↫─☫ Capítulo 06.3
↫─☫ Koschei, um solitário – 06.3
— Bom dia.
Olga apareceu na cozinha bem depois do meio-dia. Parecia ter acabado de acordar, o rosto ainda inchado. Aproximou-se de Kwon Taekjoo como sempre e, apontando com o queixo para o lámen, perguntou o que era aquilo. Então, de repente, apertou o nariz e estremeceu.
— Não pode comer isso, tá podre!
Dizer que uma pessoa que estava comendo tranquilamente estava comendo comida podre. Recuperou o kimchi de volta de Olga, que já tentava jogar tudo fora, tigela e tudo. Depois, de propósito, pegou um pedaço e mastigou com estardalhaço. A cada movimento de mastigação, o rosto de Olga se contorcia.
— Você teve cabeça até para trazer isso junto?
Respondeu sem se importar e bebeu o resto do caldo de uma vez. Olga fez uma expressão de surpresa. Já era estranho o suficiente trazer comida do gosto pessoal durante um sequestro, mas mais absurdo ainda era imaginar que Zhenya tivesse comprado comida para alguém. Será que, sem que ninguém percebesse, algo tinha acontecido com a cabeça dele? Era uma dúvida razoável.
Precisava confirmar isso em algum momento, mas Zhenya ainda não aparecia.
— Aliás, para onde aquele homem foi?
— Como eu vou saber.
Não era como se Zhenya avisasse tudo direitinho, nem havia obrigação de fazê-lo, e Kwon Taekjoo tampouco havia perguntado. Sendo do FSB, imaginava que estava cumprindo algum tipo de serviço oficial. Claro, dessa vez ele tinha, estranhamente, avisado que voltaria em dois dias. Mas não havia necessidade de contar isso.
Diante da reação indiferente, Olga mudou de assunto, dizendo “aliás”.
— Estava mesmo curiosa. Como você descobriu aquilo? Que havia um projeto naquele quarto.
Os olhos dela brilhavam, prontos para insistir se não recebesse uma resposta adequada. Sem alternativa, explicou que havia combinado a história enigmática que Zhenya soltara com várias evidências circunstanciais.
— Koschei, é…
Olga repetiu a palavra várias vezes, tocando o queixo. Então deu um sorriso estranho. A forma como ela ria, como se tivesse algum plano, lembrava o irmão. Deixou passar e se levantou. Foi até a pia lavar a louça.
— Não tem nada que queira me perguntar?
— Nada.
— O tipo que não tem interesse em mulheres?
— Fico curioso justamente por você dizer isso. Por que as mulheres perguntam esse tipo de coisa?
Virou-se para Olga com uma expressão incompreensível. Mesmo diante da pergunta, ela sorriu, balançando-se de leve. Como aconteceu com Louise antes, a psicologia das mulheres sempre era difícil de entender.
Logo depois, Olga tirou algo da geladeira e levou até a mesa. Nesse meio-tempo, Kwon Taekjoo também terminou de lavar a louça. Enquanto secava as mãos para sair, Olga o chamou.
— Não quer fruta?
Nas mãos de Olga, uma maçã estava sendo cortada em fatias. Do jeito que ela descascava, mal sobraria polpa. Soltando um suspiro profundo, arrancou a faquinha das mãos dela. Preferia fazer ele mesmo; se Olga se ferisse, seria ainda mais trabalhoso resolver depois.
Manuseou a faca com habilidade. A maçã foi descascada com uma casca fina e cortada em pedaços uniformes. Olga, que observava com atenção, foi pegando avidamente cada pedaço colocado na tigela. Disse que iam comer juntos, mas colocou tudo direto na própria boca. Logo depois, ficou fitando fixamente a tigela vazia.
Descascou mais uma maçã. Dessa vez também, mal era colocada na tigela e já era devorada com rapidez. Parecia que aquilo substituiria o café da manhã.
Já que estava mexendo mesmo, descascou todas as maçãs que Olga havia comprado. Só depois de a barriga dela estar cheia é que ela perguntou por que ele não estava comendo. Sem graça, deu um sorriso e mordeu um pedaço da maçã já amarelada. Fazia tempo desde a última vez que tinha comido fruta.
Enquanto guardava o que sobrou, ouviu-se de repente o som das hélices. Parecia que Zhenya havia voltado. O ruído característico se intensificou e depois diminuiu, e logo ele desceu do terraço. Achava que ele voltaria apenas no fim da tarde, mas chegou meio dia mais cedo. Ao entrar na cozinha, seus dois braços estavam carregados de coisas.
— O que você está fazendo aqui?
Foi a primeira coisa que disse ao ver a irmã. Ela, já acostumada a esse tratamento, não pareceu nem um pouco magoada. Ao contrário, perguntou displicentemente onde ele tinha ido, afinal.
O olhar de Zhenya, que estava fixo em Olga, se deslocou para Kwon Taekjoo. Parecia exigir uma explicação de por que ela estava ali, mas Kwon Taekjoo também não fazia ideia. Apenas balançou a cabeça e deu de ombros.
— Eu vou terminar de arrumar minhas coisas.
Percebendo que poderia ouvir uma reclamação, Olga fugiu discretamente. Zhenya observava a irmã com desagrado. Depois que ela subiu para o segundo andar, ele virou de novo a cabeça para fitar Kwon Taekjoo. Mastigando ruidosamente uma maçã, perguntou “o quê”.
— Quando ela chegou?
Irmão ou irmã, ambos tratavam as pessoas como objetos. Balançando a cabeça, respondeu que ela havia aparecido de repente na tarde do dia anterior, e que ao que parecia era para se recuperar de algo. Depois, pegou a faca, a tigela e o garfo e foi até a pia.
Enquanto arrumava, Zhenya ferveu água. Pareceu despejá-la em algo, e logo um cheiro familiar se espalhou. Virou a cabeça, intrigado.
O olhar recaiu sobre um bibimbap instantâneo, tipo os que geralmente eram fornecidos como ração militar. Depois de olhar demoradamente para as instruções em russo, misturou o arroz aquecido. Em seguida, encheu bem a colher e a estendeu para Kwon Taekjoo.
— Já comi.
— Ah, é?
Assentiu com a cabeça. Mesmo assim, ele não retirou a mão. Ao contrário, a colher se enfiou com força entre os lábios.
Esse desgraçado, será que ficou surdo?
— Falei que já comi.
Ele assentiu com tranquilidade. Então, aproveitando a brecha em que a boca de Kwon Taekjoo se abriu, enfiou a colher. A bochecha rapidamente inchou. Kwon Taekjoo olhou, atordoado, para a colher vazia que saía de sua boca. O que era aquilo, afinal?
Primeiro, mastigou o arroz que já estava na boca e protestou.
— Falei que já comi, desgraçado.
— Não coma qualquer coisa por aí.
O cenho franziu instintivamente. Será que era por causa das poucas maçãs que ele tinha comido? Era um absurdo. No momento em que ia contra-argumentar, outra colherada cheia de bibimbap penetrou fundo.
Depois de fazer dois cafés da manhã seguidos, o estômago ficou pesado. Sentia que, com qualquer movimento, tudo voltaria pela garganta, então passou a tarde inteira largado. Não fazer nada e apenas esperar a digestão parecia um luxo, mas para Kwon Taekjoo era pura tortura. Pensou que talvez fosse uma nova forma de suplício.
O que aquele homem tinha de insatisfação, afinal? A ponto de até enrijecer o rosto assim. Mesmo que Kwon Taekjoo tivesse comido algo que realmente não devesse, não era da conta dele. Não comer qualquer coisa por aí — que tipo de coisa era essa para se dizer a uma pessoa? Será que, por tê-lo dominado pela força, o considerava seu cachorro de estimação?
O humor caiu drasticamente. Achava que finalmente entendia por que se sentia desconfortável durante todo o tempo em que estava ali. Era porque, repetidas vezes, era controlado por Zhenya. Não havia direito de escolha sobre o que comer, o que fazer, onde e como dormir. Até para ir ao banheiro, a vigilância dele o acompanhava. Além disso, sua cintura carregava uma tatuagem que significava subordinação.
— Ha, ha, ha…
Ao rever sua própria situação, escapou uma risada amarga. Por mais que negasse, não era diferente de um animal domesticado. Pensando bem, o sexo com ele também seguia o mesmo contexto. Quanto mais resistia com violência, mais Zhenya se divertia. Nos olhos dele havia algo parecido com o prazer de domar um animal selvagem, quebrando seu espírito.
— O que você está fazendo sozinho?
De repente, a voz de Olga surgiu. Nem percebeu ela se aproximando, tão absorto estava em pensamentos.
— Como parece que estou fazendo?
— Brincando de cadáver?
— Errado. Estou brincando de porco engaiolado.
Respondeu com indiferença enquanto se sentava. Sem que a convidasse, ela naturalmente ocupou o lugar ao lado.
— Você deve estar muito entediado, não? Como você passava o tempo normalmente?
— Deitado, sentado, comendo, tomando banho, dormindo…
— …vou te emprestar meu livro. Leia uma vez. É uma obra-prima incomparável.
O livro entregue com expressão de pena era claramente um romance. Melhor seria ler as escrituras budistas. Folheou as páginas com desânimo.
— O protagonista aqui. Um pouco caipira, sem dinheiro, sem saber se divertir, mas tem um sonho desesperado desde criança, não é? E acredita que, confiando na própria convicção e se esforçando, vai realizar esse sonho mesmo no meio da lama da realidade. É sincero e positivo, o que é ao mesmo tempo sua qualidade e defeito, o que vai fazê-lo levar rasteiras. Vai se apaixonar de forma incondicional com o homem em algum encontro casual, um encontro destinado. Depois vai descobrir que esse homem é um atleta famoso, ou um advogado bem-sucedido, ou herdeiro de uma família rica. Um workaholic que nunca teve interesse por mulheres, mas que fica encantado com o jeito brilhante e puro da protagonista e a ama para sempre. Com o apoio dele, o sonho da protagonista também se realiza facilmente. Estou errado?
Os olhos de Olga se arregalaram.
— Você já leu isso?
— Nem precisei ler, parece que já li.
Devolveu o livro com expressão de desagrado. Olga disse que era justamente o previsível que era interessante, e mergulhou no mundo da leitura. Estava quase inteiramente absorta no livro.
— Não deve ser o caso, mas… aquele desgraçado gosta de criar animais?
Olga não respondeu de imediato. Parecia não ter ouvido direito, ocupada com a leitura. A resposta que veio, com atraso, também estava fora de contexto.
— Claro que gosta. Pássaro, cachorro, gato, gosta de tudo.
— …não. Não você.
— Não eu, quem mais…
Olga ergueu a cabeça bruscamente. Os olhos estavam cheios de espanto.
— Não me diga que é aquele homem? Está fazendo essa pergunta a sério?
— Por isso eu já disse que “não deve ser o caso”.
— Se já sabe, por que pergunta? Nunca vi aquele homem cuidar nem de uma planta na vida. Já é uma sorte se ele não bate num pobre animal quando está entediado.
Talvez os seres humanos nunca fujam do esperado. Não fazia sentido aquele que não tinha interesse nem por uma planta, quanto mais por um animal, de repente ter se interessado em criar um ser humano. E por que justamente ele, Kwon Taekjoo? Não parecia ser apenas por diversão — não seria irritante até para o próprio Zhenya?
— …é um tigre, ele disse.
Olga murmurou, fitando algo atrás do ombro de Kwon Taekjoo. Ao virar a cabeça, viu Zhenya se aproximando pelo corredor.
Ele parou bem diante de Kwon Taekjoo. Nem sequer olhou para Olga, que estava tensa, temendo ser expulsa. Um olhar demasiadamente óbvio pousou sobre ele. Um pressentimento ruim surgiu.
— Por quê…
Assim que abriu a boca, a mão dele se aproximou. Sem chance de escapar, teve o braço agarrado. Sem cerimônia, foi levantado e arrastado para algum lugar. Era em direção ao quarto. Atrás dele, Olga observava os dois com os olhos arregalados. Será que ele iria direto para a cama assim? Não era como se ele escolhesse hora e lugar, mas mesmo assim, com a irmã ali assistindo…
Manteve uma esperança fraca, mas ele, deliberadamente, começou a desabotoar a camisa de Kwon Taekjoo. Praticamente arrancando. Em pânico, Kwon Taekjoo curvou o tronco de repente, alegando dor.
— Ai.
— …o quê.
Só então ele parou e se virou. Parecia irritado com a interrupção repentina. Fingiu gemer de propósito.
— Dói a barriga. Deve ter dado um mal-estar porque você me fez comer à força.
A mão que segurava seu pulso de repente relaxou. Aproveitando a brecha, correu até o banheiro. Assim que entrou, trancou a porta com firmeza. Fechou a tampa do vaso sanitário e se sentou sobre ela. Um suspiro escapou involuntariamente.
Tinha evitado a crise imediata, mas não fazia ideia do que fazer dali para frente. Não podia inventar dor de barriga todos os dias. Ele não era do tipo que acreditaria facilmente naquilo, e, pelo tamanho da mala de Olga, ela também não parecia disposta a voltar tão cedo.
Na vida a sós na ilha com Zhenya, um elemento estranho havia surgido, e ele desejava que alguém, quem quer que fosse, aparecesse. Mas não era isso que ele desejava. A situação parecia estar se agravando cada vez mais. Bagunçou o cabelo com força. De novo, um suspiro profundo escapou.
Acordou de repente, sobressaltado, enquanto dormia. Assustou-se por causa da silhueta que cobria seu corpo inteiro. Não sabia desde quando, mas Zhenya estava parado à cabeceira. Levantou o tronco, dizendo “o quê”. Sem perceber, o chão que tocava era duro. Talvez, com o pretexto da dor de barriga, indo e vindo do banheiro, tivesse adormecido no sofá.
Esfregou lentamente o braço arrepiado e se sentou ereto. Por ter mantido o corpo curvado, o pescoço estava rígido. Girou a cabeça para os lados, ao mesmo tempo se alongando e evitando o olhar dele.
— Por que está aqui assim?
— Ia e vinha do banheiro, e acabei dormindo sem perceber.
Respondeu de forma constrangida. Um olhar direto se cravou na lateral do rosto. Sempre que ele olhava assim, sentia-se dissecado inteiro.
— Isso tudo é por sua causa, desgraçado.
— Já está melhor?
Estava resmungando, mas de repente encarou Zhenya. Havia uma expressão boba no rosto. Nunca imaginou que ele faria uma pergunta tão humana assim. Será que ele tinha comido algo estragado? Assentiu com desconfiança, e de repente a mão dele se estendeu. Encolheu-se reflexivamente, afastando o corpo. A mão que se aproximava também parou, hesitante.
Ele olhou lentamente, alternando entre a própria mão e o rosto de Kwon Taekjoo. Os olhos que se moviam sem som apertavam a garganta. Quanto mais olhava, mais lembrava um crocodilo.
Depois de ficar em silêncio por um tempo, ele torceu os lábios.
— Você é mesmo completamente desprovido de qualquer graça, não?
— Nunca pedi para ser considerado gracioso.
— Um animal que perde sua graça acaba sendo cozido e comido.
O jeito zombeteiro claramente o considerava um animal de estimação. As palavras de que morreria se não fosse “fofo” provavelmente não eram uma bravata vazia. Vindo dele, e não de qualquer outra pessoa, aquela morte tinha grande probabilidade de se concretizar. Ainda assim, mais do que medo, sentia era absurdo. Como uma pessoa nasce e cresce para desenvolver aquele tipo de mentalidade?
Ele estendeu a mão de novo. No instante em que a mão estava prestes a tocar seu rosto, virou a cabeça para desviar.
— Não faz isso.
O cenho de Zhenya se franziu. No rosto sem cor alguma, ficava evidente o desagrado. Encarou-o com desprezo. Os olhares afiados se cruzaram tensos. Cortando aquela tensão momentânea, ele de repente agarrou seu queixo.
— Falei para não fazer.
Empurrou aquela mão também, irritado. Logo depois, foi agarrado brutalmente pelo colarinho e deitado de volta no sofá. Debateu-se com todos os membros para escapar dele. Vários movimentos furiosos se sucederam. Empurrou desesperadamente o queixo dele, chutou seu abdômen. Quanto mais fazia isso, mais o rosto dele se enrijecia. A força bruta também aumentava, como se fosse esmagar o corpo todo.
Levantou a camisa dele sem cerimônia. A abertura se abriu à força. Os botões pareciam prestes a arrebentar a qualquer momento. Aproveitando o abdômen exposto, ele cravou os dentes de repente.
— Não…!
Chutou as duas pernas com repugnância. Pela manhã, logo cedo, um sexo matinal estava prestes a acontecer. E, ainda por cima, na sala de estar completamente aberta.
Justo naquele momento, sentiu um movimento indesejado vindo do segundo andar. Parecia que Olga tinha acordado. Estremeceu e olhou para Zhenya. Zhenya também ergueu a cabeça e encarou Kwon Taekjoo. Mas, mesmo assim, provocativamente, lambeu longamente desde seu baixo-ventre até o lado direito da cintura. O baixo-ventre vibrou. A ansiedade se intensificou ao extremo. Não podia deixar mostrar aquela cena imunda.
Com medo de que o som escapasse, cerrou os dentes e o empurrou com força. Mas ele resistia teimosamente. Enfiou a mão por baixo da camisa e agarrou o peito com força, como se fosse arrebentá-lo. Ao se contorcer, esfregou o polegar de leve sobre o mamilo. Os olhos se arregalaram de choque.
— Bom dia?
Olga, que estava cumprimentando, parou de repente. Havia acabado de deparar com os dois enroscados no pequeno sofá. Perplexa, deu um “ah” e logo saiu correndo do lugar.
Finalmente aconteceu. Diante daquela vergonha, cobriu os olhos com o braço. Os dentes se cerraram involuntariamente. Zhenya, observando aquilo com atenção, de repente torceu seu mamilo.
— Ai!
Gritou de nervoso, encarando-o com raiva. O semblante dele havia ficado ainda mais frio.
— É melhor você não se comportar mal.
Não era a primeira vez que era rejeitado, mas dessa vez parecia que ele realmente havia se ofendido de verdade.
Pulou até a refeição e limpou o quarto vazio. Se não pudesse escapar daquela ilha imediatamente, parecia necessário arranjar pelo menos um quarto próprio. Queria evitar a todo custo uma situação como a daquela manhã de novo. E também, evitar cair no hábito de ocupar a cama de Zhenya.
A mansão tinha muitos quartos sobrando, mas roupa de cama era escassa. Sem cobertor, poderia acabar morrendo de hipotermia sem ninguém perceber. Sem alternativa, decidiu trazer o que usava do quarto de Zhenya.
Zhenya estava sentado na cadeira do quarto, descansando. Com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados. Andou com cuidado para não acordá-lo. Mesmo assim, ele abriu os olhos e seguiu Kwon Taekjoo com o olhar. Ignorando aquele olhar silencioso e cru, pegou o travesseiro. Tirou também um cobertor extra do armário.
— O que está fazendo?
— Já tem gente vendo, não posso continuar grudado aqui.
Abriu a gaveta e pegou algumas roupas íntimas. Todas ainda embaladas, novas. Foi ao banheiro pegar sua própria escova de dentes e lâmina de barbear. Ocupado com os afazeres, deixou o travesseiro que carregava sob o braço cair. Ao se abaixar naturalmente para pegá-lo, Zhenya, que já havia se aproximado sem que percebesse, pisou nele com o sapato. Ergueu a cabeça devagar. O rosto de Zhenya estava tão rígido quanto a expressão furiosa de Kwon Taekjoo.
— Quem te deu permissão.
— Óbvio que é por conta própria. Sai da frente.
Rosnou baixo. A emoção contida por dentro parecia prestes a explodir a qualquer momento.
— Não fique se achando só porque te dei um pouco de liberdade. Precisa entender sua posição.
Cerrou os dentes com força. Os punhos também se fecharam. Normalmente, teria apenas suportado em silêncio. Sabia por experiência que não fazia bem provocar Zhenya. Mas dessa vez não conseguia deixar passar assim. Havia um limite para desrespeitar alguém.
Endireitou o tronco e deu um tapa no ombro de Zhenya.
— Se controla.
O olhar de Zhenya se voltou para o próprio ombro, que fora empurrado. Ao virar a cabeça de novo para encarar Kwon Taekjoo, os olhos se afiavam de forma cortante.
Até então, as coisas tinham corrido sem grandes atritos. Havia se resignado por conta própria, por questão de sobrevivência, e por isso suportava tudo, não importava o que sofresse. Em quase todas as situações, o controle estava nas mãos de Zhenya, e a própria sobrevivência de Kwon Taekjoo dependia absolutamente das mãos dele. Ele era o único canal de conexão com o mundo exterior e o único ser que o fazia perceber que ainda estava vivo.
E então, uma nova pessoa apareceu. Só isso já havia mudado muitas coisas. Ao menos para Kwon Taekjoo. Com a aparição de Olga, ele finalmente despertou. Passou a enxergar claramente sua própria negligência, ao se adaptar e transigir com Zhenya, buscando conforto. Olhando de novo para o relacionamento com Zhenya, agora, era algo indefinível, profundamente disforme. Se continuasse sendo arrastado de qualquer jeito, as coisas se tornariam incontroláveis.
Enquanto organizava esses pensamentos, Zhenya se aproximou rapidamente. Reflexivamente, recuou e jogou o cobertor que segurava. O cobertor esvoaçou, bloqueando a visão de Zhenya. Aproveitando o momento em que ele hesitava, desferiu um soco. Mas o ataque decisivo foi anulado quando ele ergueu o braço para bloquear. A mão fechada em punho foi agarrada e torcida na direção contrária. A força brutal parecia prestes a torcer a articulação. Mesmo com todo motivo para desistir, Kwon Taekjoo girou o corpo pela metade e chutou a canela de Zhenya. Diante do contra-ataque inesperado, Zhenya dobrou o joelho e caiu. Kwon Taekjoo, que ainda estava agarrado por ele, também caiu junto.
— …ugh.
A nuca bateu primeiro no chão, e a cabeça ressoou profundamente. Se não houvesse tapete, teria sofrido uma concussão. Os pulmões também foram esmagados, dificultando a respiração. Queria se levantar, mas, preso sob Zhenya, não conseguia se mexer. Percebeu então que talvez ele tivesse caído de propósito.
No instante seguinte, Zhenya agarrou sem mais delongas a cintura da calça. Enquanto tentava puxá-la para baixo, agarrou-a com força e o empurrou repetidamente. Mas ele não cedia. Por um tempo, uma luta corporal silenciosa se estendeu entre os dois. Respirações ásperas e movimentos afiados se sucediam sem fim. O que marcou o fim foi uma batida inesperada na porta.
Por um instante, os movimentos dos dois cessaram. Mas, também por um instante apenas, Zhenya puxou o tornozelo de Kwon Taekjoo, que havia hesitado. Depois agarrou sua camisa como se fosse rasgá-la. Kwon Taekjoo empurrou o queixo dele às pressas. Segurou também a camisa com uma mão, resistindo. Os olhares — o dele, atordoado, e o de Zhenya, obcecado — se cruzaram violentamente.
Logo, do lado de fora, veio a voz de Olga: “vamos conversar”. Aproveitando aquele momento, pegou o travesseiro caído no chão e golpeou o rosto de Zhenya com ele. Atingido de surpresa em cheio no rosto, Zhenya ficou parado, com a cabeça meio virada. Não deixava escapar nem uma respiração.
Aproveitando aquele intervalo, recuou e se libertou dele. Depois, saiu apressado do quarto.
— …
Zhenya permaneceu sem se mover por um bom tempo. Diante de seus olhos, parecia se espalhar um fogo vermelho vivo. Sentiu também um aperto repentino no maxilar. Uma sensação como se todos os fluidos corporais estivessem evaporando de uma vez. Por que estava tão furioso de repente? Nem ele mesmo sabia.
Levantou-se. Não agiu com pressa. Ainda assim, dos movimentos lentos emanava uma pressão considerável. Até o calor ausente naquele rosto pálido desapareceu por completo.
Foi atrás de Kwon Taekjoo, mas Olga bloqueou o caminho de repente.
— Sai da frente.
Ordenou com uma voz sem nenhuma inflexão. Diante da resistência de Olga, que balançava a cabeça, empurrou seu ombro com brutalidade. Caindo sem forças, Olga se levantou de novo e correu de volta para diante de Zhenya. Um olhar gelado pousou sobre ela novamente. Encarando aqueles olhos que se agitavam de forma anormal, até mesmo Olga sentiu os ombros se encolherem.
— Preciso falar com você.
Zhenya ignorou o pedido e passou por Olga. Ela também não o segurou mais. Apenas gritou para as costas indiferentes dele.
— O irmão Vadim veio aqui em casa. A conversa dele com o papai não estava nada boa. Dessa vez você pode se machucar de verdade. Então para de ser teimoso e simplesmente entrega o que eles querem!
O verdadeiro propósito daquela visita inesperada estava ali. Mas a preocupação de Olga não alcançou Zhenya. Ele subiu as escadas rapidamente, como se não tivesse ouvido nada.
— Não está cansado de ficar sempre isolado sozinho?
Fez um último apelo. De novo, nenhuma resposta veio. A figura de Zhenya logo desapareceu do campo de visão.
Falar com uma parede não seria tão desesperador quanto aquilo. Olga deixou os ombros caírem e soltou um suspiro sem esperança.
Bam. A porta fechada sofreu um impacto forte o suficiente para curvar-se. Mas o interior da porta permaneceu quieto. Bateu de novo na porta inocente. O punho, cheio de raiva, golpeava a porta, mas a voz que veio em seguida foi baixa e seca.
— Abre a porta.
Do lado de dentro, ainda nenhum sinal de movimento. O rosto de Zhenya esfriou ainda mais. Ergueu a perna e chutou a porta sem hesitação.
Com um estrondo violento, a porta se partiu ao meio. Empurrou de leve a porta esfarrapada e entrou. Kwon Taekjoo, que estava de pé junto à janela, franziu o rosto de espanto. Aproximou-se rapidamente e segurou seu queixo com força.
— …ugh.
De repente, os dois pés se ergueram do chão. O queixo agarrado por Zhenya latejava como se fosse esmagado. Zhenya o segurava suspenso com um braço, olhando fixamente para ele. Aquele olhar era desprovido de emoção, como se estivesse apreciando um objeto, e não uma pessoa. O rosto de Kwon Taekjoo se avermelhou de repente. Os olhos também se fecharam com força.
Parecia que finalmente ia morrer nas mãos dele. O pé, debatendo-se por sobrevivência, atingiu o abdômen de Zhenya. Imediatamente, ele arremessou Kwon Taekjoo contra a parede oposta.
Bateu com força nas costas e na nuca contra a parede e caiu sobre uma mesinha. Gemeu, se contorcendo com o corpo dolorido insuportavelmente. Enquanto isso, Zhenya, verificando a parte atingida pelo chute, jogou a cabeça para trás e respirou fundo. Ao se aproximar de novo, seus olhos exibiam uma raiva amarelada. Já havia ultrapassado o ponto de ebulição.
Apressadamente, ergueu o tronco. Então jogou um banquinho de madeira que rolava no chão. Zhenya ergueu o braço e o bloqueou com facilidade. Ao colidir com o braço dele, o banquinho velho se estilhaçou em pedaços.
Sacudiu do braço os pedaços de madeira e serragem que haviam grudado. Logo depois, os olhares dos dois se chocaram. O olhar que observava Kwon Taekjoo com calma não parecia nem um pouco humano. Era mais próximo de um predador prestes a caçar.
Estremeceu sem perceber, e ele avançou de uma só vez. Sem chance de bloquear, teve o rosto inteiro agarrado. Foi empurrado, nuca primeiro, contra a parede. Enquanto ainda estava tonto com o impacto, o pescoço foi apertado. Em seguida, seu corpo foi erguido. Por instinto de sobrevivência, sacudiu os punhos, mas foi inútil.
Quando Zhenya ergueu o braço, os dois pés de Kwon Taekjoo se afastaram do chão. Sem lugar para pisar, o corpo se debatia desesperadamente para sobreviver. Ele observava com atenção o rosto contorcido de dor de Kwon Taekjoo. Nos olhos azuis, não havia nenhum traço de piedade ou hesitação.
— Um cachorro que ergue os dentes contra o dono não precisa ser mantido vivo.
A força na ponta dos dedos que apertavam o pescoço aumentava cada vez mais. A pele, comprimida dolorosamente, parecia prestes a ser perfurada pelos dedos dele. A pressão ocular subia. Saliva escorria dos lábios que ofegavam com dificuldade.
Estar com Zhenya significava ter a própria vida testada a cada instante. Mesmo agindo com uma calma infinita a maior parte do tempo, quando algo o desagradava, ele mudava a expressão completamente e atacava.
Estava cansado. Cansado de continuar naquele equilíbrio precário. Cansado de sobreviver agradando o humor de alguém num lugar sem esperança alguma. Se de qualquer forma não podia escapar daquela ilha, era uma vida equivalente à morte. Não, talvez morrer fosse até melhor.
Abriu os olhos com dificuldade para olhar Zhenya. Na testa lisa, uma veia parecia prestes a estourar. Apesar do cenho franzido pela dor que o atingia a cada instante, continuava a fitar Zhenya com teimosia. Por mais que ele apertasse o pescoço com força, apenas as pálpebras tremiam intermitentemente; não fechava os olhos.
Aquele olhar persistente talvez fosse incômodo demais. O semblante de Zhenya se contorceu. Kwon Taekjoo, olhando para ele de cima a baixo sem descanso, murmurou entrecortadamente.
— Sim, mata logo. Já não aguento mais fazer essas gracinhas debaixo de você.
O rosto até então inexpressivo se encheu de desagrado. Ele apertou o pescoço de Kwon Taekjoo sem qualquer piedade. A força era tão intensa que parecia esmagar todos os ossos do pescoço. A cabeça se inclinou involuntariamente para trás.
Kwon Taekjoo, mesmo com o pescoço completamente exposto, não se debatia mais para sobreviver. Apenas relaxava todo o corpo, contemplando o rosto brutalmente contorcido de Zhenya. Zhenya franziu o nariz com força. Nem percebia por que estava tão furioso, absorto em punir Kwon Taekjoo.
Kwon Taekjoo, já sem fôlego suficiente, ofegando, deu um leve sorriso. Ao aceitar a morte, aquele que sempre lhe parecera um fantasma já não lhe causava nada. Ao contrário, sentiu até certa compaixão por aquele homem sempre tão extremo.
— …que pena de você também.
Murmurou com uma voz tão fraca quanto sua respiração já quase inexistente. Talvez fosse ilusão, mas por um instante pareceu que a força nas mãos de Zhenya, que apertavam seu pescoço, diminuiu. Mas foi apenas um instante. Logo depois, Kwon Taekjoo perdeu a consciência e ficou mole. Os olhos negros que refletiam Zhenya também se fecharam por trás das pálpebras que caíam pesadamente. O pulso de Kwon Taekjoo, que batia violentamente, deixou de ser percebido.
Relaxou a força das mãos. Então, o corpo de Kwon Taekjoo, que estava suspenso no ar, caiu ao chão. Ao abrir a mão úmida, viu que a ponta dos dedos estava manchada de sangue. Havia grudado do pescoço de Kwon Taekjoo. Zhenya olhou alternadamente, atônito, para Kwon Taekjoo caído a seus pés e para a própria mão.
Havia acabado com quem ousara desafiá-lo sem conhecer seu lugar, mas por que se sentia tão deprimido? Não havia mais ninguém para incomodá-lo. Então por quê. O coração, que normalmente ele nem sentia bater, palpitava rápido e pesadamente.
Fitou por um tempo Kwon Taekjoo, imóvel, e de repente pegou seu braço. Mas só o braço se ergueu; o resto do corpo permaneceu mole. Segurou o colarinho dele sem cerimônia e o sacudiu repetidamente. Foi um gesto atordoado. Os olhos também tremiam sem foco.
Diante da ausência total de resposta de Kwon Taekjoo, deu um tapa em seu rosto. Depois de duas vezes, a bochecha ficou vermelha e inchada. Talvez tivesse rasgado o interior da boca, pois um pouco de sangue se acumulou no canto dos lábios. Mesmo assim, nenhuma reação vital digna de nota.
Puxou o rosto de Kwon Taekjoo bruscamente. Depois, encostou a orelha sucessivamente no nariz e na boca dele, verificando a respiração. Sentiu um sopro de vida, mas era difícil distinguir se era dele mesmo ou de Zhenya.
Deitou Kwon Taekjoo de volta no chão e rasgou sua camisa. Encostou a orelha no peito nu, ouvindo o batimento cardíaco. Sob a pele, uma pulsação tênue era perceptível. Mas era tão fraca que parecia prestes a se apagar a qualquer momento.
Segurou o queixo de Kwon Taekjoo e o abriu. Enfiou os dedos, pressionou a língua, e garantiu a passagem de ar. Naquele momento, algo escorregou pelo rosto e caiu sobre a testa de Kwon Taekjoo. Era suor.
Os movimentos de Zhenya pararam de repente. Que assunto tão urgente seria aquele para tê-lo deixado encharcado de suor em tão pouco tempo? Seus olhos vazios apenas permaneciam abertos, sem captar nada. Parecia ter sofrido um choque considerável.
Levantou-se. Caminhou cambaleante até a porta parcialmente destruída. Então, de repente, começou a jogar longe os fragmentos e utensílios espalhados ao redor. O quarto que Kwon Taekjoo havia se esforçado para limpar rapidamente virou uma ruína. Mesmo assim, a raiva não se dissipava; os ombros tremiam enquanto ele respirava pesadamente.
Ergueu a cabeça por um instante e tentou regular a respiração. Uma sensação de desconexão inexplicável se espalhou por todo o corpo. Era desconfortável. O coração continuava disparado sem motivo. Por quê. Por que, afinal. O que o incomodava tanto assim?
Saiu correndo do lugar. Diante do movimento estranho, Olga, que se aproximava correndo, olhou para Zhenya com espanto. Perguntou o que havia acontecido, mas ele, sem responder, subiu as escadas.
Era uma expressão que ela nunca tinha visto antes. Com um mau pressentimento, entrou apressada pela porta quebrada. Kwon Taekjoo estava caído desamparado no quarto em completo caos.
Primeiro verificou a respiração. Levantou também as pálpebras fechadas para examinar as pupilas. Felizmente, ainda respirava. No pescoço, marcado claramente pelas mãos, havia sangue. Não era muito, mas parecia necessário estancar primeiro.
Enquanto ia buscar o kit de primeiros socorros, ouviu-se um barulho de hélice fora de hora. O helicóptero decolou e rapidamente se afastou da mansão.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna