Capítulo 05
🩸 Blood Poker 05
Após trocar de roupa pelo uniforme de treino, o celular de Seunghyun tocou no bolso enquanto ele ia em direção à academia. O remetente era Joy.
— Sim, mentora.
— [Onde você está?]
A voz dela parecia bem mais animada, sinal de que o dia de repouso no hospital havia surtido efeito.
— Estou a caminho da academia.
— [Se estiver livre quando terminar, quer se encontrar rapidinho?]
Ao ouvir aquilo, Seunghyun hesitou com um “hum”, ponderando. Estava preocupado com o estado dela.
— Estou livre, sim. Mas a senhora já pode vir ao Centro?
— [Está tudo bem.]
— Mesmo assim…
— [Chega. Do jeito que as coisas vão, acho que o próximo a ser levado para a emergência depois de mim será você.]
— Eu sou forte — disse Seunghyun em tom vigoroso, arrancando uma risada do outro lado da linha.
— [Certo. Vou guardar isso. Enfim, me ligue quando terminar.]
Após combinarem de se encontrar no café de sempre, Seunghyun encerrou a chamada e entrou na academia girando os braços levemente. O treinador responsável, que estava com os braços robustos cruzados, avistou-o de longe e arregalou os olhos em silêncio. Seunghyun aproximou-se e curvou a cintura.
— Sinto muito. Estou atrasado.
No momento em que a voz de Seunghyun ecoou pela academia, a atenção das pessoas que treinavam se concentrou nele instantaneamente. Desconcertado pelos olhares que caíam sobre si do nada, ele olhou em volta sem perceber. Será que não podia atrasar nem dez minutos? O treinador, dando de ombros como se aquela reação fosse ainda mais estranha, apontou para a esteira.
— Corra por 30 minutos primeiro. Estarei esperando.
— Sim.
Enquanto caminhava, olhares peculiares grudavam em várias partes do corpo de Seunghyun. Quando ele virava o rosto para onde sentia o olhar mais intenso, as pessoas costumavam fazer uma reverência desajeitada ou desviar o rosto rapidamente.
Sendo do tipo perspicaz, Seunghyun notou sensivelmente a aura estranha que o rodeava. Certamente tinha relação com o incidente de ontem, algo que ele não havia percebido enquanto estava com Ha Jaeil, que se armava de indiferença.
Seus passos tornaram-se lentos. No instante em que hesitava se deveria ligar para Ha Jaeil, alguém tocou em seu ombro. Ao se virar, viu Ju Seungse, um Esper de classe baixa, parado com um sorriso travesso.
— Olá, Guia.
Era um homem transbordando uma curiosidade sem malícia. Seunghyun leu a energia do homem com um olhar silencioso.
— …Olá.
Ele não tinha intenção de prolongar a conversa. Enquanto Seunghyun seguia seu caminho sem dizer mais nada, Ju Seungse o seguia como um cachorrinho.
— Já tomou café da manhã?
Seunghyun respondeu sem fazer contato visual.
— Sim. Já comi. E o senhor, Esper? — acrescentou a pergunta por educação.
— Sim. Eu também comi. Mas, sabe… Guia.
Como esperado, havia um motivo para ele estar agindo com uma proximidade acima do necessário. Seunghyun esperava que o que sairia da boca de Ju Seungse não fosse outro tópico sensível que ele teria que ignorar. Ele enviou um olhar relutante, misturado com uma pressão silenciosa para que, se tivesse algo a dizer, dissesse logo.
— Sobre… aquela vez. Sinto muito por ter sido rude. Como o Sargento Ha Jaeil é muito famoso e ouvi dizer que o senhor também é excelente… acabei agindo sem pensar, por pura curiosidade.
Seunghyun, que não esperava um pedido de desculpas, ficou momentaneamente sem palavras. Ju Seungse baixou o olhar e coçou a cabeça. Não parecia estar mentindo.
— …….
Ao lembrar do dia em que guiou Ju Seungse, apenas o embaraço e o choque preenchiam sua mente. Embora, como resultado, tenha servido de oportunidade para se aproximar de Jaeil, era fato que ficou assustado com a atitude impensada de Ju Seungse, que não considerou o parceiro. Mas será que era algo que exigia um pedido de desculpas assim? Seunghyun moveu os lábios com uma expressão atordoada.
— Está… tudo bem.
A figura corpulenta, que estava rígida de tensão, relaxou com a única frase de Seunghyun. Seungse abriu um sorriso largo e soltou um suspiro de alívio, dizendo “que bom”.
— Então, nos vemos no próximo guiding…
Seungse não conseguiu terminar a frase. Isso porque um som mecânico agudo, vindo simultaneamente dos *gears* dos Espers, varreu toda a academia. Seungse ergueu as sobrancelhas e olhou para o seu próprio dispositivo. O celular de Seunghyun também vibrou. Em seguida, um anúncio começou a ecoar por todo o prédio.
— [Distrito 5-1-1 da Filial Haon. Centro de Informações Central da Prefeitura. Ocorrência de Pulso. Red Circle Nível 2.]
— Centro de Informações Central?
Seungse trocou olhares surpresos com os outros Espers. As expressões deles não eram diferentes.
— Enfim, Guia. A gente se vê depois!
Seungse despediu-se apressadamente de Seunghyun e virou-se de imediato. A maioria dos Espers que estava na academia deixava o que estava fazendo e saía correndo de uma vez, como uma maré vazante.
Ao ver que os que restaram também estavam agitados, parecia ser uma situação bem séria. A fisionomia de Seunghyun, que olhava fixamente para o celular, também não era das melhores. No aparelho, havia chegado uma mensagem que ele já vira uma vez. Desta vez, havia dois círculos vermelhos.
Ele se lembrou da pessoa que explicara gentilmente que, se a cor dos círculos não mudasse, a hora de sair do trabalho poderia atrasar. Lembrou-se também de seu perfil íntegro e rígido. Por fim, o calor do dorso da mão que tocaram por último surgiu em sua memória como uma miragem.
Saídas urgentes como a de hoje devem ser a rotina deles. Algo que não tem nada de novo. Natural como um hábito entranhado no corpo. Por ter que ser assim, o corpo se move antes mesmo de avaliar se é perigoso ou não.
O destino dos Espers, que precisam correr para o perigo a cada sinal sonoro, não era diferente da vida no Setor 13. E se era uma ameaça em escala grande o suficiente para mobilizar a maioria dos Espers, o homem já devia ter recebido o aviso há muito tempo.
— Deve ser perigoso.
Ao falar baixo, uma ansiedade que ele não havia percebido começou a subir pesadamente do estômago. Seunghyun dedilhou o teclado para enviar uma mensagem ao homem. Mesmo sabendo que Ha Jaeil era um sensitivo forte e reconhecido no Centro, era difícil controlar o coração. Ao perceber que esse tipo de sensação era uma das que mais odiava, o rosto de Seunghyun desmoronou levemente.
— [Espero que não se machuque muito.]
Um suspiro escapou enquanto ele apertava o botão de enviar. Pensou que já havia dito adeus aos Onis e Gons.
Mesmo depois de Seunghyun terminar a corrida, a resposta do homem não veio.
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Ao entrar no café, Joy, que reconheceu Seunghyun primeiro, ergueu a mão. Quando ele se sentou, ela empurrou para a frente dele a bebida que já havia pedido. Como ele pedira para ela escolher qualquer coisa, o que Joy escolhera parecia doce só de olhar.
— Obrigado pela bebida.
— Disponha.
Como estava com sede, Seunghyun virou meio copo de uma vez, deixando Joy com um ar de satisfação.
— Soube que você guiou o Ko Joong-yeol ontem?
— Sim.
Os olhos de Joy, que o observavam, arregalaram-se levemente e voltaram ao normal rápido.
— Ouvi dizer que, graças a isso, o dia do Jaeil foi bem longo.
Embora o tom não fosse de censura, o rosto de Seunghyun ficou visivelmente rígido. Era difícil esconder as emoções.
— …A senhora sabe o que aconteceu?
Ele fora o estopim do incidente, mas parecia ser o único que não sabia como tudo terminou. Isso porque o homem fora excessivamente econômico com as palavras.
— O Esper não me disse nada.
Apoiando o queixo na mão enquanto girava o canudo, ela disse como se não fosse nada demais:
— Apenas… bem… ele mesmo fez a justiça divina.
— …….
— Ele fez muita coisa trabalhosa, o que não é do feitio dele…
Joy deixou a frase morrer. Um olhar enigmático tocou Seunghyun e se desviou. Seu pé pequeno balançava debaixo da mesa.
— …….
O objetivo de Ha Jaeil ao causar um alvoroço tão grande que o Centro inteiro comentava, apenas pelo motivo de terem tocado em Ji Seunghyun, foi puramente dar o exemplo. E um exemplo cruel. Não se comparava a quando ele quebrou As costelas pelo que aconteceu com Rowan. Ele só não matou Ko Joong-yeol, mas foi o mesmo que eliminá-lo.
O homem ostentou uma retaliação que já seria suficiente apenas com seu poder, mas fez questão de usar a influência de sua família — sobre a qual havia apenas suposições de ser grandiosa — para mostrar a que veio. Como se não bastasse, ainda se deu ao trabalho de espalhar os boatos por todo o Centro da noite para o dia.
Todas as suas ações foram um aviso para que não tratassem Ji Seunghyun de qualquer jeito. Ele gravou firmemente na mente dos sensitivos o fato de que, independentemente da origem, Ji Seunghyun era o Guia de Ha Jaeil e que, portanto, jamais deveriam subestimá-lo.
Se Ha Jaeil fosse alguém que só se apoiasse na família para agir, seria impossível chegar à situação atual. Sendo um classe *Back-split* e possuindo um poder de combate que valia por cem homens, Ha Jaeil era um talento de alto nível indispensável em Haon. Além disso, estavam em tempos de guerra e ele era reconhecido na área de tática e estratégia, não faltando muito para sua promoção ao comando.
Joy, que mais do que ninguém queria que Ko Joong-yeol sumisse, não sentia pena da desgraça dele. Mais importante que isso era o motivo de Ha Jaeil ter agido de forma tão exagerada. Se fossem pessoas perspicazes — ou melhor, se tivessem o mínimo de interesse em Jaeil —, perceberiam facilmente. Ha Jaeil agiu deliberadamente para que pensassem assim. Mas será que foi *apenas* deliberado?
As pupilas azuis deram uma volta completa e focaram em Seunghyun.
— Novato.
Joy era do tipo que tinha um instinto ou intuição excelente.
— Sim?
Seunghyun, que mexia no celular, respondeu de forma aérea. De repente, Joy se lembrou do primeiro encontro entre ele e Jaeil. Lembrou-se também das costas largas do homem enquanto carregava Seunghyun cuidadosamente nos braços.
— Acho que hoje vamos conversar um pouco sobre “Marca”.
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Quando Jaeil apareceu vestindo o traje de combate, os olhares dos Espers que já aguardavam grudaram nele por todos os lados. Embora o próprio interessado parecesse não se importar, Kiju, que estava ao seu lado, ficou de mau humor.
Ele sempre fora alguém que atraía muita atenção, mas não nesse nível. Nos olhares disparados, misturavam-se inveja, medo, desdém e respeito, dependendo da classe e da situação de quem olhava.
Kiju deu um chute leve no calcanhar da bota de Jaeil, que caminhava à frente com postura ereta. Entre os Espers, Kwon Kiju era o único que podia fazer tal coisa.
— O que foi?
Virando apenas os olhos para responder com indiferença, ele estava extremamente calmo. Era difícil acreditar que ele era a mesma pessoa que causara aquele estrago ontem. Fazia tempo que Kiju não via essa dualidade silenciosa do homem, algo raro de se ver desde os tempos de escola.
De acordo com boatos bastante confiáveis, Ko Joong-yeol seria designado para a equipe de investigação além do Setor 13. Era quase o mesmo que mandá-lo para a morte. Quanta amargura Ha Jaeil devia estar guardando para chegar a esse ponto? O poder da família que Ko Joong-yeol tanto ostentava foi inútil. Nem quando Jaeil quase explodiu o Centro por causa de Kiju as coisas chegaram a esse nível. Enterrar vivo um sensitivo de nível A e ainda deixar um aviso… Por um momento, Kiju sentiu um calafrio. Ele esfregou o braço e se aproximou de Jaeil.
— Você ficou tão zangado assim?
— …….
Kiju sussurrou baixo. Jaeil, que não desconhecia a intenção sarcástica, não lhe deu atenção.
— Se a classe dele fosse um pouco mais baixa, você parecia estar prestes a fazer uma marca…
Foi então que as pupilas de Kiju se contraíram instantaneamente. As expressões dos dois homens ficaram rígidas ao sentirem uma anomalia.
Jaeil, que tinha reflexos fora do comum, levou a mão à cabeça primeiro. Com a palma aberta ao máximo, algo invisível formou uma barreira entre seus dedos. Algo que avançava em alta velocidade não conseguiu atingir Kiju e Jaeil, sendo repelido com um som surdo de impacto.
Os Espers agitaram-se e viraram os canos das armas. Aquilo, que se apoiava no chão com as mãos e os pés em uma postura curvada e saltava novamente, era um Gon com forma humana.
Esquivando-se com facilidade das balas disparadas aleatoriamente sem mira precisa, o monstro avançou sobre um Esper próximo fazendo um som de “dadadak”. Quando o Gon abriu a boca, uma superfície lisa, como se tivesse sido cortada por uma faca, revelou-se num vermelho vivo. Dentro da boca rasgada até as orelhas, dentes serrilhados se amontoavam.
— Aaaagh!
Junto com o grito, o homem que teve a cabeça inteira abocanhada debateu os membros. Uma chuva de balas seguiu, mas, sem se importar, a criatura inclinou a cabeça para trás e arrancou a cabeça dele. Sangue jorrou do corte.
Mesmo tendo recebido ataques concentrados na cabeça a ponto de metade do crânio sumir, os movimentos continuavam os mesmos. Arremessando o Esper que morrera sem chance de reação, a criatura moveu os olhos restantes de forma bizarra e começou a caminhar mancando. A aparência externa do monstro estava se recuperando rapidamente.
— Não é a cabeça? — Jaeil murmurou sozinho enquanto olhava pela mira.
Seu olhar moveu-se rapidamente para o peito, mas lá também já estava mais do que esfarrapado, com um buraco aberto.
O monstro rastejou em direção ao próximo Esper alvo, desmoronando apenas quando praticamente se tornou uma peneira humana. Não havia como confirmar onde fora o golpe fatal.
“Não é a cabeça?”
Ao sentir uma presença se aproximando rápido, o olhar do homem moveu-se junto com o cano da arma para aquela direção. Outro Gon, surgido de algum lugar, corria em direção a Jaeil.
Mesmo com uma bala cravada com precisão na cabeça e outra no peito, o Gon não diminuiu a velocidade. Para deter aquilo que avançava de forma assustadora, Jaeil acabou sendo obrigado a usar telecinese.
— Aqui é o Jaguar. Aqui é o Jaguar. Cinco Gons apareceram no Distrito 5-1-2, não, aqui… Porra, quantos são afinal!
O Esper que passava o rádio, ao tentar contar os Gons que surgiam de todos os lados, acabou explodindo de frustração. Gons em números que obrigavam a disparar em modo automático apareciam sucessivamente ao redor do prédio.
Era natural que estivessem confusos. Era tão raro a ponto de dizerem que nunca houveram casos de Gons aparecendo antes dos Onis. E os Gons não eram o resultado da evolução de Onis que consumiram humanos dentro de um Oni-cubo? Como detectaram o pulso cedo, todos os humanos haviam sido evacuados. Se tivessem consumido humanos aleatoriamente, já deveria ter havido alguma denúncia em algum lugar.
Não caíram do céu, mas ninguém sabia de onde surgiram ou em que brecha se esconderam para chegar até ali. Esse fato só trazia confusão aos soldados. Estava ocorrendo uma situação que fazia até Ha Jaeil, que mantinha a calma em qualquer circunstância, suar frio.
— Você passou mel no corpo? Por que parece que essas coisas vêm só em você? É impressão minha?
Kiju, que ia em direção a uma cobertura com as costas coladas nas de Jaeil, não aguentou e elevou a voz. Jaeil também achava aquilo estranho, mas não respondeu. Não era possível. A inteligência dos Gons não era alta o suficiente para trocar informações sobre a existência e a influência de um Esper chamado Ha Jaeil.
Assim que as balas acabaram, o pente caiu no chão. Jaeil recarregou imediatamente com um pente tirado do bolso inferior do colete à prova de balas. Suas pupilas, movendo-se mecanicamente, calculavam com agudeza o número e o movimento dos Gons. Nesse meio tempo, outro Gon voou para cima de Jaeil. O escudo de defesa criado pelo Esper mental que dava cobertura na retaguarda conseguiu repelir a criatura por pouco.
Em um combate direto contra Gons, e não Onis, Espers mentais costumavam ter muitas limitações. Isso porque a habilidade de transformar energia amorfa em várias formas tinha grande poder de destruição, mas era lenta. Eles serviam principalmente para erguer escudos para os soldados comuns ou para explodir o corpo físico dos monstros para facilitar a remoção do núcleo.
No meio do barulho ensurdecedor dos tiros, um Gon que agia como um demônio caiu subitamente. A bala significativa foi disparada primeiro pelo fuzil de Jaeil.
— Isso não faz sentido — murmurou Kiju com o rosto pálido enquanto recarregava. Ele vira onde Jaeil acertara.
— Na mão?
— Sim.
A resposta curta de Jaeil veio com um olhar obscurecido. O núcleo dos Gons, que já eram rápidos, estar em uma mão que se movia ainda mais rápido… Onis grandes podiam ser lidados com poder mental, mas os Gons eram diferentes. Por serem rápidos demais, muitas vezes era preciso depender do instinto animal do tipo físico. Ainda mais se o alvo não fosse a cabeça ou o peito, mas a mão, como agora.
Mirando calmamente um Gon que se movia de forma errática, Jaeil apenas esperava internamente que a mão fosse um alvo constante aplicável aos outros Gons também.
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Joy, tirando o tablet após algum tempo, abriu um aplicativo de notas. O olhar curioso de Seunghyun seguiu as pontas dos dedos dela que se moviam diligentemente.
— Marca?
Marca. Era a palavra que ocupava o último item do guia de conceitos que ela lhe dera. Seunghyun ainda era um guia novato que mal conseguia fazer o guiding básico. Parecia ser um conteúdo profundo e avançado para ele, então nem chegou a dar uma olhada por cima.
— Eu expliquei que o *Subordinamento* é quando o Esper entra em uma posição inferior ao Guia, certo? Como o efeito do guiding é bom, não precisa exatamente de um acordo mútuo, mas também disse que há margem para abuso. Lembra?
Ela disse enquanto desenhava um boneco de neve na tela branca. Seunghyun assentiu.
— Sim, eu lembro.
O boneco de neve com uma estrela na cabeça era o Guia. Ela representou os braços e pernas com traços e desenhou olhos, nariz e boca com capricho. Era impressionante como desenhos feitos de qualquer jeito podiam ser tão fofos. Seunghyun sentiu-se feliz por vê-los depois de tanto tempo.
Ela terminou de desenhar quatro bonecos de neve. As posições de cima e de baixo do Esper e do Guia estavam invertidas em cada caso. Ao lado da palavra “Subordinamento”, o Guia estava acima do Esper, e ao lado de “Marca”, o Guia estava abaixo do Esper. Por fim, desenhando duas linhas longas que representavam o canal entre o Esper e o Guia, ela tocou a tela com a ponta da caneta. Seu olhar voltou-se para Seunghyun.
— Soube que você também fez o Subordinamento?
Os olhos de Seunghyun arregalaram-se levemente ao lembrar daquele momento. Seus olhos, que já eram grandes, brilharam de surpresa e logo murcharam tristemente.
— Fiz, mas ainda não consigo controlar.
Joy, que pretendia consolá-lo dizendo apenas para não se preocupar, hesitou por um momento. O crescimento dele era bizarramente rápido. O surto de Jaeil que abalou o Centro.
— Eu realmente queria ser cuidadoso com o Esper Ha Jaeil.
Atualmente, a maior preocupação de Seunghyun era controlar o Subordinamento. Só assim ele poderia guiar Jaeil com segurança e estar acima dos outros Espers. Para ter orgulho como Guia, ele precisava obrigatoriamente superar essa etapa.
Acima de tudo, não queria que o guiding com Ha Jaeil fosse interrompido. Era um pouco diferente do problema de suportar a distância que o homem criava propositalmente. Ele se sentia solitário e desamparado.
— Acho que o Jaeil gosta muito de você.
— Ah.
Ouvir de outra pessoa algo que ele sentia vagamente fez com que a percepção se tornasse ainda maior. Seunghyun assentiu e sussurrou baixo: “Sim. Eu também”. Ao expressar em som algo que reconhecia apenas como uma sensação vaga, ele se sentiu estranhamente envergonhado. Seunghyun esfregou as bochechas com as palmas das mãos, como se quisesse afastar o calor que as subia.
— Você não tem curiosidade sobre o passado do Jaeil?
— Agora, realmente não importa mais.
Todo mundo tem feridas que prefere não remexer. Seunghyun, pelo contrário, queria ajudar a enterrá-las profundamente, jogando mais um punhado de terra para que elas não aparecessem facilmente. Esse era o único método que ele aplicara a si mesmo até então. Não conhecendo outro jeito, Seunghyun não tinha curiosidade, não queria compartilhar nem tinha intenção de resolver as feridas dele. Apenas estar ao seu lado, isso era o suficiente.
— Você ainda só consegue ouvir a voz dele?
— Sim.
— Bem, não é como se você visse o passado ou as emoções fossem transferidas, certo?
— Antes disso acontecer, o Esper bloqueou.
Quando o olhar melancólico de Seunghyun subiu lentamente, Joy deu um sorriso radiante.
— Com a sua personalidade, você não vai controlá-lo de qualquer maneira.
Seunghyun concordou. Era impossível que ele o controlasse; se alguém fosse influenciado, seria ele mesmo. Mesmo que uma ação que Jaeil odiasse tivesse um ótimo efeito de guiding, ele jamais queria fazê-la.
— Não se preocupe muito. Vendo como o Jaeil causou aquele alvoroço ontem, não acho que ele vá te afastar ou algo do tipo só porque você cometeu um erro.
— O Subordinamento parece ser uma habilidade incrível.
Enquanto resmungava baixo, o olhar de Seunghyun deslizou para o celular em cima da mesa. Era porque a resposta do homem ainda não havia chegado. Ele não parava de se preocupar se algo teria acontecido.
Joy, observando o comportamento dele de soslaio, engoliu um riso secreto.
— Enfim, eu queria dizer que a Marca é o caso oposto.
— …….
Diante do olhar fixo dele, ela assentiu.
— Sim. Na Marca, o Guia torna-se dependente do Esper. Você concentra sua habilidade principal em um único Esper.
— Então… isso significa que eu só poderei guiar aquele Esper?
— Não, não é isso. Define-se a prioridade do guiding. Não de acordo com o que o alto escalão designa, mas apenas pelo seu instinto.
Joy acrescentou que era um conceito diferente do Guia exclusivo designado arbitrariamente pelo comando para evitar confusão.
— Dizem que, uma vez marcada, as pessoas conseguem ouvir… não, sentir os batimentos cardíacos uma da outra. Entende o que quero dizer?
— Sim.
— Não é incrível que isso seja possível mesmo estando distantes? Pelo que sei, é possível em um raio de até 10km.
Sinceramente surpreso com o que ela disse, Seunghyun soltou uma exclamação: “Uau!”. Quanto mais ele conhecia o mundo dos sensitivos, mais fascinante ele era.
O que significaria poder sentir os batimentos cardíacos sem precisar escutar? Seunghyun buscou em sua memória o som do coração de Jaeil. Quando o perfume refrescante e a temperatura corporal um pouco quente foram desenhados naturalmente, seu peito sentiu-se estranhamente apertado. Quando foi que ele se acostumou tão rápido com essas coisas? Enquanto se questionava em vão, o olhar de Seunghyun voltou-se discretamente para o celular.
— Além dos batimentos, é possível identificar o estado do Esper, mas se você não resolver isso primeiro, não conseguirá guiar outros Espers. Mesmo que queira, não consegue.
— …….
— Em compensação, a velocidade do guiding com o Esper marcado é maior do que qualquer coisa que possamos imaginar. A velocidade com que ele entra em surto também diminui significativamente.
O único caso de guiding que Seunghyun podia aplicar de verdade ainda era o daquela mesma pessoa. Seunghyun mergulhou em pensamentos enquanto organizava as palavras dela. No momento em que ele fez contato visual com ela, finalmente surgiu uma pergunta, mas Joy foi mais rápida e tomou a dianteira antes mesmo de ele abrir a boca.
— Então, aqui vai uma pergunta. Qual lado sai em desvantagem ao fazer a Marca?
Seunghyun, que mexia silenciosamente no copo de vidro, franziu levemente a testa. Sem conseguir responder prontamente, ele apenas mordeu o lábio inferior.
— Um Guia de classe alta é um bem compartilhado. Isso porque ele precisa ser útil em tempos de guerra.
Joy, considerando que o silêncio dele significava que ele sabia a resposta, falou primeiro:
— Um Guia de nível A limitado a apenas uma pessoa… ninguém ficaria feliz com isso. Do ponto de vista do Guia, isso cria problemas para a sua própria posição, então a maioria tenta não fazer a Marca. Se os sentimentos batem, eles namoram; poucos sensitivos insistem nessa Marca complicada.
— …….
— Além disso, no seu caso, com uma origem tão especial, seria algo a ser evitado a todo custo.
Inclinando a cabeça, Joy inclinou o tronco para a frente. Apoiando os cotovelos na mesa e o queixo no dorso da mão, ela o observou intensamente.
— De qualquer forma, se fizer a Marca…
A voz calma de Seunghyun cortou o silêncio pesado e fluiu:
— O Esper Ha Jaeil não sentirá tanta dor quanto sente agora, certo?
Um canto da boca de Joy subiu suavemente. Assim que ela deu as opções, ele escolheu a resposta; ela não sabia se chamava aquilo de admirável ou de teimosia.
— Mas, novato. Por que você não para de olhar para o celular desde agora há pouco?
Seunghyun, sem saber que aquilo era uma provocação, mordeu a isca na hora. Ele executou a ação que estava segurando enquanto conversava com ela.
— O Esper ainda não entrou em contato.
Ele viu com os próprios olhos a caixa de mensagens vazia e deixou os ombros caírem.
— Ah… a propósito, o Red Circle será cancelado…
No momento em que Joy relaxou o corpo no assento, o celular nas mãos de Seunghyun e o de Joy vibraram simultaneamente. Ao contrário de Joy, que pegou o celular sem pressa, o movimento de Seunghyun foi agitado. Assim que seus ombros estremeceram, ele verificou a mensagem rapidamente. Embora não fosse um contato do homem, era uma boa notícia. “Parece que poderei sair do trabalho na hora certa”, murmurou Joy com um olhar indiferente. O corpo de Seunghyun deu um pulo para cima.
— Disseram que ele está voltando para a base agora!
Era um comportamento que permitia imaginar o quanto ele estivera esperando.
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[Equipe Esper] 1 morto, 5 feridos graves. 10 feridos leves.
[Risco de Amplificação] 7 em estado crítico, 23 em estado médio.
[Gon (Teratoma)] 30 criaturas. Todas eliminadas.
Como seres humanos que compartilham a terra, eles não podem escapar dos Gons e Onis, e mesmo Haon, sendo a base mais desenvolvida e forte, não era exceção.
— …….
Ao ver os números das baixas, Seunghyun teve que reviver sentimentos que sentira inúmeras vezes no antigo Setor 13. Ali também era um lugar onde pessoas morriam. O *déjà vu* desconfortável trouxe à tona memórias que ele tentara cobrir. Era melhor cortar o mal pela raiz antes que se tornasse profundo. Balançando a cabeça como se quisesse afastar os pensamentos, Seunghyun pressionou as têmporas com uma das mãos.
De qualquer forma, o prejuízo parecia ter sido grande. Joy também dissera que os números eram sérios. Ela também mencionou que haveria um breve resumo por equipe assim que a agenda urgente de guiding fosse concluída. “No fim das contas, não vou conseguir sair cedo”, Joy reclamou pela última vez antes de ela e Seunghyun se dispersarem para suas respectivas salas de guiding.
— …….
Seunghyun estava sentado na beira da cama esperando por Jaeil. Verificando as horas e passando a mão no lençol, seu olhar naturalmente se voltou para o vazio.
Jaeil, obviamente, estava entre os de risco crítico de amplificação, mas o fato de não ser uma situação tão grave a ponto de ele ter que correr até lá já era um alívio. O tempo em que passou com o coração na mão o dia todo já havia se tornado passado, e ele conseguia superar esse nível de ansiedade.
Mas quando ele viria? Parecia que já fazia um bom tempo. Ele deixou o suspiro que escapou sem querer fluir.
A curiosidade que surgia apressada em seu peito era óbvia, mesmo sem olhar profundamente. Por onde ele estaria? Estaria sentindo muita dor? Será que se machucou? Ao perceber o desejo de saber exatamente o estado atual do homem, Seunghyun lembrou-se das vantagens da Marca que ouvira de Joy.
O Guia e o Esper marcados compartilhavam o fôlego ao sentirem os batimentos cardíacos um do outro. Joy dissera até que o Guia podia saber o estado do Esper a uma distância que ele sequer ousaria sentir. Mesmo que o resultado fosse a submissão total ao Esper, era sem dúvida uma habilidade misteriosa.
— É como um rastreador GPS?
Ao pensar profundamente, a analogia que surgiu foi tão apropriada que Seunghyun soltou um riso nasal. 10km era um raio amplo. Ter que revelar o trajeto obrigatoriamente, mesmo querendo escondê-lo, era, de certa forma, semelhante ao princípio do Subordinamento. Parecia que a parte consciente era apenas substituída fisicamente, sem fugir do eixo principal.
Seu olhar caiu para a ponta dos sapatos. Nas pupilas que se afundaram um pouco melancólicas, espalhou-se uma emoção de uma cor que nem ele mesmo conseguia interpretar.
— O Esper não gostaria disso.
O coração que se animara ao ouvir a explicação de Joy esfriou ao aplicar a situação a Jaeil. Se ele já odiava tanto o Subordinamento, não gostaria nem um pouco de algo como a Marca, que entrelaçava tudo um do outro.
“Qual lado sai em desvantagem ao fazer a Marca?”
A voz de Joy ecoou em sua mente. Certamente, o mundo deles era um lugar mais cruel do que imaginava. Assim que ele mal aceitava uma coisa, outra vinha testá-lo. Será que os sensitivos tinham que viver nesse constante jogo de pesos e medidas ou guerra de nervos? “Eu não quero ser assim. Quero fazer o que meu coração manda. Será que não posso?” As pálpebras de Seunghyun, que sofria com o dilema, baixaram-se pesadamente e subiram. Não era algo que se resolveria pensando sozinho.
De repente, houve um barulho do lado de fora da porta. Através da parede, energias de todas as formas e cores passaram. Parecia que os Espers finalmente haviam chegado. Nas pupilas de Seunghyun, que estavam caídas como as de um boneco com as cordas cortadas, a luz penetrou como se uma lâmpada tivesse se acendido. Levantando-se num salto, ele foi em direção à porta sem hesitar.
Entre as inúmeras energias, ele já conseguia encontrar a dele até de olhos fechados. Quando foi que se tornou tão familiar? Era um tempo insignificante comparado aos dias que vivera, mas quando foi que aconteceu? As pupilas que olhavam para a porta estavam emaranhadas com expectativa, saudade e afeto, mas o interessado só conseguia interpretar aquilo como pura ansiedade.
— …….
Era porque eles trocavam apenas o que havia de mais intenso um no outro. Era porque tudo se misturava antes mesmo que houvesse tempo para definir o que era, tornando o ato de distinguir sem sentido.
A maçaneta girou lentamente e o som do trinco se soltando ecoou. A velocidade com que a porta se abria era ainda mais lenta. O que entrou primeiro pela pequena fresta foram os monstros negros do homem. Mesmo antes da porta se abrir totalmente, eles ocuparam o espaço e grudaram na parede um após o outro. Era um movimento semelhante às pernas de uma aranha.
Certamente era a mesma energia, mas ele tinha o talento de assustar as pessoas mudando para uma forma pavorosa toda vez que ele os via. Seunghyun, engolindo em seco, deu um passo em direção ao homem.
A cabeça do homem caiu pesadamente após ele observar Seunghyun por um breve momento. Parecia um cumprimento, mas Seunghyun, que por um instante pensou que ele fosse desmaiar, amparou o corpo dele.
— O senhor chegou.
Seunghyun examinou detalhadamente o corpo do homem como se fizesse uma inspeção e segurou o pulso dele para ver o *gear*. Estava em 75%, um número alto como esperado.
— Tudo…
Seunghyun, que ia dizer algo nem que fosse por educação, inclinou a cabeça levemente. Mesmo sem demonstrar, Seunghyun, que sabia ler a energia dele, percebeu imediatamente que o estado do homem estava estranho de outra forma. O franzir profundo das sobrancelhas, como se ele estivesse contendo algo a muito custo, também era muito suspeito. Ele aplicou uma leve força na mão que segurava o braço do homem. A reação de contorcer o nariz foi imediata.
— Isso… por acaso…
Quando a força saiu dos dedos de Seunghyun, o braço dele, que não conseguia se sustentar sozinho, caiu pesadamente. Como ele teria se machucado? O homem, percebendo a inspiração de susto, levantou o braço bom e cobriu o topo da cabeça de Seunghyun.
— Vai cicatrizar logo.
— …….
Para quem dizia aquilo, chamas negras saltavam ao seu redor. O que oscilava em azul-escuro sobre o braço machucado era a dor dele. Seunghyun fechou bem a boca. Observando as costas largas que caminhavam a passos pesados, ele mordeu o interior dos lábios por hábito.
“Pelo menos não deveria colocar uma tala ou algo assim? Só porque você é um sensitivo não quer dizer que não sente dor.” A compaixão incontrolável logo gerou algo parecido com um sermão, que subiu rapidamente até a garganta.
Foi no momento em que ele se decidiu a dizer algo. O braço do homem sentado na beira da cama subiu lentamente. As pontas dos dedos que oscilavam sem força atiçaram o desejo de deixá-lo confortável de qualquer jeito. O que ele deveria fazer? Bastou pensar um pouco para a resposta surgir logo. Seunghyun caminhou em direção a ele enquanto desabotoava os botões de sua própria camisa, um por um.
O som do tecido roçando estimulou a audição. O topo da cabeça do homem, que estava caído, subiu encontrando seu ângulo. Nas pupilas que observavam calmamente, a silhueta de Seunghyun se espalhava. Curvas ágeis e firmes oscilavam sob a gola aberta. A cada respiração, o peito branco subia e descia. Eram movimentos inábeis que deixavam clara a sua tensão, e o homem, como sempre, esperou por Seunghyun.
O olhar, que penetrou obsessivamente até os lugares sombreados pela camisa, estava firme e sem oscilação. Na verdade, o homem sequer tinha tempo para se desconcertar. Ele mal conseguia evitar que seus membros se contorcessem diante da dor que esmagava todo o seu corpo. O homem, que piscou as pálpebras pesadas como se fosse cair no sono a qualquer momento, resmungou como um suspiro:
— É bom que você seja proativo, mas…
Jaeil, que queria acrescentar que parecia perigoso tirar a roupa na frente de um Esper em surto, acabou fechando a boca que abrira pela metade. As pontas dos dedos que se estenderam sem hesitação em sua direção roçaram seu ombro e pescoço, segurando sua nuca.
— Vou abraçá-lo.
O que saiu da boca de Seunghyun foi um aviso. Onde fora parar aquela figura que pedia permissão de forma lamentável como se não pudesse ser atendida? Agora ele demonstrava uma faceta bem digna de um Guia.
Jaeil soltou um riso nasal curto e, sob o pretexto de não ter energia para responder, encostou a testa na nuca de Seunghyun. Foi então que a força entrou nas pontas dos dedos que hesitaram, ao contrário do ímpeto inicial. Seunghyun abraçou profundamente o corpo do homem e acariciou sua nuca suavemente. Embora devesse doer por causa da energia hostil, ele cumpriu seu dever com firmeza, sem demonstrar.
— …….
As energias malignas que passassem para ele voltariam purificadas e límpidas. Era algo possível porque a taxa de sincronização era alta, as classes eram as mesmas e porque, instintivamente, eles se sintonizaram um ao outro.
Virando levemente a cabeça, a ponta do nariz de Jaeil roçou a nuca de Seunghyun. Quando o perfume corporal familiar, mas ao mesmo tempo novo, penetrou em suas narinas, seus sentidos ficaram distantes. A mão que ainda conseguia se mover entrou por entre a camisa e abraçou amplamente a região lombar.
O contato com o homem de temperatura corporal alta sempre assustava Seunghyun. Seunghyun agarrou-se a Jaeil, que acalmava sua cintura que estremecera ao toque, sem qualquer resquício de rejeição.
O pomo de Adão de Seunghyun, tocado pelo nariz, pelo filtro e pelos lábios do homem, teve uma leve convulsão. Ao erguer os lábios, um som de sucção cobriu instantaneamente o pescoço alongado.
— …….
— …….
Enquanto Seunghyun realizava o guiding fielmente, Jaeil, que ficou com a mente clara, começou a observá-lo com um olhar diferente de antes. Quando o carinho que era suave tornou-se denso, a mão de Seunghyun que segurava a nuca dele estremeceu. Ignorando suas próprias bochechas ardentes, Seunghyun abraçou o homem com força e uma voz baixa ecoou de seu peito:
— É um problema você ser tão sensível assim.
A pessoa que dizia ser um problema estava contando cada vértebra da coluna com os dedos. A pressão que apertava a pele era erótica. Seunghyun, que quase soltou um gemido no momento, fingiu limpar a garganta com um “hum”. Ele pensava que Jaeil era apenas reservado, mas o homem tinha um lado que dizia coisas embaraçosas. Seunghyun resmungou timidamente, escondendo as bochechas que queimavam em vermelho:
— Não é nada disso.
— Eu sei. A culpa é minha.
A gentileza de assumir a culpa era, de alguma forma, ainda mais vergonhosa. Seunghyun aproximou-se do homem fingindo não saber de nada, mais uma vez. Por ser um sensitivo e por ele também ser um sensitivo, era sempre difícil definir as coisas que ferviam dentro de si. Era bizarro, afetuoso e, ao mesmo tempo, estranho. Quanto mais nítidos os sentimentos por ele se tornavam, mais Seunghyun era obrigado a se fixar no objetivo de realizar o guiding.
— Haa…
Finalmente, um longo suspiro escapou do homem. Além disso, ele relaxou todo o corpo, transmitindo perfeitamente o seu conforto. Como se fosse uma retribuição. Seunghyun, que o abraçava, apenas piscava os olhos arregalados.
“Não sou eu quem está sendo curado pelo guiding, então por que me sinto aliviado? Por que sinto em mim essa plenitude profunda que parece prestes a transbordar, mas não transborda? O que diabos ele me transmitiu?” Seunghyun não entendia nada disso, mas sabia de uma coisa com clareza. Seu coração, que fervilhava, causou um impulso insuportável.
Parecia que ele tinha que fazer aquilo. No exato momento em que questionava o que era aquilo, seu estômago esquentava e ele sofria. Não importava quem abrigara tal começo primeiro.
— …….
— …….
Com uma expressão embaraçada, Seunghyun balançou a cabeça levemente e beijou o pavilhão auricular do homem. A pele quente tocou a orelha de forma úmida e se afastou. O que penetrou em cada vinco dos lábios era tão arrepiante que Seunghyun contraiu os lábios uma vez e os soltou.
Ao virar a cabeça lentamente, seu olhar entrelaçou-se naturalmente com o dele. Seunghyun teve a ilusão de que tudo ao redor havia parado. Se houvesse um fio entre os dois, quem o segurava certamente seria o homem. Mesmo naquele espaço onde estavam apenas os dois, o homem enviou o sinal de que ele deveria focar nele, como se ainda fosse insuficiente. A palma da mão aberta puxou as costas de Seunghyun com firmeza. A obstinação que não permitia sequer um espaço para se debater logo se encheu de ardor.
— …….
— …….
Em meio ao silêncio momentâneo, a linguagem própria deles foi trocada e, sem que ninguém precisasse começar, seus lábios se encontraram.
Continua no Volume 3.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna