Capítulo 19
- Início
- Todos Os Mangas
- Aviso de Pós-Treinamento de Qualificação Para Exorcista Registrado de Primeira Classe Nacional
- Capítulo 19 - Subjugando Demônios
“Você está ferido? Quem é você?” Chi Xiaoduo percebeu que aquele yaoguai provavelmente não comia crianças — pelo menos, no momento, não tinha forças para isso.
O yaoguai soltou um gemido — wu wu wu — e Chi Xiaoduo disse: “Vou buscar um médico para você; espere… espere por mim.”
O yaoguai fechou os olhos. Chi Xiaoduo tentou voltar pelo caminho por onde viera, mas descobriu que a maré tinha subido. Sem escolha, teve que retornar e se sentar ao lado do monstro.
“Que tal eu empurrar você de volta para o mar? Você consegue se mover?” Incapaz de ficar parado — como alguém com TDAH —, Chi Xiaoduo levantou-se novamente para empurrar o yaoguai com toda a sua força.
O yaoguai emitiu um som estranho, inclinou levemente a cabeça e piscou os olhos.
Chi Xiaoduo tentou de todas as formas possíveis, mas não conseguiu empurrar o monstro de volta para o mar. Sem escolha, acabou desistindo. Encostou-se no corpo da criatura e ficou olhando para fora. Era uma noite sem estrelas, e a brisa do mar soprava sobre ele. O céu noturno era um manto de escuridão absoluta, capaz de fazer os pelos do corpo se arrepiarem.
“N-n-não… não vai ter outros yaoguai por aqui, né?” Chi Xiaoduo sentia um certo medo enquanto se apoiava no yaoguai ao seu lado.
O yaoguai piscou; Embora Chi Xiaoduo soubesse perfeitamente que a criatura era um yaoguai, ele não conseguia evitar o medo e se apressou em se esconder atrás dele. Quando o yaoguai fechou os olhos, a caverna mergulhou na escuridão, e o medo tomou conta de Chi Xiaoduo mais uma vez.
O yaoguai parecia perceber isso; sempre que Chi Xiaoduo sentia medo, a criatura abria os olhos. Isso proporcionava pelo menos um pouco de luz na caverna, o que deixava Chi Xiaoduo um pouco mais calmo. Sem conseguir dormir enquanto estava ali sentado, ele começou a examinar o yaoguai.
Seu corpo estava devastado pela decomposição; as escamas haviam caído, revelando a carne podre por baixo, exalando um odor fétido. Um fragmento de hélice estava cravado na crista de sua cauda, e suas mandíbulas pendiam levemente entreabertas, gotejando lentamente sangue verde.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo se curvou para espiar dentro da boca da criatura e viu que metade da sua língua tinha sido destruída por algum tipo de explosão.
Os olhos do yaoguai se moveram, olhando para baixo, e em suas pupilas refletiu-se a expressão inquieta de Chi Xiaoduo.
Que fome… e que frio…, pensou Chi Xiaoduo. Será que dá para comer esse yaoguai? Ele lembrou que sashimi podia ser comido, e se ele comesse apenas um pouco, como quando mastigava um pedacinho de pele que se soltava do dedo de vez em quando, não deveria machucar o yaoguai.
É claro que ele não se atreveu a tentar.
A maré começou a entrar, cobrindo os tornozelos de Chi Xiaoduo.
“A água tá subindo”, Chi Xiaoduo disse ao yaoguai. “Você tá com frio?”
O yaoguai ainda ofegava pesadamente, embora tivesse se acalmado um pouco — como se receasse assustar Chi Xiaoduo. Chi Xiaoduo subiu com cuidado nas costas do yaoguai para escapar da maré fria e úmida; pouco depois, descobriu uma brincadeira divertida: podia deslizar pelas costas do monstro, começando pela cabeça.
Os olhos do yaoguai se moveram, voltando-se para cima para acompanhar os movimentos de Chi Xiaoduo.
Chi Xiaoduo estava agachado em cima da cabeça do yaoguai. A água do mar já havia subido até a altura da cauda da criatura, e ele não podia mais continuar brincando no escorregador; seria muito fácil cair de cabeça na água.
Chi Xiaoduo: “……”
Chi Xiaoduo abraçou os joelhos, espiando pela fenda acima da cabeça do yaoguai. Lá fora, começou a chover e, na superfície do mar, trovões e relâmpagos se entrelaçavam, conectando o céu e o oceano.
“A água do mar vai entrar aqui?” Chi Xiaoduo perguntou ao monstro sob seu corpo. “Vai afogar nós dois?”
O yaoguai emitiu um som de engolir forçado e olhou para cima com os olhos arregalados; o nível da água estava subindo, e a maré estava prestes a submergir a gruta marinha. Chi Xiaoduo estava deitado, estirado sobre a cabeça do monstro, piscando os olhos com cansaço.
Algum tempo depois, um tremor despertou Chi Xiaoduo. O yaoguai sob ele tremia violentamente, como se estivesse reunindo forças. Chi Xiaoduo olhou para ele sem entender, e então percebeu, em pânico, que a água do mar já havia coberto todo o corpo do yaoguai; seus olhos estavam submersos, restando apenas uma pequena ilha negra no topo de sua cabeça.
Chi Xiaoduo: “O que eu faço? Ah! Você já pode ir embora nadando! Pode me tirar daqui?”
O yaoguai inspirou profundamente a água, fazendo o abdômen se expandir, e debaixo d’água soltou uma série de bolhas. Ele abriu a boca lentamente, e no ponto onde a língua fora decepada irrompeu um brilho como o das estrelas. Em seguida, aquilo se transformou em inúmeros tentáculos de luz azul, que se agitavam e se entrelaçavam, estendendo-se em direção ao topo da cabeça do yaoguai.
“Ah…”
Os tentáculos de luz azul irreal, parecendo braços, estenderam-se de forma entrelaçada e envolveram Chi Xiaoduo. Segurando-o com cuidado, a luz o carregou para fora da caverna marinha. A água da chuva ao redor do brilho azul se dispersava enquanto os tentáculos emergiam do fundo do mar, levando Chi Xiaoduo até o fim do recife de rochas e depositando-o gentilmente sobre uma grande pedra.
Chi Xiaoduo estava encharcado da cabeça aos pés; ele olhou ao redor e percebeu que havia sido salvo.
“Tem alguém aí?” Chi Xiaoduo gritou em direção à praia. Ao longe, um homem alto caminhava em sua direção.
“Tem alguém aí?!” Chi Xiaoduo gritou novamente. “Me leva para casa—!”
O homem revelou o rosto: era Xiang Cheng.
Chi Xiaoduo correu em sua direção; Xiang Cheng abriu os braços, ajoelhou-se em uma perna só e o ergueu. Por algum motivo, Chi Xiaoduo chorou naquele sonho; ele se agarrou com força ao pescoço de Xiang Cheng, recusando-se a soltá-lo, e enterrou o rosto na lateral do pescoço dele.
“Estou aqui”, disse Xiang Cheng.
Um relâmpago cortou o céu e o trovão ecoou pelo oceano, como se milhares de cavalheiros estivessem avançando na direção deles.
Em seu sonho, Chi Xiaoduo podia sentir o calor escaldante do corpo de Xiang Cheng e as batidas do seu coração através da camisa; Xiang Cheng beijou sua testa, depois desceu — até o nariz e, finalmente, seus lábios…
Chi Xiaoduo acordou em um pulo com o estrondo de um trovão do lado de fora que o assustou terrivelmente.
“AAAAHH ——”
Chi Xiaoduo saltou da cama, com o rosto completamente vermelho; a calça do pijama estava toda encharcada de um fluido viscoso — ele tinha tido um sonho molhado… Com certeza foi por causa do cansaço de ontem, somado ao estímulo que recebera durante o banho.
𓆝 𓆟 𓆞
Uma tempestade de vento e chuva castigava Guangzhou; nuvens escuras cobriam o céu como se fosse o fim do mundo, e inúmeros relâmpagos atingiam os edifícios de mais de trezentos metros. Sobre a Ponte Zhujiang, as nuvens mudavam rapidamente. Ao meio-dia, o céu estava tão escuro que não se enxergava a palma da mão. A Torre de Cantão que se erguia até tocar o céu, atraindo e absorvendo as faíscas elétricas de todas as direções, tornando-se uma visão espetacular em meio à tempestade.
A água havia se acumulado por toda a cidade, e todos os canais de drenagem estavam totalmente abertos para escoar a enxurrada; o Rio das Pérolas transbordava, e a correnteza descia violenta do curso superior, inundando a Ponte Zhujiang em meio à ventania.
Xiang Cheng correu sob a chuva atrás de uma van, levantando respingos a cada passo; ele deu um assobio em direção ao céu e Si Gui veio voando com as asas abertas, pousando em seu ombro. A porta da van se abriu; Xiang Cheng se esgueirou para dentro, fechou a porta e o mundo subitamente se fez silêncio.
O interior do veículo estava tomado por uma nuvem de fumaça. O Diretor Li, o Diretor Lu, dois jovens de cabelo estilizado e uma senhora idosa estavam todos espremidos lá dentro. Na frente, quem dirigia era o Ancião Qu. Qi Wei virou-se do banco do passageiro e disse: “Graças a você, o caso do macaco-d’água foi encerrado.”
Xiang Cheng guardou o guarda-chuva no bolso lateral de sua bolsa, e o Diretor Lu — que tragava um cigarro — ofereceu-lhe um cigarro da marca Zhonghua.
“Estes são Xiao Luo e Xiao Wen”, disse o Diretor Li. “Atrás está a Vovó Wang.”
Xiang Cheng virou-se e fez uma leve reverência para ela. O Diretor Li continuou: “Ela morava ao lado da antiga casa de Chi Xiaoduo e, por um tempo antes disso, ela e o Ancião Qu se revezavam para segui-lo discretamente.”
Xiang Cheng apressou-se em dizer: “Muito obrigado, Vovó* Wang.”
(n/t: *Po (婆) é a forma respeitosa para se referir a uma mulher idosa. Pópo (婆婆 – “Vovó / Senhora”).)
“Imagina, não há de quê”, respondeu a Vovó Wang. “Era a coisa certa a se fazer, Xiaoduo é um garoto muito bom.”
“Então vocês estiveram protegendo o Xiaoduo esse tempo todo… Há quanto tempo isso acontece?” Xiang Cheng perguntou ao Diretor Lu.
“Desde que descobrimos, até hoje”, respondeu o Ancião Qu, dirigindo a van com óculos escuros, “já se passaram três anos. No início, éramos apenas a Vovó Wang e eu; aquele demônio talvez estivesse com receio da Organização e por isso não dava as caras. Mais tarde, pensando que, já que você havia chegado, poderíamos passar a tarefa para você e, como esperado, finalmente fisgamos um peixe grande.”
Xiang Cheng sentiu um leve desconforto, mas não disse nada.
O Diretor Lu deu um tapinha no ombro de Xiang Cheng e disse: “Você se saiu muito bem, Xiao Xiang.”
“Eu ainda não entendo”, disse Xiang Cheng. “Chi Xiaoduo não se lembra de ter visto o Chiwen em lugar nenhum. E eu também não sei por que o Chiwen está de olho nele.”
“É melhor não investigar isso a fundo”, disse o Diretor Lu. “Essa criatura já nos causou problemas demais. Agora que a localizamos, só precisamos encurralá-lo e eliminá-lo o mais rápido possível.”
“A pessoa envolvida ainda está em casa?” O Ancião Qu lançou um olhar para Xiang Cheng pelo espelho retrovisor.
“Sim”, respondeu Xiang Cheng. “Kuang-xiong foi protegê-lo. A menos que o Chiwen saiba se dividir, não vai conseguir machucar Chi Xiaoduo de novo. Mas, enquanto eu não entender o que está acontecendo, não vou ficar tranquilo. Foi arriscado demais. Eu não devia ter deixado o Cajado Subjugador de Yao preso no corpo do Chiwen.”
“Você vai poder perguntar a ele muito em breve”, disse o Ancião Qu, girando o volante e saindo do beco. A Ponte Zhujiang estava bloqueada por barreiras e luzes da polícia piscavam no escuro. As águas do rio haviam transbordado sobre a pista da ponte, como se uma fera enorme e feroz estivesse agitando as ondas no meio do rio.
O Ancião Qu apresentou suas credenciais para o policial da SWAT verificar. Assim que o policial confirmou a autorização de passagem, Qi Wei segurou a alça de apoio acima da cabeça e gritou: “Já evacuaram a área?!”
“Já evacuamos!” O policial das forças especiais respondeu. “Estamos nos retirando! Fica com vocês agora!”
As barreiras foram removidas. A van deu ré, virou-se e acelerou pela Ponte Zhujiang adentro. O vento e as ondas eram violentos, o mundo mergulhou na escuridão; trovões retumbavam no céu enquanto correntes turbulentas agitavam-se sob a superfície. Uma onda gigantesca chocou-se contra a ponte, fazendo os cabos de aço vibrarem, enquanto a van acelerava até a velocidade máxima.
“Comecem”, disse o Diretor Li.
Dentro do carro em alta velocidade, naquele espaço apertado, todos se afastaram para os lados. Xiang Cheng sentou-se bem no centro do veículo, juntou as mãos e fez um gesto.
Um feixe de luz disparou do fundo escuro do rio, cortando o céu ——
O Cajado Subjugador de Yao, cravado no pescoço do Chiwen, vibrou violentamente, emitindo um brilho branco ofuscante; o feixe de luz cruzou a superfície do rio, passando por baixo da ponte e avançando em direção ao curso inferior do Rio das Pérolas.
A van derrapou e colidiu contra a mureta de proteção da ponte, levantando uma cortina de água branca no meio do temporal. As portas se escancararam e os quatro exorcistas saltaram para fora.
𓆝 𓆟 𓆞
Raios e trovões cortavam o céu sem trégua; um raio atingiu um arranha-céu em construção nas proximidades, explodindo em um clarão de luz intensa e cintilante.
Chi Xiaoduo levantou a cabeça e olhou pela janela enquanto continuava a esfregar sua roupa íntima; a parte de baixo de seu pijama estava de molho na bacia.
𓆝 𓆟 𓆞
Do lado de fora da guarita do Condomínio Chunlin, a chuva lavava as manchas de sangue no chão; Kuang Desheng estava caído com a parte superior do corpo enfiada na boca do bueiro, e a cabeça encostada no canteiro de flores da calçada enquanto sua scooter elétrica jazia tombada no pavimento.
Um par de botas policiais entrou no condomínio, com a lama sendo lavada nas poças d’água.
“Polícia”, disse a voz do homem. “Viemos investigar uma ocorrência, Bloco 2, 6º andar, Apartamento 3.”
O segurança abriu o portão e deixou o homem entrar.
𓆝 𓆟 𓆞
Chi Xiaoduo continuava lavando a roupa com uma cara de puro desespero, pensando que, felizmente, não havia dormido na mesma cama que Xiang Cheng, senão teria morrido de vergonha. Enquanto a música tocava, ele sentiu um movimento repentino e, ao desligá-la, ouviu alguém batendo na porta.
Chi Xiaoduo correu em direção ao olho mágico, completamente nu, e viu Yang Xingjie do lado de fora, encharcado.
“Xiaoduo!” Yang Xingjie disse. “Você está em casa?”
Chi Xiaoduo: “Espera aí! Vou vestir uma calça!”
Yang Xingjie: “……”
Assim que Yang Xingjie entrou, havia uma poça d’água no chão e uma pegada escura e enlameada no capacho.
“Entre”, disse Chi Xiaoduo apressadamente. “Você não trouxe um guarda-chuva? Por que veio correndo para cá?”
Yang Xingjie tirou o casaco e disse: “Acabei de encerrar um caso aqui perto. Estava chovendo muito e não consegui pegar um táxi, então acabei vindo para cá.”
Chi Xiaoduo pegou uma toalha para ele secar o cabelo. Yang Xingjie sentou-se e disse: “O Wang-xiong me pediu para ver como você estava; ele acha que algo tem acontecido com você ultimamente, onde está seu colega de quarto?”
“Ele…” Chi Xiaoduo fez uma breve pausa antes de continuar, “foi trabalhar.”
Chi Xiaoduo serviu uma xícara de chá quente para Yang Xingjie. Yang sorriu e comentou: “Seu novo apartamento fica em um bairro muito bom, por que você não me convidou para vir aqui antes?”
Enquanto Chi Xiaoduo estava ocupado buscando um secador de cabelo, Yang Xingjie desabotoou a camisa, revelando um ferimento escuro e sangrento na lateral do pescoço — tão profundo que era possível ver o osso. Quando Chi Xiaoduo voltou com o secador, Yang Xingjie abaixou o rosto bonito, escondendo a visão do ferimento em seu pescoço.
O secador de cabelo estava ligado e zumbia enquanto soprava o cabelo curto de Yang Xingjie.
“Xiaoduo”, disse Yang Xingjie. “Você se lembra de mim?”
“O quê?” Chi Xiaoduo perguntou, desligando o secador.
“Aquilo que te perguntei da última vez… você já pensou a respeito?” Yang Xingjie perguntou.
Chi Xiaoduo sorriu e ligou o secador novamente; enquanto o aparelho zumbia, suas emoções eram muito complexas, e Yang Xingjie virou-se para olhá-lo, como se aguardasse uma resposta.
𓆝 𓆟 𓆞
Sobre a Ponte Zhujiang, o trovão ressoava e os raios faiscavam enquanto Qi Wei e os outros dois jovens exorcistas permaneciam sobre tábuas de madeira, lutando contra o vento e as ondas, avançando em direção ao centro do rio.
Xiang Cheng estava de pé no topo de uma haste vertical que se projetava para fora da água. Os relâmpagos intensos iluminavam seu rosto marcado pela chuva, e suas mãos moviam-se como se canalizassem um poder invisível, acompanhando as ondas revoltas que se agitavam no centro do rio.
O Chiwen não resistiu mais; com um rugido, irrompeu para fora da água.
Uma onda gigantesca se ergueu, e uma criatura colossal e escura voou pelos ares, traçando um arco no céu.
“Retorne!” Xiang Cheng rugiu, furioso.
O Cajado Subjugador de Yao zumbiu ao se desprender do corpo do Chiwen e voou em direção ao chão como um meteoro. Xiang Cheng o agarrou e, segurando o cajado com as duas mãos, desferiu um golpe diagonal antes de lançá-lo à frente, lançando um feixe de luz prateado deslumbrante.
Ao mesmo tempo, Qi Wei rugiu: “Luz Dourada para perfurar demônios!”
Do chão, dispararam três discos giratórios de luz dourada que se transformaram em três anéis dourados que se prenderam ao corpo do Chiwen no exato momento em que ele saía da água e avançava em direção ao topo da ponte. Xiang Cheng segurava o Cajado Subjugador de Yao com ambas as mãos, com todo o seu corpo banhado por um brilho branco-prateado; Si Gui voou até lá, pousando em uma das extremidades do cajado, antes de se transformar em uma esfera de luz intensamente brilhante que rapidamente se contraiu e se concentrou na ponta, e, então, disparou um brilho intenso que começou a queimar o Chiwen!
O Chiwen rugiu e uivou; seu corpo em decomposição liberou uma onda de qi demoníaco que se dissipou em direção ao céu.
𓆝 𓆟 𓆞
Relâmpagos violentos cruzavam o céu, onda após onda, como se o firmamento estivesse prestes a desabar. Uma rajada de vento impetuosa, acompanhada de chuva, escancarou a porta da varanda.
“Desculpe, Xingjie”, disse Chi Xiaoduo, desligando o secador de cabelo. “Já tem alguém de quem eu gosto.”
Chi Xiaoduo guardou o secador e perguntou: “Você quer tomar um banho?”
Chi Xiaoduo correu em direção ao quarto e fechou a janela; o rosto de Yang Xingjie começou a apodrecer enquanto ele falava: “Você se lembra da promessa que me fez quando tinha sete anos?”
Chi Xiaoduo se virou. Yang Xingjie surgiu atrás da porta do quarto principal.
Todo o sangue no corpo de Chi Xiaoduo gelou, e ele soltou um grito alto de pavor.
Da cabeça aos pés, Yang Xingjie emanava qi negro, e o buraco sangrento em sua garganta não parava de se expandir, apodrecendo e se espalhando por todo o seu corpo.
“Você… você…” Chi Xiaoduo gritou. “Socorro, AH—!”
Yang Xingjie avançou rapidamente, mas os guardiões de pedra na mesa de cabeceira de repente assumiram a forma de bestas repelentes do mal. Pego de surpresa, Yang Xingjie foi derrubado em cheio no chão. Chi Xiaoduo instintivamente tentou correr para a porta, mas a janela atrás dele se abriu de repente com um estrondo, deixando a chuva entrar. Uma rajada de vento passou por cima de sua cabeça, seguida imediatamente por duas mãos negras que surgiram de repente e o agarraram firmemente pelo pescoço.
O quarto girou diante de seus olhos, virando de cabeça para baixo; no instante seguinte, o céu escuro surgiu à sua frente. Chi Xiaoduo não conseguia respirar; a metade superior de seu corpo tombou para fora da janela, e então ele despencou de cabeça para baixo.
Milhares de macacos-d’água estavam agachados do lado de fora do prédio e, naquele momento, avançaram como uma maré em direção a Chi Xiaoduo, soltando guinchos ensurdecedores enquanto corriam atrás dele.
Qi negro irrompeu mais uma vez do corpo de Yang Xingjie, estilhaçando os guardiões de pedra no ar com um estrondo. Ele então usou a parede para se levantar, cobrindo o olho esquerdo turvo enquanto o olho direito brilhava com uma fraca luz verde e ele sorriu de forma maligna.
𓆝 𓆟 𓆞
Na Ponte Zhujiang, Xiang Cheng deslizava pelos cabos de aço, mantendo as duas mãos firmemente presas ao Cajado Subjugador de Yao. A luz prateada já havia se transformado em uma enorme rede que envolvia o corpo do Chiwen; sua carne e sangue se desintegravam, e suas escamas se soltavam e caíam.
Liderados por Qi Wei, os três exorcistas formaram selos com as mãos. O Anel Dourado de Supressão de Yao se apertou, enquanto ondas de água negra eram lançadas pelo Chiwen. Incapaz de escapar para o fundo do rio, a criatura só conseguia se debater violentamente na superfície. O sangue e o qi agitavam-se no peito de Xiang Cheng, que empregava todo o seu esforço para manter o Chiwen imobilizado.
O Chiwen ergueu a cabeça e, com um rugido furioso, levantou uma onda do tamanho de uma montanha. Milhares de gotas d’água refletiam aquela onda torrencial, capaz de arrasar montanhas e esvaziar oceanos; mas, naquele exato instante, as pupilas de Xiang Cheng se contraíram e seu coração falhou uma batida.
“Chi Xiaoduo?!” Xiang Cheng virou a cabeça rapidamente.
“Prendam-no—”, gritou o Diretor Lu.
O brilho do Cajado Subjugador de Yao de Xiang Cheng oscilou. Era exatamente a brecha que o Chiwen aguardava e, mais uma vez, emergiu da água. Com um movimento ágil, ele se libertou do Anel Dourado de Supressão de Yao e da rede de luz prateada.
A superfície do rio desabou com uma majestade resplandecente e celestial; a água ergueu-se instantaneamente, inundando a Ponte Zhujiang. Uma van acelerou de repente, cortando as ondas enquanto disparava em direção à outra extremidade da ponte.
Xiang Cheng apontou para o céu, e Si Gui transformou-se em um feixe de luz prateada, disparando para longe.
No segundo seguinte, uma muralha de água avançou com um estrondo ensurdecedor. Sob a crista da onda, os quatro exorcistas se dispersaram para fugir, correndo a toda velocidade pela ponte em direção a um local seguro.
Com um salto e um rolamento lateral, Xiang Cheng descreveu um arco no ar e mergulhou no Rio das Pérolas, despencando de uma altura de quase dez metros. No ar, ele formou um selo com as mãos; ao atingir a água, gotículas espalharam-se em todas as direções. Assim que afundou no rio — no exato momento em que um trovão retumbou —, Xiang Cheng deixou-se levar pela correnteza, quase como se estivesse em um estado de hibernação, enquanto seu corpo inteiro brilhava com um brilho prateado.
𓆝 𓆟 𓆞
Sob o céu escuro, os pés de Chi Xiaoduo balançavam no ar enquanto um grupo de macacos-d’água saltava pelos telhados carregando-o. Trovões e relâmpagos cruzavam o céu acima, e a consciência de Chi Xiaoduo começou a se turvar. Ele viu uma fênix brilhando com uma luz prateada sobre os telhados, ao longe; ela abriu as asas, espalhando um pó de luz que preenchia o céu enquanto voava, como se deixasse um rastro como um mar de estrelas.
Os macacos-d’água guinchavam freneticamente, e Chi Xiaoduo sentiu o aperto em seu pescoço afrouxar.
“Si Gui——” gritou Chi Xiaoduo, debatendo-se desesperadamente; seus olhos se arregalaram ao olhar através de Si Gui e encontrar o olhar de Xiang Cheng.
Si Gui dispersou todos os macacos-d’água; em pânico, o último yao-macaco soltou Chi Xiaoduo e saltou em direção ao edifício do outro lado. Chi Xiaoduo despencou de onde estava de cabeça para baixo no ar. Si Gui mergulhou em sua direção, descrevendo um arco para agarrá-lo, mas justo quando estava prestes a subir, um rastro de qi negro cortou o ar, atingindo Si Gui em cheio.
Si Gui despedaçou-se em uma nuvem de poeira brilhante no ar, revelando a forma de um filhote de pássaro, e caiu na varanda de um apartamento, batendo as asas incessantemente enquanto tentava se levantar. Lá no alto, o qi negro assumiu a forma de Yang Xingjie; ele sorriu de maneira hedionda e agarrou a gola de Chi Xiaoduo enquanto se lançava para fora de um arranha-céu de mais de trinta andares.
𓆝 𓆟 𓆞
No curso inferior do Rio das Pérolas, Xiang Cheng mantinha sua postura de conjuração o tempo todo; no instante em que Si Gui foi atingido, Xiang Cheng abriu os olhos, e seu qi circulou em fluxo reverso, fazendo-o cuspir um bocado de sangue que se misturou às águas do rio.
A tempestade rugia ao seu redor, e os relâmpagos e trovões tornavam-se cada vez mais intensos. No céu escuro como breu, surgiu vagamente a silhueta do Chiwen, enquanto uma chuva negra desabava em direção à terra, acompanhada por trovões furiosos e relâmpagos que carregavam a força do julgamento divino.
────────────────────────