e azul-escuro ondulava como uma cortina. Era uma aurora boreal. Ficou completamente extasiado diante daquela cena magnífica proporcionada pela natureza vasta. Nenhum museu, em lugar nenhum, poderia superar o céu daquele momento.
Quanto tempo se passou? Zhenya subiu sobre seu corpo, cobrindo seu campo de visão. Os olhares se cruzaram bem de perto. Talvez pela influência do álcool, ou talvez ainda tomado pelo êxtase, não desviou o olhar, apenas o fitou. No olhar azul, refletindo a imagem de Kwon Taekjoo, havia um anseio puro. Não podia ser.
Sem perceber, o rosto de Zhenya se aproximou devagar. Os lábios dele pousaram primeiro no queixo, depois no nariz, e por fim se esmagaram na testa. Sem perceber, fechou e abriu os olhos. Depois de afastar os lábios, ele o observou fixamente. Passou o polegar suavemente pelo pomo de adão. As pestanas tremeram de cócegas. A respiração instável certamente era por causa disso.
Logo, o rosto de Zhenya se aproximou de novo. Sem chance de escapar, no momento em que o hálito dele tocou o filtro nasal, recuperou os sentidos de repente. Parecia que os lábios estavam prestes a se tocar.
Virou a cabeça para o lado. Por causa disso, os lábios de Zhenya acabaram batendo no queixo, sem querer. Zhenya não segurou o rosto de Kwon Taekjoo à força como antes. Apenas fitava em silêncio a lateral daquele rosto indiferente. Sentiu-se incomodado sem motivo. Empurrou o peito dele rapidamente e se levantou.
— Não tenho intenção de fazer isso com você.
Traçou claramente um limite. Depois, saiu do lugar antes que a atmosfera ficasse ainda mais ambígua. Sentiu um olhar penetrante nas costas, mas fingiu não perceber.
Assim que entrou na mansão, puxou o próprio cabelo, se autopunindo. Quase se deixou levar completamente. Racionalizar dizendo que foi por causa da bebida, que talvez tivesse enlouquecido por um instante, não trouxe alívio nenhum. Por mais que seres humanos sejam fortemente influenciados pelo ambiente, aquilo não fazia sentido. Não era ninguém mais, ninguém menos, do que o homem que o havia estuprado, agredido e tentado matar. Devia ter enlouquecido de vez, de tanto tempo abandonado naquele espaço branco e infinito.
Precisava sair dali antes de piorar ainda mais.
↫────☫────↬
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna