Capítulo 03.2
🩸 Blood Poker 03, Parte 02
A aparição de um Oni nível 6 era perigosa de várias formas. Se não tomassem cuidado, eles poderiam se unir e engolir até um pequeno prédio, tornando a situação problemática.
A primeira equipe enviada era focada em poderes mentais, mas como surgiram vários Onis nível 2, foi solicitado reforço. Era quase uma guerra em pequena escala, só faltava o Oni-Cube.
— Jaeil. Aconteceu alguma coisa?
Dentro do veículo militar, Kiju lançou uma pergunta discretamente ao lado de Jaeil, que olhava indiferente pela janela. Jaeil estivera com o humor tão baixo o dia todo que era difícil até puxar conversa, que dirá brincar. Com um rosto furioso, como se estivesse esperando alguém vir provocá-lo para descontar a raiva, ele treinou, se exercitou e agora estava em missão.
Kiju, que conhecia bem o temperamento dele — de não ter oscilações emocionais, mas de ficar muito abalado internamente —, ouviu Jaeil balançar a cabeça.
— Não é nada disso.
Uma voz tão grave quanto sua expressão soou.
Kiju ia retrucar dizendo que parecia ser algo assim, mas apenas estalou a língua.
— Não é nada disso, mas…
Com o complemento da frase, o olhar de Kiju, que ia se voltar para a janela, retornou para Jaeil. Jaeil encostou-se no banco e suspirou como se estivesse sufocado.
— Como ele disse que é a primeira vez…
— …….
— Fico cauteloso com tudo o que faço.
Kiju não entendeu seu monólogo, que omitia muita coisa. Imaginando internamente que algo devia estar sendo difícil, ele apenas permaneceu em silêncio ao seu lado.
Murmurando para si mesmo, Jaeil logo se calou, incapaz de esconder seu constrangimento. Ele tinha medo de verbalizar o restante.
*Tenho medo de que ele considere o que aprendeu comigo como a resposta padrão.*
Dizer que, já que é bom tocar, deveriam tocar um ao outro. Dizer que deveriam fazer sempre que necessário. No momento em que ouviu aquilo, o coração de Jaeil estremeceu por um instante, mas logo ele imaginou Seunghyun agindo da mesma forma com outros Espers. Sua visão ficou turva. A proposta de Ji Seunghyun era o mesmo que declarar que aceitaria o cio de qualquer Esper.
Cego pelo desejo, o corpo que ele tomara como quis fora facilmente conquistado com uma pequena tentação e se aquecera tão levemente que ele quis fazer algo ali mesmo. Quem diria que o fato de Seunghyun, que era mais dedicado que qualquer um ao guiding, ser dedicado também nessa parte seria tão desconfortável.
Pensar que ele faria guidings para muitos outros além dele no futuro, e que se dedicaria com aquela personalidade, com aquele corpo… sentia o peito apertado como se estivesse com indigestão. E não era só aperto. Seu estômago revirava. Jaeil, que compreendera perfeitamente as consequências que a dedicação de Seunghyun traria, só então se arrependeu sinceramente de sua ação impulsiva de ontem.
‘Posso… segurar sua mão?’
— …….
‘Vou apenas colocar minha mão sobre a sua, para não atrapalhar a direção.’
— Ele na minha…
As cordas vocais de Jaeil vibraram silenciosamente e ele franziu o cenho. Por pouco não falou em voz alta.
*Será que algo do coração já transbordou tanto assim?* Jaeil soltou um suspiro transparente em direção ao chão.
↫────☫────↬
Seunghyun, que esperou pela volta de Jaeil até tarde da noite, caminhou direto para a porta ao sentir a presença de alguém do lado de fora da sala de guiding. Nem esperou baterem e girou a maçaneta.
— …….
— …….
Atrás do homem parado ali, energias negras e contaminadas fervilhavam. Era a segunda vez que via aquilo, e embora devesse estar acostumado, parecia que ainda tinha um longo caminho a percorrer. Aquelas energias sinistras, de dar calafrios, pareciam ansiosas para devorar Seunghyun. Seunghyun, que observou a aura ao redor do homem, forçou um sorriso, ainda que sem jeito. O medo era real, mas a alegria de vê-lo era prioridade.
— O senhor chegou.
— …….
Jaeil, que fixou brevemente o olhar no rosto de Seunghyun, apenas inclinou a cabeça. Com um rosto indiferente e silencioso, ele passou por ele e sentou-se pesadamente na cama. Seunghyun aproximou-se dele e verificou o *gear*. Estava quase chegando aos 70%.
— Se estiver cansado, o senhor pode se deitar.
— …….
Ele balançou a cabeça negativamente, indicando que não queria. Com movimentos lentos, ele baixou a máscara e uma voz carregada de exaustão fluiu dele.
— Vou fazer assim mesmo.
— …….
Embora a energia fosse extremamente hostil, o toque que puxava suavemente a mão de Seunghyun era mais gentil que qualquer coisa no mundo. O homem, que colocou a mão de Seunghyun sobre seu próprio coração, proferiu as palavras sem forças, como se fosse dormir a qualquer momento.
— Vamos começar.
A mão grande que cobria as costas da mão de Seunghyun estava tremendo. A dor parecia ser considerável. Apenas com aquele pequeno tremor, o coração de Seunghyun doeu profundamente. Ele queria fazer algo rápido para aliviar a dor dele, mas ainda estava na fase de dividir o guiding em duas etapas e sua velocidade não era rápida. Claro, se a dor fosse muita, ele poderia usar o método de contato físico. Seunghyun não se importava. Mas a mão sobre o coração dizia: *Desta vez, vamos usar este método.*
— …….
— …….
Seunghyun, que mal conseguia conter a vontade de abraçá-lo, fechou os olhos e se concentrou, e a energia dele foi sugada para dentro de sua mão. A passagem ainda era irregular, e toda vez que as energias ásperas tocavam o caminho, uma dor latejante era transmitida. Ele bloqueou a garganta para que nem um pequeno gemido escapasse por erro e concentrou-se com todas as suas forças. Pensava que aquilo não era nada comparado ao homem que estava à beira de um surto.
Como uma mão só era pesado, ele colocou a outra. Entre a mão que cobria a dele e o coração, a mão de Seunghyun carregava seu desejo sincero. *Por favor, não sinta dor. Espero que o senhor não sofra. Quero que o senhor encontre paz através de mim.* Orava e orava novamente.
‘Quero abraçar.’
— …….
Os cílios de Seunghyun, que estava de olhos fechados, tremeram levemente. Ao reconhecer o som dele, uma emoção insuportável transbordou de dentro de si. Seu pescoço ficou embargado por causa do pensamento que lera acidentalmente.
‘Quero abraçar. Seunghyun.’
Seunghyun não conseguiu abrir os olhos. Parecia que uma bala de menta estava derretendo dentro de seu coração. Embora fosse um passado que ninguém lhe contara, ele sentia uma textura ressequida e áspera. *Pensei que só eu sentia dor. Mas percebi que este homem também sofre tanto quanto.* Seunghyun reprimia as emoções que subiam.
Ele sabia muito bem por Joy que Jaeil odiava o sub-guiding e evitava trocas. Mas Seunghyun gravou algo ainda mais importante.
‘Feche os olhos e ouvidos para o resto.’
— …….
‘Espero que ouça apenas as minhas palavras.’
Seunghyun, de olhos fechados, subiu as mãos lentamente. Quando o guiding foi subitamente interrompido, o homem tossiu de repente e levantou o olhar. Logo, ele arregalou os olhos ao ser abraçado por Seunghyun.
— Esper.
Seunghyun entrelaçou-se profundamente no pescoço dele e deixou fluir uma voz falha.
— Me desculpe.
— …….
— Eu ouvi sua voz.
As palavras de que o sub-guiding era realmente odiado pareciam ser verdadeiras. O homem, que parecia ser sólido como uma rocha, começou a tremer e a ficar rígido. Ele tentou empurrá-lo impulsivamente. Seunghyun agarrou-se obstinadamente.
Apesar da recusa do homem, a energia fluía explosivamente através da área de contato. Seunghyun, abraçado a ele, pedia desculpas incessantemente.
— Me desculpe.
Mesmo sem sequer imaginar o passado dele, sentiu que precisava abraçá-lo.
— Desculpe por ter lido. Me desculpe.
Mesmo que fosse repelido, sentiu que precisava fazer aquilo.
↫────☫────↬
A mãe de Jaeil era uma Esper mental de nível B, sem um nível muito alto. Os membros da família Ha, que vinham gerando sucessivamente níveis A, e ainda por cima *back-spls*, eram todos casamentos arranjados, com uma única exceção. Ela foi a única pessoa da família Ha que se casou com o pai de Jaeil sem ser por um arranjo.
Os dois, que se conheceram no campo de batalha e trocaram sentimentos, prometeram passar o resto da vida juntos. Claro, houve muitas reviravoltas até o casamento. Pois a família de Jaeil acreditava que o sangue dela diluiria as habilidades deles. Isso levou a uma oposição extrema, além da negação da própria existência dela.
Apenas o pai de Jaeil a protegeu. Ele foi confiável e firme. Os dois não vacilaram diante de inúmeras críticas e calúnias. O pai de Jaeil a envolveu e a protegeu em segurança, independentemente das tempestades que sopravam.
A joia criada por eles, que acreditavam apenas um no outro, era Ha Jaeil. Mas a vida dela parou por ali. Menos de um ano após dar à luz a Jaeil e partir deste mundo, seu pai também perdeu a vida no campo de batalha.
Jaeil, que perdera todos os seus parentes próximos, cresceu recebendo apenas o mínimo de afeto de uma babá. A ausência dos pais foi o início de uma solidão cujo fundo era desconhecido. Como não recebeu nada, nada foi preenchido. Ele respirava porque existia, mas cresceu sendo empurrado por mãos que mudavam constantemente. Era uma vida vazia e cruel para uma criança daquela idade.
Para piorar a situação, Jaeil, que despertou com um nível terrivelmente baixo conforme as previsões da família, teve que passar por um sistema escolar que não condizia com seu nível. A vontade de Jaeil não foi levada em conta. A ganância dos familiares, que esperavam apenas por um novo despertar, manipulava o menino indefeso conforme seus desejos.
O nível inicial de Jaeil era *Triple*, o segundo nível mais alto da classe baixa. Havia o nível *Pair*, o mais baixo, mas como hoje em dia eram tratados quase como pessoas comuns, na verdade era o nível mais baixo. Em uma turma de elite repleta de níveis médio-altos, Jaeil era o único *Triple*.
Normalmente, Jaeil jamais poderia estar naquela turma com o seu nível. Os colegas de classe vinham de famílias tão poderosas quanto a de Jaeil, e tinham orgulho e habilidades excepcionais. Alguém que, em termos de habilidade, não poderia sequer se comparar a eles, ocupara o lugar confiando apenas no nome da família, tornando-se inevitavelmente um espinho nos olhos.
‘Um *Triple* se sentindo mal? Hein?’
‘Eu me sinto pior por você estar na nossa turma.’
‘Eu odeio isso. Se fosse eu, recusaria vir à escola.’
Mesmo sendo jovens, o caráter impregnado pelo sistema de castas era puro e cruel. Eles tratavam Jaeil estritamente como um estranho e criaram um monstro unindo desagrado e hostilidade. E esse monstro devorava Jaeil todos os dias. Seus anos escolares foram um lamaçal.
O novo despertar de Jaeil ocorreu de forma convulsiva durante o ensino médio, um caso raro em que ele subiu dois níveis de uma vez. Embora fosse do tipo físico, ele causou um surto psicocinético visto apenas em tipos mentais.
Ele destruiu um andar inteiro da escola que frequentava. Foi porque ele não conseguiu lidar com o poder, mas também porque liberou a agressividade que vinha sendo reprimida.
Após aquele incidente, ninguém ousava mexer com ele. Pelo contrário, seguiu-se uma série de tratamentos que nem se comparavam aos anteriores. No entanto, ele não abriu o coração facilmente. O isolamento voluntário começou ali. Por causa do despertar incompleto, ele sofria de efeitos colaterais constantes, mas persistia em ficar sozinho. Após conhecer alguns guias que tentaram manipular seu ego à vontade, ele fechou o coração ainda mais.
Eles usavam o guiding, que era realizado tendo a vida como garantia, como um chicote e uma coleira para domar um animal. Eles reviravam o passado sombrio de Jaeil, que era como uma cicatriz, apenas por curiosidade e usavam o sub-guiding para neutralizá-lo.
‘Eu acho tipos como você desprezíveis. Por que está me olhando assim? Por acaso achou que eu tinha algum sentimento por você?’
‘O fato de sermos iguais é apenas uma ilusão sua.’
Depois que um guia por quem ele teve um pouco de afeto o usou para ferir outro sensitivo, Jaeil chegou ao ponto de construir uma parede que não abriria — não, que nem poderia ser chamada de porta.
Ninguém entendia sua dor. Apenas o tratavam como estranho ou exagerado, e achavam estranho o fato de ele não se misturar com a cultura e o grupo deles.
— Esper.
No quarto da mente de Jaeil, não havia maçaneta ou ferrolho para abrir a porta e entrar. O motivo inicial de ter criado o quarto foi para se proteger, e como era um espaço exclusivamente para si mesmo, não havia necessidade de tais coisas.
— Me desculpe.
Era uma porta que não podia ser aberta.
— Eu ouvi sua voz.
Ao ouvir que a linha que ele nunca permitira a ninguém fora cruzada, Jaeil sentiu apenas rejeição. Não importava o que ele lera ou ouvira. O fato de ter entrado onde Jaeil proibira era o erro.
Mesmo sendo Ji Seunghyun, ele odiava aquilo. Mesmo sendo uma pessoa infinitamente pura, diferente de qualquer outro guia, ali ainda não era o lugar. Não era um espaço para receber mais ninguém além de si mesmo. Era um lugar escuro, úmido, frio e afiado. Qualquer um que pusesse os pés ali sangraria e logo voltaria horrorizado. Era melhor para ambos que ele não entrasse desde o início. Jaeil empurrou Seunghyun. Mesmo não querendo empurrar, ele empurrou.
*Eu não quero te odiar.*
Jaeil, que cerrou os dentes com força, levantou a mão e arrancou um dos pulsos que seguravam sua nuca. A respiração úmida de Seunghyun cobriu seus ouvidos.
— Me desculpe.
Sem se importar, ele puxou o outro pulso para baixo.
— Desculpe por ter lido.
A energia do homem, que segurava as duas mãos que tentavam abraçá-lo novamente com uma só mão e encarava Seunghyun, ardeu em vermelho. Seunghyun soltou tosses secas. Por causa das lágrimas que engolira, até o som da tosse estava encharcado. Assim que a intenção de criar distância foi transmitida, Seunghyun virou os pulsos e agarrou a mão de Jaeil.
— Espeeer.
Rejeitar o guiding incondicionalmente antes mesmo de começar direito era uma ação perigosa ligada diretamente à morte. A ansiedade de Seunghyun chegou ao limite. Ele tentava fazer o guiding pelo menos pelas mãos entrelaçadas, mas o efeito não era bom. A energia, que se tornava cada vez mais feroz, era a única emoção que ele, que apenas o encarava sem expressão, podia demonstrar. Suportando a rejeição cortante e cega, Seunghyun chorava copiosamente.
— Eu não queria mentir.
— …….
Diante do apelo sincero de Seunghyun, os olhos do homem estremeceram.
— Parece que eu ouço… porque minha habilidade é insuficiente. Mas. Se eu mentir… não estarei quebrando a promessa… de novo?
— …….
Seunghyun soluçava tanto que não conseguia falar direito. Ele falava sem parar, temendo que a rejeição de Jaeil se tornasse implacável a ponto de ele não poder fazer nada com suas forças. Ele nem conseguia limpar as lágrimas, com medo de que, se soltasse as mãos — as únicas partes que estavam em contato agora —, não conseguisse fazer nem o guiding fraco que estava fazendo.
A previsão inquietante não falhou. Jaeil torceu o pulso como se não quisesse ouvir. Seunghyun caiu no choro.
— O senhor não disse para ouvir apenas as suas palavras? Eu fiz isso porque achei que o senhor ficaria zangado se eu me escondesse.
— …….
— Isso é jogo sujo.
Ele agarrou cuidadosamente o pulso do homem, onde as veias saltavam. A energia, que estava furiosa, o envolvia de forma tão sinistra e perversa que Seunghyun tremia todo o corpo.
— Me desculpe. Eu sabia que o senhor odiava isso.
— …….
— Eu vou crescer rápido, por favor, espere só um pouco. Eu nunca mais vou ler. Tenho confiança de que nunca mais lerei, mesmo que eu morra.
Ao ver o rosto coberto de mágoa, o homem soltou um suspiro. Havia raiva no hálito que saía trêmulo, mas a força que resistia rigidamente começou a relaxar lentamente. Era o consentimento que ele tanto desejava.
Seunghyun limpou o rosto apressadamente. Ele conseguia reprimir as lágrimas à força, mas seu peito subia e descia inevitavelmente. Seunghyun, que fechou bem a boca para tentar conter pelo menos um pouco o som do choro, colocou a mão sobre o coração do homem. Colocou as duas mãos e fechou os olhos. Felizmente, a energia fluiu. Seunghyun sentiu um alívio imenso com o guiding que finalmente se conectou. Assim que um líquido quente escapou por entre as pálpebras, ele o enxugou com o ombro.
Ele sentia que, se diminuísse a distância ou fizesse algo errado, seria repelido imediatamente. Soube instintivamente que o contato permitido pelo homem era apenas o coração. *Eu deveria ter escondido que fiz o sub-guiding?* Por um momento, tal pensamento passou por sua mente, já que a rejeição do homem fora muito forte.
Seunghyun decidiu não se arrepender. Lembrou-se da gentileza daquele momento em que ele dissera para ouvir e acreditar apenas em suas palavras. Lembrou-se da voz firme que dissera para esconder as coisas importantes. Mesmo que apenas pela consideração que ele lhe demonstrara, ele não deveria enganá-lo.
*Tudo bem, que ele me odeie por um tempo.* A determinação audaciosa que surgira murchou rapidamente. Pois o medo de que ele pudesse odiá-lo para sempre era ainda maior. Ele não previra isso. O rosto de Seunghyun desmoronou em agonia diante da imaginação sombria. Foi no momento em que os soluços de Seunghyun, que agarrava a região do coração do homem e recebia o máximo de energia, tornaram-se mais fortes.
— Não chore.
Uma mão quente e grande envolveu suas costas. Não se podia dizer que era totalmente gentil, mas era um toque sereno, com a raiva apaziguada. Somente após ouvir a voz do homem é que Seunghyun enterrou a testa no ombro dele. Com o relaxamento súbito da tensão, ele se apoiou nele como se estivesse desmoronando.
Recebendo os tapinhas nas costas, Seunghyun soltou um soluço úmido.
— Eu quero te abraçar.
Um hálito sem graça desceu sobre a bochecha do homem. Sua mente e seu peito ferviam de ansiedade, e de onde vinham esses sentimentos?
— Deixe-me te abraçar.
Lábios úmidos esfregaram-se no canto da boca do homem que virava a cabeça para Seunghyun.
— …….
— …….
Os dedos do homem, que subiram roçando os lábios de Seunghyun, seguraram sua nuca. Quando Seunghyun fechou e abriu os olhos com força, lágrimas acumuladas caíram. Da ponta dos dedos, que eram apenas gentis, a mensagem de que era até ali foi transmitida com clareza.
Era possível saber sem que ele falasse. Era uma recusa educada e amável. Os sentimentos também foram transmitidos. Para Seunghyun, que não sabia controlar suas habilidades, as coisas do homem fluíram indiscriminadamente. Mesmo neste momento em que ele dizia que não, a habilidade de Seunghyun tentava extrair tudo dele.
— guia.
— …….
Uma voz sombria e lamentável fluiu do homem. As pupilas que refletiam Seunghyun afundaram em melancolia. O desejo de deixar tudo de lado e abraçá-lo transbordava muito mais do que em Ji Seunghyun, mas agora não era o momento de entregar suas velhas cicatrizes.
Jaeil, que conhecia a crueldade do sub-guiding melhor do que ninguém, sobrepôs sua própria habilidade para bloquear parte da habilidade dele. Era uma forma de defesa usando sua própria habilidade mental para que ele não pudesse invadir sua consciência indevidamente.
Devido ao efeito do guiding, que diminuiu visivelmente, os olhos de Seunghyun se arregalaram e depois piscaram.
Se ele deixasse Seunghyun fazer o que queria, ele descobriria até as memórias tristes, dolorosas, sujas e desprezíveis. Se não as cortasse agora, aquelas coisas vergonhosas ficariam gravadas na memória dele. Eram mágoas abissais que eram difíceis de compartilhar agora — para ser sincero, que ele não queria compartilhar no futuro também — e que seriam transmitidas. Aquilo era mais feroz e escuro que sua própria energia, e de um tipo inferior.
— Agora não.
Ele pensara ingenuamente que o guiding propriamente dito acabara de começar e que o sub-guiding seria algo em um futuro distante. Não era um lugar que se abriria apenas porque ele permitira o contato de forma limitada e entrara em cio, então por quê? Sua habilidade, que fora apenas louvável, estendeu a mão até onde ele desejava que não fosse invadido.
— Me desculpe.
Jaeil, que escolheu a atitude defensiva que costumava ter com qualquer outro guia por não querer culpá-lo, também estava sofrendo. Ele não sabia que tipo de sentimento sua mudança repentina de atitude causaria nele, mas agora não havia outro jeito.
— …….
Seunghyun, que percebeu que aquilo era o melhor que ele podia fazer, soltou um suspiro úmido e repentino. Após uma curta reflexão, ele assentiu. Depois de tossir levemente algumas vezes, sua voz fluiu.
— Eu vou esperar.
— …….
Apenas o rosto do homem estava refletido nas pupilas de Seunghyun. Diante da voz fraca, mas convicta, o pomo de Adão de Jaeil se moveu. Era uma reação nitidamente diferente da de outros guias. Ele pensou que, no mínimo, Seunghyun ficaria ferido.
— Eu também sei esperar.
Um suspiro profundo escapou do homem e sua cabeça pendeu. Abaixo do plexo solar, sentiu um calor e uma pontada.
— …….
— …….
O silêncio continuou. Mesmo em uma situação em que a cooperação do homem era quase nula por ele ter fechado a consciência intencionalmente, Seunghyun recebeu a energia com dedicação. Foi difícil extrair o que ele relutava em dar, depois de ter recebido apenas o que ele dava generosamente, mas Seunghyun não se importou. Ele considerou que apenas aquilo já era uma sorte.
Qualquer um tem suas feridas, e Seunghyun sabia melhor do que ninguém que memórias tão profundas que não se pode tocar são como pontos sensíveis. Ele mesmo era assim. Ele trancou a morte da família em um canto da memória, tratou-a como algo insignificante e usou o homem constantemente por não querer admitir sua própria impotência.
Ao olhar para si mesmo e ver que é difícil até emitir som para as coisas que realmente doem, e que descrever isso como um pensamento é doloroso por si só, não foi difícil entender o homem.
Ele podia suportar plenamente esse nível de rejeição. Não era nada comparado ao que recebera do homem.
No silêncio imposto à força, Seunghyun organizou seus pensamentos com calma. Embora houvesse atritos, ele acumulou a energia que fluía dentro de seu corpo. Embora fosse a única coisa que pudesse fazer agora, ele queria ajudá-lo a suportar sua vida um pouco mais.
Nesse momento, ele recuou de bom grado apenas pelo homem.
↫────☫────↬
Seunghyun acordou uma hora antes do horário programado no alarme. Tendo passado a madrugada inteira se revirando, o sono que teve foram apenas algumas horas de cochilo. Não sentia que tinha dormido muito, mas já era manhã. Enxugando os olhos úmidos com a ponta do edredom, ele olhou fixamente para o teto.
Normalmente, eles passariam a noite juntos após o guiding, mas o homem dissera para ele não se esforçar mais. Seunghyun não teve escolha a não ser seguir as palavras dele. Pois sentira um cansaço extremo ao receber a energia dele — para ser exato, ao extraí-la à força.
Embora tentasse não demonstrar, diante de sua fisionomia pálida, o homem não conseguiu esconder seu ar de sofrimento. Ele disse que sentia muito até o momento da despedida e exalava uma atmosfera instável.
Como eles haviam adiado a noite a sós, não era algo que ele não entendesse, mas o distanciamento sutil que ele demonstrava dava pontadas em seu coração. Mesmo sabendo que era apenas um recuo de um dia, ele não queria aceitar. Mesmo que ele se convencesse, ao verificar o *gear*, de que ainda não podia baixar a guarda, ele balançou a cabeça. Queria dizer algo para segurá-lo mais uma vez, mas acabou não conseguindo impedir que ele se fosse.
— …….
Enquanto olhava para o teto, o descontentamento crescia e os lábios de Seunghyun se projetavam para baixo. O que subia de dentro de si chegava a ser doloroso.
Achei que estava tudo bem, mas não conseguia ceder nisso. Embora tivesse dito que esperaria, o fato de ele ter adiado a noite o deixava um pouco — só um pouquinho — descontente.
Enquanto escovava os dentes, acabou tendo um sangramento nasal. Olhando para as gotas de líquido vermelho que caíam na pia, Seunghyun ligou a torneira calmamente. Ele não gostava que isso acontecesse todas as vezes. Mesmo sem isso, o homem já se preocupava e sentia pena dele o suficiente.
— Haa…
Soltando um suspiro repentino, ele afastou o cabelo com a mão molhada. *Se passei a noite pensando nisso, já não deveria estar cansado? Não sei o que estou fazendo logo que acordo.* Seunghyun apertou o nariz e bateu o pé com irritação.
Após tomar um banho demorado, Seunghyun tocou no tablet para ver a agenda de hoje. Havia dois guidings reservados: um de nível B pela manhã e, surpresa, um de nível A à tarde. Bem, já que ele fazia o guiding de Ha Jaeil, o nível C era extremamente fácil.
Ao clicar no ícone para ver as informações detalhadas, estava escrito: “Nível B, Tipo Físico, Full House, Lewis Winter” e “Nível A, Tipo Mental, Poker, Go Jungyeol”. Ambos eram de responsabilidade de Joy. Imerso em pensamentos por um momento, ele pegou o celular.
[Novato…]
A voz de Joy, que atendeu a ligação muito tempo depois, estava rouca, falha e terrível. Diante do som fraco e fantasmagórico que fluía, Seunghyun confirmou o nome dela novamente.
[Vou morrer…]
Lembrou-se de como ela estava debilitada nos últimos dias.
— Acho que a senhora precisa ir ao hospital.
[Já estou no pronto-socorro…]
— A senhora está bem?
[É só um resfriado forte.]
O som de tosse era barulhento do outro lado da linha. Seunghyun, com o coração apertado, quase disse: *Eu avisei que, por mais estressada que estivesse, mastigar gelo daquele jeito não era bom.* Mesmo sem ter autoridade para isso, ele se exaltou internamente. Seunghyun, que conhecia bem a reação de Joy ao ouvir os sermões de Rowan, reprimiu a sinceridade que vinha de seu afeto.
[Desculpe. Vamos ter que adiar a aula de hoje…]
— …Sim, não se preocupe com isso. Recupere-se bem.
Ela parecia não saber de nada, então Seunghyun também economizou as palavras. Era óbvio que ela se preocuparia.
↫────☫────↬
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna