Capítulo 27
Com um pequeno exagero, em todos os momentos de Gong Pyeonghwa havia Saebyeok.
Na época em que se davam mal, no fundamental e no ginásio, no ensino médio, na faculdade, na coabitação, no trabalho, em todas as estações, em todos os momentos, ele existia.
“A gente era feliz…”
Gong Pyeonghwa derramava lágrimas. Manchas patéticas de lágrimas ficaram no travesseiro.
O travesseiro que escolhera com Saebyeok ficou manchado de lágrimas. Agora até as próprias lágrimas o entristeciam. O travesseiro molhado parecia o futuro do casal.
“Nós não vamos mais poder sorrir com um único bolinho de peixe, nem rir descascando uma laranja…”
Gong Pyeonghwa, que cavava sozinho seu buraco, de repente se levantou num salto. E então correu para a cozinha e tirou o sangue da costela. Fez o molho e cortou os legumes.
— Quase esqueci.
Hoje eu ia fazer uma costela cozida para o nosso Saebyeok!
Gong Pyeonghwa se moveu com afinco. Fez sopa e temperou alguns tipos de verduras de que Saebyeok gostava. Como ele deve estar cansado na reta final do projeto, amanhã eu preciso ferver bem um caldo de ossos.
Vou alimentá-lo só com coisas boas. Só coisas gostosas.
— Cheeegamos!
— Bem-vinda, nossa princesa!
Nam Uri voltou com Isul e Roun, e eles gritaram “viva”. Quando ergueu no colo Isul, que veio correndo, e a fez de aviãozinho, ela riu às gargalhadas. O jeito de rir era adorável, igualzinho ao de Saebyeok…
Gong Pyeonghwa sentiu o peito latejar de culpa. Eu, ao Saebyeok…!
— O Roun comeu toda a papinha, mas a Isul disse que ia comer em casa com o papai e não comeu.
Depois de receber o relatório, Gong Pyeonghwa se desculpou por tê-lo chamado de repente hoje. Nam Uri disse que tudo isso estava incluído no salário e que, ao contrário, ele o chamasse à vontade.
Nam Uri, cuja consciência pesava diante do bom ambiente de trabalho e do salário generoso, saiu com passos leves.
Gong Pyeonghwa invejava Nam Uri, que parecia não ter preocupação alguma.
Eu estou cheio de aflições. Eu… talvez… só tenha um sentimento erótico pelo Saebyeok… Snif. O que vai ser do nosso casal, da nossa família?
Gong Pyeonghwa, com o coração deprimido, arrumou de forma apetitosa a sopa clara de nabo, o tot temperado, o kimchi fresco, o broto de feijão temperado e a anchova refogada, tudo feito conforme o paladar de Saebyeok.
Quando pôs sobre a mesa até a obra-prima final, a costela cozida (versão simplificada da receita especial da sogra), Isul bateu palmas.
Num timing impecável, Saebyeok entrou com o rosto cansado, sem energia. E com documentos que, de algum modo, davam um pressentimento ruim.
Será que nosso Saebyeok, que só conhece casa e trabalho, tão patriarcal e conservador, não me diga, não me diga… não são papéis de divórcio…?
— V-você chegou?
Gong Pyeonghwa, ao contrário do habitual, ficou medindo a reação de Saebyeok e se agitando.
Saebyeok esteve atarefado desde a manhã e, a partir da tarde, trabalhou ainda mais sem parar. O motivo era um só: sair, sair do trabalho.
E também havia algumas coisas a preparar antes de conversar com Gong Pyeonghwa.
— Cheguei. Que cheiro bom.
— Comida! Comida!
Isul, faminta de tanto correr o dia inteiro, sem perceber o clima estranho entre os pais, fez birra dizendo que queriam comer logo.
Gong Pyeonghwa e Shin Saebyeok se sentaram com o rosto perturbado.
— Costela cozida.
— Sim. Prova. Não vai ficar igual, mas deve ficar parecido. Amanhã eu faço ensopado de tofu.
— Moinho?
— Sim. Eu mesmo vou moer e fazer com tofu artesanal.
Não seria melhor simplesmente comprar tofu artesanal? Saebyeok queria dar uma opinião sensata e racional, mas hoje as palavras não saíam com facilidade. Porque havia outra coisa que ele queria dizer.
Gong Pyeonghwa parecia saber disso e ficava espiando, medindo a situação.
Era claramente um jantar como sempre, mas com um constrangimento inédito.
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Depois de colocarem Isul e Roun para dormir, chegou o tempo só dos dois.
Gong Pyeonghwa, que normalmente faria escândalo dizendo que esse momento era precioso demais e já grudaria o corpo, e Shin Saebyeok, que normalmente sentaria ao lado dele dizendo que estava exausto e precisava recarregar as energias, hoje estavam silenciosos demais.
Quem falou primeiro foi Saebyeok.
Saebyeok tirou os documentos do envelope e os empurrou para Gong Pyeonghwa.
Gong Pyeonghwa recebeu os papéis com as mãos trêmulas. Se for uma petição de divórcio…
“Eu mordo a língua e morro! Aí você também vai ter que ser enterrado comigo. Vamos até o fim, do berço ao enterro conjunto.”
Ao imaginar ser enterrado junto com Shin Saebyeok, Gong Pyeonghwa sentiu brotar uma coragem inédita.
Com coragem, leu os documentos.
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1. Gong Pyeonghwa e Shin Saebyeok são um casal.
2. Após o casamento, jamais desviarão os olhos para outra pessoa.
3. Excetuando questões sigilosas como eventos-surpresa, não praticarão atos vis como criar segredos ou mentir.
4. Não desconfiarão um do outro.
5. Mesmo que haja causa de divórcio imputável ao cônjuge, não exigirão o divórcio.
6. O casal poderá acumular patrimônio individual, mas a independência econômica é impossível; cada um administrará e utilizará apenas os bens do outro.
7. O casal é um só corpo e uma só alma, compartilhando não apenas todas as alegrias e tristezas, como também a vida e a morte.
8. Ainda assim, se alguém violar as cláusulas e exigir o divórcio, o requerente pagará ao outro, a título de indenização, todos os ativos em dinheiro e equivalentes, incluindo as participações herdadas, imóveis e valores mobiliários, e renunciará a qualquer ação relativa à guarda dos filhos.
Resumindo, seria algo como “quer morrer de fome ou quer se divorciar?”. Não eram papéis de divórcio, eram papéis de impossibilidade de divórcio. E ainda por cima um contrato com eficácia, autenticado por advogado! Um contrato autenticado em que Saebyeok já havia assinado tudo.
Claro, ele não achava que fosse um contrato com grande eficácia jurídica, mas…
— Assina. Se não quiser morrer.
— Se eu morrer… é isso mesmo?
Gong Pyeonghwa apontou com o dedo a cláusula 7.
— Se eu morrer, você morre junto, é isso?
— Sim. Assina logo. Antes que eu te obrigue a assinar com sangue. Você tem 3 segundos.
O coração de Gong Pyeonghwa disparou. Era a primeira vez que recebia uma ameaça tão romântica.
Não sabia que a imagem de um capitalista urbano impiedoso e implacável pudesse fazer o coração bater assim.
Gong Pyeonghwa correu para buscar a almofada de carimbo e o carimbo registrado e o apôs no contrato. Deixou também a assinatura de próprio punho, com estilo, e alternou o olhar entre Saebyeok e o contrato.
Uma satisfação subiu desde a ponta dos pés e o preencheu. Agora, juridicamente, não havia como os dois se separarem.
Gong Pyeonghwa riu, orgulhoso, tirou uma cópia do contrato, plastificou-a e a pendurou num porta-retratos.
Vendo isso, Saebyeok sorriu, sem forças.
— Agora você está tranquilo?
— Ahã…
Era mesmo um marido que dava muito trabalho. Saebyeok sentou-se ao lado dele, como sempre, e falou com voz carinhosa e serena:
— Pyeonghwa, mesmo que a marcação não tenha dado certo, não faz sentido dizer que você não me ama.
— …Né? Você também acha isso?
Como Saebyeok gentilmente concluía por ele a questão em que passara o dia inteiro remoendo, só então a angústia dentro do peito pareceu descer.
— Deve ser algo psicológico ou uma questão de feromônios, não? Pode ser estresse da criação. Neste fim de semana vamos juntos ao hospital.
Saebyeok segurou firme a mão de Gong Pyeonghwa.
— E, já que vamos sair, deixamos as crianças com alguém e damos uma volta de carro só nós dois.
— Sim. Ótimo.
— Ah, e eu resolvi a questão do secretário Kang. Ele vai se desligar amanhã. É um louco. Ele achava que eu apanhava de você… Deve ter algum tipo de delírio.
Saebyeok resumiu o que acontecera, e Gong Pyeonghwa tremeu dizendo que, se o encontrasse na rua, rasgava seus membros.
— Não, que tipo de sujeito é esse? Os Kang têm alguma vingança contra mim?
Ah, é verdade. Kang Geondo é Kang e Kang Taehui também é Kang.
— Snif. Que raiva.
Gong Pyeonghwa abraçou Saebyeok e aproveitou uma terapia de feromônios. Sentindo o aroma fresco e levemente amargo, dissipou uma a uma as mágoas acumuladas no dia.
Gong Pyeonghwa ama Shin Saebyeok, e Shin Saebyeok ama Gong Pyeonghwa. Gong Pyeonghwa e Shin Saebyeok são um casal e, em caso de divórcio, enterro conjunto.
Enterro conjunto — sabe-se lá por que isso o consolava. Na verdade, ele dissera aquilo à toa, mas agora, sinceramente, achava o enterro conjunto uma boa ideia.
— E amanhã, para o ensopado de tofu, é só comprar tofu. Você vai passar o dia inteiro fazendo tofu.
— Está bem. Mas eu quero comprar o moinho mesmo assim…
— Tudo bem…
De todo modo, protegeram a paz do dia.
Saebyeok deitou o corpo cansado. Gong Pyeonghwa enfiou o braço pela lateral e se aninhou em seu peito.
— Você vai sonhar comigo?
— Está bem. Vamos dormir.
— Beijo.
Beijinhos, beijinhos. Saebyeok deu o beijo de boa-noite e fechou os olhos sonolentos. O dia de hoje fora duro demais.
Gong Pyeonghwa, olhando Saebyeok adormecido, decidiu provar seu amor de qualquer maneira.
Ir juntos ao hospital no fim de semana seria bom, mas talvez saísse um resultado ruim. Não queria dar mais uma preocupação a Saebyeok, que já andava sobrecarregado e cansado.
“Amanhã eu vou sozinho ao hospital!”
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— Os níveis de feromônio não têm problema algum, o corpo está saudável, os índices de estresse estão baixos. Está bem saudável e ótimo. Basta manter assim.
— Então por que a marcação não acontece?
— Isso o senhor teria que perguntar a…
O médico da família ficou desconcertado. Ele chegara dizendo do nada que seu corpo parecia estranho e pedindo todos os exames possíveis; fizeram tudo, e agora o que era essa história de marcação?
A marcação não acontece?
O que é a marcação? Interação feromonal entre alfa e ômega, realizada principalmente durante o sexo…
Não me diga?
“Esse rapaz, tão jovem e já com disfunção erétil?”
Como não havia problemas de saúde, deveria ser algo psicológico, e nesse caso o certo era procurar outro profissional, não ele.
O médico hesitou entre indicar urologia ou psiquiatria e perguntou, de forma indireta:
— É por causa da relação conjugal?
— Sim…
Pelo desânimo, era alta a probabilidade de ser disfunção erétil ou ejaculação precoce.
— E acontece durante o sexo?
— Sim…
Fazem sexo e a marcação não acontece! Gong Pyeonghwa estava tão triste que bastaria um toque para desabar em choro.