Capítulo 04
🩸 Blood Poker 04
— Ah, seu filho da puta.
Jungyeol praguejou assim que tocou os próprios lábios com a língua. Ele tinha se aproximado para um beijo só para sentir o gosto de sangue, mas seus lábios acabaram quase arrancados. Se fosse uma pessoa comum, a carne estaria em retalhos, mas nos lábios de Jungyeol, por ser um Esper, já havia se formado uma grande crosta. Deixando de lado a capacidade de recuperação, a dor era inevitável; ele alternava entre tatear os lábios latejantes, olhar-se no espelho e ranger os dentes.
Se ele quisesse, ter relações sexuais era fácil. Sendo um Classe A do tipo mental, ele era extraordinariamente bom em manipular pessoas e, se ambos estivessem excitados, mesmo que a pessoa recusasse no início, a maioria acabava cedendo ao prazer e entregando o corpo. No fim, a relação entre Esper e Guia era inevitável, já que o Guiding por contato físico era o mais eficaz. Beijos e atos sexuais simulados eram comuns. É claro que, com Ji Seunghyun, ele pretendia apenas provocá-lo por causa do cão de guarda chamado Ha Jaeil, mas o cheiro de sangue o fizera perder o controle por um momento.
Mesmo assim, arrancar um pedaço do lábio inferior não era exagero demais? Se tivesse conseguido fazer algo, não se sentiria tão injustiçado; parecia que, em troca de provar uma única gota de sangue, ele mesmo tinha derramado um balde inteiro. Talvez por não ter berço nem educação, o comportamento dele era da mais baixa classe.
Seunghyun, que mordera os lábios de Jungyeol e lhe desferira um chute forte, pedira ajuda imediatamente aos seguranças do lado de fora.
O humor de Jungyeol azedou ao ver Seunghyun lutando para manter a razão, mesmo quando uma energia densa e obscena já circulava por seu corpo, fazendo sua pele formigar. Apesar da alta taxa de sincronização e de ter vencido a batalha de vontades, Seunghyun o rejeitara até a medula. Jungyeol o encarou enquanto limpava o sangue que escorria. No mundo dos paranormais, onde os padrões de moralidade sexual eram baixos, ele era o único que fingia ser nobre. Aquela atitude, agindo como se já tivesse um dono, chegava a ser risível.
Em resumo, era patético vê-lo agir como se estivesse marcado por alguém. “Desgraçado estúpido. Se não tem apoio, deveria ao menos ser inteligente.” Ele parecia não entender que, para o seu próprio futuro, seria melhor criar laços com Espers de alto escalão.
Ao verificar o medidor, Jungyeol estalou a língua. Ver que aquilo, que mal podia ser chamado de Guiding, tinha baixado o nível para 30%, era de tirar o fôlego.
Em vez de Ji Seunghyun, que recusara o Guiding, ele foi atendido por um Guia com uma taxa de sincronização menor. Como não conseguia se livrar de uma leve dor de cabeça, seu humor estava uma merda absoluta, e ele despejou todo o seu ressentimento sobre Seunghyun. No momento em que Jungyeol abria a porta da sala de Guiding, decidido a ter uma noite casual com qualquer um que aparecesse, guia ou não…
Subitamente, Ha Jaeil apareceu, empurrando o peito de Jungyeol com força e jogando-o de volta para dentro da sala. Ele sabia que esse confronto aconteceria algum dia, mas o momento foi terrivelmente precoce.
— … Ha, você ficou louco?
Jungyeol torceu os lábios enquanto massageava o peito. Pensando bem, ele estava fervendo de raiva.
Parecia que Jaeil viera para aplicar algum tipo de punição novamente, mas a situação era diferente de quando aconteceu com Rowan. Naquela vez, ele fora a vítima unilateral, mas agora Jungyeol também tinha sangrado.
— Acha que minha patente é piada? Hein?!
Como quem não se deixaria abater duas vezes, Jungyeol usou telecinese para proteger o próprio corpo, mas Jaeil não hesitou nem por um segundo. Ele encurtou a distância instantaneamente e agarrou o pescoço de Jungyeol. Jaeil o impulsionou com o peso do próprio corpo. Foram três passos largos. O corpo de Jungyeol foi esmagado contra a parede com um estrondo! O homem, ao lidar com outro Esper, não tinha limites. Quando o corpo pressionado se afastou, fragmentos da parede rachada caíram como chuva.
— Até onde… eu devo tolerar você por causa da sua patente?
Os olhos de Jaeil se fixaram nos lábios de Jungyeol antes de encontrarem os seus olhos. Veias saltaram assustadoramente nas costas de suas mãos e nós dos dedos. Jungyeol gemeu sob a pressão terrível da pegada.
— C-cof… solta!
Se Jungyeol não tivesse usado uma força equivalente para tentar deter a mão dele, o poder violento que se enterrava em sua carne teria quebrado seu pescoço. Jungyeol gritou com ódio, num tom misto de censura e sarcasmo:
— Só porque o Ji Seunghyun tem uma taxa alta com você, acha que estão marcados? Onde já se viu agir como marido zeloso por causa de um bem compartilhado!
Por um instante, chamas azuis pareceram arder nas pupilas do homem. Ironicamente, na mesma medida em que ferviam, elas se tornaram escuras e gélidas.
“Bem compartilhado.”
Sentiu como se algo tivesse se rompido em sua mente ao ouvir aquela palavra. Go Jungyeol não apenas tinha feito algo cruel com Ji Seunghyun, mas também o estava tratando como um objeto. Jaeil arremessou Jungyeol contra o chão como se estivesse descartando lixo. Um som surdo de impacto foi seguido por uma tosse seca de Jungyeol.
Tossindo com os ombros sacudindo, Jungyeol subitamente começou a rir.
— Puta que pariu, você é um completo idiota.
A atitude de Ha Jaeil, perdendo a razão e agindo de forma selvagem, era extremamente bizarra. Reivindicar posse por causa de alguns guias era patético. Quando a suspeita de que “não poderia ser verdade” cruzou sua mente como uma possibilidade real, Jungyeol não conseguiu conter o riso.
“Bando de deficientes.” Após gargalhar por um tempo, Jungyeol arregalou os olhos e uma cadeira próxima voou em direção a Jaeil. Sem precisar usar telecinese, Jaeil recuou um passo e desviou. Ele avançou um passo de cada vez em direção a Jungyeol. Girando o pulso levemente para encurtar a distância, ele agarrou violentamente os cabelos de Jungyeol, que tentava escapar. Com o pescoço dobrado para trás, Go Jungyeol ainda não tinha percebido a gravidade da situação. Na verdade, ele também estava cego pela raiva e incapaz de pensar racionalmente.
— … Se o seu avô soube— AAAGH!
O rosto de Jungyeol, que gritava com ódio, foi esmagado contra o chão. O som de algo macio se quebrando foi nítido. Com o nariz sangrando, Jungyeol ergueu a cabeça e berrou com uma voz carregada de veneno:
— Quer que eu conte tudo? Hein? Que você se apaixonou por um Guia homem do Setor 13!
O homem ergueu o pulso de Jungyeol lentamente. Jungyeol, que antes só falava, não conseguiu esboçar nenhuma reação de defesa. Isso porque tudo, exceto a mão que Jaeil segurava, estava sendo esmagado por uma pressão colossal.
Inclinando o corpo para encarar Jungyeol profundamente, Jaeil pendeu a cabeça levemente para o lado. Com o rosto gélido e apenas um leve erguer nos cantos da boca, ele parecia um monstro consumido por sua própria energia.
— Conte.
— O quê?
— Faça o que quiser, seu merda.
Ao ouvir termos vulgares saindo da boca de quem sempre usava linguagem formal, Jungyeol não conseguiu esconder o choque.
— … O-o que você disse?
Era a primeira vez que via Ha Jaeil tão furioso.
No entanto, embora os outros nunca tivessem visto esse lado, era uma faceta que sempre existira no âmago de Jaeil. Até então, não houvera nada que valesse a pena explodir, então ele a mantinha enterrada nas profundezas do abismo; mas, uma vez provocado, não havia razão para se conter. Revelando abertamente sua face vulgar e violenta, ele parecia ter desistido até mesmo de sua humanidade.
Tardiamente tomado pelo pavor, Jungyeol começou a contorcer o pulso. Ele estava desesperado agora. Jaeil executou seu plano impiedosamente.
— Um lixo como você, que chegou a pensar nisso…
— S-seu porra! Ei!
— Como ousa tocar em quem não deve?
— AAAAAAGH!
Um pulso se partiu com um estalo seco. Uma dor fulminante o atingiu. Jungyeol se contorceu, gritando. Com o rosto impassível, Jaeil quebrou o outro pulso. O som de ossos quebrando e um grito ainda mais alto rasgaram o ambiente. O som do corpo se debatendo de dor apenas servia de incentivo para a violência mecânica. Sob os sapatos que esmagavam a coxa de Jungyeol, o som de ossos partindo ecoou repetidamente.
— KRAAAGH!
— …….
Inclinando a cabeça, o homem usou telecinese para esmagar todo o corpo de Jungyeol. Com dificuldade até para respirar, Jungyeol não conseguia mais emitir som, apenas tremia violentamente. Jaeil pretendia deixá-lo apenas com um fio de vida. Afinal, ele era um paranormal maldito que sobreviveria mesmo com apenas um sopro de ar.
Ele sentia vontade de esmagar a mandíbula de Jungyeol, onde os lábios de Seunghyun haviam tocado. Reprimindo o impulso a duras penas, o pé de Jaeil dirigiu-se ao meio das pernas de Jungyeol. O homem não hesitou. Ele esmagou indiferentemente o pênis que certamente havia ficado ereto por Ji Seunghyun.
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— Fique me esperando.
O tom era calmo e gentil, mas carregava uma forte imposição. O olhar de Seunghyun deslizou lentamente pelo perfil do homem. Quando ele se mexeu, desconfortável com os pulsos presos atrás do corpo, o homem aliviou a força imediatamente. Era fascinante como a conduta dele parecia dar abertura e, ao mesmo tempo, exalar uma intenção poderosa de que ele não deveria fazer certas coisas.
— …….
— …….
Para Seunghyun, Haon era um mundo à parte, e os paranormais, com seus conceitos e cultura que não batiam com o senso comum, eram ainda mais estranhos. Ele continuava estudando para entendê-los e anulando a si mesmo para se integrar, mas ainda era difícil.
O que os mentores explicaram inúmeras vezes, Seunghyun finalmente sentiu na pele hoje. No momento de realizar o Guiding, era preciso deletar as preferências internas. Não era possível trabalhar mantendo os conceitos de uma pessoa comum, pois era necessário mudar a própria mentalidade em relação ao “contato”.
Por que o sexo, que não era grande coisa antes de começar o Guiding propriamente dito, tornara-se difícil agora que ele podia guiar? Seunghyun não conseguia definir com clareza. Parecia algo vago, sem forma e até perigoso, então ele tentava ignorar. Aceitar que o mundo em que havia entrado era mais cruel do que imaginava já era fardo suficiente.
Seunghyun esfregou levemente a ponta do nariz na orelha do homem. Ele se sentiu atraído naturalmente pelo aroma refrescante e quente.
— Com o tempo, as coisas melhoram.
Mas, se houvesse alguém que servisse de consolo como agora, não ficaria tudo bem? Parecia que o cansaço do dia derreteria se passassem o tempo compartilhando calor, como se recarregassem uma bateria. Meio abraçado por Jaeil, era exatamente assim que Seunghyun se sentia. É claro que expressar esse sentimento em palavras seria inadequado e haveria muitas partes não aceitas. Com esse pensamento vago, ele engoliu suas próprias emoções em silêncio.
— Eu só… queria que ficássemos juntos.
Seunghyun valorizava esse tempo. À medida que suas habilidades melhorassem, o tempo que passaria com Ha Jaeil tenderia a diminuir, nunca a aumentar.
— Eu não quero que o Esper seja prejudicado por minha causa. Apesar das aparências, eu sou forte.
— … É mesmo?
O tom era um pouco condescendente, mas não soou ruim. Isso também era estranho.
— …….
— …….
A palma da mão que envolvia sua cintura firmemente transmitia ondas constantes de calor. Mesmo diante do pedido para não ir, o homem permaneceu em silêncio. Sentindo a teimosia firme dele, Seunghyun soltou um suspiro de resignação.
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— Sim. Entendido.
Após a resposta curta de Bern, a tela indicou o fim da chamada. Olhando para o aparelho com desconforto, Bern soltou um leve suspiro.
Ele baixou o olhar para revisar o relatório de ocorrência escrito por Jaeil e, em seguida, olhou para a frente. Do outro lado da mesa, Ha Jaeil estava sentado em uma postura impecável.
Abaixo do olho direito de Jaeil, havia um inchaço feio. Fora Bern quem o fizera.
— …….
— …….
Bern, ao saber da confusão causada por Jaeil — que poderia ser considerada um erro se fosse a primeira vez —, desferiu um soco com toda a força assim que o viu. Jaeil aceitou o golpe sem resistência, embora pudesse facilmente tê-lo evitado. Ele parecia resignado, como se tivesse alcançado seu objetivo apenas por ter acabado com Go Jungyeol.
Em poucas horas o inchaço diminuiria e a pele voltaria à cor normal, mas quem causara a marca no rosto liso não conseguia esconder o desconforto. Fora um soco sem consideração pelo oponente, e como o destinatário não fizera menção de se defender, um único golpe causara um grande estrago. Certamente doeria até cicatrizar, mas Jaeil nem sequer piscou. Era um sujeito duro, sem dúvida.
Bern coçou o queixo áspero e depois a sobrancelha. Outro suspiro escapou.
Incidentes violentos eram frequentes entre paranormais, que viviam sensíveis devido a vários efeitos colaterais e só possuíam força. Geralmente ocorriam entre Espers de habilidades equivalentes, mas este caso era especial.
— Jaeil.
— Sim, Capitão.
Ele encontrou o olhar de Bern. Era um rosto inexpressivo, sem o menor traço de culpa. Diante daquela voz calma e quase cínica, Bern perdeu a vontade de se enfurecer. Apenas passou a mão pelo cabelo, tentando aliviar o sentimento de frustração.
Jaeil usara o mínimo de seu poder para expulsar Go Jungyeol do centro. Jungyeol já era uma figura polêmica, então não houve grandes protestos. Além disso, com a família de Ha Jaeil agindo diretamente, dificilmente ele conseguiria ir para um lugar bom.
— Se fosse possível transferi-lo para outra cidade, não teria sido necessário chegar a esse ponto, teria?
— …….
O olhar de Jaeil baixou levemente e voltou para Bern. Ver aquilo como uma resposta era de tirar Bern do sério.
— Seu desgraçado maluco.
— Peço desculpas, Capitão.
A expressão dele não era a de alguém que pede desculpas. Bern estalou a língua ao ver Jaeil agindo como se nada tivesse acontecido após deixar um homem semialeijado.
Assim que descobriu que fora Go Jungyeol quem tocara em Ji Seunghyun sem consentimento, Jaeil seguiu os passos meticulosamente, como se tivesse planejado tudo há muito tempo.
Começou trancando a porta assim que entrou na sala de Guiding onde Jungyeol estava. Por mais que os seguranças, alertados pelos gritos, tentassem, a porta só se abriu quando Jaeil se sentiu satisfeito. Foi por volta do momento em que os Espers, chamados para reforço, estavam decidindo se deveriam ou não derrubar a parede inteira.
Mesmo sendo ambos Classe A, Jungyeol não era páreo para Jaeil, que era um tipo múltiplo. Embora a diferença de poder fosse nítida, o homem fez questão de esmagar os membros de Jungyeol um por um, como se desse um exemplo.
Bern teve que admitir: a confusão que Ha Jaeil causara fora uma insubordinação meticulosamente planejada. O nível de violência era diferente de quando ele tocou em Rowan. Não era apenas para assustar, o objetivo claro era infligir dor. Dava para notar pelo fato de ele ter deixado apenas a energia mínima necessária para a recuperação, e pelo fato de Go Jungyeol, sempre tão debochado e falante, não conseguir sequer emitir um som.
— Haa…
Bern parou de tamborilar os dedos na mesa. Em seguida, veias saltaram em seu punho fechado. Jaeil tinha episódios de rebeldia periodicamente, mas nunca um caso como este. Fora cruelmente minucioso e visível.
Go Jungyeol também não vinha de uma família pobre, mas parecia não se comparar à família de Jaeil, que podia encerrar o caso apenas com a redação de um relatório. Neste mundo onde não apenas a habilidade, mas a influência familiar contava muito, Ha Jaeil havia esmagado Go Jungyeol impiedosamente.
Com um olhar de saturação, Bern observou o rosto de Jaeil. “Ele era um cara tão perverso assim?” Na verdade, o Guia que conseguira manipular Ha Jaeil a esse ponto parecia, subitamente, formidável.
“Ji Seunghyun”, era esse o nome? Bern repetiu o nome mentalmente e abriu a boca com cautela:
— Eu entendo que você preza pelo seu Guia. Vejo isso como um sinal positivo. Mas esse tipo de comportamento é problemático.
— …….
— Tipos como Go Jungyeol existem aos montes. Não é bom reagir com tanta sensibilidade todas as vezes.
— …….
— Você, melhor do que ninguém, conhece o estado de cio dos Espers. Exigir que os paranormais suprimam seus instintos é impossível.
Jaeil franziu o cenho, parecendo ofendido apenas por ouvir a palavra “cio”.
— Digo isso por via das dúvidas. O vínculo de um Guia Classe A é…
— … Por isso.
Quando ele finalmente quebrou o silêncio, sua voz pesada ecoou pela sala.
— Eu tive que agir assim.
— …….
— Para que ninguém o trate de qualquer jeito.
A garganta de Jaeil moveu-se com força enquanto ele suprimia a fúria que voltava a subir.
— Neste lugar…
Jaeil juntou as mãos, e as algemas — que ele poderia quebrar se quisesse — tilintaram.
— Não há ninguém para protegê-lo.
Seu olhar, antes baixo, voltou-se calmamente para Bern. Havia uma vontade intensa em seus olhos, indicando que, se um incidente assim ocorresse novamente, ele repetiria o ato duas ou três vezes.
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Seunghyun acordou de um cochilo e checou o horário mecanicamente. Já passava de uma da manhã. Ele recebera uma mensagem dizendo para dormir primeiro, mas ainda estava no sofá. Não parecia certo dormir sozinho na cama espaçosa sem o dono, e ele suspeitava que o motivo da partida de Jaeil tivesse algo a ver com ele.
“E se ele não voltar?” Um preocupação fútil surgiu. Seunghyun esfregou os olhos cansados e releu as mensagens trocadas ocasionalmente.
[Quando o senhor volta?]
[Ainda não sei. Já jantou?]
[Sim. Comi bem, obrigado.]
[Fez bem. Falamos mais tarde.]
Diferente do seu desejo de perguntar o que estava acontecendo, a conversa terminou rápido. Após esperar mais duas horas, Seunghyun mandou outra mensagem. O pretexto foi quase ridículo.
[Esper, posso usar suas roupas?]
Desta vez, a resposta demorou.
[Na última gaveta do quarto pequeno, há roupas confortáveis.]
[Obrigado. Mas, por acaso, podemos nos falar por telefone?]
[Será difícil agora. Por favor, durma primeiro.]
Será que algo grave aconteceu? A ansiedade disparou. No instante seguinte, veio outra mensagem.
[Não há nada demais. Estou apenas atrasado resolvendo o que restou do trabalho. Não se preocupe.]
Como não podia ver a energia dele, era impossível saber se era mentira ou não. Seunghyun murchou, deixando os ombros caírem.
Ele queria ver Jaeil chegar em casa para conseguir dormir, mas o desgaste mental fora tanto que acabou cochilando involuntariamente. Estava muito tarde. Hesitante se deveria mandar mais uma mensagem, Seunghyun acabou apertando o botão de chamada. Não podia continuar apenas esperando.
Enquanto o tom de chamada se prolongava, ele pensava: “E se ele não atender? Devo ir ao centro? Deveria ter insistido mais?”. Seus pés balançavam de ansiedade, mas pararam subitamente.
— [Sim, Guia. Por que ainda não está dormindo?]
Ouvir a voz dele trouxe uma onda de alegria e alívio. As sobrancelhas de Seunghyun se curvaram para baixo.
— Esper… quando o senhor vem? Estou com o pescoço doendo de tanto esperar.
Houve silêncio do outro lado da linha.
— Onde o senhor está? Eu vou até aí. Será que, por acaso…
— [Não houve nada com que o Guia precise se preocupar.]
— …….
— [Estou saindo agora.]
Mais uma vez, não havia como confirmar as palavras do homem. Seunghyun relaxou o corpo contra o encosto do sofá. A voz firme dizendo para confiar apenas nele veio à mente. Mesmo que não se aplicasse a todas as situações, era certamente uma frase mágica que simplificava as coisas. Era melhor confiar nele, que era sólido, do que ficar ansioso. Mesmo que fosse uma dependência frágil, era o que ele queria hoje.
— O senhor jantou?
— [Comi algo rápido.]
— Não está com fome?
Após um breve silêncio, a voz do homem fluiu.
— [O Guia está com fome?]
Seunghyun piscou, prestes a dizer que não.
— Se eu disser que sim, o senhor come comigo?
— [Comerei. A esta hora, as lojas abertas…]
— Apenas venha. Eu preparo algo.
— […….]
De repente, seguiu-se um longo silêncio. Enquanto esperava pela resposta, os lábios de Seunghyun se curvaram suavemente. Desta vez, ele sabia, mesmo sem ver. O homem parecia estar bastante perplexo.
— Uh… se eu não puder usar a cozinha…
— [Não é isso.]
O tom de negação imediato pareceu carregado de surpresa.
— Então, Esper. Há algo que queira comer?
— [Nada em especial.]
— Então venha logo. Estarei esperando.
Quando ele começou a dizer que Seunghyun não precisava se dar ao trabalho, já que devia estar cansado, Seunghyun rebateu com uma brincadeira, dizendo que não estava nem um pouco cansado. Após desligar, Seunghyun saltou do sofá. O clima relaxado da ligação acabou. Ele estava com pressa. Como Jaeil disse que estava saindo e as ruas estariam vazias, ele chegaria logo.
Ao abrir a geladeira por curiosidade, viu que era tão limpa e organizada quanto a personalidade do dono. Como ele não era de pular refeições, havia porções mínimas de ingredientes separados, e foi nisso que Seunghyun pensou durante a ligação.
Após verificar o arroz instantâneo no armário, Seunghyun decidiu fazer um arroz frito simples. Pegou ovos e cebolinha e achou a frigideira facilmente. O processo parecia correr bem, até que ele teve um pouco de dificuldade com o fogão de indução.
O alerta de chegada do veículo soou. Calculando o tempo de estacionar e subir, o cheiro delicioso do arroz frito em fogo alto invadiu o ambiente. Seunghyun provou um pouco e correu para a entrada. A barra da calça, que ele dobrara, se soltou e ele tropeçou, mas não caiu.
Sentiu a energia do homem do lado de fora da porta. Embora estivesse visivelmente mais calma do que à tarde, ainda não era um estado de relaxamento total. “Quero fazer Guiding. Vou fazer uma vez antes de dormir.” Os olhos de Seunghyun brilharam de expectativa. O som da fechadura eletrônica ecoou e o homem apareceu.
— Você chegou!
Ele parecia exatamente um cachorrinho esperando pelo dono. Jaeil olhou surpreso para Seunghyun, parado bem diante da porta, e massageou a ponta do nariz em silêncio. Baixou o olhar para algum lugar no chão e cumprimentou:
— Estou… de volta.
Por outro lado, Seunghyun, ao observar o rosto do homem, ficou subitamente sério. Havia uma mancha azulada sob o olho dele. “Será que ele brigou mesmo?”. Embora o tempo tivesse passado e não parecesse grave, para Seunghyun era motivo de incômodo.
— … O que aconteceu com o seu rosto?
— Levei uma bronca do Capitão.
Jaeil respondeu honestamente. Mas saber a verdade não resolvia a preocupação de Seunghyun.
— Mas por que ele te bateria por causa disso?
Jaeil puxou a ponta dos dedos de Seunghyun, que estava agitado.
— … Tem um cheiro bom. O que você fez?
Ele estava tentando mudar de assunto. Seunghyun fingiu não perceber.
— Fiz arroz frito. Acho que dá para comer.
O homem sugeriu comer primeiro. Jaeil lavou as mãos e sentou-se à mesa, aceitando com gratidão a primeira refeição do dia oferecida por Seunghyun. Ele não esqueceu de dizer que estava gostoso, e Seunghyun sentiu-se satisfeito apenas por vê-lo comer.
— Escute.
Seunghyun, que acompanhara o homem por algumas colheradas, começou a falar. Ele precisava saber o que Jaeil fizera enquanto ele estava em casa.
— O mentor disse que, como ainda não sei controlar o Guiding, não consigo ter vantagem sobre o Esper.
Jaeil, que limpou uma migalha no canto da boca com o polegar, lançou um olhar para Seunghyun.
— Outros levam anos para chegar ao seu nível. Não tenha pressa.
— Se eu praticar com dedicação daqui para frente, o que aconteceu hoje não se repetirá.
Antes de responder, um suspiro profundo escapou do homem.
— Sim. Faça isso.
Vendo a energia dele se tornar subitamente afiada, Seunghyun umedeceu os lábios e continuou:
— Vou praticar com vários Espers daqui em diante e…
Naquele momento, por baixo da mesa, a ponta do pé do homem tocou a canela de Seunghyun. Diante do contato repentino, os ombros de Seunghyun saltaram. Ele olhou surpreso para frente, mas o homem apenas o encarava com um olhar indiferente e sombrio.
— Fazer o quê, com quem?
— …….
Seunghyun piscou silenciosamente e abriu a boca. Se não fosse pelo *sub-guiding*, ele pediria para fazerem juntos. Estava prestes a se sentir magoado pela frase ríspida dita por quem não conhecia seu desejo sincero, quando o homem empurrou lentamente um copo de água para Seunghyun, encontrando seus olhos.
— Faça esse tipo de coisa apenas comigo.
Diante do pedido do homem, Seunghyun perdeu a fala. A mão que segurava a colher ficou pálida, enquanto as pontas de suas orelhas ardiam em vermelho.
— … Isso…
“Sendo assim, como faremos com o *sub-guiding*?”, Jaeil leu perfeitamente o olhar dele e manteve uma expressão despreocupada.
— Eu cuido disso.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna