Capítulo 01
Saebyeok tirou a marmita de frutas, que parecia ainda mais pesada do que no dia anterior.
Não me diga que a mesma coisa de ontem vai acontecer de novo.
— Antes de começarmos o expediente, tenho um aviso. Hoje nossa equipe vai almoçar junta. Sem exceções.
— É confraternização?
— Não. Vamos comer no refeitório da empresa.
Mas por que fazer isso em grupo? Todos começaram o expediente da manhã pensando nisso, embora ninguém dissesse nada.
Era estranho que o gerente Dok, que raramente impunha algo à força, tivesse resolvido bancar o teimoso, mas Saebyeok não deu muita importância e voltou os olhos para o monitor.
Nesse meio-tempo, chegou uma mensagem do gerente Dok.
[PM-Dokgo Dahui: Confie só em mim]
Confiar no quê?
Saebyeok deixou a dúvida de lado, respondeu sem pensar que confiaria e organizou os pedidos que se acumulavam. Como o funcionário Park, que fora à viagem de negócios com o gerente Dok, havia retornado, hoje as coisas estavam um pouco mais tranquilas.
Depois de uma manhã caótica, no caminho para o almoço, o refeitório da empresa estava lotado de trabalhadores famintos.
Sentaram-se todos juntos, em bando.
— Comendo assim, parece que estamos num acampamento de treinamento.
— Oh. Acho que entendo a sensação.
Brincando, todos começaram a comer. O assistente Hwang cutucava a comida com uma cara azeda.
O gerente Dok, com expressão impassível, colocou uma salsicha refogada no ketchup na bandeja do assistente Hwang.
“Será que é porque ele se sente mal por ter alfinetado ontem?”
Todos pensaram algo parecido, mas riram fingindo que não era nada.
— Olha o gerente cuidando do assistente Hwang. Que gracinha. Que gracinha.
O assistente Song puxou o clima.
O assistente Hwang forçou um sorriso e curvou-se, bajulador.
— Como veio do senhor gerente, fica ainda mais gostoso! Haha!
Bancando o cara descolado. Que raiva. Saebyeok mastigou o broto de feijão.
— Assistente Hwang.
— Sim?
— Acabamos de dar um beijo indireto.
Pfff. Os assistentes que tomavam sopa de algas engasgaram e tossiram. Saebyeok também se assustou e quase deixou cair os hashis.
Peraí, será que era isso que ele quis dizer com “confie em mim”?
— Não se preocupem. Somos de um país amigável à homossexualidade, por que essa reação? Tem algum bi-nacional aqui? Por que gente esclarecida age assim? Qual o problema de dois homens se beijarem?
Então era isso que ele quis dizer com ajudar na questão da saída do armário?
— Não me digam que tem alguém aqui que nunca beijou um homem na vida?
Falar como se fosse moda não faz virar moda, sabe.
O assistente Song riu às gargalhadas, num tom que não tinha graça nenhuma.
— Ah. Então o assistente Hwang e o gerente estão namorando desde hoje?
— Eu sou do tipo tranquilo, não fico preso a um beijinho.
Né, né. Eu também já beijei um homem. As funcionárias se gabaram de seus históricos amorosos.
Os funcionários homens, sem conseguir embarcar na moda, só riam sem jeito. O funcionário Park revirava os olhos, constrangido, mas mordia os lábios com força, achando graça.
Vendo como as coisas estavam indo, o assistente Hwang riu como se aquilo fosse absurdo e, pelo contrário, elevou a voz. Um tom ostensivo, como se quisesse que todos que estavam comendo ouvissem.
— Ah, qual é, mesmo assim é diferente de ser homossexual, não é? Bom, eu até tenho uns conhecidos assim, dá pra ser amigo, mas se eles se declararem pra mim, eu nunca mais falo com eles.
Não minta. Eles também têm olhos, ninguém se declararia para você, que é ruim por dentro e por fora.
Todos os membros da equipe tinham certeza disso, mas ninguém disse em voz alta.
— Eu respeito os homossexuais, mas eles não me respeitam, sabe? Talvez por isso eu tenha criado um pre.con.cei.to. Bom, mas eu respeito. Pelo menos eles não cometem adultério. Agora, um gay que casou com uma mulher e por trás fica beijando homem, isso já é meio… Não é, não é?
O assistente Hwang olhava descaradamente para Saebyeok enquanto ria. Era absurdo o modo como transformava um homem de dez anos de dedicação num adúltero histórico.
Achando que precisava deixar as coisas claras, Saebyeok ia abrir a boca, mas o gerente Dok foi mais rápido.
— Assistente Hwang, você nunca beijou um homem casado?
Peraí, não me diga.
— Eu já beijei um homem casado que tem três filhos, e também beijei o filho desse homem casado. E ainda fomos exibidos publicamente. Mas todos aplaudiram nosso ato. Sem rir com desprezo sombrio como certas pessoas.
Ei, por que falar desse jeito? Você vai chamar de “isso” o fato de ter sido pego no beijo do estádio de beisebol?
— E até hoje mantemos uma boa relação. Afinal, ele se tornou alguém inseparável da minha vida.
Deve ser mesmo. Porque é ele quem paga o salário de um gerente cheio de empréstimos. Porque é o presidente. Porque é o diretor executivo. Porque é a família dona da empresa.
— Recebo grande ajuda financeira dele, e também recebo ajuda do filho dele todos os dias, então eu sou o adúltero histórico do século que tem um sugar daddy e ainda estendeu as garras até o filho dele, um prostituto que abandonou os laços do céu?
Quem é que descreve receber empréstimo interno da empresa e ter documentos aprovados pelo superior desse jeito?
— Ah, então eu sou uma beleza capaz de derrubar impérios.
Olha só que cara de pau.
Diante do egoísmo descarado e persistente do gerente Dok, todos ficaram boquiabertos. Não só os membros da equipe: pessoas de outros departamentos, que em algum momento tinham começado a prestar atenção na conversa da equipe TF, também ousavam repetir “ele disse beleza capaz de derrubar impérios…”.
— Enfim, ainda assim não houve problema algum. O país não desmoronou, a sociedade não desmoronou, a família não desmoronou.
O fato de a família não ter desmoronado era um desfecho chocante. Só juntando o que o gerente Dok dissera, aquela família já deveria ter se desfeito há muito tempo.
— Er, se não for indelicadeza, posso, posso perguntar com quem… o senhor fez isso, quem é a pessoa?
— Você acha que pode?
O assistente Kim deu um bloqueio no assistente Song, cuja curiosidade tinha furado a razão.
— Pode. Porque é alguém que todos vocês conhecem.
Alguém que a gente conhece? Dava quase para ouvir o barulho de todos girando o cérebro às pressas.
— Ele está ali. O diretor executivo Gong Jeong.
Gong Jeong, que ouvia a conversa com interesse, deixou cair a colher diante dos olhares atônitos que desabaram sobre ele.
Já sem saber o que fazer de tão constrangido, Gong Jeong recolheu atabalhoadamente a colher que caíra com um estrondo e forçou um sorriso.
— Haha, o nosso gerente Dok? Hein? Está falando? De um jeito? Estranho. Não foi bem assim.
— Isso não faz com que o fato de termos nos beijado deixe de existir.
— Eu sou a vítima!
Gong Jeong se exaltou.
— Não, não, pessoal, não é isso. Quer dizer, o beijo foi…
— Aconteceu.
— Acon… sim, aconteceu. Mas não é o que vocês estão pensando. Esse cara é louco por beisebol e, para ganhar um brinde, quando pegaram a gente no kiss time, do nada…!
Parece que se beijaram mesmo… Parece que é verdade… Diante dos olhares atônitos, Gong Jeong continuou gaguejando explicações que não explicavam nada.
Terminado o horário do almoço, a presença de Saebyeok tornou-se insignificante. E era natural: o beijo do gerente da equipe de vendas com o diretor executivo e o presidente no estádio de beisebol virou assunto muito maior do que o beijo de um funcionário recém-contratado.
Saebyeok pensava “isso está certo?”, mas ao ver a cara amarrada do assistente Hwang, sentia um alívio enorme.
Vou comer minhas frutas.
Cantarolando por dentro, Saebyeok abriu a marmita de três andares.
Como devia ter refletido bastante depois de ouvir o que acontecera no dia anterior, Gong Pyeonghwa colocara uma decoração explícita, para que qualquer um soubesse que aquela marmita era de Saebyeok.
[Do Saebyeokzinho♥]
Um enfeite de chocolate com o nome de Saebyeok.
[Meu marido amado >3<]
Letras recortadas em folha de ouro comestível.
[Certificado de qualidade]
E até um certificado impresso com o nome da fazenda e do produtor que cultivaram e garantiam o teor de açúcar.
Dava para visualizar Gong Pyeonghwa preparando a marmita. Parecia que o sangue lhe subira à cabeça tardiamente, de tanta preocupação. O fato de ter anexado até a nota fiscal ao certificado de qualidade deixava a intenção bem clara.
Era como se dissesse "e agora, vai comer? Quer comer mesmo assim? Consegue comer mesmo assim?" — uma marmita que era a cara de Gong Pyeonghwa. Pacífica, fofa e adorável.
Por que esse cara é tão fofo? É fofo, mas por que dá vontade de chorar? Saebyeok, sem coragem de comer, ficou acariciando a marmita e tirando fotos por um bom tempo.
☆(*^о^)乂(^-^*)☆
Graças à saída do armário pública do gerente Dok, o assistente Hwang andava quieto ultimamente. Não se sabia o que ele pensava por dentro ou o que falava pelas costas, mas não havia mais incômodos abertos.
O projeto seguia tranquilamente.
O tempo passou como água corrente.
Nesse meio-tempo, Saebyeok teve alguns encontros incríveis com Gong Pyeonghwa e andaram vendo casas para morarem sozinhos. Os dois preferiam casas independentes, mas, pensando nas crianças, um apartamento talvez fosse melhor.
Enfim, Roun estava bem saudável, e por insistência de Gong Pyeonghwa e dos pais, decidiram morar na casa da família até o nascimento de Roun.
Assim como a vida na casa dos pais, esta vida na empresa também estava mesmo perto do fim.
— Até eu acho que fui incrível. Foi um sacrifício em nome dos subordinados. Onde é que se acha outro chefe assim?
— Não deve haver outro chefe que beije o sogro dos outros, né.
Daqui a pouco eu não vou poder ouvir isso nem se quiser.
— Gerente, sabe de uma coisa? Agora, se o senhor chamar alguém pra ver beisebol…
Como efeito colateral do sacrifício, o fenômeno de evitar o gerente Dok se agravou. Ir ver beisebol sem segundas intenções e acabar beijado… deve ser mesmo constrangedor. Já havia duas vítimas, e como ele distribuía beijos sem olhar cargo, era inevitável que o evitassem.
— Combinei de ir com o funcionário Park. E com o funcionário Kim também.
— Por quê?
Foi algo que escapou sem querer. Quer dizer, ainda assim eles podem acabar beijados.
— Eu disse que pagava frango frito e eles disseram que vinham.
— São corajosos.
— Um beijo meu não é uma recompensa do setor?
— Não é. O nosso setor não é tão mesquinho assim.
Existem tantas coisas boas materialmente. Como incentivos, bônus, dinheiro.