Capítulo 19
O presidente Shin apareceu com as mãos nas costas e soltou discretamente os votos de um feliz Ano-Novo.
— O quê?! Sogro! O senhor está me desejando um feliz Ano-Novo?!
Ele queria passar batido, mas o genro descarado insistiu até o fim.
Bastava ter ouvido, e ele sempre quer confirmar?
— Falei dos meus netos e do meu filho. Não de você.
— Ele fala sem querer dizer. O genro Gong também tenha um feliz Ano-Novo.
— Ahem.
Hehe. É bem parecido com alguém, hein. Igualzinho a certa pessoa tímida.
Gong Pyeonghwa cutucou a lateral de Saebyeok à toa.
Saebyeok o olhou de esguelha perguntando o que foi.
— Então a gente vai. Feliz Ano-Novo, e a gente volta para visitar!
Gong Pyeonghwa colocou as crianças nas cadeirinhas com todo o cuidado para não acordá-las e pôs as coisas no porta-malas.
E então se sentou e colocou o cinto.
— Por mais que eu pense, isso não é prejuízo para a sogra?
— O quê?
— Ela perde dinheiro no sebaetdon, ainda dá um monte de comida. Mandu e costela cozida, kimchi e verduras? Isso dá um trabalho enorme. Eu tenho que ser muito bom com a sogra!
Uma comoção o invadiu.
Gong Pyeonghwa, formado no “morar na casa dos sogros 101”, como não entenderia as agruras da sogra!
— Em qualquer lugar que se olhe ainda falam do inferno da sogra, essas coisas. Nesse sentido eu casei muito bem… É um universo em que só o nosso Saebyeok sai perdendo. Sério.
— Que isso. Eu também gosto da sogra e do sogro.
— Não. Eu deveria defender meus pais, mas sinceramente não… Você sai perdendo. Bom. Você casou olhando para mim, o que importa a família da esposa. Olha só para mim!
Vendo aquele rosto se fazendo de bonito ostensivamente, hum.
“Eu casei bem mesmo.”
Saebyeok pensou por dentro e riu baixinho.
Gong Pyeonghwa, vendo Saebyeok rir suavemente, perguntou:
— No que você estava pensando agora há pouco?
— Hã? Agora? Quando?
— Agora. Antes de entrar na casa. No jardim você ficou um tempão sozinho olhando a nuca da Isul e sorrindo com nostalgia, sabia? Acha que eu não vi?
Ai, ai. Eu tinha esquecido do campo de visão sem pontos cegos do meu marido.
Saebyeok riu de novo e respondeu:
— Nada. Só lembranças antigas.
— Lembranças antigas? Que tipo de lembranças? São de mim? São de mim? Fala direito. Diante de mim, maduro, experiente e amadurecido com a idade, você pensou no verde e imaturo Gong Pyeonghwa? Hein?
Como você fala essas coisas. Como não parecia brincadeira, mas sinceridade, era difícil segurar o riso. O que há de tão sério?
Saebyeok, com o rosto cheio de riso, falou depois de um bom tempo:
— Ora. Alguns anos atrás a gente se despedia chorando quando cada um ia para a sua casa, e agora vamos juntos cumprimentar todo mundo sorrindo, então achei estranho. Pensei que tudo o que a gente temia foi em vão, e também que somos muito felizes.
Oposição da família… não que não tenha existido? Bom, mas agora somos reconhecidos e recebemos um amor ainda maior, não?
— Ficou nostálgico?
— Dá para dizer que sim.
Como pegou um sinal vermelho, Saebyeok olhou para Gong Pyeonghwa e sorriu suavemente.
Os bonitos olhos castanhos se curvaram com doçura.
— Mudou muito em relação a quando éramos jovens. Né? Naquela época a gente ficava ansioso desde o instante em que pisava em solo coreano.
— Pois é. A gente mudou bastante. Mas continuo te amando.
— Eu mais.
Os lábios se colaram e se descolaram levemente.
Se ficassem mais tempo colados, o carro de trás buzinaria com certeza, então foi só um selinho.
Porque este casal bobo e dócil era formado por cidadãos cumpridores da lei e da boa convivência.
— As crianças ainda não dão sinal de acordar, né?
— Não.
— Então vamos dar uma volta de carro. Não longe, só aqui perto.
Como este ano não puderam ver o nascer do sol, ao menos um passeio leve de carro, não?
— Adoro.
Saebyeok curvou os olhos e ligou o rádio.
Ele se ligou automaticamente na voz do DJ, que dava informações de trânsito e lia mensagens dos ouvintes.
Histórias absurdas eram boas, histórias emocionantes também.
Que dessem só um assunto. Para conversar sobre isso com o marido.
— Olá. Eu sou a K, dona de casa que mora em Seul. O Ano-Novo já chegou. Os meus sogros sempre ligam no Ano-Novo. Mesmo sabendo que vamos descer no feriado, dizem que, como o ano virou, é preciso ver o rosto uma vez, e mandam mensagem só para mim, e até ligam. Por que fazem isso só comigo, tendo o marido… Enfim, e eu tenho como não ir? Mesmo sem querer, tenho que ir.
— Hihi. Eu também troco mensagens privadas com a sogra.
Gong Pyeonghwa se gabou dizendo que jogava o mesmo jogo de celular que a sogra e que trocavam corações.
— Ora essa. Trocando corações com a minha mãe em vez de comigo?
— Você não me deu quando eu pedi.
— Ah.
Era isso. Sentiu um olhar afiado ao lado.
Saebyeok, que não recuperou nem o principal, desviou discretamente o olhar. Sem graça, aumentou um pouco o volume do rádio.
— Quando digo para irmos à casa dos sogros, o meu marido ri à toa, sem noção. Realmente, “marido” deve ser abreviação de “do lado dos outros”.
— Meu marido é do meu lado, né?
— Claro. Sim.
Recuperando a duras penas os pontos perdidos antes, Saebyeok soltou um suspiro de alívio por dentro.
— O meu marido é o terceiro de quatro irmãos. Ele tem dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova, e todos são casados. Tirando a cunhada, são as minhas cunhadas mais velhas. Todas foram torradas pelo inferno da sogra. E eu também…
— Casaram porque se amavam, por que atormentar…
— Pois é.
Seguiu-se um relato do inferno da sogra que não dava para ouvir sem lágrimas.
— Chega a esse ponto? Que sujeira…
Gong Pyeonghwa e Saebyeok estalaram a língua e torceram para que fosse invenção da ouvinte.
Mas, diante da fala do DJ dizendo que todos mandavam mensagens de identificação, souberam apenas que não era só uma pessoa passando por aquela tragédia.
— Os feriados são assustadores…
Eles chamavam de humor negro, mas, para quem ouvia, era um filme de terror nada engraçado.
No fim, de comum acordo, mudaram de estação. As histórias eram parecidas, mas ainda melhores que as do primeiro canal.
— Certo, próxima mensagem. O apelido da ouvinte é “Gosaedaek”. Vamos ver. Ultimamente eu tenho muitas preocupações. Ah, por isso “Gosaedaek” — a recém-casada preocupada.
— Então eu sou “Sasaedaek”.
— Por quê?
Você já nem é recém-casado.
— A casa do Saebyeok, cheia de sarang (amor).
— Aah.
— Hihi.
Gong Pyeonghwa fez a graça de disparar corações com as mãos de todos os jeitos. Que fofo.
— Na verdade, é uma história que eu não consigo contar por aí com medo de parecer que estou me gabando, mas, usando a força do anonimato, vou contar uma gabolice que não é gabolice, uma preocupação que não é preocupação. Eu ando muito feliz. Namorei desde o ensino médio o meu namorado, e depois de 10 anos de namoro nos casamos, e recentemente engravidei. Nossa! Parabéns!
Namorado desde o ensino médio? Gong Pyeonghwa e Saebyeok se olharam de esguelha e riram.
E ainda com um filho a caminho, não parecia história de estranhos. Os dois sentiram uma intimidade interna com a Gosaedaek.
— Tanto o meu marido quanto eu nos formamos em faculdades bem reconhecidas, trabalhamos numa empresa entre as cinco maiores do país e somos reconhecidos por trabalhar bem. E, graças à boa aparência, nosso filho não poderia ser mais fofo. Os amigos ao redor invejam nosso casal; somos felizes e vivemos muito bem.
Hum. Parece meio insuportável?
— Qual é a intenção de mandar essa mensagem?
Pois é.
— Recentemente meu marido foi promovido, e a minha empresa também vive me ligando. Perguntando se eu volto quando acabar a licença-maternidade, dizendo que sem mim a empresa não anda. Nossa, que talentosa.
Hum-hum. Que bom.
— Estamos indo de vento em popa. Mas, justamente porque só coisas boas acontecem, um canto do peito fica pesado e começo a ter todo tipo de preocupação.
— Está indo bem, por quê? Não é bom?
Gong Pyeonghwa inclinou a cabeça. Ele também estava com o faturamento do hotel subindo, e a relação com Saebyeok estava muito, muito, muito boa.
As crianças eram saudáveis e lindas.
Tudo estava indo bem dentro e fora de casa; que motivo haveria para se preocupar?
— Me perguntam do que eu me preocupo tanto, dizem que isso pega mal, que é barriga cheia, essas coisas. Mas, como fui criada desde pequena aprendendo a desconfiar, é difícil aproveitar a felicidade só com felicidade.
— Vive de forma cansativa.
— Não, também é meio esquisito a gente julgar o estilo de vida da pessoa.
— Mas aquela pessoa acabou de se gabar de tudo e o ponto é “estou preocupada porque estou indo bem demais”. Na nossa comunidade tem bastante gente assim. Lembrei disso e achei meio ridículo.
Hum-hum. Saebyeok também lembrou de alguns rostos.
Se você analisar, não é um feito conquistado puramente por mérito próprio, mas com um belo efeito halo, e ainda assim falam como se tivessem conquistado tudo sozinhos e exibem nas redes sociais…
— Aquele cara é meio. Isso mesmo.
Pensando assim, é bem insuportável mesmo.
— O lema da minha família é “hosadama” (grandes bens trazem grandes males). Na prática, o que aconteceu foi: a minha família já foi pobre por um tempo. Meu pai, voltando bêbado para casa, comprou um bilhete de loteria por tédio, e ele foi premiado, e por sorte compramos uma casa. Mas aquela região foi requalificada, chegou metrô e o preço do imóvel disparou. A partir daí a nossa vida melhorou. E, pouco depois disso, meu pai teve um AVC. Claro, hoje ele está tratado e saudável, mas na época nos assustamos muito.
— Isso é só um problema de saúde individual, n…
— Vamos ouvir mais.
— Meu pai fez uma reabilitação difícil e, voltando para casa comigo depois de um passeio, havia uma loja de loteria, e eu comprei um bilhete também. E aquele bilhete foi premiado! Não foi o primeiro prêmio, e sim o segundo, mas eu pensei que assim garantiria a mensalidade da faculdade. E naquela noite houve um incêndio na nossa casa… Ai, ai… Aconteceram muitas coisas assim. Cada vez que uma bênção entrava, vinha uma desgraça do mesmo tamanho. Não é à toa que o lema da nossa família é “hosadama”.
As coisas são assim. Uma coincidência qualquer, quando se sobrepõe e se repete, faz o ser humano pensar “será que…?”.
Se isso não acontecera uma ou duas vezes, mas ao longo de toda a vida, era compreensível ficar insegura.
Assim como há reação a cada ação, e output para cada input.
Se, quando tudo vai bem, sempre aparece um infortúnio, e isso se repete a vida inteira e vira aprendizado, é compreensível mandar uma mensagem que se gaba de tudo e no fim diz que se preocupa por estar bem demais.
Não era incompreensível. Saebyeok também tinha um pouco desse sentimento.
Quando as coisas vão bem, é preciso desconfiar e ficar alerta. Checar mais uma vez, voltar ao início, verificar e revisar de novo.
Claro, apenas no trabalho.
O Saebyeok de antes se preocupava muito e, mesmo no dia a dia, ficava ansioso quando tudo ia bem demais ou quando o resultado era melhor do que o esforço investido.
Mas, depois de conhecer Gong Pyeonghwa, ele parou de pensar assim.
As coisas irem bem era simplesmente natural.
Mesmo achando que não se esforçara muito, bastava Gong Pyeonghwa dizer “não é nada disso? Você se esforçou pra caramba? É um resultado óbvio?” para aquilo parecer a verdade.
Era sempre assim.
Mas, pensando bem agora, era só porque Saebyeok não prestava atenção: não é que não houvesse coisas ruins.
Coisas ruins correspondentes às boas… com bastante frequência. Um bocado. …havia sim.
Quase perdeu o namorado enquanto moravam juntos; quando iam assinar os papéis do casamento, o namorado naufragou; quando Isul apareceu, o marido quase morreu de fome…
Hã?
“São coisas ruins para mim, mas os perigos todos caíram sobre o Pyeonghwa…?”
Recapitulando, era sempre assim.
Isso é o que chamam tecnicamente de “para-raios de azar”?
Se não soubesse, não pensaria nisso; mas, uma vez percebido, ficou incomodado.
— Certo, chegamos ao posto de serviço, então vamos descansar um pouco. As crianças já acordaram.
— Papai, banheiro.
Gong Pyeonghwa riu, ergueu Isul no colo e foi para o banheiro.
Mas um carro maluco apareceu do estacionamento numa velocidade mal-educada.
— Pyeonghwa!
— Uau, caramba.
Gong Pyeonghwa, quase atropelado, tapou os ouvidos de Isul e gritou que dirigissem direito.