Capítulo 13
Capítulo 13 – ❀ Kim Do-hyun
Nada acontece por acaso. Dohyun entendeu isso muito bem.
— O número para o qual você está ligando não está disponível no momento…
A voz automatizada ecoou na sala de estar silenciosa. Ele encerrou a ligação e discou o número novamente. Mas, mais uma vez, a mesma voz mecânica respondeu.
— O número para o qual você está ligando…
*Baque!* O telefone caiu com força no chão. Sua tela, recentemente consertada, quebrou em fragmentos, mas Dohyun não pareceu se importar. Ele abaixou a cabeça, apertou os lábios com força e seu corpo se curvou.
“… Estou indo embora.”
— Droga…
“Quando tudo começou a dar errado?”
Desde que Wooyeon fora embora, Dohyun estava nesse estado. A imagem da figura de Wooyeon recuando, os olhos cheios de lágrimas, assombrava sua mente. No momento em que os dedos de Wooyeon escorregaram de sua manga, uma parte da alma de Dohyun começou a desmoronar.
“Não consigo entender você.”
Talvez tenha sido carma. Ele mentiu, escondeu a verdade e, no final, Wooyeon descobriu. Se Wooyeon tivesse liberado sua raiva, Dohyun teria aceitado de bom grado. Era um preço que ele merecia pagar.
“Como posso saber que isso não é apenas mais uma mentira?”
Mas não assim. Ele não conseguia suportar quando Wooyeon, a pessoa que ele amava, era quem dizia palavras tão dolorosas com aquela expressão angustiada. Parecia uma adaga em seu coração.
“Não posso mais confiar em você.”
— Haa…
A dor se agitou em seu peito. Dohyun cobriu o rosto, mordendo os lábios com força. Ele se esforçou para entender por que Wooyeon havia descoberto a verdade naquele exato momento, por que o motorista Yoon o havia ligado naquele instante. Tinha que ser obra de Soo Hyang. Uma Alfa que sempre conseguia o que queria — dessa vez, ela não se conteve.
Dohyun suprimiu sua raiva, cerrando o maxilar. Embora a fúria fervesse dentro dele, ele não podia deixá-la explodir ali. Seus profundos olhos negros pousaram no telefone quebrado no chão.
Dohyun conheceu Soo Hyang quando tinha cerca de dez anos. Foi em um pequeno orfanato nos subúrbios de Seul. Dohyun cresceu lá. Ele ficou órfão aos oito anos e foi rotulado como um fardo antes mesmo de entender verdadeiramente o que era a solidão. Naquela idade, ele já era considerado velho demais para adoção, mas jovem demais para se defender sozinho.
Para sobreviver, Dohyun aprendeu a observar e se adaptar. Ele tentou avaliar o humor das pessoas ao seu redor e ganhar o favor da equipe. Ele suportou o bullying de seus colegas, mas não era uma barreira impossível de vencer. Com sua inteligência e aparência mais refinada em comparação com outras crianças, ele gradualmente encontrou seu equilíbrio. Seu comportamento gentil tornou fácil para ele desempenhar o papel de “bom garoto” entre os outros.
O tempo passou e, dois anos depois, ele ainda não havia encontrado uma família. Se as coisas continuassem assim, ele teria que deixar o orfanato quando adulto, com apenas um emprego temporário para se sustentar.
— Dizem que alguém do Grupo Seonjeong está chegando.
O boato se espalhou rapidamente. Um orfanato chamou a atenção do Grupo Seonjeong, que estava procurando por futuros talentos. A própria Soo Hyang estaria visitando para fazer uma seleção. Pela primeira vez em sua vida cinzenta e monótona, um vislumbre de esperança apareceu.
Dohyun sabia onde estava sua chance. Ele entendeu que tinha que trilhar seu próprio caminho, assim como fez quando chegou ao orfanato. Mesmo aos dez anos de idade, ele era perspicaz o suficiente para entender isso.
— Hyung, o que é o Grupo Seonjeong?
— São pessoas que podem nos ajudar.
Na semana seguinte, Soo Hyang chegou ao orfanato. Ela trouxe um enxame de repórteres e guarda-costas, incorporando a imagem de um “bilionário benevolente”. Uma fachada, nada mais. Dohyun percebeu isso imediatamente.
— Esta é a vice-presidente Soo Hyang.
A maioria das crianças ficou intimidada pela mulher. Seus olhos de falcão e sua presença de pantera, juntamente com a aura fria que a cercava, eram o suficiente para fazer qualquer um recuar.
— Vamos, pessoal. Digam olá.
— Olá, senhora.
Dohyun foi o primeiro a se curvar, com uma expressão inocente. Ele juntou as mãos diante de si e se curvou profundamente, captando o olhar de Soo Hyang. Ele não perdeu a oportunidade e se apresentou claramente.
— Meu nome é Kim Dohyun.
Em meio às crianças sujas e esfarrapadas, ele sozinho se destacava — limpo e arrumado. Embora suas roupas estivessem tão gastas quanto as delas, seu comportamento o diferenciava.
— Kim Dohyun?
Os olhos de Soo Hyang permaneceram nele por um longo momento sem dizer uma palavra. Embora seu olhar fosse penetrante o suficiente para assustar qualquer um, Dohyun não piscou. Após uma pausa, um leve sorriso surgiu nos lábios dela.
— Esse garoto é bem interessante.
Foi mera pena por um gato de rua que ela encontrou, não afeição ou simpatia genuína. Ela simplesmente apreciou a astúcia que viu nessa criança.
Meses depois, surgiram notícias de que o Grupo Seonjeong havia assumido um orfanato. Dohyun se tornou “a criança patrocinada por Ji Soo Hyang”. Quando ele fez quatorze anos, manifestou-se como um Alfa. Um Alfa raro e excepcional. No entanto, o orfanato não tinha recursos para ajudá-lo a administrar seus feromônios. No espaço confinado, os feromônios caóticos de outras crianças representavam riscos significativos para alguém como ele.
Ele trabalhou incansavelmente para suprimir seus feromônios, evitando problemas e garantindo que não seria expulso. Ele permanecia constantemente vigilante, saindo sempre que sentia que os feromônios alheios começavam a afetá-lo. Um dia, quando Soo Hyang visitou o orfanato, olhou para Dohyun com uma expressão ilegível e disse:
— Alguém quer adotar você.
Aquele momento mudou a vida de Dohyun para sempre. Foi a oportunidade pela qual ele suportou cada dia. Sem hesitar, ele concordou.
A família que adotou Dohyun era um casal Beta rico e gentil. Eles também tinham uma filha mais nova, quatro anos menor que ele, mas se dar bem com ela não era difícil. Como o mais velho do orfanato, ele estava acostumado a lidar com crianças, então fazer amizade com uma menina de dez anos foi fácil.
Os anos se passaram — três anos, para ser exato. Durante o ensino médio, Dohyun desempenhou o papel de um filho modelo. Ele entrou em uma escola de prestígio, como seus pais adotivos esperavam, manteve um relacionamento próximo com sua irmã e se destacou nos estudos. Embora ocasionalmente mantivesse contato com Soo Hyang, suas respostas eram raras.
Em seu quarto ano com a família, quando tinha dezessete anos, Dohyun estava voltando para casa com um boletim cheio de notas máximas quando ouviu uma conversa no quarto de seus pais adotivos.
— … nós só trouxemos Dohyun por causa de…
— Essa parceria com o Grupo Seonjeong…
Fragmentos da conversa permaneceram em sua mente. A adoção, aparentemente por gentileza, foi revelada como ligada a um acordo, uma forma de benefício mútuo, com uma distância intransponível entre ele e sua nova família.
— O menino é bom, mas às vezes ele parece… falso.
Dohyun entendeu então que nada acontecia por acaso. A harmonia que ele tanto tentou preservar estava começando a mostrar rachaduras. Ele ficou congelado do lado de fora da porta até que seus pais saíram do quarto. Quando o notaram, perguntaram cautelosamente:
— … Você ouviu tudo?
Mas Dohyun estava mascarando suas emoções desde que era criança. Ele havia dominado há muito tempo a arte de esconder seus sentimentos, e este momento não foi diferente.
— Não, do que vocês estavam falando? — ele respondeu com falsa inocência.
O alívio tomou conta de seus rostos enquanto davam tapinhas em seu ombro para aliviar a tensão. Dohyun sorriu brilhantemente e mostrou seu boletim como se nada tivesse acontecido.
Depois disso, Dohyun continuou tratando seus pais adotivos como de costume. Ele estudou diligentemente, ajudou sua irmã com os deveres de casa e agiu como o filho perfeito. Em raras ocasiões, quando sentia o peso de suas emoções tornando-se insuportáveis, ele se esgueirava para fumar um cigarro e liberar sua frustração.
— Esse cara é tão falso — seus amigos na escola costumavam dizer.
Ficaram chocados ao saber que um aluno modelo como Dohyun estava associado a um grupo de desajustados. Alguns admiravam sua aparência limpa, enquanto outros faziam propostas sem rodeios.
— Quer apostar em alguma coisa? O perdedor faz uma tatuagem.
Tatuagens eram uma paixão para um de seus amigos. Dohyun não tinha intenção de concordar, mas naquele dia estava exausto demais para se importar. Quando seu amigo sugeriu um jogo de pedra-papel-tesoura, ele levantou o punho sem nem pensar.
— O que você quer tatuar? Só consigo fazer texto, sem imagens.
— Qualquer coisa está bom.
— Espera, você está falando sério?
A permanência da tatuagem ou a possibilidade de seus pais descobrirem não importavam para Dohyun naquele momento. Ele simplesmente pediu que fosse colocada em uma parte escondida de suas costas. O resultado foi uma frase em latim: Habeo a magnus mentula. Ela foi escolhida como uma piada e mal traduzida usando uma ferramenta online. Quando Dohyun descobriu seu significado grosseiro, ficou furioso. Seu amigo riu e deu de ombros, dizendo que não era totalmente mentira.
Em retrospecto, foi um ato de rebelião adolescente — imprudência nascida de frustração reprimida. O perigo, misturado ao desejo de se sentir vivo, extinguiu-se rapidamente. Embora a tatuagem permanecesse e ele nunca tenha parado de fumar completamente, Dohyun absteve-se de se entregar a qualquer coisa mais destrutiva.
Na primavera de seus 20 anos, Soo Hyang o contatou novamente. Naquela época, Dohyun havia sido admitido em uma universidade de prestígio, e seus pais adotivos comemoraram comprando um apartamento e um carro para ele. Naquela época, espalhou-se a notícia de que o Seonjeong Group havia assinado com sucesso uma parceria significativa com a empresa de seus pais.
— Já faz um tempo. Como vai a universidade? — Soo Hyang perguntou durante a reunião.
— Já faz dois meses que o semestre começou e você só está perguntando agora? Mas duvido que seja a única razão pela qual você me chamou aqui, certo? — Dohyun respondeu, sua postura respeitosa, mas seu tom afiado.
Soo Hyang ignorou sua grosseria e gesticulou para que sua assistente saísse da sala. Assim que a porta se fechou, sua voz profunda quebrou o silêncio.
— Ouvi dizer que você era muito carinhoso com as crianças mais novas no orfanato. E você parece se dar bem com sua irmã adotiva.
Suas palavras pareciam não ter relação, mas Dohyun permaneceu calmo, encontrando seu olhar sem vacilar. A agudeza de falcão em seus olhos não o intimidava mais. A expressão de Soo Hyang se contraiu um pouco antes de ela continuar.
— Meu filho… tem mais ou menos a mesma idade que sua irmã.
— Seu filho?
Dohyun ficou surpreso ao ouvir essas palavras. Ele queria perguntar se Soo Hyang realmente tinha um filho, mas sua surpresa o deixou momentaneamente sem fala. Enquanto ele tentava organizar os pensamentos, Soo Hyang continuou em um tom calmo.
— Dois anos atrás, matriculei-o no ensino fundamental, mas parece que ele não conseguiu se adaptar bem à vida escolar.
— … Não conseguiu se adaptar? Ele sofreu bullying?
Não houve resposta, apenas um leve estalar de língua e o franzir de uma sobrancelha.
— Crianças assim não precisam realmente ir à escola… mas, ainda assim…
Uma emoção estranha cintilou em seus olhos pálidos. Flutuando para a superfície estava algo que até Dohyun podia reconhecer como preocupação. Isso o assustou, embora brevemente. Soo Hyang balançou a cabeça gentilmente.
— De qualquer forma, chamei você aqui pensando que poderia falar com ele. No mínimo, ele pode se sentir mais confortável com alguém próximo de sua idade. Você acabou de ser aceito em uma boa universidade, então ensinar inglês a ele não deve ser um fardo muito grande, certo?
— Ensinar a ele?…..
As palavras dela continuavam pegando Dohyun desprevenido. Ela mencionou ter um filho, que o filho era intimidado e agora queria que ele fosse seu tutor. A cadeia de eventos ficava cada vez mais desconcertante.
— Não é difícil ensinar. Ele já aprendeu o básico de inglês desde pequeno, então não espero que você mergulhe em tópicos avançados.
— Mas… na verdade…
Dohyun soltou uma risada irônica, deixando a frase inacabada. Contratar um tutor sem focar nos estudos o deixou inseguro sobre o que dizer.
— O que você realmente quer de mim? — perguntou ele, sem rodeios.
Soo Hyang levantou uma sobrancelha como se a pergunta fosse desnecessária, mas Dohyun manteve sua postura composta.
— Se você não explicar detalhadamente, como eu vou saber?
— Tudo o que você precisa fazer é ensiná-lo, conversar com ele sobre a escola e me informar. Três sessões por semana, duas horas por sessão — um total de seis horas. Eu pago a você o valor que você quiser.
Dohyun pensou em citar uma quantia absurda, mas se conteve. Se fosse Soo Hyang, ela pagaria exatamente o que ele pedisse, e cobraria tudo o que quisesse em troca.
— Você poderia simplesmente ir à escola e jogar dinheiro no problema.
— Não é tão simples.
Ela falou sobre gastar dinheiro como se não fosse nada. Dohyun franziu o cenho em confusão.
— Ele é… Um filho ilegítimo que você está escondendo?
— Se fosse, eu não estaria contando sobre ele para você.
Ele achou que sua suposição era razoável, mas estava errado. Soo Hyang olhou para o relógio em seu pulso e bateu levemente na mesa.
— Você não precisa saber os detalhes. Apenas me diga se você fará isso ou não.
Seu tom permaneceu inalterado, mas seus olhos estavam diferentes. Ligeiramente estreitados, eles pareciam ansiosos. Dohyun inclinou a cabeça ligeiramente e respondeu lentamente:
— Eu farei isso.
Ele nunca pensou que alguém tão impecável quanto Soo Hyang mostraria esse lado. Vê-la se preocupar pessoalmente lhe deu uma sensação estranha.
— Pague o que achar justo. Não me importo se você não me pagar nada.
Até a resiliente Soo Hyang ficava vulnerável quando se tratava de seu filho. Era amor, obsessão ou algo totalmente diferente? Fosse o que fosse, aquilo o fascinava. No entanto, por baixo dessa curiosidade, um leve desconforto se agitava em seu coração.
— A criança não é um ômega, é? Se for, isso pode ser problemático.
— De jeito nenhum. Você acha que eu confiaria tanto em você se fosse?
— … Eu não me envolveria com alguém quatro anos mais novo que eu, de qualquer forma.
Afinal, Soo Hyang tinha sido um ponto de virada na vida de Dohyun. Ele não a chamaria de salvadora, mas ela o ajudou. Um pequeno favor (mesmo que parecesse mais uma ordem) como esse era algo que ele podia retribuir.
— Qual é o nome da criança?
— Seon Wooyeon.
Seon Wooyeon. Dohyun repetiu o nome algumas vezes antes de concordar. Ela alegou que ele não era um filho ilegítimo, mas não havia lhe dado o sobrenome dela. Talvez fosse o sobrenome do ômega, ou talvez ela quisesse manter o relacionamento escondido.
— Que nome lindo.
Ele fez o elogio naturalmente, mas a expressão de Soo Hyang ficou estranha. Seu sorriso fraco parecia de quem relembrava algo do passado. Baixando a cabeça com uma pitada de arrependimento, ela murmurou suavemente, apenas o suficiente para ele ouvir:
— … Sim, um nome lindo.
Ao ouvir isso, Dohyun não fez mais perguntas e permaneceu em silêncio. Foi a primeira e única vez que viu Soo Hyang com uma expressão tão triste.
A sessão de tutoria agendada aconteceu mais cedo do que o esperado. Soo Hyang não pediu a opinião de Dohyun; ela simplesmente marcou o horário. Como não tinha planos específicos, Dohyun não se opôs. No dia da primeira aula, ele sentiu uma pontada incomum de nervosismo enquanto se dirigia à mansão.
Era em uma área tão nobre que até os taxistas hesitavam em entrar. As casas eram tão distantes que andar entre elas parecia impossível.
“Isso parece uma prisão.”
Os muros altos eram mais como uma fortaleza do que uma cerca. A construção não apenas impedia a entrada de estranhos, mas dava a impressão de prender quem estava lá dentro. Com tamanha segurança, parecia totalmente possível manter alguém em cativeiro ali.
— Por favor, espere aqui um momento — disse a governanta, convidando-o a sentar-se na sala antes de subir as escadas.
Quando Dohyun ouviu a mulher chamando o “jovem mestre” para descer, percebeu que o filho de Soo Hyang era um menino. Além do nome, ele não sabia absolutamente nada sobre ele.
“Eu me pergunto se ele se parece com ela…”
Dohyun olhou ao redor da espaçosa sala, imaginando vagamente como Seon Wooyeon poderia ser. Sendo filho de Soo Hyang, ele poderia herdar seus traços, e sua personalidade provavelmente seria difícil, dada a criação na riqueza. Mas esses pensamentos evaporaram no momento em que ele o viu.
— … Olá.
Era uma voz suave — um garoto cuja voz ainda não havia mudado. Ele era mais baixo que Dohyun por cerca de duas cabeças, um pouco mais gordinho do que ele esperava, e seu rosto pálido parecia exalar um cheiro de leite. Os olhos por trás de óculos grossos não tinham nenhuma semelhança com Soo Hyang.
— Meu nome é Seon Wooyeon.
Dohyun não sabia por que aquela visão o lembrava de seus dias no orfanato, nem por que os olhos inocentes do garoto deixavam uma impressão tão duradoura. Talvez tenha sido a pureza no olhar que o pegou desprevenido.
— Esse é um nome lindo.
Dohyun não esperava que o garoto corasse com o elogio, nem que ele se mexesse desajeitadamente. Ele também não esperava que aqueles grandes olhos castanhos o afetassem tanto.
— Estou ansioso para ajudar você, Yeon.
O garoto curvou a cabeça timidamente, puxando levemente o lóbulo da orelha, parecendo um gato de rua desacostumado à gentileza. Em voz baixa, ele respondeu:
— Obrigado por me ajudar. Uh… mas…
— Você pode me chamar de seonsaeng.
Era uma maneira de se proteger. Aquela sensação passageira de desconforto fez Dohyun querer estabelecer um limite claro. No entanto, quase inconscientemente, ele acrescentou:
— Quando você chegar à faculdade, pode me chamar de “hyung”.
Esse garoto era diferente das crianças com as quais Dohyun estava acostumado. Ele não transbordava energia ou travessura; em vez disso, parecia que lhe faltava algo. Sempre que Dohyun tentava ser aberto, o garoto agia com cautela.
— … Seonsaeng, você é um Alfa?
Foi por isso que, quando o garoto perguntou, Dohyun não conseguiu admitir de imediato. Ele notou como os olhos de Wooyeon pareciam implorar para que a resposta fosse “não”.
— O quê, eu realmente pareço um Alfa?
Dohyun viu uma mistura de emoções piscar nos olhos dele. Wooyeon franziu a testa, olhou para baixo e então voltou a encontrar o olhar de Dohyun. Seus olhos piscavam lentamente, perfurando o coração de Dohyun.
— … Não.
A tensão nos olhos de Wooyeon se dissipou. Em seu lugar, surgiu uma tranquilidade que Dohyun nunca tinha visto nele.
— Você não parece um Alfa.
Instintivamente, Dohyun percebeu que a guarda do garoto havia caído. Uma pontada de culpa surgiu, mas foi rapidamente superada. A confiança brilhando no olhar de Wooyeon satisfez um desejo profundo em Dohyun que estava adormecido há anos.
Daquele dia em diante, Dohyun aguardou ansiosamente as aulas. Sentar-se ao lado do garoto o preenchia com uma felicidade sem igual. Wooyeon olhava para ele com os olhos arregalados, corava e silenciosamente compartilhava suas preocupações.
— Então, não parece ser bullying físico — relatava Dohyun.
Nos dias sem aula, Soo Hyang o chamava para saber sobre o filho. Se estivesse ocupada, ligava, mas geralmente preferia o encontro pessoal. Seus olhos, afiados mas cheios de preocupação maternal, sondavam cada detalhe.
— Pensando bem, você parece gostar de fazer pequenas brincadeiras assim — comentou Soo Hyang.
— Como o quê?
— Chamando-o de “Yeon-ah”.
Dohyun descobriu no segundo encontro que o nome completo era Seon Wooyeon. Uma governanta o corrigira, enfatizando que deveria usar o nome completo. No entanto, Dohyun continuou usando o apelido até que Wooyeon se opôs.
— Mantenha uma distância adequada. Não deixe que ele se apegue a você, a menos que esteja pronto para assumir a responsabilidade.
— …..
— Claro, eu não esperaria que você assumisse responsabilidade alguma.
Uma onda de emoções surgiu em Dohyun — culpa, irritação e uma estranha satisfação. Ele percebeu que sentia um ciúme incomum daquela relação entre mãe e filho.
— … Você deveria contar a Wooyeon você mesma — disse Dohyun calmamente. — Que o tutor dele é alguém que você arranjou para vigiá-lo.
Imaginar o rosto desapontado do garoto fez o peito de Dohyun apertar. Ainda assim, ele manteve a expressão composta diante de Soo Hyang.
— Se você não está pronta para contar a ele, não me ameace. Você sabe melhor do que ninguém qual lado vai se arrepender mais se eu for embora.
Soo Hyang não respondeu, e Dohyun saiu da sala em silêncio. Ele parecia decidido, mas, por dentro, estava tudo menos certo. Nem ele sabia qual lado acabaria se arrependendo mais.
Era um profundo sentimento de inferioridade, moldado ao longo do tempo e por muitas experiências. Dohyun sempre foi aquele que esperava ser escolhido, temendo o momento em que poderia ser abandonado. Por fora, ele tentava parecer calmo, mas no fundo, era sempre o elo mais fraco.
— Seonsaeng.
Mas aquela foi a primeira vez que ele recebeu um afeto sem segundas intenções. Conheceu alguém que simplesmente dava sem esperar nada em troca. Toda vez que via seu reflexo nos olhos puros daquela criança, Dohyun sentia que era alguém especial — algo que nunca havia considerado antes.
Seis horas por semana. Mesmo combinadas, era apenas metade de um dia curto. Ele derramou seu cuidado sobre Wooyeon, como quem rega uma terra seca. Abriu seu coração, expandindo gradualmente sua presença.
E assim, duas semanas se passaram. Em apenas duas semanas, Dohyun passou a entender muitas coisas sobre Wooyeon: seu relacionamento tenso com Soo Hyang, seus hábitos alimentares exigentes, sua alta autoestima, mas baixa autoconfiança.
Como Dohyun percebeu desde o início, Wooyeon não era uma criança ingênua. A atenção de Soo Hyang, que Dohyun invejava, era, na realidade, uma forma de teimosia que só aprofundava a solidão do filho. Wooyeon era jovem, desajeitado e frágil — tanto que nem reconhecia a própria solidão.
Talvez fosse por isso que Wooyeon reagia com alegria infantil às menores palavras de Dohyun. Ele era facilmente movido por pequenos atos de cuidado, ansiando por afeição.
Continua…
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna