Capítulo 03
🩸 Blood Poker 03
‘Seunghyun.’
Sob o céu noturno acinzentado, Seunghyun despertou como se tivesse sido expulso de seus pensamentos pela voz que sentia na pele, e sentou-se abruptamente. Não houve tempo sequer para esfregar os olhos ressecados. Seu olhar, lançado a esmo, fixou-se na ponta de seus próprios pés. Mexendo os dedos do pé, ele seguiu o fluxo de sua consciência e pensou: *Estou descalço. Eu tirei as meias? Não me lembro. Aliás, onde estou?*
Ah, é a casa do Esper.
Só então Seunghyun olhou ao redor, reconhecendo o lugar, e afastou o cabelo bagunçado da testa. Em seguida, ele estancou como uma estátua. Seu rosto, antes sonolento, ardeu e ganhou cor. Seunghyun apertou o topo da cabeça com as mãos. Suas pupilas, recordando o dia de ontem, oscilaram sem saber para onde olhar.
Não bastasse ter tido uma ereção apenas com o beijo para o guiding, ele chegou a receber uma masturbação manual. O rosto do homem estava embaçado em sua mente. Apenas a imagem de si mesmo, excitado pelo prazer, era nítida.
— …Enlouqueci.
Nesse momento, a porta se abriu. O homem, segurando a maçaneta, inclinou a cabeça levemente para Seunghyun em um cumprimento. Com a aparição repentina dele, Seunghyun mal conseguia se lembrar de como respirar, que dirá ter compostura para retribuir o cumprimento. Assim que arregalou os olhos, ele desviou o olhar apressadamente. Parecia que alguém tinha ateado fogo nas pontas de suas orelhas. Como Seunghyun permanecia hesitante e mudo como se tivesse comido mel, o homem, que o observava em silêncio, apressou-o com indiferença.
— Deixe de formalidades inúteis e vamos comer.
— …….
Seunghyun mordeu o lábio inferior com o rosto vermelho. Ao sentir uma dor aguda, percebeu que havia uma crosta no lábio. Ele roeu a parte onde sentia o incômodo enquanto respirava pesadamente. *Formalidades? Aqui estou eu, com o coração que caiu no chão e mal está conseguindo se rastejar de volta, e ele age como se nada tivesse acontecido? Bem, ontem também foi assim. Ele aceitou meu estado de desorientação por causa de um simples beijo como se não fosse nada demais.*
Seunghyun decidiu que deveria sair e dizer algo, mas logo relaxou os ombros. Fora ele quem pedira primeiro para ser tocado. Não seria exagero agir de forma afetada com alguém que aceitou o pedido sem hesitar, só porque o método de guiding foi um pouco profundo? Não estaria sendo egoísta de novo? As dúvidas se acumulavam.
*Mas ontem foi demais. Foi erótico. Muito.* Seunghyun esfregou as bochechas e estremeceu. Mesmo tentando atribuir aquilo ao fato de não ter aprendido sobre o conceito do relacionamento entre Espers e guias por estar focado apenas no guiding, a memória de ontem era sensual demais. Ele não conseguia admitir que aquilo fosse o mesmo tipo de guiding que vinha fazendo até agora. E, além de tudo, desmaiou de novo. Seunghyun, que soltava um grito silencioso enquanto segurava a cabeça, de repente abriu bem os olhos.
— Ah…
Ele se lembrou de algo. Uma voz firme, grave e, ao mesmo tempo, gentil. Ele a sentira como uma sensação, não como um som. Enquanto remoía obsessivamente aquela experiência estranha, o olhar de Seunghyun vagava pelo chão. Parecia que, sem saber de nada, ele havia feito um *sub-guiding*. Em seguida, lembrou-se das palavras de Joy, avisando para ter cuidado com o sub-guiding, e sentiu-se apenas constrangido. Ele passou a língua pela crosta no lábio inferior.
Pensando bem, a primeira coisa que ouviu da voz da mente dele foi o seu próprio nome. Mesmo tendo feito algo tão erótico com as mãos sem hesitar, ele chamara seu nome de forma que não parecia combinar. Sentindo uma sensação estranha de cócegas, Seunghyun massageou a área ao redor do plexo solar. Sua mão, que se movia em círculos, parou sobre o coração. Ele batia com tanta força quanto o do homem.
Imerso em pensamentos, Seunghyun finalmente desceu os pés da cama.
— …….
Seu olhar caiu subitamente. O primeiro pensamento que teve ao se levantar foi que a calça de moletom estava folgada. Sentindo que a cintura estava prestes a escorregar, Seunghyun segurou a calça e ficou paralisado como uma pedra por um tempo.
— …….
A questão de *por que* alguém o trocou de roupa o atingiu com mais força do que *quem* o trocou. Seunghyun deu um tapa sonoro em sua bochecha ardente. Se continuasse assim, sentia que não conseguiria sair daquele quarto.
Sentado à mesa, Seunghyun olhou de soslaio para o homem à sua frente antes de abrir a boca.
— Esper.
— Sim.
Um som crocante veio da boca do homem que mordia uma torrada.
— Qual é o seu nível de risco de amplificação? Olhando assim, não parece tão grave.
— Está baixo. Graças a você.
O “graças a você” parecia se referir ao guiding de ontem. Seunghyun baixou o olhar com o rosto corado.
— Sabe, Esper…
— Sim. Pode falar.
Ele precisava dizer o que precisava ser dito.
— Como… ontem…
Enquanto ele hesitava, o olhar do homem subiu lentamente em direção a Seunghyun.
— Não faça mais aquilo.
— …….
Jaeil, que limpava o resto de geleia no canto da boca com a língua, soltou um suspiro leve. Em certo sentido, aquilo era o mesmo que uma rejeição. Mesmo que sentisse um nó no estômago, não havia o que fazer. Ele havia perdido a razão e forçado a situação, então era natural que Seunghyun estivesse assustado.
— Eu não consigo acompanhar.
— …Parece que sim.
Com uma expressão calma, Jaeil baixou o olhar e concentrou-se na refeição sem dizer mais nada. Jaeil já havia comido mais da metade, mas Seunghyun não tinha tocado em nada. Seus dedos se mexiam sob a mesa.
— Mas.
— Sim.
— Quando for estritamente necessário, devemos fazer.
Jaeil assentiu, quase conformado. O critério para o que seria “estritamente necessário” provavelmente seria definido por Ji Seunghyun. Ele não gostou disso, mas tinha que pagar o preço por tê-lo assustado.
— E sempre juntos.
— …….
— Eu também quero tocar no senhor, Esper.
O homem, que estivera impassível o tempo todo, subitamente soltou uma tosse seca. Ele bebeu alguns goles de leite apressadamente e limpou a boca. Seus olhos arregalados se voltaram diretamente para Seunghyun. Sem se importar se Jaeil estava surpreso ou não, Seunghyun coçou a sobrancelha e terminou de dizer o que queria.
— Então.
— …….
— Se tivermos que fazer isso de novo mais tarde, não toque apenas em mim, Esper, ugh.
Um tomate cereja foi empurrado para dentro da boca de Seunghyun. Fora Jaeil quem o colocara ali, com o cenho franzido.
— …Você não tem filtro no que diz.
Seunghyun, com o rosto bobo, apenas mastigava o tomate. Jaeil olhou para ele com desaprovação e deu um leve toque na bochecha estufada dele.
↫────☫────↬
O céu, que ele pensava estar apenas nublado, estava derramando chuva. Ao sair do estacionamento subterrâneo, o som das gotas batendo pesado no teto fez Seunghyun olhar para cima.
Em dias chuvosos ou com nuvens densas, mais escuros que o normal, era preciso ficar alerta. Pois eram os dias que os Onis mais gostavam. Pelo brilho frenético do *gear* de Jaeil desde cedo, parecia que ali não era diferente.
O interior silencioso do carro, onde nem uma palavra trivial era desperdiçada, era estranho e ao mesmo tempo familiar. Seus olhos, que seguiam o movimento frenético dos limpadores de para-brisa, logo se voltaram para o homem.
Ele sabia que o fogo de ontem nada mais era do que um contato que poderia ser chamado de guiding intenso. Por isso, concluiu que poderiam fazer o mesmo no futuro se necessário, mas aquilo era, de certa forma, apenas um encerramento superficial. Na realidade, Seunghyun não conseguia organizar o que aconteceu ontem em sua mente. Ele apenas não demonstrava, mas ainda se sentia envergonhado e tímido. No entanto, como o outro estava surpreendentemente sereno, ele tentava agir com naturalidade também.
Seunghyun sentia-se grato pela consideração do homem em aceitar prontamente sua proposta, mas aquilo também o preocupava.
Aquele tipo de guiding fora a primeira vez e ele apenas se deixou levar, mas, no fim das contas, achou que foi bom. Preso na aura carmesim que emanava dele, incapaz de mover um dedo enquanto se afogava no prazer, ele não sentiu nenhuma rejeição, o que era quase absurdo.
Seunghyun disse que queria tocá-lo. Transmitiu seu sentimento sincero, pedindo para que ele o acompanhasse um pouco. Mas o homem calou sua boca e nem sequer lhe deu uma resposta. Ele saiu dizendo que Seunghyun falava o que não devia, com uma expressão desconfortável, e por isso ele não pôde acrescentar mais nada.
— …….
— …….
*Será que a relação entre um Esper e um guia é mais seca do que eu imaginava?* Sentindo uma melancolia súbita por uma razão desconhecida, Seunghyun desviou o olhar para a janela.
— Como está a sua agenda hoje?
A voz firme e polida ecoou pelo carro. Seunghyun esfregou a bochecha, forçando a memória.
— Uh… Hoje, pela manhã, tenho treinamento físico e um guiding.
Assim que ouviu a palavra guiding, o rosto do homem franziu levemente, mas Seunghyun, que contava as tarefas nos dedos, não percebeu.
— À tarde, vou passar um tempo com minha mentora e depois vamos ao treinamento de tiro juntos. À noite, tenho outro guiding marcado. Todos são de nível C.
Era a vez de perguntar a agenda do homem, mas o celular de Seunghyun vibrou. Ao olhar para a tela, a expressão de Seunghyun mudou para uma de confusão.
— Esper. O senhor sabe, por acaso, o que significa este símbolo?
Aproveitando a parada no sinal vermelho, Seunghyun estendeu o celular. Era uma mensagem do Centro, e havia um ícone redondo e vermelho, do tamanho de uma unha, com o brasão do Centro gravado.
— É um alerta de espera para guiding.
— …O que é isso?
— Significa que guidings adicionais podem ser agendados em caráter de emergência.
— Deve ser por causa do tempo. Não é?
Jaeil assentiu.
— As mensagens virão a cada três horas. Se o ícone não mudar para azul, talvez seja difícil sair no horário normal hoje.
— …….
*Se for só isso.* Seunghyun assentiu e relaxou o corpo no banco. Então, pensando que se ele estivesse ocupado, o homem estaria ainda mais, Seunghyun virou a cabeça para ele.
— O senhor também deve estar ocupado, Esper.
— Sim. De fato. A situação não é boa o suficiente para confiarmos apenas nos pulsos existentes.
— …….
O homem continuou enquanto girava o volante suavemente.
— Você já deve ter ouvido da sua mentora, mas o Centro será transferido em breve e a possibilidade de dispersão não pode ser ignorada. No pior dos casos, talvez tenhamos que realizar guidings sempre em campo.
O homem, geralmente calado, estava falando excepcionalmente muito, como se estivesse esperando o momento certo para dizer aquilo. Seunghyun, que ouvia atentamente, observou silenciosamente a aura ao redor dele. A energia dele estava muito mais fraca do que quando se conheceram, mas ainda o preocupava. Como ele mesmo disse, talvez Seunghyun fosse uma pessoa ambiciosa. Pois até aquilo o incomodava e fazia seu peito formigar.
— Me preocupa que você tenha sangramentos nasais todas as vezes. O treinamento físico é bom, mas…
Quem diria que ele encontraria alguém para se preocupar com ele em Haon, um lugar onde não tinha nenhum conhecido.
— …Ei.
Seunghyun começou timidamente. O olhar do homem, que parou de falar instantaneamente, voltou-se para Seunghyun e depois retornou para a frente. Como ele parecia estar esperando a continuação, Seunghyun expressou sua intenção hesitante.
— Posso… segurar sua mão?
— …….
Ele dissera que podia tocar, e que ele deveria fechar os olhos e ouvidos para o resto e ouvir apenas as palavras dele. Seunghyun só podia fazer isso por ele agora.
— Vou apenas colocar minha mão sobre a sua, para não atrapalhar a direção.
Jaeil não respondeu. Apenas seu pomo de Adão se moveu enquanto ele engolia em seco. Mesmo assim, Seunghyun soube que era um consentimento. Sua mão estendida suavemente cobriu as costas da mão do homem.
— …….
— …….
O silêncio retornou. Seunghyun olhou pela janela fingindo indiferença, e Jaeil também fixou o olhar na frente úmida limpa pelos limpadores. Não demorou muito para que as peles em contato se aquecessem. Foi nesse momento que os dedos do homem sob a mão de Seunghyun se abriram lentamente. Os dedos de Seunghyun, que estavam apenas pousados por cima, entrelaçaram-se timidamente entre os dele. Através do entrelaçar das mãos na mesma direção, as energias fluíam obstinadamente em um só caminho.
Jaeil parou o carro em um pequeno estacionamento não muito longe do dormitório de Seunghyun, abriu um guarda-chuva que estava no porta-malas e abriu a porta do passageiro.
As roupas de Jaeil eram grandes para Seunghyun, então as mangas e as barras das calças precisavam ser dobradas um palmo. Quando Seunghyun se levantou para sair do carro, a dobra da calça se soltou, e o comprimento, que quase varria o chão, foi captado pelos olhos de Jaeil. Jaeil, que entregara o guarda-chuva para Seunghyun segurar, ajoelhou-se aos pés dele.
Seunghyun apenas observava a ação do homem em silêncio. Ele perdera o tempo de recusar e também porque lera no aperto firme dele ao lhe entregar o guarda-chuva que deveria ficar quieto.
— …….
— …….
As calças dobradas firmemente até o tornozelo ficavam quase cômicas, mas era melhor assim. As mãos do homem demoraram a se afastar da região do tornozelo.
— guia.
— Sim.
Seunghyun via apenas o topo da cabeça e os ombros largos do homem.
— Ontem, eu perdi a razão.
— …….
— Depois de prometer que esperaria…
— …….
A palma da mão ao redor do tornozelo estava quente.
— Meu egoísmo falou mais alto.
— Está tu…
Seunghyun balançou a cabeça. Queria dizer que aquilo não era nada comparado ao que ele mesmo vinha fazendo. Mas no momento em que viu a expressão de Jaeil ao se levantar abruptamente, suas palavras congelaram.
— Você não precisa aceitar todo o cio dos Espers por senso de dever.
— …….
— E nem deve.
O homem falava com uma voz serena, mas seu rosto demonstrava desconforto e sofrimento. A energia que estivera calma o tempo todo agora oscilava de forma instável, refletindo seu estado de espírito. Os dedos do homem, que tentavam ajeitar a manga de Seunghyun, apertaram seu pulso e toda a sua mão.
— Você entende o que estou dizendo?
Com o cenho profundamente franzido, o olhar intenso que ele lançava a Seunghyun parecia até ameaçador. Suas palavras e ações, que começavam com um pedido de desculpas e terminavam em uma ameaça sombria, eram um pouco complexas demais para Seunghyun entender.
— …Sim.
As palavras dele ainda não estavam claras em sua mente, e por isso ele não queria aceitá-las. Seunghyun assentiu relutante. Ele sentiu que precisava fazer isso agora.
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Joy não estava se sentindo bem há alguns dias. Como a maioria dos Espers que eram de responsabilidade de Rowan agora eram dela, ela precisava usar muito mais energia física que o normal. Joy, que adicionara um shot extra ao seu Caramel Macchiato, engolia o líquido mais para se alimentar do que para apreciar o sabor. Consumindo mais da metade de uma vez, ela acabou tendo uma tosse seca. Fungando uma vez, ela parecia estar acumulando muito estresse devido aos guidings frequentes. Não contente em beber a bebida gelada, ela colocou um cubo de gelo na boca.
— Basicamente, o guia prioriza o Esper. Tanto a lei quanto os direitos dizem isso. Não há o que fazer. Imagine um Esper fazendo o que bem entende em um quarto onde estão apenas os dois. O que você faria se não houvesse dispositivos de proteção?
O conteúdo da aula de hoje era sobre a disputa de poder entre Espers e guias.
Apesar de ser um assunto sério, a única coisa que vinha à mente de Seunghyun era a força física quente de Jaeil o segurando com firmeza. À medida que as memórias adormecidas se tornavam nítidas novamente, suas orelhas esquentaram e seu coração acelerou. Coçando a têmpora, Seunghyun murmurou para si mesmo que seria problemático se isso acontecesse todas as vezes. Para alguém cuja única experiência era o guiding com aquele homem, era algo natural.
— Se o nível for baixo, eles sentem satisfação apenas com o seu guiding, então não há necessidade de disputa de poder, mas quanto mais alto o nível, mais eles exigem. Ou seja, pedem por mais e mais rápido, e isso se expressa através do cio. Para os Espers, nada é um afrodisíaco tão potente quanto o envolvimento profundo com um guia.
Observando Joy, Seunghyun apenas assentiu.
— Se o cio é o instinto do Esper, querer acolher esse instinto é o instinto do guia. Mas você precisa controlar isso bem. Se aceitar tudo sem pensar, sua energia física não vai durar. E nós não somos o quê? Ferramentas de alívio sexual.
Ela parecia ficar irritada enquanto falava e franziu o cenho.
— O que quero dizer é que ambos devem manter o respeito. Não se pode simplesmente fazer birra, nem traçar uma linha proibindo tudo incondicionalmente. Especialmente se houver um parceiro por fora, deve-se ter ainda mais cuidado.
Ouvindo-a em silêncio, ele finalmente abriu a boca.
— Mentora.
— Oi?
— Quando um Esper entra no cio… isso também afeta o guia?
— Sim. Esse é o problema. E quanto maior a taxa de compatibilidade, mais forte é o efeito.
*Quanto maior a taxa de compatibilidade.* As orelhas de Seunghyun pareciam prestes a pegar fogo ao repetir aquelas palavras. *Então foi por isso que tive uma ereção só com o beijo?* Que vergonha pensar que era apenas sangue acumulado por falta de alívio por tanto tempo. Massageando o queixo, ele fez outra pergunta.
— O cio de todos os Espers mexe com o instinto do guia?
— Sim. É assim.
— Então… todo Esper sente cio por todo guia?
Havia um tom persistente em sua pergunta. Piscando os olhos e interpretando a pergunta de Seunghyun, Joy deu de ombros.
— Não há o que fazer. Fomos feitos assim.
*Por que ele está perguntando isso?* Joy, tentando adivinhar, pareceu perceber algo e seus olhos brilharam.
— Ah. Se você está perguntando isso por causa do Jaeil.
— …….
— Ele está se contendo.
Seunghyun soltou uma tosse seca involuntária. *Então foi por isso que ele fez aquela cara de sofrimento? Ele não queria, mas acabou entrando no cio.*
— Eu disse que ele odeia o sub-guiding, não disse? É porque ele odeia isso demais. Ele não quer mostrar fraqueza. Já que o sub-guiding aproveita essa lacuna para aumentar o efeito do guiding.
— …….
— É o que eu acho. Ele não quer compartilhar nada com um guia. Por isso ele nem demonstra seus desejos. Ele odeia esse ato de dar e receber. Em certo sentido, é uma atitude bem arrogante e atrevida.
Colocando outro cubo de gelo na boca, ela logo deu um sorriso amargo.
— Sabe o que acontece se for assim? Ele não conhece o descanso. Ele não conhece a paz que um guia proporciona. E olha que ele só tem tido guias com taxas de compatibilidade e níveis totalmente incompatíveis. E ele ainda faz esse escândalo de dizer que odeia tudo. Não tinha como eu não me preocupar.
Seunghyun roeu a crosta no lábio até que o sangue finalmente brotou. Joy podia facilmente imaginar quem estaria ocupando os pensamentos de Seunghyun.
— Ele é assim. Cuide bem dele.
Seunghyun respondeu vagamente à Joy e lembrou-se da voz do homem que lhe causava arrepios.
— Mentora.
— Oi?
Ele precisava dizer que sentiu a voz dele, mas as palavras não saíam.
— Nada não.
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Ao chegar ao estande de tiro com Joy, Ethan, que ele vira da última vez, veio cumprimentá-lo.
— Você veio.
Joy deu um tapinha no ombro de Seunghyun e disse ao passar:
— Vamos comer juntos quando terminar.
— Sim.
Respondendo brevemente, Seunghyun aproximou-se do homem. Com uma leve reverência, o homem seguiu à frente. Diante da prateleira onde as armas estavam alinhadas, ele gesticulou educadamente.
— Qual modelo você prefere desta vez?
Diante da oferta de que ele poderia atirar com o que quisesse, o olhar de Seunghyun tornou-se melancólico. Uma triste lembrança o atingiu. No Distrito 13, era difícil conseguir armas como aquelas mesmo com o dinheiro economizado durante um ano inteiro, mas ali, com apenas uma palavra, elas estavam disponíveis para prática, nem sequer para combate real. Todas eram modelos novos e modernos.
— O modelo não importa, mas eu gostaria de testar algo calibre .40 ou superior. Distância de 25 metros, é possível?
25 metros era a distância máxima atual do estande interno. Lembrando-se de como Seunghyun não se contentara com os 10 metros anteriores, o homem recomendou um modelo sem dizer nada.
Desde que usassem projéteis refinados com sangue de Esper, o comprimento e o peso absolutos do cano eram inevitáveis. Além disso, a arma recomendada pelo homem era um dos modelos mais potentes entre as pistolas automáticas. Ele acrescentou que era o modelo geralmente usado pelos Espers, e Seunghyun entendeu assim que a segurou. Era pesada, devia ter pelo menos 2 kg. Por ser exclusiva para Espers, parecia ter sido feita sem levar o peso em conta.
— É a primeira vez que vejo este modelo.
Enquanto inseria o carregador, Seunghyun disse avaliando o peso com as duas mãos, e o homem exibiu um sorriso satisfeito. Isso porque Seunghyun, que ficara indiferente a qualquer arma para pessoas comuns, arregalou os olhos surpreso diante de uma arma para Espers.
Vestindo o equipamento de segurança, incluindo o colete à prova de balas, Seunghyun posicionou-se na raia. Ethan disse, com as mãos nas costas:
— Não vou dar instruções específicas. Faça como desejar.
— Obrigado.
Assumindo a postura básica de empunhadura que aprendera na aula anterior, Seunghyun puxou o gatilho. Como o tamanho do projétil era considerável, o ruído e o recuo foram significativos. Esfregando o ombro dolorido, Seunghyun piscou os olhos.
— Uau. Para uma pistola…
Apenas um breve murmúrio, e Ji Seunghyun formou um grupamento de tiros em apenas dois disparos. Embora lhe faltasse a força física de um Esper, o tremor da boca da arma era extremamente baixo para alguém comum. O olhar aguçado do homem alternava entre a postura impecável de Seunghyun e a ponta de seus dedos.
‘Suportar o ruído também não faz parte do treinamento?’
Aquele que nem sequer entendia por que usar protetores auriculares estava evoluindo mais rápido do que qualquer um. Ethan repetiu mentalmente o nome de Seunghyun. Um guia de nível A vindo do Distrito 13. Soube que, em menos de um mês, ele já estava fazendo o guiding do difícil Ha Jaeil e se destacando não apenas no tiro, mas também em outras aulas. Suas habilidades eram excepcionais demais para julgá-lo apenas por sua origem. O preconceito que ele tinha antes de conhecer Seunghyun desapareceu após o primeiro encontro e a breve conversa.
Atrás de Seunghyun, que verificava o alvo após disparar todos os projéteis fornecidos, uma voz grossa ecoou:
— Seria melhor que o guia fizesse o tiro interno comum apenas mais duas vezes e depois passasse para a próxima etapa.
— …Qual é a próxima?
— Alvos estáticos não são mais suficientes para você, não é?
Embora fosse divertido, não seria melhor do que continuar um treinamento que não condizia com seu nível? Seunghyun assentiu.
Enquanto ele tirava e organizava o colete à prova de balas, Joy veio caminhando apressadamente.
— Um Oni apareceu. E é um de nível 6. Ah… hoje não vou conseguir sair no horário.
Seunghyun, parado com cara de bobo diante dela que resmungava com o rosto cansado, perguntou:
— En…tão o Esper Ha Jaeil também vai?
— Sendo nível 6, com certeza ele foi. Aliás, você atirou com isso?
Joy, que descobriu a pistola na mão do instrutor, disse com um tom de surpresa renovada. Mesmo ela, que não gostava muito de treinamento de tiro e não tinha interesse em armas, sabia que a arma que Seunghyun usara era demais para pessoas comuns. Ela fez várias perguntas ao instrutor. Era para o diário de crescimento de Seunghyun, que precisava ser relatado aos superiores. Após ouvir a avaliação geral do instrutor, Joy acabou franzindo a testa. Não por estar de mau humor, mas pelo choque que superava a admiração.
— Uau. Seu personagem é um pouco… irreal.
Era um elogio genuíno, mas Seunghyun coçou a cabeça com uma expressão melancólica.
— Não é nada demais… Apenas aprendi naturalmente tentando sobreviver.
Mesmo com tal habilidade, a maioria das pessoas morria. E aquilo não era nada comparado a um Esper. Alguém precioso para ele também partira deste mundo inutilmente. Por causa dos Onis e Gons que não caíam nem com munição comum. Mesmo disparando dezenas de vezes, se fosse atingido por um de seus espinhos apenas uma vez, era fatal naquele lugar sem instalações médicas adequadas. Lembrando-se da poça de sangue, Seunghyun exalava uma atmosfera densa e lamentável que era difícil de descrever apenas como melancólica.
Joy, observando a reação de Seunghyun, puxou-o pelo armário.
— Vamos comer um jantar reforçado e fazer o guiding.
— …….
— Como o guia que veio de Lokan já foi embora, você terá que fazer o guiding do Jaeil.
Assim que ouviu o nome de Jaeil, a luz voltou aos olhos que estavam opacos.
— Sim.
Caminhando para o refeitório com ela, Seunghyun abriu a boca como se tivesse lembrado de algo.
— Mentora. Eu não quero ter sangramentos nasais. Não há um jeito? O Esper está preocupado.
Joy, que enviava uma mensagem para Rowan, ficou um pouco surpresa. Como a compatibilidade entre os dois era boa, ela pensou que o guiding não seria mais um problema, mas quem diria que haveria tal circunstância. No entanto, ela logo aceitou. Houve uma vez em que ele e Rowan ficaram doentes juntos; por mais talentoso que fosse, Ji Seunghyun ainda era um guia novato.
— Pois é, você acha que não é difícil para você? Você precisa se acostumar. Não tem outro jeito.
— …Sim.
— Não exagere no guiding. Se sua saúde se desgastar, será ruim para você e também para o Jaeil.
As palavras de Joy não estavam erradas. Seunghyun, caminhando e olhando para o chão, soltou um suspiro leve.
— É verdade.
*Mas eu não consigo evitar.* Engoliu essas palavras para si mesmo.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna