⌀ — Capítulo 12.2
↫─Capítulo 12.2
Sentado perto da janela de um prédio familiar, Amber esperava por Tennessee. Tennessee estava na terapia de reabilitação com apenas algumas sessões restantes.
Naquele espaço silencioso, Amber pensou nos momentos que passou com Tennessee. Ele achava que não tinham se passado nem alguns anos, mas os dias eram quase incontáveis nos dedos de ambas as mãos. As lembranças acumuladas eram iguais ou até maiores do que isso. Até os pesadelos eram memórias preciosas para ele.
Pareceu que ele não esperou muito antes de Tennessee sair da sala de reabilitação. Seu corpo inteiro estava encharcado de suor, e era possível sentir o calor apenas por estar perto dele. Amber sorriu, mas apenas brevemente quando a manga curta de Tennessee subiu, revelando a pele nua com longas cascas de feridas. Seu sorriso gradualmente secou. No entanto, antes que Tennessee pudesse notar isso, Amber lançou uma pergunta primeiro.
― Como foi?
― O mesmo de sempre.
Amber o abraçou como se o apoiasse. Tennessee era uma pessoa muito indiferente e, portanto, indiferente aos olhares alheios, e desde que Amber não chamasse atenção demais, ele aceitaria casualmente demonstrações públicas de afeto.
“Talvez ele não gostar de chamar atenção também seja devido ao seu trabalho passado”, Amber pensou. A esperança surgia de que ele pudesse permitir mais coisas quando se acostumasse mais com essa vida que não tinha mais nada a ver com seu passado. Apenas pensar que o amanhã seria melhor do que o hoje, o próximo ano melhor do que este ano, fazia o coração de Amber inflar. Ele estava indescritivelmente feliz apenas imaginando. Neste momento de brilho supremo, Amber de repente sentiu a ansiedade se esgueirando.
A ansiedade arruína tantas coisas assim. Ela lança nuvens escuras sobre coisas que poderiam ser mais bonitas e realizadoras. Mesmo sabendo que era um mau hábito, Amber não conseguia impedir seus pensamentos de se espalharem negativamente.
― No que você está pensando?
Este era um tipo de pergunta que ele nunca tinha ouvido de Tennessee antes. “Ficou estampado na minha cara?” Amber balançou a cabeça, recompondo sua expressão. Não é como se ele pudesse dizer:
“Estou pensando em um futuro sombrio.”
Dizem que as palavras têm poder. Ele sentia que no momento em que algo fosse dito em voz alta, a imaginação se tornaria expectativa, e a expectativa se tornaria realidade.
Pense em como aquela noite mudou, apesar de terem passado um dia perfeito. Amber tentou não ficar feliz demais.
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Tennessee se sentou. Seus braços estavam cheios de feridas. Cascas tinham se formado ao longo das longas marcas de unhas.
Aconteceu na alvorada. Tennessee teve outro episódio.
Agora os episódios tinham piorado, e sua intensidade tinha mudado tanto que até ele, que não tinha memória deles, podia sentir. Seu maxilar doía de quão forte ele tinha rangido os dentes, e cada músculo gritava de dor.
Tennessee se lembrou de quando tinha visitado Michigan antes. Annie e Cody estavam dando risadinhas com um iPad. Então eles tiraram uma foto dele e caíram na gargalhada. Até Amber, que tinha espiado a tela por curiosidade, caiu na risada. Ele se lembrava de que era uma câmera com algum tipo de filtro.
Quando a vida que parecia livre de qualquer preocupação até apenas alguns dias atrás de repente mergulhou em um abismo de depressão, tornou-se difícil distinguir o que era verdade e o que estava distorcido. Como filtros.
Se essa queda repentina no desespero era uma realidade inescapável, ou apenas um instante momentaneamente distorcido.
Tennessee encarou Amber aplicando remédio em suas feridas com olhos fundos. Ele achou estranho como Amber nunca mostrava suas lutas sempre que ele estava doente.
Ele pensava que, se fosse ele, poderia ter pronunciado palavras de ressentimento pelo menos uma vez. Ele poderia ter exigido saber por que os momentos felizes eram sempre despedaçados. Mas Amber não fez isso. Amber tendia a pensar que seu desespero seria um fardo para os outros.
Embora fosse difícil para ele também, Tennessee achava que poderia aguentar qualquer uma das reclamações de Amber. Mas Amber nunca mostrou isso até o fim.
Certo, pensando bem, Amber não era jovem o suficiente ou imaturo o suficiente para pedir atenção de forma infantil. Ele era maduro o suficiente para silenciosamente segurar sua mão. Teria sido mais fácil se Amber tivesse chorado? Ele não sabia.
Tennessee encarou Amber, cujos pensamentos não conseguia ler. Algo além das feridas doía mais.
― Dói? ― Amber perguntou, mas eram na verdade os lábios de Amber que estavam rasgados. Eles estavam roxos de serem constantemente mordidos, com sangue se acumulando.
― Não, não dói.
Depois de terminar de aplicar o remédio, as pontas dos dedos de Amber notavelmente se moveram em direção às cicatrizes restantes. Os braços, costas e peito de Tennessee – não havia um lugar que não estivesse coberto de cicatrizes. Amber acariciou cada velha cicatriz uma por uma, deixando beijos sobre elas.
― Isso doeu?
― Não.
Um corpo em extrema tensão contrai seus vasos sanguíneos para reduzir a perda de sangue. Graças à adrenalina correndo por todo o corpo, a pessoa também não sente dor. É por isso que Tennessee achava que seu corpo estava bem.
Um dia, quando olhou para trás, havia uma grande cicatriz. Ele devia ter passado por várias experiências de quase morte. A maioria eram coisas que ele tinha descoberto depois, sem nem saber que tinham sido esculpidas em seu corpo.
Olhando para o braço de Tennessee brilhando com o remédio, Amber segurou seu pulso. Os lábios quentes de Amber lentamente desceram e tocaram as costas de sua mão. Uma fraca corrente elétrica faiscou.
― E você?
― Estou bem.
Da última vez foi uma mentira, mas desta vez Amber disse a verdade. Pelo menos não havia partes machucadas neles mesmos, então era parcialmente verdade. Mas não era verdade por dentro.
Durante todo o episódio, Tennessee permaneceu encolhido. E com os punhos fortemente fechados, ele manteve uma barreira defensiva sólida como se estivesse em guarda e não se ergueu. Amber teve que assistir a tudo aquilo. A sensação de impotência por ser incapaz de fazer qualquer coisa era devastadora.
No início, ele acariciou suas costas. Ele pensou em acalmá-lo como antes, mas a reação de Tennessee foi ainda mais intensa do que no dia do seu primeiro episódio. Ele não respondeu às palavras de Amber. Antes, se ele continuasse falando e esperando, haveria pelo menos uma ligeira resposta, e mesmo em seu estado confuso, ele responderia algumas palavras.
― Nosso relacionamento mudou, então por que você continua sentindo dor?
― De fato.
Como Tennessee respondeu de forma ausente, a palma de Amber roçou por cada cicatriz em seu corpo.
A dor se intensificou porque ele tinha tensionado demais sua perna e braço machucados. Amber notou a testa franzida de Tennessee e trouxe analgésicos.
― Você se lembra de alguma coisa?
Sentado na cama, Amber gentilmente abaixou a testa atrás das costas de Tennessee. Ele sentiu sua temperatura, pressionando sua testa quente contra as costas dele. Apesar de não ter se movido adequadamente por vários meses, as costas de Tennessee eram firmes e largas.
Como ele desejava poder envolver seus braços ao redor dele, colocá-lo em um ninho aconchegante e deixá-lo ver apenas coisas boas, mas Tennessee não era um pássaro indefeso precisando de alguém. Amber reprimiu seus pensamentos depreciativos sobre si mesmo.
― Não. Minha cabeça está confusa.
Era parte de um pesadelo que surgia como estalactites de gelo. O que mais ele poderia dizer? Tennessee tentou recordar suas memórias. No mundo que vivenciou, as pessoas às vezes se tornavam meros pedaços de carne em vez de seres humanos.
― Quando eu era jovem e vagava sem casa, ou quando estava no Oriente Médio, vi muitas coisas. Estupro e assassinato não eram nada incomuns. Ainda assim, pensei que era diferente daquelas pessoas. Mas era uma ilusão. Houve um momento em que percebi isso… e a sensação dessa percepção permanece na minha memória.
Uma constatação desesperadora. Um dia, quando olhou para trás, ele viu as pegadas deixadas ao longo de sua história. O que ele pensava serem pegadas se revelaram manchas de sangue após uma inspeção mais detalhada. Só então seus pecados pareceram reais. O julgamento cruel de sua arrogância ao se separar inconscientemente dos outros.
Ele não conseguiu dormir por dias. Ele estava desiludido consigo mesmo e se perguntava para onde ir a partir dali. Balas estavam rasgando o ar. Bombardeios dividindo o céu como fogos de artifício… Ele também era humano.
― Tennessee.
Amber não conseguia ver bem os olhos de Tennessee enquanto o abraçava por trás.
Amber o puxou profundamente para o seu abraço. Mesmo tocando assim, havia momentos em que ele não conseguia afastar a sensação de estar separado de Tennessee.
― Vai ficar tudo bem.
― Suponho que sim.
Vai ficar tudo bem. Era uma frase comum que todo mundo usava quase diariamente.
“Tudo vai ficar bem”.
Nem Amber conseguia dizer se essas palavras eram destinadas ao sofrimento de Tennessee ou a si mesmo.
Seu coração doía. Ao mesmo tempo, sua mente, acostumada à tragédia, riu zombeteiramente e disse a Amber:
“O que eu te disse? Você acha que o mundo é tão perfeito assim? Você acha que existe essa coisa de felicidade ideal?”
“Não.”
Amber balançou a cabeça.
“Nós vamos superar isso.”
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
Apesar do conforto de Amber e dos desejos de Tennessee, os episódios na verdade pioraram. Sua intensidade e duração apenas se agravaram.
Uma noite, quando eles não conseguiram dormir de forma alguma porque os episódios eram graves demais, Amber abraçou Tennessee.
“É estranho, o mundo deveria ter sido banhado em correntes cor-de-rosa, e nós deveríamos ter acordado em um novo mundo.”
― Não chore.
― Eu não estou chorando.
Amber disse, segurando-o. Amber sabia que não era de ajuda alguma para ele. O problema de Tennessee não era algo que pudesse ser resolvido por sua intervenção. Então, pelo menos, ele não queria ser um fardo emocional para alguém que estava sofrendo tanto.
Durante cada episódio, Amber tentava ao máximo manter a compostura. Ele queria ser alguém que silenciosamente o apoiava por trás, sem mostrar pânico quando ele estava com dor.
― …É por minha causa?
Até onde Amber se lembrava, Tennessee só tinha insônia, não esses sintomas anormais. Tennessee tinha dito algo semelhante também. “Ele não tinha dito que nunca tinha vivenciado nada parecido antes?”
― Se você vai falar bobagem, vá dormir.
― Vamos ao hospital primeiro.
Sangue ainda estava escorrendo do braço de Tennessee, onde o sangramento não tinha parado. Isso parecia precisar de pontos. Embora Amber dissesse que ele deveria receber tratamento, apesar de não ser imediatamente fatal, Tennessee balançou a cabeça.
Amber pressionou seus lábios contra o braço teimoso dele. Todas as feridas que tinham mal começado a cicatrizar com o remédio tiveram suas cascas arrancadas e estavam sangrando. Com medo de machucar seu amante, Amber mal conseguiu pressionar lábios quentes contra a pele dele, evitando as feridas.
― Não há necessidade de ir.
― Por favor…
Amber mordeu o lábio antes que pudesse terminar as palavras.
Algo estava errado.
Depois de beijar Tennessee, Amber desfrutava da utopia durante o dia e passava as noites no inferno. Os dias mais perfeitos e ideais se alternavam com noites terríveis cheias de pesadelos. Nos dias em que Tennessee não tinha episódios, Amber de repente acordava na alvorada e só conseguia se sentir à vontade depois de checar se Tennessee não estava com dor. Ele se sentiria brevemente aliviado, cairia em um sono leve e repetiria o ciclo de acordar novamente.
Por que você diz que está bem? Quando estou encharcado no sangue que você derramou. Não há como você estar bem.
Observar sua pessoa amada sofrer deixou feridas indeléveis e um grande choque em Amber também.
↫─☫ Continua…
ᯓ★ Nenhuma das situações apresentadas neste capítulo referem-se/ se baseiam em fatos reais.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr