Alphega — Episódio 102
A piada de “futuro genro” era algo difícil de ignorar como simples humor. Se o olhar da pessoa que fez aquela declaração não estivesse tão sério, Yerin teria repreendido, dizendo para parar de falar besteira.
Yerin não se irritou nem riu diante da audácia de Haeil.
As informações que Kwon Haeil tinha revelado eram todas verdadeiras, mas havia bastante espaço vazio entre elas.
Mesmo assim, Yerin não conseguia menosprezar Kwon Haeil à sua frente nem ignorar suas palavras sem reagir.
Porque tinha percebido que ele estava genuinamente irritado, defendendo Baek Kanghyeon.
Yerin, observando os olhos firmes de Haeil, lembrou da mensagem que tinha recebido de Baek Seongju dias antes.
“Não se preocupe demais com o Kanghyeon, mãe.”
“Porque tem uma pessoa boa ao lado dele.”
Agora entendia. Quem era essa “pessoa boa” que Baek Seongju mencionou.
Alfa com alfa não era nenhum problema para Lee Yerin. Era uma pena não poder esperar um filho, mas ela sabia muito bem que mesmo entre alfas era possível amar profundamente, como ninguém mais.
Engolindo um suspiro de alívio em segredo, Yerin perguntou a Haeil:
— …Kanghyeon sabe dessa conversa?
— Não, ele não sabe de nada. Nem sabe que vim encontrar a senhora.
— Entendo.
Os olhos de Yerin se abaixaram suavemente.
Aquela imagem lembrou tanto Baek Kanghyeon perdido em pensamentos sombrios, que Haeil sentiu, instintivamente, uma vontade imensa de ver o rosto dele.
Os olhos de Yerin, que estavam abaixados, voltaram a olhar para Haeil. O olhar dela já era diferente de antes. Em vez de cautela ou frieza, agora havia uma amargura profunda.
— Desculpe, mas será que você poderia… ouvir um pouco a minha história?
Ela então contou a Haeil uma parte mais profunda e secreta da história que ele já tinha descoberto.
˚˚˚
Baek Jungman e Lee Yerin, mesmo sendo ambos alfas, se amavam de verdade.
Talvez o começo daquele amor tenha sido o momento em que perceberam que ambos carregavam uma dor parecida.
Baek Jungman, um alfa que desenvolveu uma aversão mental a ômegas em meio às inúmeras seduções e comportamentos anormais de ômegas que desejavam entrar na família Baekcheong.
Lee Yerin, uma alfa dominante que, por conta de uma alergia congênita a ômegas, não podia ter contato físico com eles.
Os dois, que evitavam ômegas ao extremo, se aproximaram rapidamente na mesma universidade, desabafando frequentemente seus sofrimentos um com o outro.
Como ambos eram alfas e a família de Yerin era bastante comum, houve forte oposição da família Baekcheong. Mesmo assim, como Yerin ao menos tinha um corpo feminino de alfa, e a teimosia de Baek Jungman era firme como aço, não demorou muito para que os dois pudessem se casar, sorrindo.
Mas Yerin não conseguiu engravidar por dez anos. Mesmo aceitando qualquer remédio ou procedimento que ajudasse na gravidez, incluindo indutores de ovulação, o hospital só repetia que deveriam desistir.
Numa família de conglomerado, a sucessão era extremamente importante.
Especialmente porque Baek Jungman era filho único, então um herdeiro era absolutamente necessário. Quando os mais velhos da família começaram a mencionar divórcio e novo casamento, os dois foram obrigados a tomar uma decisão.
Adotar um filho alfa.
Assim foram adotados, na época, Baek Seongju, de dez anos, e Baek Seohoon, de cinco. O motivo de adotarem dois em vez de apenas um foi porque eram irmãos de sangue.
Na época, não sabiam. Que alguns orfanatos, para aumentar a taxa de adoção, chegavam a administrar drogas ilegais que forçavam a variação de crianças ômegas para alfas.
Hoje em dia, isso seria descoberto rapidamente, mas se tratava de algo de 34 anos atrás. Documentos falsificados, o feromônio alfa que os dois pais alfas sentiam — só isso já era suficiente para considerar as duas crianças como alfas.
O efeito da droga acabou dois anos depois.
Manchas vermelhas de reação alérgica a ômega começaram a aparecer no corpo de Yerin, ao entrar em contato com as crianças. Tanto Baek Jungman quanto Lee Yerin começaram a sentir um aroma doce desconhecido.
Ao questionarem as crianças, elas confessaram que eram ômegas. Disseram que, se não tivessem feito o que as pessoas do orfanato mandaram, teriam sido vendidas para algum lugar obscuro logo em seguida, e pediram desculpas dizendo que não tinham escolha.
Lee Yerin entendia Seongju e Seohoon, mas, como sua reação alérgica começava a surgir só de ficar num mesmo ambiente por muito tempo, foi obrigada a se afastar deles.
Baek Jungman, que amava as crianças como se fossem filhos biológicos, foi tomado por uma sensação de traição imensa. Além disso, achando que a alergia a ômega de Yerin tinha piorado por causa deles, a aversão a ômegas de Baek Jungman se intensificou ainda mais.
Adotar o terceiro filho, Baek Heewoo, ainda bebê, foi decisão teimosa de Baek Jungman. Dizendo que não podia deixar um ômega sem parentesco sanguíneo como herdeiro, ele trouxe um bebê alfa, mas, não muito depois, Baek Heewoo também acabou variando para um ômega recessivo.
Todos ficaram desolados.
Baek Jungman ficou tão devastado mentalmente que mal conseguia trabalhar direito, e Lee Yerin, apesar de gostar das crianças, sofria de uma depressão intensa por não poder nem ficar num mesmo ambiente com elas. Baek Seongju e Baek Seohoon, deixados no frio pavilhão anexo, cuidavam sozinhos de Baek Heewoo, que tinha apenas um ano, e iam se tornando cada dia mais sombrios.
Foi então que, para Lee Yerin, veio uma criança como um milagre.
Baek Kanghyeon.
O filho que Baek Jungman e Lee Yerin tanto desejavam, só deles.
Só que, na época, com o traço de alfa dominante de Yerin somado ao risco de gravidez tardia, não se sabia ao certo se ela conseguiria dar à luz sem problemas. Segundo o médico, o próprio fato de estar grávida já era um milagre, e havia risco de aborto espontâneo repentino.
Não podiam perder uma criança tão milagrosa. Fizeram de tudo para que o bebê nascesse com saúde, e tomaram sem hesitar até remédios contra aborto.
Assim, tendo dado à luz Baek Kanghyeon sem intercorrências, Yerin, ao segurá-lo pela primeira vez, percebeu que algo estava errado.
Nas duas mãos e braços, e no peito, que abraçavam Baek Kanghyeon, um alfa dominante congênito, começaram a surgir pequenas manchas vermelhas. Comparado ao contato com um ômega comum, era um sinal quase imperceptível, mas, como envolvida, Lee Yerin não podia deixar de saber o que aquele sintoma significava.
O fato de Baek Kanghyeon se tornar um traço intersexo, o chamado alfega, foi resultado do uso excessivo de remédios contra aborto que Lee Yerin tinha tomado.
Não podia revelar aquilo. Não conseguia fazer isso, especialmente diante de Baek Jungman, fóbico de ômegas, que chorava de felicidade todos os dias abraçando Baek Kanghyeon.
Por isso, decidiu levar aquilo como segredo para o túmulo. Por acreditar em igualdade, e também por sentir culpa pelas três crianças que não receberam um amor adequado, evitava conversas e contato com Baek Kanghyeon.
Enquanto isso, a discriminação de Baek Jungman só se intensificava mais e mais.
Diferente do tratamento carinhoso reservado a Baek Kanghyeon, o tratamento e os xingamentos dirigidos aos outros três filhos beiravam o abuso. Lee Yerin apontava e tentava impedir isso, mas Baek Jungman, já num nível extremo de fobia a ômegas, nem sequer ouvia o que ela dizia.
Sem nenhum poder além de ser esposa de Baek Jungman, Lee Yerin não podia fazer muita coisa. Além de acariciar a cabeça das três crianças ômegas, que sempre respondiam que estava tudo bem, e esconder apressadamente com luvas as manchas vermelhas que surgiam nas próprias mãos, não havia mais nada que ela conseguisse fazer.
Esgotada pela culpa e pela impotência acumuladas, Yerin acabou fugindo daquele imenso Cheongwoonjae. Usando viagens ao redor do mundo como desculpa, passava a maior parte do ano no exterior, e, mesmo quando voltava para a Coreia, os dias que ficava em Cheongwoonjae eram poucos.
Foi então que, através de Jeong Eungyeong, sua caloura na universidade e amiga próxima, ouviu falar do filho dela.
— Meu filho tem um faro incrível. Por causa do supressor, mesmo ômegas que parecem betas, ele sente o cheiro doce deles, sabe?
Entre a tagarelice animada de Jeong Eungyeong, foi essa parte que mais chamou a atenção de Yerin. Sendo confundido com beta, o ômega devia ter as glândulas de feromônio completamente fechadas com um supressor forte, então não deveria ser possível sentir aroma nenhum — mas o filho de Eungyeong parecia perceber isso como um fantasma.
Naquele momento, Yerin lembrou de algo que Baek Kanghyeon tinha lhe dito antes.
“Vou mudar a Baekcheong.”
“Então, mãe, por favor, mude o pai.”
“Pelos meus hyungs.”
Yerin repassou aquelas palavras de Kanghyeon várias vezes na cabeça.
Por fim, ela decidiu encarar Baek Kanghyeon, alguém que, por causa da culpa e do arrependimento em relação aos três filhos, ela mal tinha conseguido encontrar de verdade.
— …Se for pra mudar seu pai, tudo bem se eu fizer o que for preciso? Mesmo que isso signifique te usar?
Diante daquela pergunta repentina, Kanghyeon exibiu um leve sorriso, parecido com o dela.
— Claro que sim.
˚˚˚
Apesar de todos os anos passados, a história de Lee Yerin não foi tão longa assim.
Enquanto contava a história, a voz de Yerin era infinitamente calma, e também repleta de arrependimento. Mesmo naquele momento, com a boca já fechada, seus olhos elegantes ainda tremiam de forma perturbada.
Haeil, que tinha escutado tudo em silêncio, abriu a boca.
— Deve ter sido frustrante. Eu não ter agido como a senhora esperava.
Diante das palavras de Haeil, Yerin sorriu com amargura e balançou a cabeça.
— Não. Agora estou grata. Se Haeil tivesse feito exatamente o que eu esperava, eu teria deixado mais uma nova ferida em Kanghyeon.
Yerin estava genuinamente arrependida.
Por ter tentado usar Kanghyeon, mesmo sabendo que ele era o tipo de criança que faria qualquer coisa pelos hyungs.
“Só porque ele permitiu ser usado, não significa que ele não se machucou com isso.”
Engolindo a culpa em relação a Kanghyeon, Yerin fez força para manter uma expressão calma.
A história que ela contou foi uma espécie de retribuição.
Por causa da culpa em relação aos três filhos adotados, até hoje ela nunca tinha conseguido dizer com clareza a Kanghyeon que o amava. Diferente dela, Kwon Haeil parecia alguém que não abandonaria nem esconderia seu afeto por Baek Kanghyeon, não importasse o que qualquer um fizesse. Parecia disposto a demonstrar um amor completo, direto e livre. Assim como tinha declarado, ele mesmo, ser o noivo de Baek Kanghyeon.
Yerin queria dar a Kwon Haeil algumas pistas a mais, que o ajudassem a entender um pouco melhor tanto Baek Kanghyeon quanto sua família.
Só que confiar a ele a procuração para as ações do Grupo Baekcheong era um assunto à parte.
— O Kanghyeon é uma criança que, aconteça o que acontecer, vai se tornar presidente algum dia. Provavelmente teria sido assim mesmo que fosse um ômega. Porque ele é nosso único filho biológico.
Ajustando a voz em silêncio, Yerin disse a Haeil:
— Se Haeil já suspeitava disso, não precisa se apressar tanto assim. Mesmo que algum problema surja na sucessão, no fim, o tempo resolve tudo.
— É verdade. Mas eu estou com bastante pressa.
Haeil, com o rosto sério, pediu de novo a Yerin:
— Confie a mim a procuração para o exercício das ações do Grupo Baekcheong que a senhora possui. Se fizer isso, senhora, ou melhor, mãe, vou atender o que a senhora deseja.
Ao ouvir o título “mãe” dito com tanta convicção, Yerin riu baixinho.
— Está dizendo que vai mudar a ideologia dele?
— Isso é só um efeito colateral.
Os olhos perspicazes de Haeil refletiam Yerin sem deixar espaço algum.
— O que a senhora realmente quer é “uma família de verdade”, não é?
Os olhos ligeiramente arregalados de Yerin também refletiam Haeil por completo.
Dentro daquele reflexo, Kwon Haeil sorriu, satisfeito.
— Vou trazer até o neto mais lindo do mundo pra senhora, então, me ajude.
˚˚˚
Kwon Haeil saiu da sala de estar depois de cerca de uma hora.
Seus pais, que estavam conversando animadamente no sofá da sala do presidente, arregalaram os olhos, desconfiados. Especialmente Jeong Eungyeong, que correu na hora até ele, segurando e sacudindo o braço de Haeil.
— Ei, ei, o que foi? Sobre o que vocês conversaram?
— Depois eu te conto.
Haeil soltou levemente a mão de Eungyeong e olhou para o pai, Kwon Taejun.
— Antes disso, papai, tenho uma pergunta.
— Hã?
Diante da fala seguinte de Haeil, a expressão de Kwon Taejun ficou ainda mais confusa.
— Essa empresa, quanto de ações da Baekcheong ela tem mesmo?
Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de Kwon Haeil.
⊱✿⊰ ─── Α · Β · Ω ─── ⊱✿⊰
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna