Alphega — Episódio 96
Um homem vestido de preto, como uma noite sem nenhuma estrela, entrou andando. Com o boné preto e até a máscara no rosto, parecia bastante suspeito, mas era uma cena relativamente comum perto das baladas de Gangnam àquela hora.
Assim que viu o reflexo do homem na janela, Kanghyeon soube na hora quem ele era.
Não usava a roupa estilosa de sempre, e nem o piercing prateado que costumava chamar atenção estava ali. Mesmo assim, aquele porte tão familiar e o olhar afiado refletido na janela eram impossíveis de não reconhecer. Aquele homem era, sem dúvida, a pessoa que ele estava esperando.
Ouviu-se o clique da porta se fechando.
No mesmo instante, o quarto ficou frio e silencioso, como se tivessem jogado água gelada nele.
Kwon Haeil, já dentro do quarto, arrancou de qualquer jeito o boné e a máscara que o sufocavam e se aproximou de Kanghyeon.
Kanghyeon, encarando o reflexo de Haeil na janela, mal conseguia respirar diante daquele clima tão sombrio e frio que emanava dele. Quando finalmente chegou logo atrás, Kanghyeon fechou os olhos com força, sem perceber.
“Vai… ficar bravo, com certeza…”
Esperava que, a qualquer momento, viessem as palavras frias e cortantes de Kwon Haeil. Talvez ele explodisse em gritos e o cobrisse de críticas duras.
Não importava que palavras ele despejasse. Tinha feito aquela falsa declaração de rompimento disposto a suportar tudo isso, então, mesmo que ele dissesse coisas que rasgassem e revirassem seu peito, planejava aceitar em silêncio.
Mas Kanghyeon abriu os olhos de repente, surpreso pelo calor que o envolveu de repente e pela voz angustiada que ouviu.
— Por que essa cara?
Haeil, abraçando Kanghyeon por trás, olhava com carinho para o rosto refletido dele na janela. Os lábios entreabertos de Haeil tremiam tanto quanto o braço que envolvia a cintura de Kanghyeon.
— Por que Baek Kanghyeon parece mais perto de morrer do que eu?
A voz tentava soar calma, mas parecia inquieta. Não havia nem sombra de frieza nela.
Haeil enterrou o rosto no ombro de Kanghyeon e soltou um suspiro misturado de alívio e ansiedade.
Kanghyeon, envolto nos braços de Haeil, abriu e fechou a boca várias vezes até finalmente conseguir dizer algo.
— Pode ficar bravo.
Depois de tanto pensar, foi só isso que conseguiu dizer. Tinha certeza de que Haeil ia ficar extremamente bravo com ele, então aquela reação inesperada o deixou bastante confuso.
Haeil, ainda com o rosto enterrado no ombro dele, como se quisesse esconder a própria expressão, respondeu:
— Não vou, porra.
Curiosamente, Kanghyeon sentiu um conforto imenso naquele palavrão de Haeil.
Haeil apertou o abraço em torno de Kanghyeon e avisou:
— Nunca mais… nunca mais diga uma coisa dessas. Se fizer isso de novo, juro que vou te amarrar e te trancar no quarto.
A ameaça de Kwon Haeil não pareceu nem um pouco assustadora para Kanghyeon. Chegou até a pensar que, se pudesse ficar assim, ao lado de Kwon Haeil para sempre, não seria de todo mal.
Kanghyeon acariciou com carinho a cabeça de Haeil apoiada em seu ombro e se desculpou.
— Desculpa. Nunca… nunca foi o que eu de fato sentia.
— …Eu sei.
Ele respondeu como se já soubesse de tudo, mas ainda assim se sentiu bastante aliviado. Mesmo sabendo que não era aquele o sentimento real de Kanghyeon, até ouvir da própria boca dele as palavras “não era o que eu sentia”, não conseguia ignorar o medo fervilhando num canto do peito.
Haeil ergueu a cabeça e apoiou o queixo no ombro de Kanghyeon. No vidro da janela, viu que o reflexo dos dois estava um pouco melhor do que quando se encontraram pela primeira vez.
— Agora que já está tudo bem, me conta. O que está acontecendo.
Devia ser justamente para dizer isso que ele tinha usado Seong Taerim para chamá-lo daquele jeito digno de filme de espionagem.
Kanghyeon estava intimamente grato pela reação calma de Haeil.
Mesmo que houvesse motivos, continuava achando que era sua obrigação aceitar em silêncio, caso Kwon Haeil despejasse críticas e palavras duras nele.
Mesmo assim, desde o momento em que recebeu aquela notificação até agora, Haeil ainda confiava nele e o esperava. Em vez de explodir de raiva, tinha o rosto de quem estava disposto a ajudar no que fosse preciso.
Como não gostar de uma pessoa assim?
Kanghyeon sentiu o coração se agitar de um jeito agradável e abaixou os olhos.
“Por onde começar…”
Do outro lado do vidro amplo, as inúmeras luzes espalhadas lá embaixo pareciam observá-los.
— Cerca de um mês atrás, surgiu uma proposta de noivado.
Assim que ouviu a palavra “noivado”, os dois braços de Haeil apertaram Kanghyeon com ainda mais força. Seus olhos refletidos na janela se arregalaram levemente.
— Meu pai disse que só terminaria de me passar a sucessão se eu me noivasse. Foi bem impositivo com isso.
Haeil parecia entender, até certo ponto, o que significava um noivado numa família de conglomerado. Talvez por isso, em vez de se revoltar perguntando onde já se viu tal lei, prestou ainda mais atenção nas palavras de Kanghyeon.
— O ômega mencionado como possível parceiro de noivado é aquele irmão mais novo que você encontrou mais cedo.
No mesmo instante, os olhos de Haeil brilharam.
— Era ele?
Se soubesse antes, teria avisado firmemente para o cara não fazer besteira.
O rosto de Haeil se contorceu um pouco, e Kanghyeon disse, tentando acalmá-lo:
— Taerim é um bom irmão mais novo. Taerim também só me vê como um bom hyung.
— Você sempre diz a mesma coisa.
— Porque é verdade.
Talvez porque Kanghyeon falou aquilo com tanta convicção, Haeil não insistiu mais no assunto.
Em vez disso, perguntou outra coisa.
— Por que não me contou? Que tinha essa proposta de noivado.
Kanghyeon respondeu na hora, sem nenhuma hesitação:
— Porque, de qualquer forma, eu não ia fazer.
— Você disse que só recebe a sucessão se se noivar.
— A maioria dos principais acionistas já me considera o próximo presidente. Meu plano era usá-los para forçar meu pai a se afastar em no mínimo meio ano, e me tornar presidente por conta própria.
Enquanto revelava seu plano, Kanghyeon sorriu com amargura em seguida.
— Mas… o tempo acabou.
O rosto de Kanghyeon escureceu rapidamente. A mão de Haeil, que acariciava sua cabeça, parou em silêncio.
— Meu pai descobriu que Kwon Haeil foi meu parceiro de rut.
Só depois de ouvir aquilo, Haeil conseguiu entender. Porque, dias atrás, vigias de Baekcheong tinham começado a segui-lo, porque Kanghyeon não voltava para casa.
Um alfa servir como parceiro de rut de outro alfa nunca era algo trivial. Dizem que era difícil até entre casais, então, o fato de Kwon Haeil ter aceitado sem hesitar já bastava para levantar suspeitas sobre a relação dos dois.
— Meu pai quer que minha sucessão não tenha nenhum ponto fraco. Ele quer que eu seja o presidente ideal e perfeito. Foi por isso que ele insistiu no noivado.
Kanghyeon soltou os braços de Haeil e se virou para encará-lo. Encostado nas costas na janela fria, ele conseguiu, com dificuldade, olhar nos olhos de Haeil, que escutava tudo com seriedade.
— Meu pai não deixaria Kwon Haeil em paz, se achasse que você era um obstáculo para esse plano. Então… não tive escolha.
Os olhos de Kanghyeon, que olhavam para Haeil, desviaram-se de novo. A culpa era tanta que não conseguia encará-lo diretamente.
Haeil refletiu com calma sobre as palavras de Kanghyeon, tentando organizar tudo.
— Então… você teve medo de que o pai de Baek Kanghyeon fosse me matar e por isso me disse que a gente ia terminar de vez, e nem me deixou te ver, é isso?
Kanghyeon respondeu, ainda com os olhos baixos:
— Por enquanto… é isso mesmo. Ainda tem vigilância do meu pai sobre mim e Kwon Haeil.
Haeil se aproximou ainda mais de Kanghyeon. Suas pernas se entrelaçaram, e os peitos ficaram quase se tocando.
— Isso é tudo que você tem a dizer?
A mão de Haeil envolveu o rosto de Kanghyeon.
— Tinham dois boatos sobre o noivado.
Ao erguer os olhos, Kanghyeon logo se deparou com o olhar afiado de Haeil.
— Um circulou algumas semanas atrás, e o outro surgiu ontem mesmo.
Kanghyeon conseguiu adivinhar rapidamente o que Haeil estava insinuando. Se era um boato que tinha surgido ontem, provavelmente…
— Você está preparando o noivado, não é?
— …….
Kanghyeon não negou, apenas se manteve calado.
Só com isso, Haeil já teve certeza de que aquele boato não era um mero rumor infundado.
Boatos de noivado podiam surgir a qualquer momento. Confiáveis ou não, era natural que um tipo de rumor assim surgisse em torno do futuro presidente solteiro de um grande conglomerado.
Mas, no instante em que o próprio envolvido fica em silêncio, aquilo deixa de ser um boato vazio. Saber disso e ainda assim não negar não significava que o próprio Kanghyeon tinha aceitado o noivado?
Ao pensar nisso, a cabeça calma de Haeil começou a se aquecer levemente. Mesmo assim, tentou conter ao máximo suas emoções. Achava que não adiantaria nada pressionar emocionalmente Kanghyeon, que já parecia prestes a desmoronar.
Haeil soltou um suspiro pesado e falou, como quem tenta acalmar Kanghyeon.
— Só porque o presidente Baekcheong descobriu sobre mim, não significa que você precise noivar com outra pessoa.
Noivar com outra pessoa?
Com a permissão de quem?
De jeito nenhum.
Haeil se conteve com dificuldade para não gritar aquelas palavras e pressionar Kanghyeon com força.
— Não vai ser fácil, mas vamos parar com isso agora mesmo. Não é isso que Baek Kanghyeon quer, certo?
A voz calma de Haeil tremeu um pouco no final.
Kanghyeon percebeu aquele tremor, mas, infelizmente, não podia concordar.
— …Meu pai vai terminar todos os preparativos para a sucessão logo após a cerimônia de noivado. A cerimônia é só uma isca para isso.
— Isca?
Haeil perguntou, com os olhos confusos.
Kanghyeon disse, lembrando de alguns acionistas que ficavam observando sua reação com cautela ultimamente:
— Se correr o boato de que estou me preparando para o noivado, os principais acionistas também vão tentar se aliar a mim o quanto antes, antes que eu me torne presidente. Se até uma cerimônia de noivado acontecer, ninguém poderá negar que logo depois eu já serei totalmente presidente.
O tratamento dado a quem se alia antes do sucesso é sempre diferente do dado a quem tenta se aliar depois. Isso se aplicava perfeitamente à sucessão de Kanghyeon também.
Kanghyeon revelou a verdade por trás do seu noivado, com voz firme.
— Depois de conseguir aliados suficientes assim, vou transformar o local da cerimônia de noivado numa coletiva de imprensa de emergência.
O fato de a cerimônia de noivado ser falsa era algo que Haeil recebeu com muito alívio, mas a palavra “coletiva de imprensa” foi o suficiente para despertar sua confusão.
A frase seguinte de Kanghyeon também foi assim.
— Lá, pretendo revelar meu traço genético raro.
Kanghyeon fixou o olhar em Haeil, que arregalou os olhos surpreso, e reforçou sua determinação.
Havia um motivo para insistir em transformar a cerimônia de noivado numa coletiva de imprensa.
Numa situação como a atual, cercado pelos homens do pai, mesmo que quisesse fazer uma coletiva de imprensa, não seria possível.
Mas, se simplesmente deixasse vazar informações sobre seu traço genético raro sem mais nem menos, isso viraria apenas fofoca de fácil consumo, prejudicando a imagem da Baekcheong. Naturalmente, isso também atrapalharia bastante o cronograma de sucessão.
Por isso, Kanghyeon decidiu preparar de propósito a cerimônia de noivado.
O noivado de Baek Kanghyeon, futuro presidente da Baekcheong; um parceiro de noivado desconhecido; e, logo em seguida, a sucessão.
No centro de toda essa atenção vinda de todos os lados, em vez do noivado, ele confessaria seu traço genético. Não era um crime capital, então, se acrescentasse um pouco de apelo emocional, a opinião pública certamente ficaria do seu lado. Mesmo que a sucessão fosse dificultada por causa do traço genético raro, o quanto isso a atrapalharia seria minimizado, por causa da atenção pública.
Haeil, deduzindo os pensamentos de Kanghyeon, foi entendendo metade da situação.
E a outra metade, não conseguia entender.
— Você não pretendia esconder isso pra sempre?
Não entendia a intenção por trás de revelar o traço genético de propósito.
Podia continuar escondendo como tinha feito até agora sem nenhum problema, então não conseguia entender o motivo definitivo para arriscar tanto, chegando a preparar até uma cerimônia de noivado.
Nem Kanghyeon jamais tinha imaginado fazer uma coletiva de imprensa assim. Tendo crescido como um alfa dominante que devia ser impecável, expor por conta própria um defeito seu era algo que, antigamente, teria recusado de forma absoluta.
Mas, agora, mesmo que quisesse, não podia continuar assim.
Para proteger Kwon Haeil e mais uma pessoa, precisava revelar até o traço genético raro que tanto tentava esconder.
Kanghyeon baixou os olhos e olhou para o próprio abdômen.
— Era essa minha intenção, mas… não pude mais fazer isso.
Pensando no pequeno ser que crescia ali dentro, dessa vez encarou os olhos de Haeil.
— Kwon Haeil, eu…
Os lábios entreabertos de Kanghyeon começaram a tremer, tensos. Seus olhos, enquanto a voz parava, revelavam emoções complexas, e sua respiração, difícil de conter, foi ficando um pouco ofegante.
Por fim, das palavras de Kanghyeon, saiu a continuação, carregada de carinho e medo.
— Eu… estou grávido.
A mão de Kanghyeon tocou o próprio abdômen. A ponta dos dedos, tremendo, pressionou suavemente a barriga firme.
— É filho meu e de Kwon Haeil… de nós dois.
⊱✿⊰ ─── Α · Β · Ω ─── ⊱✿⊰
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna