Capítulo 35
— M-Max…
— Shh, fique quieta.
Maxim estava completamente fora de controle. Mesmo se ela tentasse detê-lo, seus olhos já estavam vidrados com um brilho predatório.
Pressionada sob o corpo enorme e duro como rocha, Daisy se debatia como uma herbívora sendo atacada no pescoço.
Daria uma cabeçada nele? Ou talvez uma cotovelada no queixo? Ou deveria implorar por um beijo e então mordê-lo como um cão raivoso?
…E depois? O que aconteceria?
Só escapar dessa situação não resolveria nada. Ideias violentas giravam em sua mente, mas nenhuma parecia ser um bom plano.
Ela mal havia conseguido afastar as suspeitas sobre seu treinamento especial antes, improvisando uma desculpa. Se isso acontecesse de novo, não terminaria bem.
Bam! Bam! Bam!
Enquanto Daisy lutava inutilmente, incapaz de se mover, o som de batidas fortes na porta ecoou pelo quarto.
— Vossa Graça, está tudo bem? — uma voz aflita chamou do lado de fora. Era, sem dúvida, Marigold.
Certo. Houve um tiro momentos atrás. Era por isso que ela tinha vindo correndo.
‘Ah, querida Marigold.’ Como chefe das criadas, era extremamente leal — completamente diferente de Rose, que provavelmente ainda estava dormindo.
A salvadora de Daisy havia chegado.
Ela rapidamente observou a expressão de Maxim, ainda sobre ela.
— …Porra — murmurou ele, irritado. Ao contrário de Daisy, que se sentia aliviada com a chegada de Mary, ele parecia incomodado com a interrupção.
Bam! Bam! Bam!
A porta tremia violentamente, como se fosse se partir.
— A porta está trancada, então terei que arrombá-la. Peço desculpas pela invasão.
Com um estrondo ensurdecedor, a porta foi destruída instantaneamente. Diziam que Marigold era mais forte que a maioria dos homens adultos, e claramente não era exagero.
Daisy não podia deixar que a inocente Mary os visse naquela situação comprometedora.
Antes que ela entrasse completamente, Daisy agarrou o lençol e cobriu o corpo de Maxim.
— Vim correndo assim que ouvi o tiro. A senhora está bem, Voss—?
Marigold parou no meio da frase, arregalando os olhos ao ver o Grão-Duque e a Grã- Duquesa nus.
Ela havia entrado como um furacão, pensando que era uma emergência, apenas para dar de cara com aquela cena. Qualquer um teria reagido da mesma forma. Embora o quarto estivesse escuro, o rosto corado de Mary parecia brilhar mesmo na penumbra.
— Haa…
Maxim enrolou o lençol na cintura e soltou um longo suspiro, suprimindo sua irritação. Ele olhou fixamente para a leal chefe das criadas de Daisy.
— Ei, Marigold.
— S-Sim, Mestre! Está ferido em algum lugar?
— Parece que estou?
— N-Não.
— Então saia.
— ……
Mesmo após a ordem, Marigold não se moveu. Seus olhos percorreram o quarto, notando o espelho destruído, e sua expressão se fechou.
— Você não me ouviu dizer para sair?— Maxim perguntou irritado.
Marigold baixou a cabeça e respondeu cautelosamente:
— Peço desculpas, mestre, mas não posso sair agora.
— Por quê?
— Não foi qualquer barulho, foi um tiro. Preciso confirmar a segurança da Grã-Duquesa antes de poder ir.
Marigold desafiou a ordem do seu superior, olhando furtivamente para Daisy.
— Confirmar o quê? Você não me vê aqui?
— Sim, mas…
— Então acha que sou algum tolo que colocaria sua própria esposa em perigo?
— Isso é…
— Saia.
— …
Quando Marigold desobedeceu ao seu comando, a voz de Maxim ficou assustadoramente calma.
— A menos que queira morrer, não me faça repetir. Entendeu?
Obediência absoluta aos superiores.
Marigold aprendera que esse era o dever e a virtude fundamental de um soldado.
Ela também tinha respeito genuíno por Maxim, que reconhecera seu potencial apesar de ser uma mulher que se alistara para sobreviver, e que a transformara em uma verdadeira soldado.
Mas agora, ela não era mais uma soldado. Não podia seguir ordens cegamente sob o pretexto de disciplina militar. O que testemunhara e ouvira esta noite estava longe de ser comum.
Um tiro rasgando o silêncio. Cacos de espelho espalhados pelo chão. E a Grã-Duquesa, tremendo na cama, com o rosto pálido como papel.
Agora que Daisy von Waldeck era sua senhora, Marigold via Maxim como a maior ameaça no quarto.
— Hmm, Max… — Sentindo a estranha tensão no ambiente, Daisy o chamou suavemente.
Para Marigold, ela parecia um cervo ferido, lutando para se levantar. Maxim von Waldeck era o melhor soldado que Mary já vira, mas não podia ter certeza se ele seria um bom marido.
E se ele fosse um bruto que abusava de mulheres?
Essa Grã-Duquesa frágil e lastimável sobreviveria a esse monstro chamado Maxim von Waldeck?
O pensamento de que poderia ser sua única tábua de salvação fez Mary decidir não recuar.
Marigold, que estava curvada respeitosamente, levantou o olhar bruscamente.
— Peço desculpas, mas sirvo à Grã-Duquesa. Meu Mestre me ordenou protegê-la com minha vida.
— E então? —A voz de Maxim era fria.
— Portanto, a segurança dela é minha prioridade máxima. Por favor, perdoe minha insubordinação.
Mesmo sendo casados, Marigold manteve-se firme, não iria embora até que a segurança de Daisy estivesse garantida.
— Você admite insubordinação, mas mesmo assim vai fazê-lo?
O rosto de Maxim ficou ameaçadoramente sombrio. Ele detestava isso acima de tudo.
A tensão crepitava no quarto. Daisy, que vinha observando nervosamente o impasse, percebeu que era sua vez de intervir.
— Max, não brigue com a Mel. Eu explico.
— Mel?
— Sim, ah, Mel é o apelido da Mary.
— Já estão íntimas assim?
— Claro. Você mesmo a escolheu pra mim.
Seria ciúmes? Maxim parecia visivelmente descontente.
— Ela está comigo agora, então deixa comigo, está bem? — Daisy disse de forma tranquilizadora, e Maxim recuou relutantemente.
— Mel, venha.
— Sim, Vossa Graça. — Ao comando de sua senhora, Marigold apressou-se para o lado de Daisy.
— Você deve ter se assustado tanto com a confusão desta noite. Obrigada pela preocupação, mas estou ilesa. Estou bem.
— Tem certeza?
Apesar das garantias de Daisy, Marigold ainda parecia não convencida. Uma explicação mais detalhada parecia necessária.
— Ah, o tiro… bem, houve uma razão para isso.
‘Se eu pudesse, imploraria para me tirar daqui, ele estava tentando enfiar aquele pau em mim—’
Não. Isso só pioraria as coisas mais do que um simples tiro. Daisy decidiu tentar amenizar a situação. Embora Marigold fosse subordinada de Maxim e ferozmente leal, ela ainda era uma das pessoas que observavam. Para um divórcio tranquilo mais tarde, era melhor não dar motivos para escândalos.
Era impossível prever as coisas loucas que Maxim poderia dizer. Além disso, Mary se sentiria mais tranquila e confiante se ouvisse a história diretamente da própria Daisy.
— Na verdade, é um pouco embaraçoso falar sobre isso. Mas vou contar se você prometer não rir.
— Rir? Absolutamente não. Não se preocupe com isso. Por favor, fique à vontade para falar, Vossa Graça.
Depois de receber a garantia de Marigold, Daisy hesitou ligeiramente antes de falar.
— Na verdade, desde pequena, sempre quis ter uma arma bonita.
— Uma arma? Vossa Graça?
Talvez a combinação parecesse totalmente incongruente, dada sua aparência. Os olhos de Marigold se arregalaram de surpresa.
— Sim, eu acidentalmente encontrei uma arma no bolso do Grão-Duque e implorei para me ensinar a atirar. Enquanto ele explicava, eu apertei o gatilho de verdade sem querer, e então—
Daisy mostrou a língua levemente e sorriu com um ar de quem foi pega. Foi a melhor desculpa que conseguiu pensar no momento.
— Então, foi um acidente. Você se assustou muito? Me desculpe.
O rosto de Mary ficou vermelho de vergonha ao saber das circunstâncias particulares de Daisy.
— Eu não sabia. Sinto muito, Vossa Graça.
— Tudo bem. Ainda assim, honestamente estou um pouco emocionada. Eu não percebi que você se importava tanto comigo. — Daisy acariciou o cabelo de Marigold, encontrando seu olhar.
O rosto de Marigold corou novamente enquanto ela gaguejava pedidos de desculpas:
— M-Me d-desculpe por ter exagerado, Vossa Graça. Perdi tantos companheiros para balas inimigas que o som de tiros me deixa nervosa.
— Tudo bem, obrigada. Isso me faz sentir mais segura sabendo que você está aqui, Mel.
Ouvindo o elogio, o rosto de Marigold corou novamente.
— Estou cansado, então vamos fazer só um versículo, — Maxim resmungou.
Marigold olhou para Daisy, avaliando sua reação. Em última análise, obedeceria ao comando de Daisy.
— Você deveria ir para a cama também, Mel. Não se preocupe comigo, está bem? — Daisy disse enquanto saía da cama e entrelaçava suavemente o braço de Marigold, levando-a em direção à porta.
— Boa noite, Mel.
— Ah, sim. Que Vossa Graça e o mestre também tenham uma noite agradável, — Marigold respondeu com uma reverência educada antes de se retirar rapidamente do quarto. A porta fechou-se atrás dela com um clique.
Daisy ficou parada por um momento, soltando um suspiro silencioso de alívio.
Ufa… sobrevivi dessa vez.
Ela quase havia sido arrastada, prestes a se entregar àquele homem enlouquecedor. Foi pura sorte que tenha recuado a tempo.
Graças à leal Mary, a crise imediata fora evitada. Agora Daisy precisava encontrar uma maneira de persuadir gentilmente Maxim a deixá-la escapar sem ser notada.
Mas assim que se virou, uma longa sombra se aproximou com passos lentos e deliberados.
— Em que esta pensando tão profundamente?
Ela se virou — encurralada entre a porta e o corpo nu de Maxim.
— Você parou bem na hora. Estava planejando escapar sorrateiramente como uma ratinha?
Seu coração afundou. Ele a havia lido tão precisamente, como se seus pensamentos estivessem escritos em sua pele.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet