Capítulo 24
Não era que Marigold não tivesse aptidão. Suas habilidades rivalizavam com uma arma humana, mas seus interesses e temperamento claramente estavam em outro lugar, e ela parecia estar sofrendo interiormente.
— Por que está tão nervosa, Marigold? Não há necessidade.
— Vossa Graça, por que usar linguagem formal comigo? Por favor, fale casualmente.
— Ah, certo, está bem…
Talvez Marigold não estivesse livre dos maus-tratos há muito tempo, ainda não acostumada a falar de forma informal.
— Vou me esforçar muito! Mel… quer dizer, por favor, me chame de Mel, de maneira casual!
— Mel?
— Sim! É vergonhoso, mas sempre foi meu sonho ser chamada por um apelido!
Bom, tanto faz. É o desejo dela. Posso chamar assim ao menos uma vez.
— Mel, é um apelido adorável. Combina com você.
Marigold pareceu profundamente emocionada ao ouvir seu apelido nos lábios de sua senhora.
— Vamos trabalhar bem juntas daqui para frente. Conte comigo.
Daisy sabia que em breve teria de encontrar um novo trabalho, mas por enquanto decidiu tratar Mary com gentileza enquanto estivessem juntas.
Foi o que decidi, pensou Daisy.
Assim começou a convivência instável de duas falsas criadas e uma falsa Grã-Duquesa.
🌸🌸🌸
Após entrar na capital, Maxim apresentou-se prontamente ao Rei e à Rainha, relatando seu retorno em segurança.
O Rei ficou um tanto descontente com o atraso nos cumprimentos de Maxim, mas com os olhares do público voltados para ele, não pôde demonstrar abertamente sua irritação.
Um arco do triunfo em homenagem à grande vitória de Maxim von Waldeck estava sendo planejado para a praça onde se situavam os escritórios do governo central da capital.
Naturalmente, a opinião e atenção pública estavam centrados no herói de guerra e em cada uma de suas ações. O tema mais intrigante para o povo era o boato envolvendo a Esposa do Herói, Daisy von Waldeck.
Os rumores giravam em torno de que o herói de guerra, portador de uma vitória milagrosa, havia atrasado sua entrada na capital por causa dela.
Com um baile real celebrando o retorno e a vitória do herói se aproximando, chegara o momento de a esposa envolta em mistério aparecer sob os holofotes.
— Hum, tia… este lugar não é muito caro? — Daisy sussurrou para a Viúva Waldeck, olhando em volta para a boutique de luxo.
Daisy, que possuía apenas alguns vestidos simples para uso interno, fora praticamente arrastada até ali. Por ordem do senhor da Casa Waldeck, recebera ordens para escolher um vestido de noite para eventos sociais importantes.
Rose e Marigold observavam, boquiabertas, aquele mundo luxuoso e desconhecido.
A viúva Waldeck era a única aliada de Daisy em seu plano de divórcio, a única em quem podia confiar.
— Você está certa, mas que escolha temos? Este é o único lugar disponível no momento.
— Mas eu vou me divorciar de qualquer forma.
‘Sinceramente, mesmo que eu compre algo assim, não terei onde usar depois do divórcio, vivendo com as freiras.’
E, sendo sob medida, será difícil revender.
Daisy sentia-se sobrecarregada por qualquer coisa excessivamente cara.
— Você está certa — concordou a Viúva Waldeck. — Mas não podemos ir ao baile sem nada, então não temos escolha. Vamos escolher o mínimo necessário.
— …Sim.
Bem, ela não está errada. Se aquela velha em particular diz que é inevitável, não devia se sentir culpada.
Daisy decidiu não discutir com as palavras de sua tia.
— De qualquer forma, comporte-se com decoro. Entendido?
— Esse decoro que você menciona… como eu o mantenho? Alguma dica?
— O básico para os nobres é agir como se não tivessem nada quando têm, e como se tivessem tudo quando não têm.
— Hã… desculpe, mas poderia dar um exemplo mais concreto? Vim das favelas, então esse tipo de linguagem refinada passa direto por mim.
A Viúva Waldeck suspirou profundamente e sussurrou.
— Não demonstre nervosismo com os preços. Deixe que te vistam, e apenas aceite. Entendeu?
— …Sim.
‘Meu Deus. Eles nem vão me deixar trocar de roupa sozinha?’
Pensando bem, eles não me deixaram tomar banho sozinha também. Os nobres são como bebês? Eles não podem fazer nada sozinhos?
Daisy, não acostumada a ser servida, sentiu-se extremamente desconfortável.
‘Ah, certo. A arma…’
Ela se lembrou do revólver que Maxim lhe dera, preso à sua coxa.
Se vissem aquilo enquanto a trocavam, causaria alarde. Ela não queria levantar suspeitas desnecessárias.
‘Preciso esconder isso em algum lugar no provador.’
Daisy entrou sozinha no provador para esconder a arma e ouviu um som estranho.
Parecia ser a equipe da boutique, sem saber que Daisy estava atrás da cortina.
— Você viu aquela mulher mais cedo?
— Quem?
Nossa, fofoca. Ouvir histórias alheias é sempre a parte mais divertida.
Daisy adorava fofoca. Quando pegava um jornal, sempre lia a coluna cheia de mexericos. Prendendo a respiração, esforçou-se para ouvir os sussurros.
— A Cinderela de Thereze.
— Oh, a do Grão-Duque Waldeck…?
— Essa mesmo.
Infelizmente, não é a história de outra pessoa.
Decepcionada, mas curiosa, Daisy decidiu ouvir com atenção. Aquilo poderia ser útil para construir seu caso de divórcio. Ela precisava avaliar a opinião pública.
— Ela é bonita, pelo menos.
— Sim, uma beleza de verdade. Os rumores não mentiram.
Sou um pouco bonita mesmo. Aquelas mulheres, trabalhando numa boutique de luxo, devem ter um olhar apurado. Os lábios de Daisy se curvaram levemente, mas seu semblante endureceu com as palavras seguintes.
— Talvez seja sua origem, mas ela tem uma vibe estranhamente caipira.
— Pois é. E aquelas roupas? Parecem imitações baratas. Viu o tecido?
— Vi. Lixo total.
Daisy olhou para o próprio vestido. Escolheu o melhor que tinha para ir à boutique de luxo. Era apenas uma roupa de trabalho imitando algo refinado.
‘O pior. Thereze, seu pão-duro.’
Ela vestia o que Thereze lhe dera, achando que servia para aparências. Pelo visto, ele economizara, sem esperar que Maxim voltasse vivo. Daisy cerrou os dentes, amaldiçoando o chefe sem escrúpulos.
— Ela é de baixo nível. Por que vir aqui sem status algum? Será que consegue pagar esses vestidos?
— Será? Por isso só vai comprar dois. Vai ficar revezando.
‘Eu já planejava comprar só dois e revezar. Droga. É constrangedor, elas leram minha mente.’
— Waldeck não tem dinheiro?
— Antes, eles quase esbanjaram todos os bens, um tigre sem dentes. O território deles é um cafundó qualquer no fim do mundo. É por isso que adotaram o sobrinho, que supostamente morreria.
— Sim. Você viu as roupas da Viúva Waldeck? Totalmente fora de moda. Ela deve estar vivendo uma vida miserável.
— Sim, a família está arruinada. Como ela poderia pagar por roupas bonitas? Mas agora que ele voltou como um herói de guerra, ela acha que pode se exibir na sociedade?
— Com aquelas roupas? As damas nobres da capital nem vão dar atenção.
Aquelas mulheres estavam até insultando a tia digna de Maxim. Daisy não percebera, dada a postura elegante de sua tia e seu foco na etiqueta.
A vida da tia deve ter sido difícil para uma mulher da alta sociedade.
Daisy entendeu por que ela estava tão tensa e aguardou com tanto desespero o retorno de Maxim. Sentiu uma pontada de compaixão.
— Mas agora eles devem ter dinheiro, né? Ele é o herói do país, a recompensa deve ser enorme. Estão até construindo um arco do triunfo para ele.
— E daí? Esse dinheiro é precioso demais para gastar com a esposa espantalho. — As funcionárias riram.
Estão me chamando de esposa espantalho?
Bem, foi isso que aceitei ser. Não adianta ficar brava.
Daisy decidiu ouvir ainda mais atentamente.
— Ei, eu li no jornal que o atraso dele na entrada da capital foi por causa da esposa. Apenas um boato?
— Isso não é notícia, é um romance barato escrito para vender jornal. Depois de tanto tempo aqui, você ainda cai nisso? — repreendeu uma delas, e continuou: — Homens, quando estão completamente apaixonados, perdem o juízo e se arruínam dando tudo às mulheres.
— Pois é, até o Grão-Duque Waldeck. O status dele disparou. Poder é o objetivo final dos homens. Você acha que ele se importaria com uma mulher só porque é bonita?
— Exatamente. Ele vai arranjar uma esposa adequada e se casar de novo. Ouvi dizer que muitas mulheres da capital já estão de olho no Grão-Duque Waldeck.
‘Ótima notícia. A opinião pública parece favorecer meu divórcio.’
Continua…
Tradução: Elisa Erzet