Alphega — Extra 14
CAPÍTULO 134
História Paralela 14
A chuva tinha diminuído para um chuvisco, mas a precipitação continuou implacável noite adentro. Ocasionalmente, ouvia-se o som de trovões ribombando pelo céu.
Depois que Seongju, que passara um tempo com as crianças no lugar dele, foi embora tarde da noite.
As crianças naturalmente procuraram o quarto de Kanghyeon. Dizer que estavam com medo dos trovões era só uma pequena desculpa; o motivo principal era que queriam dormir com Kanghyeon enquanto Haeil estava fora.
Kanghyeon se deitou na cama larga com as crianças. A pequena Soyoon, bem ao lado de Kanghyeon, soltou uma risada radiante e enterrou o rosto em seu peito, enquanto Haekang, ao lado dela, agia como o irmão mais velho responsável e ajeitava meticulosamente o cobertor em volta dela.
Pouco depois de as luzes se apagarem, ouviu-se a respiração regular de Soyoon. Os olhos de Kanghyeon, já acostumados ao escuro, contemplaram o rosto adormecido de Soyoon com um sorriso caloroso.
Mas, mesmo com o passar do tempo, a respiração de Haekang continuava inaudível. Não era que ele tivesse parado de respirar; era o silêncio de alguém acordado, regulando conscientemente a respiração em silêncio.
— Haekang-ah.
Quando Kanghyeon chamou seu nome baixinho, a cabeça da criança na escuridão se virou para ele.
— Não consegue dormir?
Seguiu-se um silêncio, como se Haekang ponderasse a resposta.
— Será que eu te forcei a dormir com a gente quando, na verdade, você queria dormir sozinho?
— Não. Eu gosto de dormir junto.
Ele respondeu essa imediatamente, então devia ser sincero.
A boca de Haekang se mexeu um pouco na escuridão antes de ele perguntar com uma vozinha:
— Eu também não posso dormir bem do seu lado, Pai?
A verdade era que ele invejava a naturalidade com que Soyoon reivindicara aquele lugar ao lado de Kanghyeon. Como estava determinado a agir como o irmão mais velho maduro, não conseguia se forçar a correr e mergulhar nos braços dele como a irmãzinha faria.
Kanghyeon sorriu e respondeu sem a menor hesitação.
— Claro que pode.
Ele tinha quase certeza de que o menino estava sorrindo radiante em algum lugar no escuro.
Haekang desceu da cama às pressas e contornou até o lado oposto ao de Soyoon. Kanghyeon se afastou um pouco com Soyoon para abrir espaço para Haekang se deitar confortavelmente. Haekang prontamente se aninhou naquele espaço e, depois de se remexer um pouco sob as cobertas, grudou-se com força ao lado de Kanghyeon.
Haekang, com uma expressão satisfeita e rindo baixinho, lembrava muito o outro pai, Kwon Haeil. Se Haeil soubesse desse pensamento, certamente faria uma cara séria e negaria com veemência.
Uma vez acomodado no abraço de Kanghyeon, Haekang puxou o ar profunda e audivelmente e soltou uma longa expiração. Só aquela respiração longa já bastava para mostrar o quanto ele se sentia confortável.
Kanghyeon beijou em silêncio a cabeça do filho amado e sussurrou baixinho, só alto o bastante para ele ouvir.
— …O papai sente muito.
Haekang, que estivera rindo e esfregando o rosto no peito de Kanghyeon, ergueu a cabeça ao ouvir o sussurro fraco.
— Por que o senhor sente muito, Pai?
— Por dizer que estava bem quando não estava.
Kanghyeon se lembrou do momento durante o jantar, mais cedo, em que vomitara por causa do enjoo. Ficara repetindo “Estou bem” para as crianças que esperavam ansiosas do lado de fora do banheiro.
— Eu estava passando mal, mas não disse. Só fiquei dizendo a vocês que estava bem. Me desculpe.
Ele achava que qualquer pai na mesma situação provavelmente teria feito o mesmo.
Mas também percebeu que tinha sido um hábito. Em vez de explicar a situação, tentara escapar dela apenas dizendo “Estou bem”.
— O papai… tem um hábito, desde pequeno, de dizer ‘Estou bem’ para muitas coisas. Estou tentando melhorar, mas ainda faço isso até hoje.
Kanghyeon olhou para os riscos escuros de chuva visíveis pela fresta das cortinas e falou.
— Eu achava que, se escondesse o que não estava bem dizendo ‘Estou bem’, ninguém saberia. As pessoas para quem eu dizia essas palavras eram todas tão boas que eu não queria que se preocupassem ou sofressem por mim.
Refletindo sobre o passado, Kanghyeon desenrolou as palavras com delicadeza, para que a criança pudesse entender sem dificuldade.
— Mas acontece que me ouvir dizer ‘Estou bem’ na verdade as deixava mais tristes e preocupadas. Elas se perguntavam o quão mal eu tinha que estar para continuar dizendo que estava bem.
Quando foi que o rosto de seus irmãos começou a se fechar toda vez que ele dizia aquelas palavras? E quando foi que Kwon Haeil começou a observar suas expressões tão de perto sempre que ele as dizia?
— Quando você diz ‘Estou bem’, soa como ‘Não estou bem’.
— Quando Baek Kanghyeon-ssi diz ‘Estou bem’, com certeza significa que ele está passando por um momento difícil, então eu deveria deixá-lo descansar primeiro e pensar nisso depois.
Lembrar das palavras dos irmãos e de Kwon Haeil o fez sentir remorso aos poucos. Sentia-se ao mesmo tempo grato a eles por ouvirem aquela frase repetidas vezes, e arrependido por isso.
— Por isso estou tentando só dizer ‘Estou bem’ quando realmente for verdade. Pode levar muito tempo, mas não quero preocupar os outros, então estou me esforçando de verdade para corrigir esse hábito.
Sentindo o olhar de Haekang sobre si, ele lhe deu um sorriso gentil.
— Espero que você também consiga fazer o mesmo, Haekang-ah.
Estava escuro demais para saber se o menino realmente entendia o peso de suas palavras, mas ele esperava que pelo menos um pouco chegasse até ele. Não queria que a frase ‘Estou bem’ se tornasse um hábito para ele, como tinha se tornado para si mesmo.
Os lábios de Haekang se contraíram como se ele quisesse dizer algo. Abriu a boca, fechou de novo como se reconsiderasse, e então abriu mais uma vez, só para soltar um pequeno som frustrado sem formar nenhuma palavra.
Por fim, depois de mais hesitação, Haekang perguntou:
— Pai…. O senhor se preocupa muito comigo?
Kanghyeon respondeu com clareza, vendo como o menino o observava para ver sua reação.
— Sim. Tantas vezes quantas você disse que estava bem.
Se as luzes estivessem acesas, ele provavelmente teria visto Haekang estremecer.
O menino revirou os olhos, pensando muito, e então falou com evidente hesitação.
— …Me desculpe.
— Pelo que você está se desculpando?
— Mais cedo, no jantar, o senhor perguntou se eu estava me dando bem com meus amigos… e a verdade é que eu não estava bem…
Kanghyeon reconheceu imediatamente que o menino finalmente estava pronto para ser sincero. Manteve a voz gentil para tornar mais fácil para ele falar.
— Por que você não estava bem?
— Porque eu briguei com um amigo….
Ele já sabia a resposta que viria. Já ouvira sobre a briga com o amigo de Haeil. Aliás, Haeil aparentemente perguntara ‘Você ganhou?’ no instante em que soube.
— Havia um motivo bom o bastante para brigar?
Afastando a imagem do rosto travesso de Haeil, Kanghyeon acariciou as costas do menino. Sentiu os ombrinhos tensos relaxarem pouco a pouco.
De repente, o rosto de Haekang se contorceu de raiva.
— Tem um amigo Ômega na minha turma, e o amigo com quem eu briguei disse que ele tinha cheiro de ‘cocô de maçã-passa de colheita farta’ e que ele era sujo. Não é cocô, é só um cheiro gostoso de maçã…….
A mão de Kanghyeon, que acariciava as costas de Haekang, parou de repente.
Cocô de maçã-passa de colheita farta?
Ele não conseguia nem começar a adivinhar qual deveria ser o cheiro de uma ‘maçã-passa’.
De repente, sentiu vontade de conhecer esse amigo pessoalmente. Era quase impressionante como uma criança daquela idade conseguia inventar uma expressão que soava exatamente como algo que Kwon Haeil diria.
‘As crianças de hoje em dia são assustadoras.’
Afastando o choque absurdo, Kanghyeon voltou a se concentrar no menino.
— Você bateu nele?
Haekang era uma criança que treinava numa academia de artes marciais desde cedo. Entre os colegas, era conhecido por ser bem difícil de lidar, então, se tivesse partido para cima, as coisas poderiam ter ficado bem sérias.
Felizmente, Haekang balançou a cabeça.
— Eu não bati nele. O papai disse que, se tiver muita gente olhando, quem dá o primeiro soco perde.
Então isso queria dizer que ele foi ensinado a dar o primeiro soco quando ninguém estivesse olhando?
‘O que diabos Kwon Haeil-ssi está ensinando para a criança?’
Kanghyeon decidiu que teria de interrogar Kwon Haeil em detalhes sobre o que exatamente andava ensinando a Haekang, e quando, assim que ele voltasse.
— Não foi uma briga grande. Eu só expliquei ponto por ponto o que estava errado no que ele disse e por que ele não deveria fazer aquilo. Aí, de repente, ele tentou me assustar com os feromônios dele. Então eu só fiz a mesma coisa de volta.
Haekang, que estivera falando com confiança, de repente fez uma cara de ‘ops’ e se justificou às pressas.
— Ah, eu só soltei um pouquinho! De verdade! Assim que eu soltei, o amigo ficou com medo e começou a chorar ‘buáá’, então eu parei na hora.
— Entendo. O papai acredita em você.
Só depois de ouvir isso Haekang pareceu aliviado.
— Mas depois disso os amigos Alfas começaram a me evitar. Até aquele com quem eu jogava videogame…….
Seus lábios pequenos fizeram um biquinho emburrado de novo.
— O senhor disse que eu deveria me dar bem e brincar direitinho com todos os meus amigos, Pai. Então eu pedi desculpas primeiro hoje, mas aquele amigo não aceitou.
Como se relembrasse o momento, o rosto de Haekang se franziu enquanto ele acrescentava.
— Ele disse que não quer brincar com um velho preso num corpo de criança.
Kanghyeon não conseguiu evitar se encolher diante daquela expressão.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna