Capítulo 17
Enquanto pedalava com Chi Xiaoduo na garupa, Xiang Cheng pensou um pouco e disse: “Qi Wei… ele guarda rancor de mim. Se for um incômodo para você, peço a ele que me ajude a conseguir um certificado de trabalho.”
“Ah? Sem problemas, não é incômodo nenhum”, disse Chi Xiaoduo. “Wang Ren é um grande amigo meu, mas senti que o Qiqi foi muito gentil com você… que tipo de rancor ele tem?”
Xiang Cheng respondeu: “Algo que aconteceu na geração anterior.”
Chi Xiaoduo percebeu imediatamente que não deveria fazer mais perguntas, então assentiu.
O China Plaza era o local mais movimentado da região; estendendo-se dos andares de lojas no subsolo até o último andar, era, sem dúvida, uma das áreas comerciais mais prósperas de Guangzhou. À noite, o local brilhava com uma profusão de luzes e fervilhava com uma multidão de pessoas. Os dois subiram até o terceiro andar. Xiang Cheng conferiu o endereço que havia anotado e localizou a loja em questão; a fachada estava em reforma, coberta por uma lona com estampas de desenhos animados. Parecia que as obras estavam quase concluídas, restando apenas definir a data de inauguração.
Aproveitando que as pessoas ao redor não prestavam atenção, Xiang Cheng levantou a lona, abaixou-se e entrou. Chi Xiaoduo ficou do lado de fora vigiando.
Pouco depois, Chi Xiaoduo levantou a lona e viu Xiang Cheng pendurado no teto, com a parte superior do corpo enfiada no duto de ventilação.
“Vamos”, disse Xiang Cheng ao pular para baixo, segurando um rolo de talismãs em papel branco nas mãos.
Os dois saíram da garagem e entraram no metrô.
Às nove da noite, Xiang Cheng parou para olhar o mapa das estações. Da Estação do Parque dos Mártires, pegariam a Linha 1 no Parque Renmin em direção à Rua Changshou. O local estava lotado; Xiang Cheng protegeu Chi Xiaoduo à sua frente, guardou com cuidado o rolo de talismãs no bolso do casaco e respondeu: “Não fique nervoso, não é nada de mais.”
“Para que serve isso?” Chi Xiaoduo perguntou.
Xiang Cheng sussurrou ao pé do seu ouvido: “Quando estão construindo edifícios, usam esses talismãs de exorcismo selados no concreto para garantir a segurança da obra e evitar mortes acidentais entre os trabalhadores.”
Chi Xiaoduo não se lembrava de já ter visto algo assim e questionou: “Todo prédio tem isso?”
Xiang Cheng balançou a cabeça e respondeu: “Alguns têm, outros não. Certos construtores de Hong Kong que acreditam nisso mandam selar talismãs de proteção, e até amuletos para atrair bons negócios e vender bem os imóveis. Se houver algum yaoguai morando por perto há muito tempo, o talismã acaba absorvendo o yao qi.”
“Que tipo de yao é esse?” Chi Xiaoduo perguntou.
“O qi é muito fraco, então é um yao bem comum”, respondeu Xiang Cheng. “Vamos encontrá-lo agora. Não tenha medo; yaos comuns não são páreo para mim.”
Chi Xiaoduo assentiu. Os dois desembarcaram na estação da Rua Changshou; já passava das nove horas e havia pouquíssimas pessoas na Rua Changshou Oeste.
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng: “?”
“Liwan Plaza?” Os pelos da nuca de Chi Xiaoduo se arrepiaram.
“Liwan Plaza… hmm, o que tem ele?” Xiang Cheng olhou para cima; do lado de fora de um dos andares do centro comercial, um minúsculo ponto branco cintilava fracamente — era a fênix branca de Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo perguntou: “Será que um yaoguai pode estar escondido aqui?”
“É possível”, disse Xiang Cheng. “Você está com medo?”
O Liwan Plaza era o lugar assombrado mais aterrorizante das lendas urbanas de Guangzhou. Se fosse para vir sozinho, Chi Xiaoduo não daria nem meio passo ali dentro nem que o matassem a pancadas; esqueça a noite, não viria nem mesmo em pleno meio-dia.
“Não estou com medo.” Chi Xiaoduo espiou a entrada por trás de Xiang Cheng. Xiang Cheng se virou para olhá-lo, e Chi Xiaoduo disse trêmulo: “Eu realmente não estou com medo. Bem, na verdade, eu só tenho medo de fantasmas; yaoguai são apenas um fenômeno natural — não há nada para se temer lá dentro.”
Xiang Cheng disse: “Que tal eu entrar e dar uma olhada, enquanto você espera lá fora e toma um café?”
“Aí é que eu morreria de medo mesmo!” Chi Xiaoduo disse, encolhendo-se ao lado de Xiang Cheng. “E se der dez da noite e você não tiver saído, e todas as lojas da rua já estiverem fechadas? Como é que a gente faz?”
Xiang Cheng riu e disse: “Fique bem atrás de mim.”
Ele carregava uma bolsa tiracolo e a colocou atravessada no corpo de Chi Xiaoduo, dizendo: “Se ficar com medo, é só pegar o que encontrar aí dentro e jogar.”
Chi Xiaoduo não sabia se ria ou chorava enquanto seguia Xiang Cheng para dentro.
O Liwan Plaza estava completamente vazio. Muitas lojas já tinham baixado as portas de enrolar e fechado mais cedo. Não havia ninguém no primeiro andar, e os dois subiram na escada rolante.
“Aquela loja se mudou para cá?” Chi Xiaoduo olhou ao redor, perguntando baixinho e com cuidado.
“Talvez”, respondeu Xiang Cheng. “Ou pode ser que a loja principal seja bem aqui. Você conhece as histórias do Liwan Plaza?”
“Já ouvi falar.” Chi Xiaoduo estava distraído; seus olhos vagavam de um lado para o outro enquanto ele segurava a manga de Xiang Cheng. Xiang Cheng virou a mão para segurar a de Chi Xiaoduo; os dedos deles se roçaram antes de se entrelaçarem — dedos firmemente unidos, exatamente como um casal durante um passeio.
Chi Xiaoduo: “……”
“Ainda está com medo?” Xiang Cheng perguntou.
“Não estou com medo”, respondeu Chi Xiaoduo, enquanto ajustava discretamente o cinto; pensando: Não estou com medo, mas estou de pau duro… Droga, esse gesto é tão íntimo — mas a sensação é tão boa. Era a primeira vez na vida que ele entrelaçou os dedos com um homem de quem gostava. E, de fato, assim que deram as mãos, ele sentiu o tesão bater.
Mudando de assunto, Chi Xiaoduo perguntou: “Eu achava que só o pessoal de Guangzhou conhecia essa história, não sabia que tinha ficado tão famosa assim.”
Xiang Cheng respondeu: “Temos um boletim interno no departamento de exorcismo; é uma publicação mensal chamada ‘Negócios de Exorcismo’, usada pelas organizações locais para se comunicarem. Uma das edições mencionou o incidente do Liwan Plaza.”
“Por causa de uma entidade maligna”, respondeu Xiang Cheng.
A escada rolante parou bruscamente; Chi Xiaoduo quase soltou um grito, mas Xiang Cheng simplesmente segurou sua mão e o conduziu para cima, dizendo: “Li sobre isso numa revista mensal, então não sei os detalhes exatos. Na Dinastia Qing, as Treze Fábricas¹ precisavam purificar a área, então ‘prenderam’ um dragão aqui — cravando-o diretamente nas veias da terra — para que aqueles que faziam negócios sobre o corpo do dragão pudessem prosperar.”
Chi Xiaoduo ficou levemente boquiaberto. Os dois chegaram ao terceiro andar, e um atendente de uma loja de cristais logo ali perto acabou de fechar as portas e saiu.
“O corpo do dragão”, disse Xiang Cheng, “se estende desde o lugar onde pegamos o metrô até chegar aqui, incluindo aquelas ruas de pedestres que vocês costumam frequentar. Se o comércio ali é tão próspero, é por causa da energia do veio da terra. E bem abaixo deste lugar fica a boca do dragão.”
Chi Xiaoduo e Xiang Cheng olharam juntos para o saguão; estava completamente vazio, envolto em uma atmosfera silenciosa, porém sinistra. As luzes do teto piscaram e se apagaram, fazendo com que Chi Xian Duo apertasse com força a mão de Xiang Cheng e perguntou: “Então é por causa da boca do dragão que aqui é assombrado?”
“A boca do dragão é o ponto de maior hostilidade. Depois que aquele dragão morreu, ele foi pregado aqui por centenas de anos, retendo uma fúria que não podia ser dissipada e que se concentrou neste local”, disse Xiang Cheng. “Ouvi dizer que, na época em que cavaram as fundações, encontraram caixões aqui?”
“Isso, isso!” Chi Xiaoduo abraçou a bolsa esportiva de Xiang Cheng contra o peito, e disse, com os cabelos em pé: “Os moradores antigos de Guangzhou — especialmente os que vivem neste bairro — costumam falar sobre isso. Dizem que oito caixões foram desenterrados bem embaixo do saguão.”
“Eles serviam para ser pendurados nos dentes do dragão e conter sua fúria”, explicou Xiang Cheng. “Os cadáveres em seu interior serviam de alimento para o dragão maligno. Mais tarde, os operários da construção os destruíram; sem ter mais o que comer, o dragão maligno naturalmente começou a causar problemas.”
Chi Xiaoduo estava extremamente nervoso, mas, com Xiang Cheng ao seu lado, a situação não parecia tão aterrorizante. Ele perguntou: “Então… ouvi dizer que oito pessoas morrem aqui todos os anos… isso é verdade?”
Xiang Cheng balançou a cabeça negativamente. Chi Xiaoduo perguntou: “Existe alguma maneira de quebrar a maldição?”
“Demolir tudo e construir um templo por cima”, disse Xiang Cheng enquanto caminhava silenciosamente com Chi Xiaoduo pelo corredor do terceiro andar. “Do contrário, só dá para vender cristais e jades, já que ambos ajudam a afastar espíritos malignos.”
Ao ouvirem passos se aproximando, Xiang Cheng e Chi Xiaoduo entraram rapidamente na saída de emergência e fecharam a porta.
O som de passos foi se aproximando cada vez mais até que, num piscar de olhos, todas as luzes do andar se apagaram. Chi Xiaoduo quase soltou um grito, mas Xiang Cheng gesticulou com a mão, pedindo para ele olhar para fora.
Através da janela transparente da porta de emergência, os dois viram um segurança com uma lanterna na mão, apagando as luzes daquele andar.
Com as luzes apagadas, o ambiente mergulhou na escuridão, e Chi Xiaoduo começou a sentir um certo medo. Xiang Cheng ligou a lanterna do celular, e os dois subiram para o quarto andar pela escada rolante parada.
Chi Xiaoduo apontou nervosamente para o canto superior direito.
No canto sudeste do quinto andar, havia uma luz fraca saindo de uma loja, acompanhada por um som muito sutil. Os dois subiram em passos rápidos, e Chi Xiaoduo olhou para dentro através da porta de ferro.
Era uma loja de cristais. O balcão interno tinha a forma do ideograma porta (门), com a abertura voltada para a entrada do estabelecimento. Havia balcões compridos de ambos os lados.
Os cristais estavam expostos nos balcões de vidro, enquanto atrás deles havia vários amuletos de proteção vermelhos pendurados; sobre os balcões, ficavam estátuas bastante estranhas. Havia uma placa do lado de fora e, com a pouca iluminação, dava para ler: Loja Especializada em Cristais e Jades Honghao.
Uma televisão pequena estava pendurada no interior da loja, exibindo um antigo filme cantonês em preto e branco, em volume baixo. O local estava completamente vazio; a luz oscilante da tela projetava um brilho sobre os rostos dos dois homens, criando uma atmosfera verdadeiramente sinistra.
Xiang Cheng deu um passo para trás, e Chi Xiaoduo acompanhou o seu olhar, erguendo os olhos em direção ao batente na parte superior da porta. Não havia nada ali. Xiang Cheng deu mais alguns passos para o lado e, sem que ele precisasse dizer uma única palavra, Chi Xiaoduo entendeu o que estava acontecendo.
Quase todas as lojas da galeria tinham espelhos Baguá encardidos pendurados na porta; apenas esta não tinha.
Xiang Cheng tirou o Cajado Subjugador de Yao e a Corda de Amarração de Yao da bolsa de Chi Xiaoduo, parou ao lado da porta e se escondeu do lado de fora.
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng fez um sinal para que ele batesse e garantiu que estava ali. Chi Xiaoduo assentiu, ajustou a alça da mochila esportiva e bateu na porta.
“Tem alguém aí?” Chi Xiaoduo perguntou.
Ninguém respondeu lá de dentro. Chi Xiaoduo sacudiu levemente o portão de segurança, mas Xiang Cheng fez um gesto de “shhh”, indicando que não deviam fazer muito barulho para não chamar a atenção do segurança no saguão.
“Tem alguém aí?” Chi Xiaoduo chamou de novo. “Chefe? Vim comprar uma coisa!”
Xiang Cheng colocou a mão na testa. Chi Xiaoduo sentiu que sua pergunta tinha sido um pouco boba e, no momento em que ia dar um passo para trás, uma mão surgiu de trás do balcão mais próximo. Logo em seguida, uma cabeça despontou e uma pessoa se levantou, encarando-o fixamente.
Chi Xiaoduo levou um enorme susto; precisou de muito esforço para não gritar, e uma sensação de formigamento percorreu seu couro cabeludo.
Era um jovem com a boca projetada para a frente, um queixo simiesco e olhos avermelhados por ter ficado acordado até tarde.
“Estou aqui para… comprar uma coisa.” Chi Xiaoduo não sabia bem o que dizer, então improvisou uma desculpa às pressas.
O jovem apertou um botão, a porta de enrolar metálica subiu e Chi Xiaoduo entrou abaixado.
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Do lado de fora, Xiang Cheng deu a volta, abaixou-se e entrou pela tubulação de ventilação do corredor. Ele removeu a grade de ferro que dava para a parte externa do prédio e a colocou delicadamente de lado.
O céu estava coberto por nuvens escuras e sem lua; ele estava a uma altura de cerca de seis andares. Xiang Cheng olhou para baixo e viu Si Gui voando em sua direção. Ele pegou a Corda de Amarrar Yao e colocou uma das pontas no bico do pássaro. Si Gui segurou o cordão vermelho, dando uma volta pelo lado de fora. Xiang Cheng rastejou para fora do duto de ventilação e pisou com cautela no cano de escoamento externo, ela era frágil e não oferecia muita sustentação.
Ele caminhou pela calha e avançou lentamente até os fundos da loja de cristais. Ao avistar uma pequena janela, seus dedos se contraíram; enfiou o braço inteiro pela fresta, tateou até encontrar o cabo de força da televisão e o arrancou da tomada.
Em seguida, escalou de volta para dentro do corredor de emergência, retornando para a porta coberto de poeira.
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Do lado de dentro, Chi Xiaoduo fingia examinar os cristais no balcão, todos com preços a partir de 10 mil yuans.
“Para que servem estes cristais?” Chi Xiaoduo perguntou.
O atendente levantou a cabeça, olhou para Chi Xiaoduo e tornou a abaixá-la, começando a dar explicações com um tom cheio de solenidade. Ele tirou um cristal negro da vitrine e o exibiu sob a luz ultravioleta azulada que banhava toda a loja, deixando a atmosfera genuinamente assustadora.
“Este aqui é para ser usado em conjunto com isto”, disse o atendente, retirando da parede atrás de si uma bolsinha de talismã. “Cristais de quartzo preto representam o entardecer e a noite, e podem afastar espíritos malignos de você. Ao frequentar lugares como hospitais ou casas noturnas, a pessoa fica muito suscetível a doenças. Se você o levar e o alimentar com o seu próprio sangue, ele vai te curar de doenças e transferi-las para o corpo de outra pessoa. Com o que você trabalha? Está procurando algo para qual finalidade?”
A gentileza da atendente ajudou a aliviar um pouco a tensão. Chi Xiaoduo perguntou: “Vocês têm algo que possa fazer alguém se apaixonar por mim?”
“Temos sim”, respondeu o atendente. “Esse quartzo rosa aqui. Você está tentando roubar alguém de outra pessoa ou apenas começar um relacionamento? A pessoa por quem você está interessado já tem um(a) parceiro(a)?”
Chi Xiaoduo pensou consigo mesmo: esse yaoguai leva os negócios a sério até demais, precisa mesmo fazer esse tipo de pergunta? E respondeu: “Acho que… não.”
O atendente estava obviamente acostumado a lidar com clientes indecisos em suas respostas, e respondeu: “Esta é a Raposa de Nove Caudas de quartzo rosa hibisco, também chamada de ‘Olhos de Raposa’. Se você não tem certeza se a pessoa amada tem um(a) parceiro(a), leve este. Coloque um fio de cabelo seu e outro da pessoa dentro da bolsinha de brocado, junte com o cristal e carregue sempre com você quando saírem juntos. Só tome muito cuidado para a pessoa nunca ver.”
“Já esta é a Fada da Flor de Pêssego”, continuou o atendente. “Ela acompanha o quartzo rosa estrela e é usada para encontros, ajudando a encontrar o par ideal. É adequada para quem ainda não tem alguém em mente, pois atrai a sorte no amor rapidamente. Este é um cristal do tipo gelo, que combina com o deus serpente, mas a outra pessoa não pode ter um parceiro.”
Chi Xiaoduo pensava apreensivo: por que o Xiang Cheng ainda não entrou? E perguntou casualmente: “Tem algum efeito colateral?”
“Como assim?” O atendente pensou por um momento e piscou os olhos com cansaço, dizendo: “Não tem efeitos colaterais. Você só precisa nos fornecer os dados de nascimento (Oito Caracteres²) seu nome, além dos dados da pessoa de quem você gosta — se houver uma. Fora isso, não há nenhum efeito colateral.”
“Melhor deixar para lá”, disse Chi Xiaoduo. “Não trouxe dinheiro suficiente.”
Foi exatamente nesse momento que Xiang Cheng entrou na loja. A expressão do atendente mudou na hora; ele estendeu a mão e deu um tapa violento para baixo. Chi Xiaoduo estava preparado; assim que a mão desceu, ele recuou a tempo. Num instante, viu a mão do atendente se transformar numa pata peluda que se chocou contra o balcão de vidro, estilhaçando-o em pedaços com um estrondo alto.
“Diga ao seu chefe para sair”, disse Xiang Cheng. “Precisamos conversar.”
O rosto do atendente transformou-se instantaneamente no de um macaco, que rosnou para Xiang Cheng. Chi Xiaoduo escondeu-se atrás de Xiang Cheng; este fez um movimento rápido com a mão, e o Cajado Subjugador de Yao se estendeu!
A reviravolta foi num piscar de olhos. O atendente tentou fugir para os fundos da loja, mas Xiang Cheng foi ainda mais rápido: pisou no balcão e o despedaçou num pontapé. Usando mãos e pés, o atendente subiu no balcão e saltou em direção à televisão posicionada no alto. Sob o olhar de Chi Xiaoduo, ele mergulhou para dentro da televisão! O programa na tela terminou num piscar de olhos — um clarão de luz branca brilhou — e, em seguida, tudo ficou escuro.
Xiang Cheng veio bem em seu encalço e, sem nem ao menos virar a cabeça para olhar, arremessou o Cajado Subjugador de Yao, cravando-o na TV. A tela afundou, emitindo um zumbido contínuo. O cajado começou a tremer sem parar enquanto uma luz dourada irrompia ao seu redor.
Uma corrente elétrica percorreu rapidamente o cabo do aparelho, atravessou a parede e disparou para o pequeno cômodo nos fundos da loja, escapando pela ponta da fiação que Xiang Cheng havia desconectado da tomada.
Num piscar de olhos, Xiang Cheng recolheu o braço, e um silvo estridente ecoou de dentro do cabo. A Corda de Amarração Yao, armada em emboscada no interior do cômodo, transformou-se em uma rede inescapável que caiu camada sobre camada, aprisionando a névoa negra e revelando um monstro em decomposição. Xiang Cheng puxou Chi Xiaoduo e avançou a passos largos em sua perseguição.
“Diga ao seu chefe para sair”, disse Xiang Cheng ao yao macaco, enquanto puxava duas cadeiras para que ele e Chi Xiaoduo se sentassem, acendendo um cigarro sem a menor pressa.
O rosto inteiro do yao macaco estava em decomposição, e ele tinha duas orelhas assustadoramente grandes, semelhantes às de uma borboleta. Ele rugiu furiosamente para eles, exibindo toda a gengiva, o que realmente assustou Chi Xiaoduo.
Xiang Cheng pegou um maço de talismãs amarelos na bolsa de Chi Xiaoduo e separou três com a ponta dos dedos.
“Eu falo!” O yao macaco cobriu a cabeça bruscamente com os dois braços. Em seguida, revelou um olho vermelho-sangue entre os braços e disse, com uma expressão feroz: “Prometa que vai me soltar depois que eu falar!”
“Você já está morto”, respondeu Xiang Cheng. “Você não é como um yao comum, não posso deixar você ir.”
“Eu não… eu não estou morto…”disse o yao macaco com voz angustiada.
“Tá bom, eu te solto. Onde tá o seu chefe?” Xiang Cheng pegou o celular e disse: “Me dê o número dele.”
“Eu não sei!” O yao macaco respondeu. “Eu nunca vi a forma humana dele! Ele não tem forma humana!”
Xiang Cheng perguntou: “Onde ele mora?”
O yao macaco disse: “Não sei! Não faço a menor ideia!”
Xiang Cheng trocou um olhar com Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo sentia como se seu mundo tivesse virado de cabeça para baixo; ele estava tão atordoado que não conseguia nem falar. Parecia ter sido transportado para um filme sobrenatural com efeitos especiais absurdamente realistas — a sensação era muito mais intensa do que o choque que sentira ao ver o guiche no vídeo anteriormente. Diante daquela experiência real, uma onda de náusea e tontura acabou tomando conta dele.
“Quando ele vem à loja?” Xiang Cheng perguntou.
Chi Xiaoduo tremia de ansiedade, sentindo tanto um medo terrível quanto uma profunda pena do yao macaco. O rosto da criatura já tinha se decomposto a ponto de expor o osso, e ele não fazia a menor ideia de como aquilo havia acontecido.
“Dói?” Chi Xiaoduo perguntou.
O yao macaco ofegava incessantemente, com os olhos movendo-se rapidamente de um lado para o outro.
Chi Xiaoduo tirou uma garrafa de água mineral da bolsa e disse: “O seu rosto está infeccionado.”
Xiang Cheng fez um sinal para que ele o limpasse. Então, Chi Xiaoduo despejou a água mineral com cuidado no rosto do yao macaco. O yao macaco inclinou a cabeça para trás e bebeu a água sem parar — estava claramente com sede.
“Quando você conheceu o Chefe pela primeira vez?” perguntou Xiang Cheng.
A garganta do yao macaco se moveu vigorosamente; ele bebeu por dez segundos ou mais antes de finalmente recuperar o fôlego.
“Lá embaixo”, respondeu o yao macaco, hesitante. “De noite. Estava tudo escuro.”
Chi Xiaoduo ficou confuso e virou-se para olhar para Xiang Cheng. Xiang Cheng perguntou: “O chefe tem o mesmo cheiro que ele? Observe com atenção e confirme claramente.”
Xiang Cheng colocou uma das mãos no ombro de Chi Xiaoduo. Naquele instante, Chi Xiaoduo sentiu algo emanar do próprio corpo, pois o yao macaco começou a farejar o ar sem parar, como se estivesse sentindo o seu cheiro.
O yao macaco assentiu com a cabeça.
Xiang Cheng perguntou: “O seu chefe tem nome?”
O yao macaco balançou a cabeça negativamente e apontou para o chão.
Chi Xiaoduo achou a situação do yao macaco verdadeiramente deplorável; o yao macaco estava com a pele em carne viva e machucada por inteiro, e perguntou: “Podemos tratar os ferimentos dele?”
Xiang Cheng estreitou os olhos, balançou a cabeça, recolheu a Corda de Amarração Yao e se levantou: “Vamos embora.”
Chi Xiaoduo foi saindo e olhou para trás. O yao macaco continuava ali, sozinho, sentado nos fundos da loja de cristais, enxugando as lágrimas com tristeza.
“O que está acontecendo afinal?” Chi Xiaoduo perguntou.
“Não é um yao comum”, disse Xiang Cheng. “Ele foi corrompido por qi demoníaco; não há cura.”
“E quanto aos ferimentos externos? Não podemos levá-lo a um hospital veterinário para limpá-lo?” Chi Xiaoduo perguntou. “Talvez tratar as feridas externas ajudasse um pouco.”
Xiang Cheng disse: “Vou perguntar à Organização amanhã.”
“O que ele quis dizer com ‘lá embaixo’?” Chi Xiaoduo perguntou novamente. “Será que é na garagem subterrânea?”
“Talvez seja ainda mais fundo.” Xiang Cheng parou de andar.
Sob um céu arredondado e uma terra retangular, todo o Liwan Plaza parecia girar continuamente na noite silenciosa. O subsolo do saguão assemelhava-se a um abismo escuro sob o chão.
Xiang Cheng e Chi Xiaoduo passaram furtivamente pelo segurança que cochilava na entrada; Os anéis de fumaça do cigarro de Xiang Cheng voaram em direção às câmeras, enquanto Chi Xiaoduo, agindo com cautela, estendeu a mão pela janela da guarita e pegou silenciosamente a lanterna que estava sobre a mesa.
“Precisamos levar uma fonte de luz conosco a partir de agora”, disse Xiang Cheng, acendendo a lanterna e liderando o caminho para o subsolo. Si Gui voou até eles; Xiang Cheng levantou o capuz de Chi Xiaoduo, e Si Gui acomodou-se lá dentro.
“A-Huang, proteja o Xiaoduo”, disse Xiang Cheng para Si Gui, que estava aninhado no capuz.
Si Gui esticou a cabeça de pássaro para fora e olhou ao redor.
“Vocês não preparam nenhuma fonte de luz antes de sair para missões noturnas?” Chi Xiaoduo perguntou, curioso.
“A-Huang costuma iluminar o caminho para mim”, respondeu Xiang Cheng, “mas é fácil atrair a atenção de yaoguai desse jeito, e a Pérola Luminosa acabou sendo quebrada por um yaoguai na última vez que fui a Chengdu.”
“Há quantos anos você trabalha com isso?”
Os dois desceram pela escada de emergência.
“Comecei a aprender a capturar yao com meu pai quando tinha sete anos”, disse Xiang Cheng, que ia à frente. “Já faz vinte e um anos.”
“Você viaja muito a trabalho?” Chi Xiaoduo perguntou. “Eu achava que as pessoas dessa área fossem todas ricas.”
“Não gosto de resolver problemas para figurões”, respondeu Xiang Cheng, liderando o caminho. “Me sinto um peixe fora d’água lidando com gente rica. Na cabeça deles, pagar o seu dinheiro dá o direito de exigir que você resolva tudo para eles. Não gosto de tratar a caça aos yao como uma simples transação comercial, sem contar que muitos ricos são cruéis.”
Chi Xiaoduo não compreendeu totalmente as palavras de Xiang Cheng. Eles desceram até o primeiro nível subterrâneo, onde não havia mais passagens que levassem para baixo. Xiang Cheng abriu a porta; o ambiente subterrâneo estava banhado por uma luz branca e fria. Uma loja de conveniência ainda estava aberta, e um funcionário abastecia as prateleiras.
“Não tem mais caminho”, disse Chi Xiaoduo.
Xiang Cheng entrou na loja de conveniência. O atendente virou a cabeça para olhar para ele.
“Me dá um maço de Hongmei”, disse Xiang Cheng.
“Não tem”, respondeu o atendente. “Dá uma olhada no que tem na prateleira.”
“Fuma um melhorzinho”, disse Chi Xiaoduo, sabendo que Hongmei custava apenas cinco yuans o maço. “Pega um maço de Marlboro.”
O atendente veio abrir a caixa registradora. Chi Xiaoduo pagou a conta e olhou para Xiang Cheng; este lhe fez um sinal de cabeça para que ficasse tranquilo — não era um yaoguai.
“Como é que se sai daqui?” Xiang Cheng perguntou.
“É só subir”, disse o atendente. “Os elevadores ali da frente estão funcionando.”
Xiang Cheng perguntou: “Tem alguma saída pelos fundos?”
O atendente respondeu enquanto contava o troco: “Não vá por aquele caminho.”
Chi Xiaoduo olhou para o lado e viu uma porta fechada.
“Onde está o seu chefe?” Xiang Cheng perguntou.
O atendente deu de ombros e disse: “O chefe está no exterior. E ele deixou avisado: quem usar a porta dos fundos, assume as consequências por conta própria.”
“Alguém costuma passar por aquela porta?” Xiang Cheng perguntou novamente.
“Havia algumas pessoas antes; ouvi dizer que os clientes que levam as coisas sem pagar sempre saem pela porta dos fundos”, disse o atendente.
Xiang Cheng pegou os cigarros e caminhou até a porta dos fundos com Chi Xiaoduo. Ele a empurrou e apontou a lanterna, revelando uma escada que descia.
“Desconfio que aquele atendente saiba de alguma coisa”, disse Chi Xiaoduo.
“É uma pessoa comum”, respondeu Xiang Cheng. “Ele não sabe de nada, mas o chefe dele com certeza sabe.”
“Além de alguém como eu”, perguntou Chi Xiaoduo, “existem outros que sabem sobre o sobrenatural?”
“Tem muito mais”, disse Xiang Cheng. “Geralmente, há pessoas que entram em contato com eles, e aquelas capazes de hipnotizar fazem o possível para induzi-los ao transe. Algumas pessoas envolvidas em eventos muito profundos e com históricos extremamente complexos às vezes se lembram de algo, mas não conseguem descrever com clareza. No entanto, na maioria das vezes, elas não dizem nada a ninguém.”
Ao terminarem de descer as escadas, depararam-se com uma sala de concreto completamente vazia. Xiang Cheng apontou a lanterna para todos os cantos: não havia nada. No meio do cômodo, contudo, havia um buraco. Os dois se aproximaram da abertura e iluminaram para baixo, revelando uma profundidade impressionante.
Bem no fundo do buraco, havia uma única gota de líquido negro.
“Suba nas minhas costas”, disse Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo estava pendurado nas costas de Xiang Cheng, que desceu a escada até o fundo do buraco com rapidez e agilidade.
O buraco dava em um corredor muito longo; e eles já se encontravam no terceiro nível do subsolo do Liwan Plaza. Xiang Cheng segurou a mão de Chi Xiaoduo, e os dois avançaram em direção ao fim daquele corredor escuro e silencioso. O medo começou a tomar conta de Chi Xiaoduo, cuja mente não parava de fantasiar cenas dignas de filmes de terror como “Alien” — imaginando que, a qualquer segundo, alguma criatura grotesca saltaria sobre eles vinda do teto.
“Ouça um pouco de música e relaxe”, disse Xiang Cheng. “Será que tem alguma música no meu celular?
Chi Xiaoduo sorriu, pegou o celular de Xiang Cheng, escolheu uma música, colocou os fones de ouvido e entregou um deles a Xiang Cheng.
Dessa vez, começou a tocar “Bad Romance”, da Lady Gaga. A voz rouca³ e marcante entoando o “Gaga, ooh-la-la” parecia ecoar por todo o túnel.
“Quem está cantando é homem ou mulher?” Xiang Cheng perguntou.
Chi Xiaoduo: “Você pode considerá-la uma mulher.”
Xiang Cheng e Chi Xiaoduo seguiram pela passagem, de mãos dadas, enquanto a canção de ritmo marcante da Lady Gaga ressoava no túnel. Ambos sentiram uma leve vontade de balançar a cabeça acompanhando a batida.
“ZhuaZhua, O-La La La…”
“O que é que ela tá cantando? Não entendo nada”, disse Xiang Cheng.
“O importante é o som ser bom.”
“Não é ruim.” Xiang Cheng acompanhou a melodia, balançando a cabeça no ritmo, e disse: “É perfeito para ouvir enquanto se exorciza demônios.”
Eles saíram do túnel e chegaram a um lugar ainda mais estranho. Era uma sala aberta de formato irregular; com metade da estrutura em concreto armado na alvenaria bruta e a outra metade em paredes de terra totalmente disformes. Parecia que alguém tinha começado a construir um porão ali e, no meio da obra, largou tudo e saiu correndo, deixando para trás aquele espaço metade concreto, metade terra natural.
O lado aberto era uma encosta, reforçada em todos os lados por estacas de madeira.
Xiang Cheng tirou os fones de ouvido e disse: “Aqui foi onde os oito caixões foram colocados.”
“O quê?” Chi Xiaoduo pareceu perplexo. Xiang Cheng acenou com a mão, sinalizando para que ele ficasse no centro e abrisse os braços.
Ainda imerso na melodia e no ritmo da canção, Xiang Cheng agitou seu Cajado Subjugador de Yao, curvou o corpo e começou a correr, desenhando um círculo ao redor de Chi Xiaoduo. Em seguida, inclinou-se de lado e deu voltas arrastando a arma pelo chão. Curioso, Chi Xiaoduo olhou para baixo e viu que Xiang Cheng parecia ter desenhado algum tipo de círculo mágico no solo.
Logo em seguida, Chi Xiaoduo ficou parado no lugar. Xiang Cheng ergueu uma das mãos na direção dele e pressionou levemente para baixo.
Com um zumbido alto, os traços desenhados no chão começaram a brilhar. Chi Xiaoduo sentiu que algo havia mudado em Xiang Cheng; era como se uma besta mística tivesse emergido de seu corpo. Seus olhos permaneceram fixos, e não era Xiang Cheng, mas sim a besta mística quem encarava Chi Xiaoduo. Esse tipo de tensão começou a amedrontá-lo inevitavelmente, mas durou apenas um instante — logo em seguida, pareceu haver algum tipo de força que foi compelida a se libertar de seu corpo.
Chi Xiaoduo olhou para as próprias mãos. Seus braços emanavam uma leve névoa negra, que flutuava em direção às profundezas do corredor de terra.
“Estamos nos aproximando daquele demônio”, disse Xiang Cheng. “Me dá a bolsa. A partir de agora, fique atrás de mim.”
“Existe alguma diferença entre um demônio e um yao?” Chi Xiaoduo perguntou.
“São muito diferentes.” Xiang Cheng caminhou à frente, pegando a bolsa de Chi Xiaoduo, e explicou: “Yaos são criaturas vivas, enquanto demônios são um tipo de ressentimento.”
“Demônios não têm forma física?” Chi Xiaoduo perguntou.
Xiang Cheng disse: “A aglomeração de demônios quase sempre surge de forma natural. Ela se condensa em uma força maligna e, depois que essa força ganha forma, passa a emanar poder, escolhendo plantas e animais adequados para transformá-los em yao.”
“O verdadeiro demônio se instala como parasita na criatura mais poderosa que conseguir encontrar”, completou Xiang Cheng.
“E como é que se mata uma coisa dessas?” Chi Xiaoduo perguntou. “Demônios reencarnam depois de morrer?”
Xiang Cheng fez um gesto que significava “dissipar” e explicou: “Exorcizar significa subjugá-lo e usar seu próprio poder para dissipá-lo. Nós o dispersamos, não o afugentamos.”
“Ahhh——”, Chi Xiaoduo entendeu tudo de uma vez.
“Então, seu verdadeiro trabalho é o exorcismo”, disse Chi Xiaoduo.
“Nós encontramos o poder que transformou um yao em yao e, então, o dissipamos”, disse Xiang Cheng. “Neutralizar calamidades humanas é o trabalho de um exorcista. Capturar yaoguai é apenas o processo; o objetivo final é encontrar a origem do demônio.”
“O que dá origem aos demônios?” Chi Xiaoduo achou que estava fazendo perguntas demais, mas não importava; suas memórias seriam apagadas de qualquer forma, então era melhor satisfazer sua curiosidade enquanto podia.
“Pela dor”, disse Xiang Cheng. “A dor do céu e da terra, a dor dos seres vivos, a dor dos humanos.”
“O céu e a terra também sentem dor?” Chi Xiaoduo perguntou.
Xiang Cheng assentiu e disse: “Há muitas coisas que eu também não compreendo.”
Chi Xiaoduo pisou em alguma coisa e a conversa parou de repente. A sola do seu sapato ficou toda pegajosa; ao levantar o pé para olhar, viu uma substância parecida com piche. Xiang Cheng iluminou o chão com a lanterna, acompanhando o rastro que levava até o fim do corredor.
Os dois saíram por uma abertura e entraram em um túnel gigantesco, onde a água fluía e jorrava com força.
“Estas são as tubulações de esgoto subterrâneas da cidade de Guangzhou”, disse Chi Xiaoduo, e sua voz ecoou por toda a área.
Os vestígios semelhantes a asfalto haviam desaparecido e, após percorrerem o túnel, caminhos complexos e confusos surgiram à frente deles. Eles pararam por um momento; Xiang Cheng olhou para cima e viu marcas pretas de uma substância solidificada, semelhante a asfalto, no teto do túnel.
“Por aqui”, disse Chi Xiaoduo.
“Você sabe o caminho?” Xiang Cheng perguntou.
“Acho que está escondido no duto de descarga”, disse Chi Xiaoduo. “Olhe, há marcas no teto do túnel também. Esse yaoguai — esse demônio provavelmente não tem TDAH; ele não ficaria subindo e descendo o tempo todo. É provável que tenha apenas raspado ali por causa de seu tamanho enorme.”
“Faz sentido”, concordou Xiang Cheng. “TDAH… uma analogia bem precisa. Você sabe onde tem um espaço mais amplo por aqui?”
“Claro”, disse Chi Xiaoduo. “Minha especialidade é abastecimento de água e drenagem. Você vai exorcizar alguma coisa daqui a pouco?”
Xiang Cheng ponderou e respondeu: “Vamos ver depois que o encontrarmos.”
Chi Xiaoduo conduzia Xiang Cheng, embrenhando-se pelo labirinto do esgoto subterrâneo. O cheiro ficava cada vez mais insuportável, a ponto de Chi Xiaoduo quase desmaiar; Xiang Cheng cobriu a boca de Chi Xiaoduo com a mão esquerda e apressou o passo. Os dois pararam de repente, parando bem no ponto de convergência das galerias.
Era um espaço amplo e aberto, onde toda a rede de drenagem da cidade convergia durante as chuvas fortes; uma enorme abertura marcava a entrada onde um dos dutos principais do túnel seguia em direção ao distante Rio das Pérolas.
Lá dentro, ouvia-se o som de uma cachoeira e um estrondo ensurdecedor, acompanhados por um fedor intenso. Parecia uma máquina colossal em pleno funcionamento, emitindo uma luz verde de seu interior.
Chi Xiaoduo prendeu a respiração, abraçou Xiang Cheng e, juntos, eles olharam para baixo.
Era um monstro de três metros de altura, rastejando no fundo do fosso. Estava de frente para o duto principal de drenagem, arfando pesadamente. Momentos depois, seu corpo começou a tremer violentamente, expelindo uma torrente de lama negra e viscosa. Uma luz verde, idêntica à de um farol, acendeu em seu corpo e iluminou o fosso gigantesco.
“Vou descer para dar uma olhada”, disse Xiang Cheng, com os lábios quase roçando a orelha de Chi Xiaoduo. “É aquele ali — não chegue muito perto.”
Chi Xiaoduo sussurrou: “Se eu chegar perto, ele vai me notar?”
“É bem provável”, respondeu Xiang Cheng, virando-se para descer de forma sutil e silenciosa por uma escada vertical.
O monstro soltou um rugido ensurdecedor e, mais uma vez, cuspiu outro jato de lama semelhante a piche, espalhando a sujeira por todo o chão.
Chi Xiaoduo finalmente entendeu: aquela coisa estava tossindo!
A lama preta e fedorenta era levada pelas águas sujas e, muito provavelmente, acabaria desaguando no leito do Rio das Pérolas.
Chi Xiaoduo fez um sinal para Xiang Cheng, que gesticulou para que ele não se preocupasse. No entanto, assim que Xiang Cheng estava na metade do caminho, o monstro rolou e soltou um rugido de agonia; o som foi tão estrondoso que Chi Xiaoduo quase perdeu o equilíbrio e caiu, sendo obrigado a se agachar rapidamente contra a borda da abertura.
Xiang Cheng parou bruscamente, firmando o corpo na estrutura.
Naquele exato momento, enquanto se segurava na escada inclinada, formando um ângulo com o corpo, o celular dentro do bolso de seu agasalho começou a escorregar lentamente para fora.
Chi Xiaoduo sussurrou ansiosamente: “Seu celular!”
Entre as respirações do monstro, pareceu que um pouco de lama havia ficado presa em sua garganta, criando um breve momento de silêncio.
O iPhone 6 Plus deslizou para fora do bolso de Xiang Cheng junto com o fio do fone de ouvido. Xiang Cheng segurou a escada vertical com a mão esquerda e estendeu rapidamente a mão direita, agarrando com firmeza o cabo do fone.
O cabo do fone estava conectado ao iPhone, que ficou pendurado no ar, girando lentamente.
Chi Xiaoduo soltou um suspiro de alívio. Xiang Cheng puxou o fio para cima, pretendendo fazer o aparelho dar um impulso e voar de volta para a sua mão — até que Chi Xiaoduo quase deu um grito.
Com um estalo, o plugue do fone se soltou do aparelho.
Em uma fração de segundo, o telefone mudou para o modo viva-voz — a voz estrondosa de Lady Gaga ecoou pelo túnel:
“Rara—— ahahahah, GaGa O LaLaLaLa——”
Chi Xiaoduo: “……”
Xiang Cheng: “……”
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Notas:
1 十三行 (Shísān xíng): Um bairro e porto histórico real de Guangzhou, famoso na Dinastia Qing como o único centro autorizado de comércio internacional da China.
2 生辰八字 (shēngchén bāzì): É o mapa astrológico tradicional chinês, composto por quatro pares de caracteres que representam o ano, mês, dia e hora de nascimento de uma pessoa.
3 公鸭嗓 (gōngyā sǎng – Voz rouca/rasgada): Expressão em chinês que significa literalmente “voz de pato macho”, usada para descrever timbres vocais mais graves, rasgados ou peculiares.
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Flor: OMG Iphone!!!
Xiang Cheng um ótimo professor he he~
Como os capítulos estão muito longos, vou começar a postar a cada 15 dias!
Até mais!