Capítulo 18
O celular caiu em espiral, foi parar na lama e ficou meio preso ali enquanto afundava devagar. A mente de Chi Xiaoduo estalou com aquela piada sobre estar no banheiro e o celular cair no vaso bem no momento em que alguém ligava, fazendo o aparelho vibrar com a chamada à medida que afundava lentamente.
AAAAAAH — NÃO, EXATAMENTE NO QUE EU TÔ PENSANDO?! O MONSTRO ACORDOU, AAAAAAAH!
Chi Xiaoduo estava aterrorizado, mas a situação não lhe permitia raciocinar de forma mais complexa. Em meio a um solavanco doloroso e ensurdecedor e à sensação vertiginosa de que o mundo girava, o monstro avançou em direção ao fosso do elevador; Xiang Cheng soltou-se, despencando em queda livre.
Enquanto girava no ar, Xiang Cheng puxou o zíper de sua bolsa de viagem. Na fração de segundo em que ficou de cabeça para baixo — com a cabeça voltada para o chão e os pés para o alto —, metade da carga de grãos de soja da bolsa se espalhou; logo em seguida, ele agarrou uma ponta do saco plástico de armazenamento e o rasgou de uma só vez com um puxão violento.
Com um som de huala, grãos de soja se espalharam pelo ar; Chi Xiaoduo olhou para baixo e viu Xiang Cheng correndo velozmente ao longo da parede. O monstro colidiu em cheio contra a parede enquanto Xiang Cheng dava uma pirueta no ar — e pareceu conjurar um encantamento. Imediatamente, os grãos de soja dispararam como uma chuva de meteoros, todos brilhando com uma luz dourada e ricocheteando pelo ar.
Assim que pisou no chão, Xiang Cheng correu em disparada em direção ao seu celular, guardou-o no bolso da calça e virou-se para encarar o monstro; a criatura rugiu ferozmente, desencadeando uma rajada de vento devastadora!
Chi Xiaoduo conseguiu ver com clareza a aparência completa do monstro: ele possuía uma cabeça apavorante, com presas superiores e inferiores que chegavam a ter quase um metro de comprimento. Seu corpo inteiro era coberto por escamas pretas e suas quatro patas estavam cravadas no chão. As presas se abriam e fechavam como as lâminas afiadas de uma guilhotina, enquanto suas garras cintilavam um brilho gélido. Muitas das escamas tinham caído, deixando escorrer sangue negro.
Ele tinha um corpo semelhante ao de um dragão, com cerca de cinco a seis metros de comprimento, sua cauda era como a de um peixe, e havia nadadeiras blindadas e brilhantes em ambos os lados do corpo que, ao se abrirem num golpe seco, pareciam prestes a cortar Xiang Cheng ao meio a qualquer momento. Quando a criatura se virou para perseguir Xiang Cheng, Chi Xiaoduo percebeu que um dos olhos dela já estava cego, e o outro olho era justamente aquela esfera de luz verde que ele tinha visto antes!
O que é isso? Onde eu já vi isso antes?
Chi Xiaoduo não conseguia se lembrar de jeito nenhum; suas memórias eram uma confusão só, sendo interrompidas sem parar pela imagem da última vez em que Xiang Cheng capturou o guiche. Num estalo, ele se lembrou do monstro estampado no cartaz impresso que tinha visto no Beco das Magnólias!
Parecia muito semelhante — embora não fosse exatamente igual. Como é que se chamava mesmo? Chiwen! Isso! Era o Chiwen! Mas por que… será que tinha algum ponto fraco? Ele poderia ajudar Xiang Cheng com isso? Chi Xiaoduo pegou o celular e começou a pesquisar no Baidu.
É só pesquisar no Baidu! Aí você vai saber!
Contudo, não havia sinal dentro do esgoto…
O Chiwen parou de se mover, olhou para cima de repente e soltou um uivo longo e prolongado que ecoou pelas tubulações vazias.
Xiang Cheng não podia mais perder tempo lançando feitiços, então tirou a Bandeira de Aprisionamento de Yao da bolsa e a agitou no ar. Num instante, o guiche surgiu da bandeira e soltou um guincho feroz! Os tímpanos de Chi Xiaoduo quase estouraram com aquilo, e os gritos daquelas duas criaturas quase o fizeram vomitar sangue. No entanto, Xiang Cheng parecia estar interferindo na capacidade da criatura de emitir aquele som.
Em seguida, o guiche começou a se debater descontroladamente para todos os lados, tentando a todo custo escapar. Mas Xiang Cheng puxou a Bandeira de Aprisionamento de Yao, apertando-a contra o peito e a barriga do guiche, e, com um salto, lançou-se sobre as costas dele! O guiche investia e se batia desordenadamente, enquanto Xiang Cheng rugia: “Suba——!”
Conduzindo o guiche em um vôo espiralado, Xiang Cheng voou em direção à abertura onde Chi Xiaoduo estava escondido. O guincho do Chiwen ficava cada vez mais ensurdecedor; Chi Xiaoduo ergueu a cabeça aflito e viu Xiang Cheng gritando algo desesperadamente para ele.
Ao mesmo tempo, todos os canais de esgoto ao redor começaram a vibrar num zumbido intenso, como se algo estivesse se aproximando em alta velocidade em direção à área central pelas tubulações.
“O quê?!” Chi Xiaoduo não conseguia ouvir nada; a conversa entre os dois era completamente abafada pelo uivo do Chiwen.
Os lábios de Xiang Cheng formaram a palavra: Pule——
Chi Xiaoduo voltou a si, lançou o corpo à frente e pulou.
Assim que Chi Xiaoduo saltou, enquanto seu corpo estava suspenso no ar, os doze tubos atrás dele soltaram lama negra simultaneamente, e milhares de pequenos monstros negros avançaram em disparada! Eles pareciam macacos em decomposição e, ainda no ar, tentaram agarrar Chi Xiaoduo com suas garras ferozes.
Si Gui, brilhando com uma luz prateada, surgiu repentinamente de dentro do capuz de Chi Xiaoduo. Ele deu uma volta graciosa ao redor dele, espalhando pó brilhante que formou um feixe de luz, bloqueando o avanço de todos aqueles macacos d’água negros!
Xiang Cheng envolveu a cintura de Chi Xiaoduo com um dos braços e os dois giraram no ar. Ele deu um pontapé nas costas do guiche e a criatura, soltando um ganido lamentoso, despencou em direção ao solo.
Chi Xiaoduo soltou um grito alto, enquanto Xiang Cheng sacudia a Bandeira de Aprisionamento Yao mais uma vez, recolhendo o guiche de volta para o artefato!
A cena era de puro caos. O Chiwen parou de gritar quando um exército de macacos-d’água (grande o suficiente para derrubar montanhas e virar mares), avançou na direção deles. Xiang Cheng empurrou Chi Xiaoduo para trás do muro e posicionou-se com as mãos unidas: mantendo a palma esquerda aberta e apontou a mão direita — com os dedos formando um selo de espada — para o céu, soltando um rugido feroz!
Os grãos de soja espalhados começaram a voar com um som agudo, e feixes de luz dourada cruzavam o ar enquanto cada grão — brilhando com um talismã — disparava freneticamente em todas as direções. Chi Xiaoduo ficou maravilhado e tão empolgado que começou a gritar. Assim que os macacos-d’água avançaram, foram atravessados pelos grãos dourados, soltando lamentos enquanto se transformavam em fumaça verde.
Quando Xiang Cheng abriu as mãos novamente, mais de uma centena de grãos dourados dispararam em conjunto, girando e serpenteando como uma chuva de meteoros que preencheu todo o espaço. Assim que o feitiço de dispersar os grãos terminou, a barreira protetora se desfez, Xiang Cheng sacou o Cajado de Subjugação Yao e o estendeu.
Num piscar de olhos, o Chiwen abriu sua boca ensanguentada e avançou sobre os dois. Xiang Cheng, sem se deixar intimidar, segurou Chi Xiaoduo com o braço esquerdo e, com a mão direita, o cajado brilhava intensamente; o pescoço do Chiwen chocou-se diretamente contra a arma, e o peso de mil jin caiu sobre eles. De repente, Xiang Cheng impulsionou-se para trás com os pés contra a parede, fazendo o máximo esforço para suportar o peso daquela besta colossal, enquanto seu corpo se arqueava sob a tensão.
Chi Xiaoduo: “……”
Tudo aconteceu tão rápido que Chi Xiaoduo nem teve tempo de reagir. Naquele instante, o Chiwen soltou um rugido ensurdecedor como um tsunami na direção dos dois. Ao abrir a garganta, estendeu uma língua interna enrolada e, na própria ponta da língua, surgiu uma figura humana de pele negra, marcada por cicatrizes.
A metade do corpo daquela “pessoa” estava conectada à língua do Chiwen, como se fosse um monstro que tivesse surgido dentro de sua boca. Chi Xiaoduo não esperava algo assim de forma alguma e, num instante, foi tomado pelo terror.
“AHHH——” Chi Xiaoduo finalmente gritou.
A pessoa dentro da boca do Chiwen estava coberta de sangue e feridas, com o rosto e a cabeça cheios de cicatrizes; ela estendeu as duas mãos, tentando agarrar a cabeça de Xiang Cheng. Chi Xiaoduo avançou rapidamente, afastando as mãos com um golpe.
Porém, no momento em que se tocaram — a pupila do olho esquerdo restante do Chiwen subitamente se contraiu, tornando-se uma linha vertical.
Com um estrondo alto, o Chiwen deu um coice violento para trás, seu corpo enorme rolou pelo chão, mantendo o olho esquerdo fixo em Chi Xiaoduo. Xiang Cheng tentou persegui-lo, mas o Chiwen, com o Cajado Subjugador de Yao ainda cravado no pescoço, mergulhou de cabeça no cano de esgoto. Num piscar de olhos, milhares de macacos-d’água desapareceram junto com ele.
O túnel ficou em completo silêncio, coberto de lama, como se nada tivesse acontecido.
A voz de Lady Gaga ainda ecoava: “GAGA, Olalala…”
Xiang Cheng pegou o celular e desligou a música.
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng: “……”
“Ferrou!” Chi Xiaoduo voltou a si e gritou: “O Cajado Subjugador de Yao!”
“Não vá atrás dele.” Xiang Cheng disse. “Já encontramos o alvo principal.”
Chi Xiaoduo estava quase sem forças no corpo inteiro. Xiang Cheng se inclinou e disse: “Eu te carrego nas costas.”
Chi Xiaoduo não fez cerimônia: deitou-se nas costas de Xiang Cheng. Xiang Cheng caminhou até a abertura do cano por onde o Chiwen havia escapado, espiou para fora e, após certificar-se de que não havia perigo, saiu lentamente pelo tubo com Chi Xiaoduo nas costas.
Os dois estavam cobertos de lama suja e fedorenta. Xiang Cheng caminhava devagar ao longo do canal.
“Ele simplesmente saiu correndo assim, não vai machucar ninguém?”
“Não. O amanhecer está chegando; a luz do sol enfraquecerá sua magia.”
“E se ele sair de novo à noite?”
“Ele não vai durar até à noite. Agora que o forçamos a sair do esconderijo, o Departamento de Exorcismo organizará um cerco para eliminá-lo.”
“Mas e se ele se esconder?”
“O Cajado de Subjugar Yao está cravado no corpo dele, e eu também inseri um talismã ali; será fácil rastrear seu esconderijo”, respondeu Xiang Cheng.
“Você não vai recolher os grãos de soja?”Chi Xiaoduo perguntou de novo. “E da próxima vez, quando precisar transformar os grãos em soldados?”
“Compro mais meio jin”, respondeu Xiang Cheng. “Os soldados de soja só podem ser usados uma vez.”
“Quanto mais grãos de soja, mais poderosos eles são?” Chi Xiaoduo perguntou, curioso.
“Hum”, respondeu Xiang Cheng.
“Então por que não comprar um saco inteiro e carregá-lo por aí enquanto subjuga yao?”
Xiang Cheng riu. Sem se virar, olhou para o final do túnel — onde uma luz brilhava — e caminhou lentamente para frente.
“Porque eu não conseguiria carregar o peso”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo caiu na gargalhada. Xiang Cheng o silenciou e disse: “Segure firme; vou te mostrar um truque.”
Chi Xiaoduo estava com os braços em volta do pescoço de Xiang Cheng, apoiado em suas costas. Xiang Cheng libertou uma das mãos e fez um gesto no ar para trazê-las de volta; os grãos dourados brilharam com uma luz intensa, como uma chuva de meteoros dourados no túnel, alcançando-os.
“Uau.” Chi Xiaoduo observou enquanto os grãos dourados — brilhando como uma infinidade de estrelas — girando ao redor deles. Xiang Cheng virou a cabeça para olhar nos olhos de Chi Xiaoduo e sorriu; então, abriu a palma da mão, e os grãos voaram de volta, um a um, reunindo-se em sua mão antes de irem direto para dentro de sua bolsa.
“Você estava só brincando comigo”, disse Chi Xiaoduo.
“Os grãos são caros”, disse Xiang Cheng. “Da próxima vez, te dou um de lembrança.”
Chi Xiaoduo suspirou.
Xiang Cheng disse: “Você teve um dia difícil. Eu não deveria ter te trazido, mas não me senti bem em te deixar em casa. Ainda bem que você veio — conseguimos rastrear aquele sujeito.”
“É, não tem problema. Você só veio para me proteger.” Chi Xiaoduo sabia que aquela lembrança acabaria sendo apagada mais cedo ou mais tarde. Pelo visto, assim que o exorcismo terminasse, Xiang Cheng faria ele cheirar o frasco de rapé de novo. Porém, ele não disse nada; de nada adiantaria falar mesmo. Que ficasse por isso mesmo.
Pelo menos no presente momento, era algo muito bonito.
O túnel foi clareando aos poucos — já era de manhã. Os dois, imundos, estavam parados na saída de água às margens do Rio das Pérolas. Xiang Cheng mandou Chi Xiaoduo se apoiar em suas costas e subiu pela escada de manutenção.
Do lado de fora da Praça Haizhu, havia idosos se exercitando por toda parte. Quando viram duas pessoas fedorentas saindo de lá, levaram um susto tão grande que quase tiveram um ataque cardíaco.
“Desculpem, desculpem…” Chi Xiaoduo e Xiang Cheng entraram no vagão do metrô, e todos os passageiros se afastaram automaticamente dez metros deles.
Com o rosto coberto de lama, Xiang Cheng olhou para Chi Xiaoduo e deu um sorriso, balançando a cabeça, impotente.
Chi Xiaoduo sentiu-se um pouco deprimido; afinal, nós praticamente acabamos de salvar o mundo inteiro. A gente só tá um pouquinho fedido, pessoal, não precisavam reagir assim.
Xiang Cheng baixou a cabeça para enviar uma mensagem de texto a Kuang Desheng, mas Chi Xiaoduo lembrou-se de repente da proibição do Departamento de Exorcismo e sussurrou: “Nós o espantamos… O Diretor Li não vai te punir por isso, vai?”
Xiang Cheng hesitou por um momento e acabou não enviando a mensagem.
Chi Xiaoduo teve uma ideia repentina e disse: “Já sei!”
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Às oito da manhã, um sol vermelho e radiante brilhava sobre o Rio das Pérolas. Pessoas iam e vinham pelas duas margens enquanto as buzinas dos navios ecoavam.
Na parte mais profunda do leito do rio, o Chiwen se contorcia em agonia. Em meio ao zumbido dos motores, exalava uma fumaça negra. No entanto, com seus movimentos, o Cajado Subjugador de Yao se cravava cada vez mais fundo.
Com um rugido abafado, o Chiwen abriu suas mandíbulas; de dentro, aquela figura humana monstruosa disparou pelas correntes subaquáticas, deixando um rastro de bolhas enquanto subia contra a correnteza do rio.
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Uma hora depois, no estúdio de Wang Ren, dentro da sala de reuniões.
Wang Ren: “……”
Chi Xiaoduo: “……”
Wang Ren: “Chi Xiaoduo, que tipo de brincadeira interessante vocês fizeram ontem à noite? O gosto de vocês é bem pesado, hein?”
Chi Xiaoduo: “É uma longa história, eu te conto depois. Só deixa o Xiang Cheng assinar o contrato primeiro.”
O pessoal do RH da empresa de Wang Ren assinou o contrato com Xiang Cheng e tirou cópias do documento de identidade dele. Enquanto isso, Chi Xiaoduo amolava Wang Ren para ajudá-lo a conseguir a declaração de vínculo empregatício. Wang Ren disse: “”Ei, Mola Mola, você perdeu o juízo ultimamente? Nem vou falar de você me aparecer aqui de manhã coberto de merda, mas agora você quer registrar um pato na minha empresa pra trabalhar de segurança?! Você não acha que tem um parafuso a menos?”
“Não, não”, disse Chi Xiaoduo. “O Xiang Cheng é um grande herói que salvou o mundo. Acredite em mim, você não sai perdendo nesse negócio. Fui, tchau!”
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Às 10H30, Xiang Cheng chegou de bicicleta à frente da lanchonete Shaxian Snacks. Kuang Desheng, que estava justamente abrindo o estabelecimento, ficou olhando para os dois, atônito. Xiang Cheng ergueu a mão para sinalizar que ele não dissesse nada e, então — após obter permissão para usar a cozinha —, ele e Chi Xiaoduo caminharam em direção ao Beco das Magnólias. Sob o olhar atento de um grupo de exorcistas, eles entraram no escritório e colocaram a certificação do empregador e o contrato de trabalho sobre a mesa de outro diretor.
“Xiang Cheng.” O Diretor Lu colocou os óculos de leitura e perguntou: “Você descobriu?”
Xiang Cheng respondeu: “Por enquanto, vou me vincular ao departamento para solicitar uma certificação temporária de exorcista.”
O Diretor Lu manteve a mão sobre o contrato e disse: “Primeiro, me conte o que aconteceu para você ficar todo sujo de lama assim.”
Xiang Cheng respondeu: “Caí enquanto investigava. Agora já sei o que é aquela coisa.”
O Diretor Lu assentiu, então preparou e carimbou o documento com o selo oficial para Xiang Cheng. Xiang Cheng desceu para preencher os formulários, pediu a Chi Xiaoduo que esperasse no pátio e saiu para tirar fotos.
O Ancião Qu olhou para Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo sorriu e o cumprimentou.
“Ancião Qu, já tomou café da manhã?” Chi Xiaoduo perguntou, segurando leite de soja e youtiao¹.”
O Ancião Qu não respondeu. Chi Xiaoduo então começou a comer sozinho. A lama em seu corpo já havia secado.
Xiang Cheng colou sua foto 3×4 escura no formulário e o entregou; em troca, recebeu um certificado temporário de qualificação para exorcista para membros transitórios. Xiang Cheng dobrou o documento, guardou-o no bolso e entrou na sala do Diretor Li. Ao descer as escadas, disse a Chi Xiaoduo: “Vamos embora.”
Chi Xiaoduo disse: “Já acabou?”
“Vou te levar para casa primeiro”, disse Xiang Cheng. “Tome um banho e descanse um pouco. Todos já foram avisados, e o Departamento de Exorcismo está em reunião agora mesmo — mas eu não preciso comparecer.”
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Na parte baixa do Rio das Pérolas, nas profundezas de outro cano de esgoto do lado oposto.
Uma coluna de fumaça negra rodopiava pelo ar, condensando-se na figura de um homem que caiu de joelhos, rugindo numa mistura de fúria e dor.
“AAAARGH—”
A voz do homem ecoou repetidamente pelo esgoto.
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Chi Xiaoduo estava com tanto sono que mal conseguia raciocinar direito. Com muito custo, finalmente conseguiu voltar para casa e, do jeito que estava — coberto de lama da cabeça aos pés —, ia desabando direto no sofá. Xiang Cheng girou o corpo com elegância e, num passo de tango de salão, envolveu a cintura de Chi Xiaoduo e o puxou de volta.
“Tome um banho primeiro.” Xiang Cheng o levou rapidamente para o banheiro, tirou suas roupas e ligou a água quente.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo imediatamente ficou completamente desperto. A gente vai tomar banho juntos?!
Xiang Cheng tirou as roupas de Chi Xiaoduo, mas saiu logo em seguida; Chi Xiaoduo quase teve um infarto e morreu. Parado debaixo da água quente, sentiu que o fluxo d’água estava um pouco mais quente do que o normal — devia ser Xiang Cheng do lado de fora enchendo a bacia com água quente para deixar as roupas de molho e lavá-las.
Pouco depois, Xiang Cheng entrou no banheiro completamente nu.
Chi Xiaoduo: “!!!”
O rosto de Chi Xiaoduo ficou vermelho como um pimentão, mas, como o banheiro estava tomado por uma densa névoa de vapor, Xiang Cheng nem notou a sua reação. Chi Xiaoduo deu um passinho para o lado, dando espaço para que Xiang Cheng entrasse na água.
“Vou esfregar suas costas”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo estava morrendo de vergonha, sem conseguir dizer nada. Sentiu as mãos de Xiang Cheng segurando a toalha, esfregando suas costas, cobrindo-o de espuma de sabão. Chi Xiaoduo já estava duro a ponto de explodir. De cabeça baixa, de costas para Xiang Cheng, sentia o sangue subir à cabeça em ondas, como nas raras vezes em que bebia demais — um zumbido constante na mente.
O amor parecia aumentar e diminuir, como batidas de coração, vibrando em sua mente.
O banheiro ficou silencioso, ouvindo-se apenas o som da água corrente. Eles não diziam nada. Havia apenas a água quente, o contato da pele, o atrito entre a palma da mão de Xiang Cheng e as costas de Chi Xiaoduo, e o aroma de menta do sabonete líquido esportivo que percorria seu corpo.
“Cansado?” A voz de Xiang Cheng soou atrás dele.
“Mais ou menos.” A respiração de Chi Xiaoduo ficou um pouco mais pesada. “Só um pouco… com falta de ar.”
“Daqui a pouco faço uma massagem em você”, disse Xiang Cheng. “Relaxa, vamos tirar toda essa sujeira primeiro.”
Chi Xiaoduo sentiu tontura; de olhos fechados, um pensamento lhe ocorreu de repente: No final, será que essa memória também seria apagada?
O vapor se espalhava pelo banheiro em meio ao som do hualala da água — muito parecido com a tempestade repentina que caía sobre a cidade lá fora, envolvendo o Céu e a Terra em um cinza nebuloso. Chi Xiaoduo virou a cabeça e observou as gotas de água escorrendo lentamente pelo vidro da janela.
“Ah, está chovendo”, disse Chi Xiaoduo.
Xiang Cheng virou a cabeça para olhar.
“Está chovendo”, respondeu Xiang Cheng. Enquanto lavava o cabelo de Chi Xiaoduo — os dois em pé sob o chuveiro — seus dedos deslizavam pelos fios encharcados. Chi Xiaoduo sentiu um formigamento percorrer todo o corpo; dominado pela sensação agradável, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.
“Vou esfregar suas costas.” Chi Xiaoduo ainda estava um pouco duro, embora se sentisse muito melhor agora; diferente da sensação erótica que tomou conta de sua mente no começo, quando os dois ficaram “nus um diante do outro” pela primeira vez havia dado lugar a uma atmosfera suave e sedutora.
Xiang Cheng virou-se. Chi Xiaoduo sentiu o membro dele roçar em seu corpo, e estava duro.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo estava sob a água, enxaguando a espuma do sabonete; posicionado atrás de Xiang Cheng, ele esfregava as costas do outro com empenho. As costas nuas de Xiang Cheng exibiam músculos definidos e robustos, e seus ombros transmitiam uma presença masculina de segurança; seu físico era bem-proporcionado, com cada centímetro de musculatura firme e enxuta. Após esfregar por algum tempo, Chi Xiaoduo passou a mão casualmente pela cintura de Xiang Cheng, fazendo com que este segurasse sua mão imediatamente.
“Isso faz cócegas”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo caiu na risada. Enquanto Xiang Cheng segurava seu pulso, os dois travaram uma pequena disputa de força, movendo-se algumas vezes. Chi Xiaoduo ficou com medo de que, se continuassem daquele jeito, ele não conseguiria se controlar e acabaria se aproximando para abraçá-lo. Pensando nisso, ele ficou duro novamente.
“Terminei de me lavar”, disse Chi Xiaoduo.
Xiang Cheng o soltou, e Chi Xiaoduo fugiu às pressas. Ele saiu para secar o cabelo e tirar a água dos ouvidos, só depois de muito esforço conseguiu se controlar.
“Xiaoduo”, disse Xiang Cheng, abrindo a cortina do box. “Pega uma cueca pra mim.”
Chi Xiaoduo pegou a cueca para ele e entrou no quarto sem dizer uma só palavra.
Xiang Cheng entrou no quarto após o banho e encontrou Chi Xiaoduo sentado de pernas cruzadas na cama, de pijama, recostado na cabeceira e olhando para o celular; do lado de fora da janela atrás dele, a chuva escorria pelo vidro.
“No que está pensando?” Xiang Cheng perguntou.
“Em nada.” O rosto de Chi Xiaoduo estava corado; ele ergueu o olhar para Xiang Cheng e sorriu.
Chi Xiaoduo pensava se não seria uma boa ideia arranjar um e-mail de uso frequente para registrar todas aquelas memórias ao lado de Xiang Cheng e enviá-las para a própria caixa de entrada. Ele poderia programar uma data — talvez dali a três meses, ou quem sabe meio ano — para que o sistema enviasse uma mensagem ao seu celular, trazendo de volta tudo o que viveram juntos e lembrando o seu “eu” do futuro.
Dessa forma, mesmo que tivessem sua memória apagada, ele ainda conseguiria resgatar o sentimento de agora.
Mas qual seria o sentido disso? Xiang Cheng provavelmente o via apenas como um amigo próximo — uma figura semelhante a um membro da família com quem podia conversar e compartilhar alegrias e problemas, um companheiro para afastar a solidão e oferecer apoio mútuo.
Assim que Xiang Cheng se sentou, Chi Xiaoduo mudou imediatamente a tela do celular para uma página da web.
“Você está de mau humor?” Xiang Cheng perguntou.
“Não”, disse Chi Xiaoduo com um sorriso. “Parece que estou?”
“Por que você parou de falar?” Xiang Cheng disse. “Você tem ficado muito quieto desde que chegamos em casa.”
Chi Xiaoduo respondeu: “Estou com um pouco de sono.”
“Deite-se de bruços e descanse um pouco”, disse Xiang Cheng. “Vou fazer uma massagem com óleo em você, aí você pode dormir depois que terminar.”
Chi Xiaoduo deitou-se. Xiang Cheng estava sem camisa, vestindo apenas uma calça de pijama, e se curvou para procurar o óleo essencial. Chi Xiaoduo não tirava os olhos dele. Se até poucos instantes Chi Xiaoduo ainda nutria aquela pontinha de dúvida sobre querer arranjar um namorado, agora essa incerteza fora completamente lançada aos quatro ventos diante da expressão séria e do carinho acolhedor de Xiang Cheng.
O celular de Xiang Cheng tocou. Chi Xiaoduo o pegou e entregou a ele. Xiang Cheng saiu para atender a ligação. Chi Xiaoduo ouviu ele dizer: “Ok, já estou indo.”
Como esperado, Xiang Cheng entrou e disse: “Preciso sair um instante.”
“Leve um guarda-chuva”, disse Chi Xiaoduo. “A chuva está muito forte.”
Xiang Cheng assentiu. Os dois trocaram olhares por um momento, e Chi Xiaoduo disse: “Vou com você.”
Xiang Cheng fez um gesto com a mão e disse: “Eles estão se preparando para sair em uma missão.”
O coração de Chi Xiaoduo se apertou, e ele disse: “Então… toma cuidado.”
Xiang Cheng trocou de roupa; relutante em usar as roupas que Chi Xiaoduo comprou para ele, optando, em vez disso, por vestir novamente o visual de “trabalhador migrante” que costumava usar para subjugar yao. Ele calçou os chinelos, colocou a bolsa no ombro e disse: “Volto à tarde.”
Lá fora começou a trovejar. Chi Xiaoduo o acompanhou até a porta. Xiang Cheng bagunçou com força o cabelo dele, inclinou-se, fechou os olhos e encostou a bochecha na testa de Chi Xiaoduo por um instante.
“Vá dormir”, disse Xiang Cheng.
“Você precisa ter muito cuidado, ah”, disse Chi Xiaoduo.
“Não se preocupe”, disse Xiang Cheng, antes de entrar no elevador.
Chi Xiaoduo fechou a porta e começou a escrever seus registros de memória.
“Meu nome é Chi Xiaoduo…”, disse Chi Xiaoduo. “Não, espere — é claro que meu nome é Chi Xiaoduo. Já que estou escrevendo isso para mim mesmo… hmm, não há necessidade de me apresentar.”
Chi Xiaoduo digitou uma linha: “Olá, eu sou você do passado.” Mas, olhando para aquilo, a frase parecia carregada de terror e suspense típico de um filme de ficção científica, então ele a apagou. Tentou “Não pergunte quem eu sou”, mas isso pareceu ainda mais aterrorizante. No final, decidiu não sofrer com a introdução e simplesmente foi direto ao ponto.
“Xiang Cheng… é um exorcista.” Chi Xiaoduo murmurou para si mesmo. “Embora seja difícil de acreditar, é verdade. Ele já escondeu isso de você por muito tempo… Não, espera, devo usar ‘você’ ou ‘eu’? … Ahhh, meu Deus, o que eu estou escrevendo?!”
Chi Xiaoduo sentia-se como se tivesse dupla personalidade e estivesse conduzindo uma autoanálise delirante; depois de digitar menos de duzentas palavras no celular, ele o jogou de lado e desistiu.
Chi Xiaoduo adormeceu e, no reino nebuloso do sono, teve um sonho.
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A maré subia e descia, e a brisa marinha soprava, chocando-se contra os rochedos e se desfazendo em milhares de cristais luminosos que flutuavam pelo ar.
Em cada fragmento de cristal refletia-se um mundo em constante movimento — era o tempo fluindo, as lembranças da infância. O pequeno Chi Xiaoduo engatinhava sobre as rochas da praia, olhando para trás e chamando os amigos para irem até lá.
Mas os companheiros estavam longe demais, ninguém o ouviu. Ele avistou uma caverna marinha de profundidade insondável e, lentamente, entrou engatinhando.
Dentro da caverna, jazia um grande peixe negro; seu corpo subia e descia em meio a respirações lentas e penosas. Do ponto de vista do pequeno Chi Xiaoduo, era enorme como um navio encalhado. O que é isso? pensou Chi Xiaoduo, aproximou-se e tocou a cauda dele.
A cauda se moveu; assustado, Chi Xiaoduo caiu no chão.
“Wuuu…” O som do monstro ecoou pela caverna como a sirene de um navio; enquanto ele se movia, suas escamas semelhantes às de um peixe se desprendiam, escorrendo sangue.
Então, uma luz surgiu na cabeça do monstro. O que começou como um ponto de luz tênue transformou-se em um brilho verde do tamanho de uma janela. Era o olho do monstro se abrindo.
Chi Xiaoduo, tremendo, contornou para o outro lado, esforçando-se para entender o que era aquilo. Então percebeu que ela também tinha outro olho, completamente opaco, que exalava uma névoa negra. A pálpebra estava semicerrada — aquele olho já era cego.
“O-o-o que é você? Você tem nome?” Chi Xiaoduo perguntou.
O monstro não respondeu e fechou os olhos lentamente.
Chi Xiaoduo perguntou de novo, nervoso e empolgado: “Você é um yaoguai? Encalhou? Você…”
Da garganta do monstro saiu um som parecido com o de uma crise de asma, como um fole gigante.
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Notas:
1 豆浆油条 (Dòujiāng yóutiáo): a combinação clássica e tradicional do café da manhã chinês, composta por leite de soja fresco e tiras de massa frita crocantes.
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Flor: fiquem juntos logo!
O Xiaoduo pitico é fofo demais!