Capítulo 02
🩸 Blood Poker 02
— Qual é a porcentagem?
Ao afastar a mão que estava sobre o coração de Jaeil, Seunghyun perguntou com os olhos cheios de expectativa. Fazia uma semana que Seunghyun recebera alta, e eles estavam no meio de uma sessão em uma sala de guiding temporária.
— …
Tocando o medidor em silêncio, Jaeil ergueu o pulso para mostrar. Novamente, o primeiro dígito era 1. Purificar a energia e devolvê-la era algo em que ele ainda era mais do que inexperiente; era impossível. Como decidiu apostar na quantidade em vez da qualidade, absorvendo com todas as suas forças, o valor baixara drasticamente. Mesmo sob um olhar objetivo, aquele era um resultado satisfatório, e Seunghyun não conseguiu esconder o sorriso.
Para Ji Seunghyun, que criara de primeira o dispositivo de purificação considerado tão difícil, fazer a energia fluir não era nada. Fora necessário apenas um pouco de treinamento consciente.
O líder da equipe, julgando que ele tinha capacidade suficiente para ser o responsável por Ha Jaeil, mudou o status de Seunghyun para guia principal de Jaeil, colocando o guia de apoio que viera como reforço na posição secundária. Se conseguisse manter um guiding de alto nível, o guia exclusivo de Jaeil passaria a ser Ji Seunghyun.
Agora ele sentia que finalmente estava justificando sua presença ali. Embora incompleto, ele estava definitivamente ajudando o homem e, acima de tudo, os números provavam isso. Seunghyun não tinha como conter sua alegria saltitante.
O olhar de Jaeil pousou nos lábios dele, que se curvavam sutilmente.
— Está feliz?
Não precisava nem perguntar. Seunghyun estava prestes a dizer que se sentia tão bem que parecia flutuar, quando encontrou os olhos do homem.
— …?
A boca que se abria com um sorriso radiante se fechou novamente. Isso porque a expressão do homem mudou de forma estranha. Seunghyun observou o rosto dele com um olhar intrigado. Logo, uma mão grande se estendeu.
— Realmente…
O tom desdenhoso transparecia na voz baixa. Ele chegou a estalar a língua enquanto pressionava o nariz de Seunghyun.
— Quanta ambição.
Com a outra mão, ele usou rapidamente um lenço para estancar a área abaixo do nariz. O líquido vermelho se espalhou pela superfície branca.
— Ah…
Sentindo-se envergonhado por mostrar aquele estado deplorável novamente, Seunghyun desviou o olhar.
— Não é algo urgente, por que se esforça tanto?
O homem o repreendia, algo incomum para ele. Os lábios de Seunghyun, pressionados pelo lenço, hesitaram. Ele queria dar uma desculpa, dizer que era apenas algo temporário e que não era nada demais, mas uma mão quente cobriu amplamente a sua nuca. Quando ele deu um sobressalto nos ombros, os dedos aplicaram força, como se dissessem para ele não se mexer.
O olhar de Seunghyun voltou-se timidamente para o homem. Jaeil olhava para o nariz de Seunghyun com os olhos semicerrados. Ao sentir o olhar de Seunghyun, suas pupilas subiram lentamente. Seunghyun também não se desesperou e retribuiu o olhar indiferente.
Bastante tempo havia se passado desde o dia do beijo, e a memória de Seunghyun havia empalidecido o suficiente para que ele conseguisse encarar o homem sem pudor. Isso era graças à hipnose constante que fazia em si mesmo, repetindo que aquilo fora apenas guiding e que não deveria atribuir outro significado, nem por acidente.
— …
— …
Não havia nada para olhar além do rosto um do outro, mas Seunghyun não achou aquele silêncio estranho. A mão do homem esfregava a nuca e o nariz de Seunghyun com familiaridade, e Seunghyun permanecia ali, aceitando o toque como algo natural. Eram gestos que, sem exceção, pareciam querer confortá-lo. Ele não tinha como não se comportar de forma dócil.
— Esper.
— Sim, pode falar.
— Os Espers são sempre tão fortes assim?
Era uma curiosidade simples que surgiu ao refletir sobre as ações suaves, porém impositivas, dele.
— …
Jaeil arqueou uma sobrancelha, com uma expressão de quem pergunta por que ele estava questionando aquilo.
— Meu mentor disse que você explodiu o setor leste.
— …Isso foi tele… cinese.
O rosto de Jaeil, que ia responder, franziu-se sutilmente. Não era por irritação, mas porque sentiu que estava sendo levado novamente. Em meio à sensibilidade e distração causadas pelo cheiro de sangue, Ji Seunghyun começou a cavoucar o passado. Jaeil achou estranho estar tão disposto a revelar coisas que nem eram boas lembranças.
— Por que o interesse nisso?
Seunghyun piscou, percebendo o tom ríspido.
— É-é que você é o primeiro Esper com quem convivo tão de perto… Não havia paranormais no Distrito 13. Só ouvi dizer que eram incríveis por alto. Foi só por isso. Sabe.
— …
— Não tive outra intenção.
Quando Seunghyun murmurou baixando o olhar, a expressão de Jaeil suavizou consideravelmente.
— Não se deve usar força contra civis.
— …
Quando os dedos que seguravam sua nuca aplicaram uma pressão lenta, a pele firme se afundou. Sentindo a pressão, Seunghyun forçou um franzir de sobrancelhas.
— Não me quebre. Eu errei.
Diante daquela fofura repentina, Jaeil não conseguiu conter a expressão e acabou soltando uma risada seca.
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— Eu acho que esta é a sua oportunidade.
— Sim.
Sentados em um café sem Rowan, Seunghyun e Joy exibiam semblantes um tanto sérios. A explicação de Joy continuava, tentando encorajar Seunghyun, que estava visivelmente tenso.
— Você fez o guiding daquele Ha Jaeil, que é tão difícil. Hein? Novato, olhe para mim.
Unhas bem cuidadas tamborilaram na mesa. Seunghyun, que olhava ao redor sem fixar o olhar, ergueu a cabeça.
— Você realizou algo extraordinário. Espers de baixo escalão nem precisam que você devolva a energia purificada. Eles até gostariam, mas como você ainda não consegue, nem tente. Considere como um treino.
— Siiiim…
Ele deveria fazer exatamente o mesmo que fizera com Jaeil, mas sentia o ânimo murchar antes mesmo de começar. Ao procurar o motivo de estar tão tenso, intimidado e relutante, ele o encontrava facilmente. Se o que fazia com Jaeil era algo movido por sua própria obsessão ligada ao passado, desta vez era trabalho de verdade. O primeiro passo para criar raízes em Haon. Ele sabia bem que, se visse aquilo como uma extensão da mesma coisa, tudo estaria resolvido. Mas…
Não era possível que todos os Espers fossem como Ha Jaeil. Quantos Espers “anjos” haveria por aí que aceitariam suas teimosias? E ainda mais vindo de alguém do Distrito 13. Ele tivera sorte de encontrar um homem como Jaeil; caso contrário, já estaria marcado como um guia teimoso e sem talento. Ha Jaeil tinha uma grande parcela de responsabilidade em seu crescimento. Se ele não o tivesse apoiado e ajudado, Seunghyun não teria evoluído tão rápido.
— Se algum deles for rude com você, não faça o guiding. Isso fica a seu critério.
Seunghyun perguntou com uma expressão confusa.
— Mas não é obrigatório fazer?
— A menos que seja uma emergência real. E mesmo assim, a vontade do guia vem primeiro.
Seunghyun lembrou-se naturalmente da insistência de Park Youngseok. Ele achava que o outro agira daquela forma implacável porque sua vida dependia daquilo.
— Temos que manter o controle sempre. Jamais poderemos vencê-los pela força bruta.
— …
— É claro que a compaixão pelos Espers também faz parte do nosso instinto, então nem sempre funciona como queremos. Enfim, não ceda totalmente.
Quando Seunghyun assentiu relutante, ela inclinou o corpo para frente. Apoiando os cotovelos na mesa, ela fixou o olhar no rosto dele.
— O que você deve fazer primeiro?
— Aperto de mãos.
— E depois.
— Identifico a natureza da energia. Então, coloco a mão sobre o coração, identifico a passagem e absorvo a energia.
— Ainda não tente criar o receptáculo. Assim que absorver, deixe fluir.
— Sim.
— Se for difícil, peça licença. Pelo que vi do Esper designado para hoje, acho que vai ficar tudo bem.
— …
Certo. Não é nada de mais. Dizem que não é nada comparado ao Esper Ha Jaeil.
Enquanto revisava mentalmente os passos e se concentrava, seu cenho se franziu e suas bochechas esquentaram. Ao perceber que todos os momentos que revisava estavam repletos de memórias com ele, o constrangimento floresceu. Para Seunghyun, Jaeil era seu livro didático e seu parceiro de treino mais confortável. Ainda era assim. Ele o vira pela manhã, mas já sentia um desejo ardente de encontrá-lo novamente apenas para segurar sua mão.
Mas era um desejo inútil. Por que ele repetiria aquele processo incômodo se não tinha nenhum vínculo ou obrigação com Seunghyun? Lendo suas próprias intenções atrevidas, ele balançou a cabeça.
Diante dele, Joy checou a hora.
— Está na hora. Vá lá.
— Estou indo.
Seunghyun fez uma reverência profunda para Joy. Ele ainda tinha um oceano de coisas para aprender. E, a cada vez, teria que pensar em uma forma de retribuir. Quando Seunghyun enviou seus sentimentos de gratidão por todo aquele tempo, Joy respondeu com um sorriso radiante, como se tivesse percebido.
O Esper designado para Seunghyun era um Classe C do tipo físico. Ao entrar na sala de guiding, o homem, que estava meio deitado mexendo no celular, endireitou o corpo bruscamente. Percebendo quem era Seunghyun, o homem arqueou as sobrancelhas. Seu tom de voz era alto.
— Ora. É o guia do Sargento Ha Jaeil.
Sendo chamado daquela forma repentina, Seunghyun ficou parado com a mão na maçaneta, com cara de bobo. *Então é assim que estão me chamando.* Embora ainda não fosse o guia exclusivo, parecia que entre os paranormais aquilo já estava decidido extraoficialmente. Como ser o guia exclusivo de Jaeil era algo que ele próprio desejava, Seunghyun não odiou o título; baixou levemente a cabeça e caminhou até o homem.
Como um Esper de tipo físico, o homem era enorme. À primeira vista, parecia ser meio palmo mais alto que Jaeil. Ele se sentiu intimidado apenas pelo porte físico. Seunghyun estendeu a mão. Felizmente, a energia parecia ser dócil.
— …Olá. Sou Ji Seunghyun.
— Olá, guia. Sou Joo Seungse.
O homem segurou a mão de Seunghyun com suavidade. A mão dele era tão grande que a de Seunghyun foi engolida pela palma robusta. Estranhamente, ele apertou com força enquanto entrelaçava os dedos. Quando Seunghyun arregalou os olhos de surpresa, o homem fez o mesmo.
— Um aperto de mãos comum não tem graça, né?
Ele deu um sorriso largo, mostrando os dentes alinhados para tranquilizá-lo.
— …
*Então tem gente que faz isso por… diversão.* Seunghyun deixou passar e assentiu. Já que os dedos estavam entrelaçados, ele decidiu identificar a energia com precisão. Enquanto tentava se concentrar, o homem interveio novamente.
— Mas diga uma coisa, guia.
— Sim?
Ao olhar para ele com uma expressão meio abobalhada, Joo Seungse soltou um risinho. Não havia maldade, mas o rosto estava cheio de uma brincadeira sem consideração.
— Como você fez o guiding do Sargento Ha Jaeil?
— …?
A pergunta era difícil de entender. Como Seunghyun apenas o observava em silêncio, Joo Seungse acrescentou:
— Você realmente fez apenas com o método de colocar a mão no coração? É que você acabou de aprender o guiding. É difícil acreditar que você conseguiu fazer o guiding do Sargento Ha Jaeil — algo que até aqueles guias gêmeos experientes acham difícil — apenas com esse método.
*Não foi por causa da taxa de compatibilidade? E porque o homem ajudou muito.*
— Ele é famoso, não é? Dizem que o Sargento Ha Jaeil odeia guiding com contato físico. Achei que você soubesse melhor que ninguém. *Sub-guiding* é totalmente impossível para ele.
Enquanto interpretava lentamente aquelas palavras, o rosto de Seunghyun ficou visivelmente pálido. Contato físico. *Sub-guiding*. Fatos que todos já sabiam, exceto ele. Cada um deles era chocante.
Observando o rosto de Seunghyun, Seungse ficou ainda mais intrigado. Ele ainda parecia ansioso para falar, movendo os lábios comprimidos enquanto analisava a reação.
— …
— …
Por outro lado, Seunghyun sentia como se tivesse cola na boca e na garganta. Seus dedos, entrelaçados nos dedos grossos do homem, tremiam levemente. Ele conseguiu fechar a boca que se abrira de susto. Suas pupilas vacilantes percorreram o ambiente de forma distraída até se fixarem no chão. Sem saber como reagir, Seunghyun acabou mordendo o lábio inferior com força.
— …
— …
A energia de Seungse flutuava e fazia cócegas na ponta de seus dedos. Comparada à de Jaeil, que era bruta e ameaçadora, aquela era insignificante de tão fraca, mas devido às palavras maliciosas de Seungse, Seunghyun sentiu uma leve repulsa. Quando ele ergueu lentamente o olhar, Seungse retribuiu imediatamente, com uma expressão de quem estava morrendo de curiosidade para saber o que ele diria.
— Esper.
— Sim?
De repente, ouviu-se um estalo seco vindo dos dedos entrelaçados. Os dedos de Seunghyun estavam cravando nas costas da mão de Seungse. Devido à força repentina e à hostilidade não ocultada, o olhar confuso do homem voltou-se para Seunghyun.
— Se você disser mais alguma coisa estranha… — Seunghyun murmurou em voz baixa, com um rosto calmo que não lembrava em nada a confusão de antes — …não farei o seu guiding.
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Ao entrar na academia, Seunghyun caminhou direto para a esteira. Girou os ombros e o pescoço e subiu no aparelho. Seu olhar era sério ao escolher o percurso.
Escolhendo um percurso um pouco mais rápido e intenso que o de ontem, ele começou a caminhar acompanhando o movimento da esteira. No início, ele não entendia por que precisava correr naquilo, mas, ao fazer todos os dias, chegou ao ponto de sentir falta quando não ia.
Embora estivessem juntos há pouco tempo, aquilo não era a única coisa que se tornara um hábito. Pisando na esteira cada vez mais veloz, Seunghyun controlou a respiração. Na tela à sua frente passava um vídeo qualquer para assistir sem pensar, mas seu olhar estava fixo no vidro frontal.
Ele sentiu um pouco de falta de não ter um treino personalizado hoje. Embora tivesse vindo apenas para aquecer o corpo levemente antes do treino de tiro, sentia que ainda não era o suficiente. Isso porque sua mente estava muito confusa. Apenas tipos de dilemas em que ele nunca havia pensado antes circulavam por ali. Estava sendo difícil até mesmo reprimi-los, quanto mais organizá-los. Seunghyun, que já estava em um passo bem rápido, aumentou a velocidade bruscamente por vontade própria.
Dois guidings pela manhã. Treino de tiro e consulta à tarde. E a noite com Ha Jaeil. Ao revisar a agenda, Seunghyun franziu o cenho. Ao continuar correndo em alta velocidade, sua respiração logo ficou ofegante. Seu coração batia rápido e o sangue circulava por todo o corpo. Com a falta de oxigênio, sua mente e corpo ficaram distantes. Seunghyun não tinha intenção de diminuir a velocidade. O som de sua respiração ofegante ecoava ruidosamente em seus ouvidos.
Ele não acreditava que as ações demonstradas pelo homem fossem falsas. Não podiam ser. Ele não queria pensar que aquele toque quente e suave fora algo forçado.
— …
*Você estendeu a mão primeiro. Você me abraçou e me beijou primeiro. Foi você.*
Fosse pela falta de ar ou pelos pensamentos conturbados, sentimentos difíceis de distinguir golpeavam seu peito incessantemente. Com o rosto transparecendo sofrimento, ele buscava o ar com dificuldade e estendeu a mão com impaciência. A mão que tocava aleatoriamente os botões para diminuir a velocidade acabou agarrando o corrimão enquanto ele cambaleava.
— Eu quero fazer.
— Deixe-me fazer.
— Apenas cinco minutos.
Seu olhar, enquanto os pés se moviam mecanicamente, dirigiu-se vagamente para o chão. Gotas de suor escorriam pelas têmporas, irritando seus olhos. Ao esfregar as pálpebras bruscamente com as costas da mão, marcas avermelhadas surgiram de imediato. Observando sem foco a esteira preta que girava sem parar, o queixo de Seunghyun se enrijeceu.
Por mais que tentasse racionalizar para não sentir culpa em relação a ele, era inútil. Quanto mais revisitava as memórias, mais nítida ficava a imagem de si mesmo agindo de forma egoísta. De que adiantava se as lembranças que aqueciam seu corpo e mente gelados fossem preciosas e brilhantes apenas para ele? O homem poderia não sentir o mesmo. E se ele tivesse apenas cedido contra a vontade porque Seunghyun insistira obstinadamente?
Seunghyun o usara como um meio para escapar de seu eu impotente do passado. Ele não sabia distinguir se estava fazendo o guiding ou se estava expiando o passado. E isso continuava até agora. Seunghyun balançou a cabeça bruscamente, como se quisesse espantar os pensamentos.
*Não. Alguém que odeia isso não seria tão caloroso.* Ao refletir sobre o silêncio que surgia toda vez que ele propunha algo, as respostas que vinham um segundo atrasadas e o olhar sereno, Seunghyun fez uma careta de choro. Será que ele ignorara tudo apenas porque as emoções não transpareciam no rosto do homem? Será que, obcecado apenas pela energia, ele não conseguira enxergar o homem de verdade? A percepção lamentável e persistente criou um medo que ele não ousava confirmar.
*E se ele for diferente de mim? Se for assim, o que eu faço?*
— …
Seunghyun aumentou a velocidade novamente.
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Talvez por julgarem que ainda era perigoso dar uma arma a alguém do Distrito 13, o treino de tiro, que fora impossível até recentemente, tornou-se viável graças ao Onicubo. Haon, que tivera dez anos de paz, estava entrando lentamente em estado de guerra. Os guias, cuja principal tarefa era o manejo dos Espers através do guiding, agora tinham que assistir a aulas táticas pelo menos três vezes por semana, e veio a ordem para que participassem dos treinos simulados que antes eram feitos apenas pelos Espers.
Ao abrir a porta e entrar, o som dos tiros disparados por quem já estava treinando atingiu seus ouvidos de forma barulhenta. Embora já tivesse ouvido aquele som inúmeras vezes, ele não se acostumava. Mexendo na orelha, Seunghyun caminhou até um homem que parecia ser o instrutor. Como a maioria dos instrutores, ele também era um Esper. Ele emanava uma energia aguda e cortante.
— Sou Ethan Leon.
— Prazer. Sou Ji Seunghyun.
Após o aperto de mãos, Seunghyun ficou com a breve impressão de que aquele homem precisava de um guiding.
O estande de tiro interno, voltado principalmente para armas curtas com munição real, parecia ter mais guias do que Espers. Olhando ao redor enquanto seguia o homem, Seunghyun observou cada uma das armas de diversos calibres que ele apresentava. Como o funcionamento era idêntico às do antigo mundo, ele entendeu sem dificuldades.
— Você parece familiarizado com armas de fogo.
Seunghyun assentiu prontamente.
— Sim, eu sou.
Então o homem mostrou uma bala vermelha e disse:
— Esta é uma munição refinada com sangue de Esper. Já usou alguma vez?
Seunghyun manuseou o objeto que recebeu do homem. Pelo brilho, parecia novo, recém-saído da fábrica. Ele vasculhou a memória para responder:
— Eu usava mais fuzis do que pistolas. Se está falando da munição, sim. Era muito cara, mas não havia nada melhor para matar Onis.
Isso significava que ele estivera nos campos de batalha como um civil comum. O homem ergueu uma sobrancelha e disse com um olhar curioso:
— Qual modelo você usava?
— O modelo A17 da empresa H. O recuo era forte, mas até esse era difícil de conseguir. Ah, o que eu usava com frequência era o G550 da empresa S.
— Esse é para precisão…
— É conhecido assim, mas a gente usava para tudo, sem distinção.
O homem disparou um olhar fixo para Seunghyun, que falava com naturalidade e um rosto ingênuo, como se não soubesse nada de armas. Refletindo enquanto coçava a ponta do nariz, o homem entregou uma pistola a Seunghyun.
— Usamos este modelo como a pistola padrão das unidades regulares. Armas para Espers, independente do tipo, são pesadas e dão muito solavanco para civis.
— Sim.
— Você também receberá uma para autodefesa.
Pensando que a empunhadura da pistola que recebera era boa, Seunghyun verificou o carregador e a câmara. O homem, observando atentamente os movimentos familiares e habilidosos dele, fez um sinal com a mão.
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Ao entrar na sala de consulta, o que viu antes de Daniel foi um dorso largo com uma postura impecável. Ao perceber a presença de Jaeil, os olhos de Seunghyun se arregalaram lentamente antes de voltarem ao normal. Ele não imaginava que ele estaria ali. O coração de Seunghyun deu um solavanco, mas ele piscou profundamente para não transparecer.
Sentindo a presença de Seunghyun, o homem virou levemente o rosto e fez um sinal com a cabeça. Seunghyun retribuiu com uma pequena reverência. Ao lado do homem estava a cadeira de Seunghyun. Puxando a cadeira lentamente para se sentar, Seunghyun olhou imediatamente para o nada. Por outro lado, o olhar do homem permaneceu na bochecha clara de Seunghyun antes de se afastar tardiamente.
— …
— …
Abaixo da mesa, seus dedos se entrelaçavam e se moviam inquietos. Era estranho, como se fossem pessoas que acabaram de se conhecer. Embora o único ato tivesse sido sentar-se ao lado dele, sua boca ficou seca. Era porque eles se encontraram antes que ele pudesse organizar qualquer coisa, fossem os sentimentos confusos ou as memórias embaralhadas.
Daniel, com uma expressão alegre, olhou para os dois e começou a falar:
— Bem, não é como se o Jaeil estivesse mentindo.
Com esse comentário, Jaeil franziu o cenho, descontente, enquanto Seunghyun apenas arregalou os olhos em silêncio.
— Nos exames, não houve nenhuma grande anormalidade. Ele parece ter tido muitos sonhos, mas… bem, estava tudo bem.
O tom de Daniel, que deixava margem para dúvidas, o deixou um pouco apreensivo, mas ao ouvir que estava tudo bem, Seunghyun sentiu um alívio no peito.
— Vamos tentar mais uma vez.
*Tentar o quê?* Os olhares de Seunghyun e Jaeil voltaram-se simultaneamente para Daniel.
— Eu gostaria que vocês dois fizessem um exame de sono juntos. Minha hipótese é que o Jaeil está estimulando o subconsciente do Seunghyun.
— …
— Será que ele não estava dizendo que sentia dor para o Ji Seunghyun, que acabou de despertar e cujos instintos de guia estão à flor da pele? É uma suposição cautelosa que faço.
Daniel sorria e parecia até se divertir. A sensação de que ele os estava provocando não era fruto da imaginação. Ao ouvir que a causa do distúrbio de sono de Seunghyun poderia estar nele mesmo, Jaeil lançou um olhar de desagrado para Daniel.
Seunghyun ficou mais do que surpreso; ficou atordoado com a sensação aguda que atingiu sua pele. Ele sabia mesmo sem olhar: o homem estava demonstrando abertamente que estava de mau humor. Seunghyun apenas moveu as pupilas de um lado para o outro em silêncio.
— Enfim, vamos dar mais uma olhada.
— Se for esse o caso, o problema se resolve se não dormirmos juntos. — A voz de Jaeil surgiu, em um tom de quem mastigava as palavras com hostilidade. Seunghyun, observando de soslaio a energia que ardia com mais intensidade do que antes, sentia-se como se estivesse sentado em brasas.
— Hum… — Daniel não respondeu afirmativamente. Apenas deu um leve de dar de ombros. — Avisarei assim que a agenda for definida.
— …
Assim que ele deu a entender que a sessão terminara, Jaeil levantou-se da cadeira, e Daniel observou sua expressão com interesse. Então, pareceu lembrar-se de algo e estalou os dedos com uma pequena exclamação. Os olhares dos homens, que já se dispersavam, voltaram-se para Daniel.
— Até que os resultados saiam, a tarefa continua valendo.
Recebendo a despedida provocadora de Daniel, Seunghyun saiu da sala e chamou Jaeil, que caminhava à frente.
— Esper.
— Sim.
O homem respondeu como de costume. Mesmo sentindo o olhar dele fixo sobre si, Seunghyun não conseguia encará-lo. Sua mente estava um caos total.
— Hum… bem… não tínhamos combinado de dormir juntos hoje?
— …
— Poderíamos adiar para amanhã?
Com essa pergunta, a cabeça de Jaeil inclinou-se levemente. Seu olhar recaiu pesadamente sobre o topo da cabeça de Seunghyun. Após um curto silêncio, uma voz pesada ecoou do homem:
— Posso perguntar o motivo?
Seunghyun coçou a têmpora e umedeceu os lábios secos.
— …Bem. É que eu…
— …
— Não estou me sentindo muito bem.
Um suspiro escapou do homem.
— …Seria por causa do guiding desta manhã?
— …Não sei.
Seunghyun falava de forma hesitante e continuava sem fazer contato visual. O olhar de Jaeil tornou-se ainda mais profundo.
— O que acha de falarmos com Daniel agora mesmo?
Seunghyun balançou a cabeça apressadamente. Ele fechou os punhos com força ao tentar impedir o homem de voltar para a sala de consulta.
— Não. Acho que se eu dormir bem, vou melhorar.
— …
Como Jaeil permaneceu em silêncio, Seunghyun finalmente ergueu a cabeça e olhou de relance para ele.
— Amanhã estarei melhor.
— …
— Eu entrarei em contato.
Observando as costas de Seunghyun enquanto ele fugia daquele espaço a sós, Jaeil ergueu o queixo de forma enviesada. Com as mãos na cintura e mergulhado em pensamentos por um momento, ele exibia uma expressão de desagrado que nem se comparava a quando ouvira as palavras impertinentes de Daniel. Logo, ele estalou a língua e uma energia sombria explodiu ao seu redor antes de se dissipar.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna