Capítulo 26
Gong Pyeonghwa, não, me amar?
Se, se realmente, se de verdade Gong Pyeonghwa não o amasse…
Saebyeok fez a suposição impossível e rodou a simulação.
Um Gong Pyeonghwa sem amor, nós dois não mais como antes, filhos criados apenas por obrigação. Mas nós, que não podemos nos divorciar porque o prejuízo financeiro seria enorme. Sim, isso basta.
Não importa se não houver amor. Porque Gong Pyeonghwa ficará penhorado às próprias palavras. Que bom que fiz o pedido de enterro junto. Se não houver amor, e daí. Ainda assim você vai ser enterrado comigo.
Isso, ao menos, o consolava.
— Er, o senhor está… bem?
— Bem o quê.
Você acha que eu pareço bem? Quase saiu uma resposta ríspida… Peraí, pensando bem, isso tudo não é culpa do secretário Kang?
— Como eu estava sem cabeça, não confirmei antes, mas, secretário Kang, você grudou feromônio em mim?
— É-é que, o senhor mandou eu liberar os feromônios…
Olha só.
Saebyeok ergueu um canto da boca, torto.
— E era um feromônio capaz de gerar mal-entendido no meu marido?
O secretário Kang não respondeu. O rosto sério, de lábios cerrados, dava uma sensação estranha.
Se o gerente Dok percebeu a situação na hora, e se Gong Pyeonghwa, tão dócil, se irritou a esse ponto, devia ser um feromônio com intenção evidente, e a probabilidade de ser uma intenção sexual era altíssima.
— Secretário Kang. Vamos parar o carro um instante e entrar em algum lugar.
Saebyeok levou o secretário Kang a um café.
Depois de pedirem café e se sentarem frente a frente, Kang Taehui sorriu, todo aberto, como se nada tivesse acontecido. Aquela imagem provocava um estranho mal-estar.
— Vou perguntar diretamente. Eu gostaria que você respondesse com sinceridade. Com que intenção você grudou feromônio em mim?
Kang Taehui, que sorria, curvou as sobrancelhas e fez uma expressão triste. Pelo modo como mexia os lábios, parecia estar pensando se falava ou não.
— Eu também preciso saber o que é para organizar e entender a situação, não é? Ainda hoje, ao sair do trabalho, vou conversar com meu marido, e eu prefiro ouvir primeiro da sua boca.
Eu não gosto que saia coisa ruim da boca do meu Pyeonghwa. O erro foi seu; por que o meu Pyeonghwa é que tem de dizer coisas desagradáveis?
— Eu sei de tudo, diretor.
O que você sabe. Você conhece o meu sentimento pelo Pyeonghwa? Conhece?
— O senhor está infeliz agora, não está?
Estou. Estou infeliz. Tenho uma montanha de trabalho e estou aqui com você; como poderia ser feliz?
— Diante de mim, o senhor não precisa fingir felicidade. Eu posso compreender tudo. Porque existem circunstâncias de adultos…
— Não faço a menor ideia do que você está dizendo.
— Quem tem que saber, sabe. Que o senhor se casou à força e finge ser feliz.
Eu? Casei à força com Gong Pyeonghwa? Eu?
— Ouvi dizer que o senhor apanhava desde a época de estudante.
Desde a época de estudante ele apanhava bastante — de lábios. Ontem também apanhou um pouco de lábios, e hoje pretendia apanhar de novo.
— Somos de anos diferentes, mas eu também estudei na mesma escola e tenho um irmão mais velho. Eu sei de tudo.
Ei. De quando é essa fofoca desatualizada? Que delírio é esse com algo de séculos atrás? Saebyeok ficou pasmo.
— O senhor casou à força por causa dos olhares das pessoas e das relações de interesse. As circunstâncias dos ricos…
O que esse cara está falando?
— Eu sei que é difícil. Uma gravidez indesejada, um casamento forçado, ter que fingir felicidade… Mas diante de mim o senhor não precisa ser assim. Eu compreendo tudo e, na verdade, gostaria de abraçá-lo.
Ele tem delírio? Ou frequenta algum site esquisito? Na entrevista ele parecia normal.
— Eu quero ser o guarda-chuva do senhor nos dias de chuva.
Claro. Esse é o seu trabalho. Se chover, é para providenciar guarda-chuva.
— Quero ser um abrigo, uma sombra, um teto onde o senhor possa descansar quando estiver cansado.
Isso não é necessário. Meu paraíso é outro.
— Isso mesmo. Eu, eu gostaria que o senhor encontrasse paz nos meus braços. Eu, eu o admiro mais do que admiro, não, eu o amo! Muito antes de o senhor me conhecer, eu só tinha o senhor! Por que o senhor acha que eu me candidatei à Baeksan?
— Nossa senhora.
O dono do café, que trazia as bebidas até a mesa de Saebyeok, e as pessoas da mesa ao lado soltaram uma exclamação ao mesmo tempo.
— Oh.
Esse aí é louco de verdade. Saebyeok também soltou uma exclamação.
— Secretário Kang, me dá a chave do carro.
Saebyeok respondeu ao pedido de casamento repentino. O secretário Kang, meio sem graça, tirou a chave do carro do bolso.
— Há muita coisa a corrigir.
Saebyeok pegou a chave e olhou Kang Taehui com um olhar meio a meio de pena e repulsa.
— Eu amo e valorizo meu marido de verdade. Não há problema algum na nossa relação. Não faço a menor ideia de por que você passou a pensar dessa forma.
Quanto dinheiro e tempo eu gastei em publicidade. Ainda é insuficiente? Quanto mais eu teria que ostentar que somos um casal exemplar? Não dá para ir à empresa usando uma camiseta com o rosto de Gong Pyeonghwa em vez de terno, não é?
— E gravidez indesejada — isso também preciso corrigir. Foi uma gravidez fora do previsto, mas estava nos planos.
A cada ano-novo com Gong Pyeonghwa, os planos aumentavam.
Quando o projeto acabar, para onde vamos de férias; no ano que vem vamos casar; a lua de mel seria bom em tal lugar; no ano seguinte vamos viajar para o deserto; vamos encher o trailer de laranjas; quando voltarmos para a Coreia vai ser uma correria, então vamos criar muitas lembranças incríveis; e, quando entrarmos numa fase estável, vamos ter um filho; menina ou menino, tanto faz, vamos ter um filho parecido com nós dois; um só seria solitário, então tomara que sejam dois…
— E estou muito satisfeito porque a Isul puxou mais o meu marido do que a mim.
A parte intelectual de Isul talvez tenha puxado a ele, mas o lado excêntrico e sobretudo o rosto eram bem parecidos com os de Gong Pyeonghwa. Os gestos e o jeito de falar cheios de charme também eram como os de Gong Pyeonghwa, e quando ela abria um sorriso, apareciam covinhas travessas.
— Eu estou vivendo muito, bem e feliz. Não preciso de consolo. E, muito menos, esse consolo jamais será você.
Pois é. Eu não fiz nada de mais, e por que aquele sujeito veio se declarar do nada? E ainda por cima ao chefe? Ele acha que eu sou fácil?
Beijar o chefe e o pai do chefe (presidente da empresa) vs. se declarar ao chefe.
Vendo por esse ângulo, o secretário Kang parece melhor que o gerente Dok.
— E-eu gostei primeiro!
Que isso.
— Eu e o Pyeonghwa gostamos um do outro por mais de dez anos, é presente contínuo, e o desfecho é o enterro junto.
Que importa ter gostado primeiro? A gente já namorava desde antes. E, ainda por cima, agora sou casado, não posso receber nenhuma cantada. Não sei o que ele pensou sozinho, nem o que aconteceu dentro do delírio dele.
— Estou desconcertado. Eu alguma vez confundi você, secretário Kang?
Se tivesse havido alguma situação romântica ou algo passível de mal-entendido, tudo bem. Mas Saebyeok, por tudo o que é sagrado, jamais dera a menor brecha. Claro. Porque só trabalhava.
— Não deve ter havido.
Ainda assim, os punhos de Kang Taehui tremiam, sabe-se lá por que se sentia tão injustiçado.
— Hoje pode ir embora.
Com medo de sofrer alguma retaliação, Saebyeok se levantou. Ainda bem que tinha pegado a chave do carro antes.
Não se pode confiar o volante a um sujeito assim.
— E, se você não organizar os sentimentos até amanhã de manhã, entregue a carta de demissão. Eu vou indo.
Já tinha uma montanha de trabalho, o estado emocional de Pyeonghwa era um problema, aquele sujeito era outro problema, e o horário de retorno à empresa tinha atrasado.
Ah, droga. Na entrevista ele era claramente normal.
Não dá para saber se ele já era estranho desde o início ou se ficou estranho trabalhando na empresa.
Assim que voltou ao escritório, Saebyeok avisou o departamento de secretariado:
— Publiquem a vaga de secretário executivo. Em nível de chefe de gabinete.
☆(*^о^)乂(^-^*)☆
“Por quê, por quê, por quê. Por que só comigo não dá certo. Por quê.”
Gong Pyeonghwa, assim que chegou em casa, jogou-se de bruços na cama. No celular, pesquisou coisas como [motivo de a marcação não dar certo], [marcação], [amor], [marcação não deu certo], [parece que a marcação não deu certo], [minha marcação não funciona], [eu amo mas], [o que é o amor].
A conclusão foram apenas respostas publicitárias e gente atrás de pontos.
Quando perguntou aos manos da comunidade, só recebeu conselhos de vagabundos, do tipo “marcação é coisa que não se faz, não faça isso se quiser se divertir com outros ômegas a qualquer momento”, e conselhos que jogavam sal na ferida, do tipo “comigo funcionou, então o seu amor deve ser insuficiente, esforce-se mais”.
“Será que o meu amor é insuficiente mesmo?”
Gong Pyeonghwa enterrou o rosto no travesseiro e ficou com os olhos marejados.
O que é o amor? Amor, amor. Amor. Amor.
Por que a marcação não deu certo? Por que com Shin Saebyeok deu e com Gong Pyeonghwa não? Por ser alfa? Aquilo em que eu acreditava ser amor não era, mas apenas desejo? Será que confundiu com amor o instinto de entrar no cio com feromônios de ômega?
O que é o amor? Parece que eu ainda o amo demais, mas e se for ilusão? Ou, se não for ilusão, o que é esse sentimento?
Dizem que casais não são amantes, são companheiros de guerra. Então nós também vamos virar… um casal sem sexo?
Não pode ser. Não, por que eu me obceco tanto por sexo? Como se eu tivesse me envolvido só pelo corpo e pelos feromônios? Não dá para ser platônico? Não é… amor?
Gong Pyeonghwa gemeu o tempo todo.
Depois de muito pensar, Gong Pyeonghwa decidiu pensar de forma simples.
Gong Pyeonghwa fechou os olhos e evocou Saebyeok.
Se este sentimento de sentir o peito transbordar só de olhar para ele, de querer estar junto, de querer fazer tudo o que ele pedisse, não for amor, então o que…
— …
Gong Pyeonghwa não conseguiu conter o espanto ao ver o sexo que, nesse meio-tempo, ficara ereto.
Meu Deus! Eu perdi mesmo para o desejo carnal? O desejo é maior que o amor? Eu?
— Seu animal! Gong Pyeonghwa, seu animal!
Gong Pyeonghwa chorou copiosamente, chocado com o próprio desejo sem-vergonha. Sentiu repulsa de si mesmo.
Reviu a própria vida e relembrou os anos que passara com Saebyeok.
Em todas as lembranças bonitas de que Gong Pyeonghwa se recordava, havia Saebyeok.
Até esta cama em que estava deitado agora fora escolhida junto. O lençol, o edredom, o travesseiro, o papel de parede, o piso — não havia nada que não tivessem feito juntos.