Capítulo 04.3
🩸 Blood Poker 04, Parte 03
O sonho de Seunghyun foi igual ao de sempre. O céu azul e escuro, envolto em mistério, estava coalhado de estrelas. O vento também soprava. Embora não pudesse ser sentido como na realidade, o que passava entre seus cabelos era certamente vento. Observando silenciosamente a vasta imensidão ao redor, Seunghyun sentiu que fazia tempo. Sentiu o mesmo das emoções tristes e melancólicas das quais pensara que nunca escaparia.
Após um último olhar para o chão composto apenas de pedras e terra seca, Seunghyun olhou para frente. Desta vez, ele também não estava sozinho. O homem, que ele já vira antes, observava o horizonte distante. Seunghyun hesitou ao tentar se aproximar com alegria. Isso porque, diferentemente da primeira vez, ele sentiu um sentimento ambivalente.
O sonho de Ji Seunghyun era um espaço solitário criado na fronteira ambígua entre a vida e a morte. Embora estivesse feliz por não estar só, sentiu hostilidade ao pensar que alguém entrara ali sem permissão.
“Quem é você?”. Como sua voz não saía, Seunghyun gritou em pensamento e subitamente pendeu a cabeça para o lado. Isso porque a altura do homem parecia ter diminuído em relação à vez anterior. Suas costas largas, que eram marcantes, também pareciam visivelmente menores. Semicerrando um olho, Seunghyun mediu a altura dele com o dedo. Quando chegou à conclusão de que não era impressão sua, um vento soprou subitamente. Uma lufada de areia rodopiou e as roupas tremularam. O vento era tão forte que ele não conseguia abrir os olhos; cobrindo o rosto com a manga, Seunghyun finalmente olhou para o homem.
— …….
O homem virava a cabeça em um movimento lento. O dorso do nariz bem feito e o olhar lânguido eram rostos conhecidos por Seunghyun. Ao reconhecer claramente que era Ha Jaeil, os cantos dos olhos de Seunghyun tremeram levemente. Por que ele não o reconhecera antes?
No entanto, seria forçado dizer que era o “ele” atual. O porte físico e o rosto pareciam mais jovens, e a boca de Seunghyun, que se abrira para chamá-lo, fechou-se novamente.
Enquanto Seunghyun hesitava, as pupilas do homem voltaram-se para ele, capturando sua imagem inteiramente. Ele não demonstrou surpresa. Como se estivesse esperando por sua vinda, e soubesse que ele viria, ele sorriu de forma confortável, estreitando os olhos.
Embora a única luz que o iluminasse fosse a das estrelas e da lua no céu noturno, Seunghyun esfregou os olhos. O sorriso radiante, que ele nunca vira antes, era ofuscante. Ou melhor, causava-lhe dor. Um lado de seu coração também se aquietou friamente. E essas coisas aquecidas transformaram-se em inúmeros grãos de areia, rodopiando e fazendo cócegas dentro de seu coração.
“…….”
Ha Jaeil, em uma forma que parecia estar no limite entre o homem e o jovem, abriu a boca mantendo o sorriso. Seunghyun apurou os ouvidos, mas nenhum som foi ouvido.
“O que você disse?”. Ele repetiu mentalmente. Então, o homem fechou e abriu os olhos lentamente e moveu a boca de forma mais clara.
“Venha aqui.”
A voz do homem, transmitida através de seu peito, parecia apertar todo o seu corpo. Seunghyun mordeu o lábio inferior, quase chorando. Sentiu uma imposição que parecia fazê-lo ser atraído mesmo que se recusasse a ir. Como ele não moveu os pés prontamente, o homem o observou fixamente e estendeu a mão. Diante daquela atitude cheia de confiança, Seunghyun sentiu-se ansioso sem motivo.
“Não sou um cachorrinho que corre quando me chamam.” Enquanto resmungava internamente, Seunghyun deu um passo à frente. Uma lufada de vento, ainda mais forte do que antes, fez com que ele fechasse os olhos com força.
— …!
Naquele momento, como se tivesse sido expulso por algo, Seunghyun abriu os olhos e ficou apenas soltando suspiros ofegantes. Como se o canal da TV tivesse sido trocado, a cena diante de seus olhos mudara.
O vento forte que envolvia seu corpo, a noite azul e a ordem gentil haviam desaparecido. Mesmo percebendo que voltara à realidade, Seunghyun não conseguiu se mover de imediato. Isso porque nenhum sonho fora tão nítido e intenso quanto este.
Recuperando o fôlego, ele piscou os olhos rapidamente. Um olhar de cautela varreu o ambiente. Ao reconhecer que estava no quarto do homem, seus ombros, que estavam prestes a relaxar, subiram novamente em sobressalto.
— …….
Assim que abrisse os olhos, sua visão deveria ser preenchida pela parede. Isso seria o normal para a posição de Seunghyun, que dormia encolhido e de costas para o homem, na maior distância possível. No entanto, Seunghyun estava deitado na direção oposta. Além disso, a pessoa que sempre acordava primeiro e não deveria estar ali estava dormindo profundamente diante de seus olhos. Estavam próximos. O perfil bonito que vira no sonho estava logo ali.
E esse não era o único motivo para surpresa. As pupilas de Seunghyun, que nem sequer conseguia piscar, moveram-se ruidosamente para baixo. Ele sentia o calor vindo do braço que tocava sua bochecha e pavilhão auricular. Seunghyun fechou e abriu os olhos com força. Não conseguia entender por que sua cabeça estava apoiada no braço do homem, como um travesseiro.
— …….
Por mais que Ha Jaeil fosse uma pessoa gentil, ele jamais ofereceria o braço como travesseiro por iniciativa própria. Até o momento de dormir, tudo o que fizera fora o Guiding formal. Com medo de iniciar um *sub-guiding*, ele absorveu a energia dele com o mínimo de contato, despediu-se como de costume e dormiu. Ao repassar o dia de ontem, não havia razão alguma para estarem naquela posição. Quando pensou que algo devia ter acontecido na noite anterior, sentiu um calafrio na espinha.
“Tenho que procurar tratamento logo.” Sentindo-se constrangido pelo que acontecera ontem e do que não se lembrava, Seunghyun mordeu a carne interna do lábio. E, aproveitando que o homem dormia, tentou resolver a situação o quanto antes. Moveu o corpo sorrateiramente. Até prendeu a respiração.
— …….
No entanto, seus esforços foram inúteis; um suspiro profundo escapou do homem. O homem inspirou profundamente, fazendo o peito inflar, e estalou os lábios. Seguiu-se um movimento de corpo, como se ele estivesse prestes a acordar. Seunghyun, fracassando em sua fuga furtiva, paralisou no lugar, observando a reação do homem.
As pálpebras, que estavam pesadas, ergueram-se pela metade, revelando pupilas lânguidas. Desesperado, Seunghyun começou a formular pedidos de desculpas apressadamente. Enquanto isso, o homem, percebendo o peso sobre seu braço, virou a cabeça lentamente. Seus olhos, ainda pesados de sono, fixaram-se em Seunghyun de forma entorpecida.
— …….
Os lábios de Seunghyun moveram-se ansiosamente. Ele pretendia dizer “sinto muito”, “me desculpe” ou “o que aconteceu ontem?”. No entanto, o homem, sem dizer uma palavra, estendeu o outro braço. Nas pupilas nubladas, refletia-se apenas o rosto surpreso de Seunghyun.
Seus olhos acompanharam o braço que se projetava sobre ele, capturando o rosto do homem que se aproximava instantaneamente, até que acabaram se escondendo sob as pálpebras.
O homem não apenas estendeu o braço, mas virou o corpo completamente e abraçou Seunghyun. Em seguida, uma respiração compassada fluiu.
Seunghyun abriu os olhos sorrateiramente. Diante dele, o queixo do homem e sua garganta, que se movia levemente, pareciam prestes a tocá-lo. O que diabos significava aquilo? Era um hábito de sono que ele nunca presenciara. Encolhendo os ombros, Seunghyun movia apenas as pupilas e mexia as mãos fechadas em punho. “O que eu faço? O que eu faço? Como resolvo isso?”. Enquanto se perdia em pensamentos inúteis, ele subitamente baixou o olhar.
A energia do homem fluía para dentro de seu corpo. Sua habilidade, que não tinha freios, estava fazendo seu trabalho independentemente de sua vontade.
— …….
“Aproveito para praticar?”.
Decidindo que não havia nada mais produtivo do que isso para superar o constrangimento, Seunghyun fechou os olhos e concentrou-se para fechar intencionalmente seus sentidos. No entanto, em poucos segundos, sentiu uma ponta de injustiça. “Ora, o tempo que passaremos juntos só vai diminuir daqui para frente, por que tenho que bloquear a energia à força?”. Ele achava que esse tipo de prática poderia ser feito com outros Espers. As sobrancelhas de Seunghyun caíram melancolicamente.
“Faça esse tipo de coisa apenas comigo.”
Lembrou-se do homem olhando em seus olhos, como se fosse puni-lo se não o fizesse. Subitamente, as pontas de suas orelhas arderam. Ele sentia nitidamente o pulsar de seu coração acelerado.
Ele se preocupava se esse pulsar intenso seria transmitido ao homem. Concluiu que a prática fora por água abaixo e fechou os olhos. “Vou esperar só mais um pouco antes de acordá-lo.”
— …….
— …….
Cerca de cinco minutos depois, a mão do homem começou a tatear as costas de Seunghyun. “Além de abraçar, ele está tateando minhas costas?”. Era um obstáculo após o outro. Enquanto a mão subia, passando pelas escápulas, pescoço e nuca, Seunghyun mal conseguia respirar. Isso porque ele não tinha opções de como reagir. A temperatura morna e o aroma refrescante e denso bombardeavam seus sentidos por todos os lados, mas ele não tinha tempo para sentir.
No instante em que a mão, que parecia gravar as curvas do corpo na palma, cobriu amplamente a testa de Seunghyun, as pálpebras do homem ergueram-se rapidamente. Uma inspiração curta do homem atravessou o espaço entre os dois.
Assim que o homem reconheceu Seunghyun à sua frente, ele tentou erguer o tronco bruscamente, mas hesitou. Ao perceber o braço sob a cabeça do outro, seu olhar tornou-se ainda mais surpreso. Ele olhou fixamente para Seunghyun, com a boca entreaberta. Seunghyun, igualmente confuso, moveu os lábios para dizer o que preparara.
— Eu…
— Não é nada disso.
Jaeil negou primeiro, com o rosto confuso. “O que ele fez para dizer que não é nada disso?”. Seunghyun, que levantou a cabeça para facilitar a retirada do braço do homem, sentiu curiosidade diante daquela mentira óbvia. Por causa de seu histórico anterior, ele não teve coragem de perguntar.
O homem, agora com o tronco totalmente erguido, passou os dedos pelos cabelos bagunçados. Seu rosto estava inundado por sentimentos complexos. Ao checar o medidor, ele pareceu mergulhar em pensamentos com uma expressão ainda mais séria. Seunghyun, observando-o cautelosamente, abriu a boca. Estava claro que algo acontecera ontem.
— Ontem, realmente… eu…
Naquele momento, a mão grande do homem cobriu amplamente o topo da cabeça de Seunghyun.
— O Guia não fez nada de errado.
— …….
A entonação era estranha. “Então quer dizer que o Esper fez algo errado?”. Como Seunghyun não disse mais nada, o homem colocou os pés para fora da cama.
Ele parecia ainda confuso, evitando o olhar de Seunghyun ao sentar-se na beirada.
— Uh, o senhor deve estar cansado por causa de ontem.
Diante daquela frase inocente que atribuía o atraso no despertar apenas ao cansaço, a mão do homem, que massageava o queixo, parou subitamente. Suas sobrancelhas, que olhavam para o nada, também tremeram levemente.
— Vá se… lavar. Eu usarei o banheiro de fora.
O homem levantou-se lentamente e saiu do quarto; suas costas pareciam as mesmas de sempre, mas Seunghyun, que sabia ler as energias, conseguia deduzir um pouco de seus sentimentos.
Embora a expressão dele fosse de quem comeu algo ruim, ele certamente não parecia descontente. Estava mais para alguém afobado e confuso. Foi algo inesperado. Aquele homem sempre tão calmo não conseguia nem olhar nos olhos dele. Seunghyun não conseguiu dissipar sua desconfiança.
— … Que curioso…
Ao murmurar e checar o celular, os olhos de Seunghyun arregalaram-se. Já se passavam 30 minutos do horário em que ele deveria ter acordado. Retirando o cobertor bruscamente e sem tempo para arrumar a cama, Seunghyun saltou e correu direto para o banheiro.
— Aah! Vou me atrasar!
No entanto, em menos de um minuto, ele saiu do banheiro como se tivesse sido expelido e foi direto procurar Jaeil. As pontas de suas orelhas, que ele ainda não conseguira acalmar, estavam vermelhas.
Dormir demais, o abraço durante o sono e a reação incomum dele… Seunghyun pretendia não tocar no assunto, já que a outra parte parecia não querer. Ele acreditava e confiava que, mesmo que tivesse feito algo errado, o outro encobriria ou não usaria isso contra ele, como sempre. Estava disposto a ignorar até o fato de suas roupas terem sido trocadas, mas, por mais que pensasse, a cueca era demais. O que diabos acontecera ontem?
O homem, que se dirigia ao banheiro, virou a cabeça ao ouvir os passos barulhentos se aproximando.
— Esper.
— …….
O olhar que encarava seu rosto tingido de confusão era firme. Ele parecia já ter organizado seus pensamentos e exibia uma expressão impecável.
— Sim, Guia.
O tom sem oscilações parecia dizer que o que aconteceu ontem não tinha importância. Seunghyun, cuja coragem subitamente murchou, sentiu a voz tremer involuntariamente.
— Eu… o que eu fiz ontem?
Jaeil inspirou suavemente, mas não respondeu de imediato. Sua expressão, que ele se esforçara para manter, desmoronou levemente. Por outro lado, o rosto de Seunghyun tornou-se pálido. “Eu precisava me lembrar de algo para poder deduzir.” Sem outra opção, Seunghyun começou a listar os piores cenários que conseguia imaginar.
— P-por acaso… eu vomitei? Ou fiz alguma grosseria?
Uma sobrancelha do homem se ergueu diante daquelas palavras inesperadas. Observando fixamente o lábio inferior que Seunghyun mordiscava, Jaeil soltou um leve suspiro.
— Nós fizemos Guiding.
A resposta, dada com relutância, deixou Seunghyun ainda mais confuso.
— Fizemos Guiding, mas por que a cu… cueca…
— Fizemos do meu jeito.
Diante daquela frase dita com descaramento, Seunghyun perdeu a fala por um momento. Guiding. Do jeito dele. Ao juntar as peças das palavras do homem, o rosto de Seunghyun ficou mais vermelho do que nunca. Ele baixou o olhar e cobriu a boca. Suas pupilas moviam-se freneticamente pelo chão. Como ele não pensara nessa possibilidade, seu raciocínio estava lento. No entanto, tudo o que ele imaginava era de natureza erótica.
Naquele momento, a palma da mão de Jaeil cobriu o topo da cabeça de Seunghyun. Era o lugar onde os cabelos bagunçados costumavam prender a atenção dele. Seunghyun olhou para cima, piscando diante do contato inesperado. Quando o polegar dele desceu e pressionou firmemente sua sobrancelha, o som do atrito entre os pelos foi transmitido através de sua pele.
— Eu tive permissão.
O homem dizia coisas que Seunghyun não entendia, mas ele não podia perguntar os detalhes.
— O… quê…
“Permissão para quê?”, Seunghyun apenas murmurava o que vinha à cabeça em meio à confusão mental. Então, o homem desceu a mão que estava no topo da cabeça e roçou levemente a parte inferior do abdômen de Seunghyun.
— Se estiver curioso, tente fazer quando estiver consciente também.
Naquele momento, um soluço escapou de Seunghyun e seus ombros subiram. Emitindo um som de “hic”, ele assentiu.
— Sim. Eu quero.
— …….
— Eu também quero me lembrar de como foi.
Quando ele encontrou o olhar do homem intensamente enquanto soluçava intermitentemente, o homem acabou fazendo uma expressão de incredulidade. Ele moveu os lábios como se quisesse dizer algo, mas conteve-se com um suspiro e empurrou levemente o peito de Seunghyun. Tinha que se reconhecer: ele dizia coisas absurdas sem ter consciência disso.
— Realmente… não consigo lidar com você.
Havia perplexidade na voz que ele soltou ao virar o corpo.
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— Esper, por favor, me empreste meias.
Seunghyun, aproximando-se de Jaeil que secava o cabelo diante do espelho, disse apressadamente. Suas mãos estavam ocupadas abotoando a camisa. Jaeil olhou para Seunghyun em silêncio e, com a mão que antes sacudia os cabelos úmidos, apontou em uma direção.
— Estão na terceira gaveta.
— Posso usar qualquer uma?
— Pode.
Assim que recebeu a permissão do homem, Seunghyun caminhou direto para lá, abriu a gaveta e pegou a primeira meia branca que viu. Enquanto tentava calçar a meia em pé, levantando uma perna, ele perdeu o equilíbrio e cambaleou. Após dar alguns pulinhos em um pé só, acabou se chocando contra o armário.
Apesar do barulho considerável, Seunghyun não se importou; encostado no armário, ele calçou a meia rapidamente. Seunghyun não percebera, mas todos os seus movimentos agitados foram captados pelos olhos de Jaeil, que não desviava o olhar.
Seunghyun ia passar direto por Jaeil, mas parou, pegou uma loção que estava diante do espelho e olhou para ele de relance. Interpretando o olhar curto como permissão, Seunghyun espalhou a loção nas palmas das mãos e a aplicou de qualquer jeito no rosto. Ele espalhou tão mal que pareceu não levar nem 10 segundos. Estava prestes a se virar com o rosto brilhante quando seu braço foi agarrado. O homem aplicou força nos dedos e, apenas com o olhar, indicou que ele deveria secar o cabelo.
Seunghyun passou as mãos pelo cabelo para trás e disse:
— Estou atrasado. Vou assim mesmo.
— …….
Seunghyun tentou dar um passo, mas seu corpo foi girado de volta.
— O instrutor do primeiro andar está sempre de prontidão, não tem problema se atrasar um pouco.
“Como ele sabia que eu tinha treinamento físico pela manhã?”. Enquanto se surpreendia internamente, o homem pressionou o topo de sua cabeça e ligou o secador. Um vento quente soprou entre seus cabelos. Ele parecia decidido a secar o cabelo de Seunghyun pessoalmente.
Aquela gentileza obstinada despertava sentimentos estranhos em cada ocasião. Desta vez, sentindo-se bastante constrangido, Seunghyun acabou fazendo beicinho involuntariamente.
“Venha aqui.”
Era natural que ele conectasse aquilo ao sonho da noite anterior. Em vez de recusar, sentira uma atração que parecia inevitável. O homem que ordenara aquilo estava agindo de forma muito semelhante agora.
Franzindo o cenho para aguentar o vento, Seunghyun olhou de relance para o rosto inexpressivo de Jaeil. Fora um propósito que ele fizera: precisava ver os ferimentos de ontem, que não conseguira observar bem por estar atordoado. O inchaço e os hematomas haviam desaparecido completamente. Sua pele estava tão impecável que chegava a duvidar se houvera ferimentos ontem.
— O senhor se recuperou rápido.
Quando Seunghyun elevou a voz para mencionar os ferimentos de ontem, Jaeil apenas assentiu levemente com a cabeça. Seus dedos longos e retos embrenhavam-se nos cabelos de Seunghyun, penteando-os suavemente.
Como não tinham tempo para um café da manhã tranquilo, eles desceram para a garagem assim que terminaram os preparativos. O carro do homem, que Seunghyun pensou que iria direto para o centro, parou diante de uma loja. O local, com um letreiro de cores vibrantes, era especializado em shakes substitutos de refeição.
Deixando Seunghyun no carro, ele foi à loja, entregou um copo para Seunghyun e colocou o seu no suporte. Enquanto mastigava o canudo, Seunghyun olhou de soslaio para o homem que voltava a dirigir.
— Da próxima vez, eu quero pagar para o senhor.
— Tudo bem.
— Quero comprar algo caro e gostoso.
Ele queria dizer que já tinha recebido muito. Os lábios de Jaeil formaram um leve arco.
— Vou pensar… no menu.
Satisfeito com a resposta dócil de Jaeil, Seunghyun olhou pela janela. Era estranho como aquela paisagem, antes totalmente desconhecida, tornara-se familiar após passar por ali algumas vezes. A rua repleta de letreiros coloridos não era sombria nem decadente. Acima de tudo, era limpa. Marcas de bombas, resíduos de Oni ou prédios destruídos eram apenas passado para Haon. Não se via sombras nos rostos das pessoas. Até as árvores do canteiro central transbordavam vitalidade. Parecia estar em outro mundo, embora não tivesse atravessado nenhuma dimensão.
Observando as janelas de vidro que cobriam as paredes do prédio, Seunghyun começou a falar:
— No Setor 13, os portões de ferro são fechados ao cair da noite.
— …….
— A luz não consegue penetrar nas janelas cobertas de concreto. O interior dos prédios está sempre escuro.
Sua voz, que descrevia as coisas enquanto ele apontava para o que passava no vidro da janela, ecoava suavemente dentro do carro.
— É preciso estar sempre armado e, mesmo assim, as armas costumam ser inúteis.
— …….
— As pessoas se unem quando necessário, mas as relações interpessoais são temporárias. É melhor para a saúde mental.
— …….
— Mas, mesmo sabendo disso, nós criamos laços. Cuidamos uns dos outros, mesmo nos chamando de idiotas.
Vasculhando suas memórias, Seunghyun soltou uma risada. Nem todas as lembranças de lá eram tristes ou dolorosas.
— São todos seres humanos, afinal.
Veias saltaram nas costas da mão do homem que segurava o volante. Ele sentira algo incômodo ao ponderar sobre o íntimo de Seunghyun, que contava aquelas histórias. Sentiu um traço de saudade nele ao recordar aquele lugar degradado. Jaeil umedeceu os lábios, sentindo uma sede repentina.
— Por acaso… você quer voltar?
Seunghyun virou a cabeça com um olhar de estranheza.
— … Pareceu isso?
A expressão do homem era séria enquanto ele buscava as palavras adequadas.
— É complexo.
O cenho de Jaeil se franziu levemente, descontente com aquela resposta curta. Como as energias dele, antes calmas, começaram a se eriçar, Seunghyun colocou suavemente sua mão sobre as costas da mão dele. Sem conhecer os detalhes do que o outro sentia, Seunghyun acariciou os ossos proeminentes com a ponta dos dedos, mantendo um sorriso leve. Apenas com isso, a energia fluiu para ele. Era uma habilidade muito conveniente e egoísta.
— Vim para cá porque não tinha para onde voltar.
— …….
— Também tive curiosidade para saber o quão grandioso este lugar era. E, vindo para cá, achei tudo divertido e curioso.
O mundo dos paranormais tinha inúmeras partes que o senso comum das pessoas normais não compreendia. Por isso, era necessário um treinamento sistemático e o apoio de forças além das habilidades. Ji Seunghyun, que não tinha para onde voltar nem raízes fixas, era como uma semente levada pelo vento, vagando sobre a terra. Jaeil sentiu uma ansiedade repentina ao pensar que Seunghyun poderia achar este lugar pior do que o Setor 13, sendo alvo do desprezo constante de tipos como Go Jungyeol, sem ninguém para protegê-lo.
— Não tem sido difícil?
Ao ouvir aquilo, Seunghyun arregalou os olhos e depois sorriu suavemente, fechando os olhos.
— Esper.
— Sim.
Aproveitando o sinal fechado, Jaeil olhou de soslaio para Seunghyun e logo voltou a olhar para frente. Por um instante, o homem não percebeu o que tinha visto e apenas piscou os olhos.
— É a primeira vez que eu me atraso para algo.
Inclinando levemente a cabeça para olhar Jaeil, Seunghyun sorria abertamente, incapaz de esconder sua felicidade. Aquele sorriso desarmado era intensamente brilhante.
Ao lado de Seunghyun, que ria dizendo “atrasado”, Jaeil pigarreou. Ele pretendia dizer que também fora a sua primeira vez, mas não conseguiu emitir som. Sua garganta estava travada pela emoção avassaladora que preenchia seu coração.
Ao chegarem ao estacionamento do dormitório, Seunghyun desceu do carro e fez uma reverência profunda para Jaeil. Jaeil, baixando o vidro, correspondeu com um leve aceno de cabeça. Checando o horário no celular, Seunghyun apressou o passo. Ele parecia não querer se atrasar mais.
— …….
Jaeil não desviou o olhar da silhueta que se afastava, apoiando o queixo no braço que segurava o volante. Ele o observou obstinadamente até que Ji Seunghyun desaparecesse por completo. Era um olhar firme e obsessivo.
Ao acordar, Jaeil não conseguira esconder o choque. Tanto por estar abraçando Ji Seunghyun durante o sono quanto por ter dormido tão profundamente a ponto de não ouvir o alarme. Aquele sono reparador e pleno, o primeiro desde sua consciência, trouxe mais perplexidade do que satisfação. Diante de Seunghyun, que falava ingenuamente sobre cansaço, Jaeil tivera que se esforçar muito para manter a compostura.
Mesmo após checar o relógio do medidor, ele não acreditou e verificou novamente ao sair do quarto. Jaeil dormira demais pela primeira vez em 10 anos, e isso fora exclusivamente graças à habilidade de Ji Seunghyun. Não houve dor de cabeça persistente, nem insônia, nem as dores periódicas. Apenas o contato físico fora capaz de derreter sua energia, antes afiada e rígida, a ponto de deixá-lo vulnerável. Se tivessem um envolvimento mais profundo do que o de ontem, o descanso infinito que Ji Seunghyun proporcionaria seria inimaginável.
“Você… tem um nome ou algo assim?”.
Após o ato sexual simulado que servira de Guiding, enquanto Jaeil o ajudava a se vestir, Seunghyun perguntara seu nome subitamente.
“Você nem vai se lembrar mesmo.”
Embora desejasse que ele não se lembrasse, Jaeil já se sentia ressentido pelo dia de amanhã e respondera com um tom ranzinza. Então, Seunghyun estendeu a mão. Segurou as bochechas do homem e as ergueu, forçando-o a desviar o olhar do chão para ele. Selando os lábios de Jaeil, que o encarava docilmente, Seunghyun transmitira através do olhar um significado incompreensível.
Embora achasse que já o conhecia o suficiente, o fato de Jaeil sentir-se febril como se fosse a primeira vez apenas com aquele contato calmo provava que ainda não era o bastante. Jaeil, como que enfeitiçado por aquelas pupilas brilhantes, invadiu a boca dele com a língua e o beijou. Ele se projetou sobre o corpo dele sem hesitar. Ji Seunghyun, que dissera com voz trêmula que não queria outras pessoas, envolveu o pescoço de Ha Jaeil docilmente, aceitando apenas a ele.
Saboreando os lábios de Ji Seunghyun, que parecia disposto a dar tudo o que ele desejasse, Jaeil reprimiu a duras penas o seu desejo crescente. Se continuasse, temia que acabaria tirando as calças dele novamente. E, desta vez, sentia que apenas esfregar os pênis não seria suficiente.
Ele conteve os lábios de Seunghyun, que se projetavam buscando os seus assim que se separavam. Mesmo ouvindo a brincadeira de que seus lábios ficariam inchados amanhã se continuassem, os lábios de Jaeil pousaram sem ordem no pavilhão auricular, na testa, nas pálpebras e no dorso do nariz de Seunghyun.
Aquele beijo afetuoso, que ele nunca dera a ninguém, fora um ato provocado por um impulso que ele não conseguia acalmar sem ser daquela forma, tamanha era a emoção. E esse impulso desejava deixar marcas ainda mais profundas, mas Jaeil teve que se conter, apenas pressionando seus lábios com força contra a pele dele.
“Eu também quero me lembrar de como foi.”
Quando ele tagarelava atrevidamente sobre fazerem algo juntos mais tarde, sem sequer imaginar o que haviam feito um com o outro na madrugada, a visão dele chegou a escurecer.
Um longo suspiro escapou do homem que estava com o corpo esparramado contra o assento. Ele olhou vagamente para o teto e, logo em seguida, franziu o cenho. Suas mãos, apoiadas no volante, apertaram-no com força. Pela cabeça estar inclinada para trás, seu pomo de Adão, exposto de forma alongada, moveu-se lentamente como se representasse seu estado emocional complexo.
— É a primeira vez que me atraso.
Um desvio de conduta que para os outros não seria nada, nele, arrancou um sorriso radiante.
— …….
As pontas das orelhas de Jaeil ficaram vermelhas ao se lembrar daquele sorriso suave. Ele levantou a mão que apertava o volante como se fosse quebrá-lo e esfregou o rosto seco; sob a luz, curvas atraentes surgiram no dorso de sua mão. Cobrindo todo o rosto com a palma, o homem inspirou profundamente pelo nariz. Com um ruído de sucção, seu peito estufou-se amplamente.
— Não dá mais.
O que fluiu junto com a exalação também foi um dos sentimentos que ele não conseguiu reprimir por estar transbordando. Conforme as pontas dos dedos desciam, os olhos lânguidos do homem foram revelados. Seu olhar, que permaneceu por um momento no lugar por onde Seunghyun havia desaparecido, voltou-se novamente para o teto.
Sempre que o via, sempre que o tocava, aquele sentimento se contorcia, mas ele o pressionava repetidamente, dizendo a si mesmo que não era normal, que não deveria ser assim. Se Ko Joong-yeol não tivesse provocado, ele talvez tivesse mantido essa postura por um pouco mais de tempo, mas agora, até procurar um motivo para o porquê de ter que agir assim tornara-se desagradável.
Ele tinha que admitir. Não havia como não fazer. Ao aceitar o desejo obstinado de exclusividade que sentia por ele, o anseio que estava enroscado começou a se mostrar claramente. Talvez por ter sido negligenciado, ele crescia sem medidas. Tornou-se tão colossal que era impossível de manejar; agora, realmente, não havia mais o que fazer.
— Ele… meu…
As palavras que ele mal conteve, fechando a boca intencionalmente, talvez fossem a primeira ganância que o homem reconhecia. Só porque não foram transformadas em som, não significava que haviam desaparecido. Tão logo criaram raízes nas profundezas de seu corpo, infiltraram-se em cada uma de suas células.
Para ser chamado apenas de um sentimento afetuoso como “gostar”, havia ali um lado excessivamente sombrio e assustador. E por isso ele pararia? Ele esmagou o pensamento que o questionava. Jaeil finalmente soltou um suspiro carregado de resignação. Se tivesse a intenção de parar, não deveria ter admitido desde o início.
Sendo assim, era melhor colocar grilhões em seus próprios membros, um por um, para que não o tratasse de qualquer jeito. Em uma velocidade que não o assustasse, apenas o suficiente para que não ficasse com medo. Se ele viesse a cair perfeitamente em suas mãos, tinha confiança de que conseguiria suportar. Para ele, que vivera daquela forma até então, esse nível de paciência não era uma tarefa difícil.
— …….
Ao fechar os olhos, o corpo branco que se debatia excitado em seus braços surgiu como uma miragem.
— Já que o Seunghyun tem uma alta taxa de sincronização com você, acha que até fez uma marca? Saindo por aí com um bem compartilhado como se fosse seu marido!
— Quer que eu espalhe tudo? Hein? Que você se apaixonou por alguém do Setor 13, e ainda por cima um Guia homem!
Aquelas palavras mergulhadas em censura que o maldito Ko Joong-yeol lhe dissera eram fatos que não mudariam e a realidade que ele teria que enfrentar agora. Embora ainda não tivesse dado um único passo propriamente dito, era óbvio que o poder que o permitia protegê-lo se tornaria a parede que o impediria de se aproximar dele.
Ainda assim, não foi preciso muito tempo para que o desejo de “eu gostaria que fosse” se transformasse na necessidade de “tem que ser”. O homem estava transbordando com as energias puras que Seunghyun lhe entregara a noite toda. E como se ainda considerasse insuficiente, ele absorveu a energia restante até entrelaçando os dedos na mesma direção. Ele não queria compartilhar aquele instinto puro e constante com ninguém.
— …….
Jaeil cobriu com a própria mão o coração que batia forte, como se estivesse prestes a perfurar seu peito.
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna