Capítulo 13
13 – Capítulo 13
A origem da manifestação dos traços era desconhecida. Havia até quem afirmasse que ela existia desde o início da história da humanidade. Durante séculos, a manifestação foi tratada como uma doença que precisava ser escondida. Pessoas com traços eram, por vezes, queimadas sob o pretexto de caça às bruxas ou consideradas doentes mentais, sendo submetidas a tratamentos como perfurações no crânio ou remoção dos órgãos genitais.
Os portadores de traços da era moderna, felizes por terem nascido no século XXI e terem acesso aos supressores, desfrutavam de privilégios como se fossem uma compensação pelo passado. A liberdade excessiva e a irresponsabilidade faziam com que passassem seus ruts com pessoas de quem nem sequer se lembravam, e os recém-nascidos indesejados eram acolhidos pelo governo.
Marvin também nasceu do ventre de uma Ômega na casa dos vinte anos que havia procurado o centro. Infelizmente, ele não foi adotado por uma família comum e passou toda a infância em uma instituição ligada à igreja.
Era uma época confusa, em que compaixão e bondade coexistiam com discriminação e pobreza. Então, no ano em que completou dezessete anos, manifestou-se como Alfa.
Ao atingir a maioridade, deixou de receber supressores obrigatórios e passou a precisar manter relações sexuais. Ele invejava acima de tudo aqueles que resolviam seus ruts com dinheiro. Acreditava que eram eles que levavam uma vida digna. Por isso, esforçou-se incansavelmente para fazer parte daquela classe.
Desde o ensino fundamental, fez todo tipo de trabalho de meio período imaginável. Ia para onde o pagamento fosse maior. Houve épocas em que limpava cadáveres pela manhã e trabalhava como modelo de prova de roupas à noite. Era natural que acabasse ingressando na Academia Militar, onde não havia mensalidades.
Felizmente, dali em diante tudo correu bem. Por acaso chamou a atenção de um oficial e recebeu uma proposta para trabalhar na agência de inteligência. Quando lhe disseram que receberia adicional de periculosidade, aceitou sem hesitar, abrindo mão da patente militar. Num instante, sua vida passou a ser uma sucessão de missões em que arriscava a própria vida.
Depois de ser transferido para a unidade especial seguindo o vice-chefe Choi Hyung-il, que lhe dissera:
— Vamos fazer uma viagem ao exterior com um bom nome.
Ele passou a vagar constantemente por diversos países. Fazia tudo o que lhe ordenavam sem questionar, acreditando que seu país precisava dele.
Talvez seu maior erro tenha sido confiar demais nas pessoas. Nem sequer conseguiu colocar os pés na vida da alta sociedade que tanto se esforçou para alcançar e acabou caindo novamente para o fundo. Agora estava preso em Oseong-gun, na província de Chungcheong do Sul, aguardando seu retorno.
— A vida realmente…
Marvin balançou a cabeça e se levantou. Relembrar o passado não mudaria nada. Afinal, até aquele momento de sua vida, raramente tivera a oportunidade de fazer escolhas por conta própria.
Arrumou a cama de qualquer jeito e foi ao banheiro lavar o rosto. O pequeno estúdio com cozinha servia apenas para dormir e tomar banho.
No começo, morava na sala de descanso do turno da noite do hotel. Yang Jin-man estalava a língua toda vez que via Marvin acordando diariamente naquele sofá-cama duro e tomando banho usando apenas os produtos disponibilizados pelo hotel.
— Você nem dinheiro para alugar um quarto por mês tem? Que tipo de confusão você aprontou em Seul…
Depois de observá-lo por um mês inteiro, suspirando daquele jeito, Yang Jin-man não aguentou mais e conseguiu aquele apartamento para ele. Também foi nessa época que lhe arranjou um celular. Marvin sequer podia registrar uma linha em seu próprio nome, então nunca tivera um número de telefone. Para ele, isso não era um grande inconveniente, mas as pessoas ao seu redor reclamavam bastante. Yang Jin-man acabou intervindo.
— Não é de graça. Você vai ter que me pagar tudo depois. Entendeu?
Ele entendia. Naquela época, pensava que precisaria levar algum dinheiro caso tivesse permissão para voltar a Seul. Não era que Marvin não tivesse dinheiro. Apenas não havia como acessá-lo.
Entre os agentes da agência de inteligência, aqueles da unidade especial que realizavam operações no exterior recebiam seus salários em dinheiro vivo. As despesas de missão eram pagas separadamente, de modo que quase não precisavam usar dinheiro pessoal. Como o trabalho era perigoso, praticamente nenhum agente tinha uma origem respeitável. A maioria, como Marvin, era fruto de um rut, ou então pessoas cujas famílias haviam morrido.
Eram indivíduos marcados pela solidão para o resto da vida. Talvez por isso, sempre que retornavam à Coreia por um breve período, a maioria desperdiçasse todo o dinheiro em casas de entretenimento. Pagavam bebidas para desconhecidos, dormiam com qualquer pessoa e compravam impulsivamente tudo o que chamava sua atenção.
Viviam alguns dias como reis e então retornavam mais uma vez para uma vida onde não existia um “eu”. Nesse processo, causavam acidentes pequenos e grandes, mas as autoridades geralmente fechavam os olhos. Alguns até provocavam problemas de propósito, incapazes de esquecer aquela sensação de prazer.
Marvin gastava o dinheiro que ganhava comprando e colecionando pinturas. Nos primeiros anos, seguiu o exemplo dos veteranos, torrando dinheiro e se envolvendo em encontros sexuais que mais pareciam orgias. Mas alguns anos atrás, quando voltou brevemente à Coreia, recebeu uma ligação da Madre do centro e abandonou tudo.
— Pensei muito sobre isso… e acho que o certo é contar a você.
Desde então, passou a guardar dinheiro vivo aos poucos e, todo mês, comprava uma das pinturas dela com o que sobrava. O favor que havia pedido ao vice-chefe Choi Hyung-il era justamente esse. Acontecesse o que acontecesse, ele não deveria deixar de comprar as pinturas. Em troca, Marvin prometeu manter a boca fechada.
De vez em quando, verificava as redes sociais dela para saber se estava bem. Pouco tempo atrás, viu uma foto tirada no hospital, então parecia que ela havia recebido em segurança a injeção daquele mês. Isso já bastava. De certa forma, era um alívio para Marvin.
De repente, seu celular vibrou. Ao olhar para a tela, viu que era Jin-yong. Marvin ficou encarando o aparelho, que tremia e zumbia em sua mão.
Era seu dia de folga. Não queria ser incomodado em um raro dia de descanso, então hesitou em atender. Achou que a ligação logo cairia, mas o celular continuou tocando insistentemente. Normalmente, isso significava que algo ruim havia acontecido.
— Alô. O que foi?
— Hyung! Onde você está? Está no trabalho? Estou na casa do hyung Juseongie agora!
Sua voz estava bastante agitada.
— Quem?
Marvin inclinou a cabeça. Não lembrava daquele nome.
— O hyung cantor! Aquele vocalista que chegou atrasado ontem.
— Ah… sim.
— Ah, merda! Não consegui falar com ele hoje de novo, então vim até a casa dele porque achei que pudesse se atrasar outra vez como ontem. Mas… caralho, o que eu faço? Esse hyung não está respirando! Que porra é essa? Você pode vir aqui, hyung?
Marvin franziu a testa. A situação não fazia sentido em vários aspectos. Naquela mesma manhã, Yang Jin-man havia resmungado que passaria o dia inteiro sem fazer nada, apenas espantando moscas, mas pelo visto já estava se preparando para lidar novamente com um caso no salão. E parecia que nem sequer avisara aos funcionários que Marvin estava de folga.
Além disso, Jin-yong estava chorando do outro lado da linha. Falava entre soluços e de forma completamente desordenada, mas, resumindo, era simples: o cantor que chegara atrasado no dia anterior estava morto.
— Ele morreu! Ou será que não? Acho que morreu. Ah, o que eu faço?! Acho que ele está deitado na cama, mas não se mexe. Eu devo chamar a polícia? Pode vir logo, hyung?
— Você verificou se ele realmente não está respirando? Há algum sinal de ferimentos?
— Não sei quanto a isso, mas ele está de olhos abertos, com a boca aberta e não se move. Esse hyung está completamente nu. O corpo inteiro dele está azul.
A expressão de Marvin endureceu. Um pressentimento passou por sua mente. Ele se levantou imediatamente e começou a vestir o casaco.
— Jin-yong, saia desse quarto primeiro. Isso. Respire fundo. Não toque em nada dentro da casa. Tem mais alguém aí além de você? Você veio sozinho?
— Vim sozinho. O hyung Juseongie normalmente fica com o namorado dele, mas não estou vendo ele. Ah, merda… isso é um cadáver? Hyung, eu estou ferrado?
— Ligue para a polícia agora mesmo. Diga que você foi quem encontrou o corpo primeiro. Desligue e faça isso imediatamente. Eu também estou indo. Me mande o endereço.
Marvin encerrou a ligação e saiu de casa imediatamente. Um corpo completamente nu e azulado indicava uma grande probabilidade de ser um efeito colateral do uso excessivo de agentes de manifestação de curto prazo. Para chegar ao ponto da morte, a vítima precisaria ter usado a droga continuamente por pelo menos alguns meses. Ainda assim, Marvin não conseguia entender por que alguém faria algo tão insano.
Os agentes de manifestação de curto prazo eram estimulantes sexuais. Recebiam esse nome porque faziam a pessoa sentir, por um breve período, como se fosse um portador de traços. Seu nome oficial era manifestanfetamina. Tratava-se de um modulador em pó dos fatores de traço que, ao ser absorvido pelo organismo, provocava forte excitação em até uma hora e causava alterações nos órgãos genitais.
A droga circulava na Coreia havia apenas cerca de dez anos, mas sua disseminação acontecera numa velocidade inimaginável. Tornou-se popular como um estimulante leve para ser usado durante o sexo. No entanto, como seus graves efeitos colaterais, que podiam levar à morte, vieram à tona, as autoridades a classificaram como substância proibida e passaram a regulá-la.
Mesmo assim, a oferta era tão abundante que seu acesso continuava extremamente fácil, e pessoas viciadas naquele tipo de prazer sexual dificilmente conseguiam abandoná-la. Em clubes e casas de entretenimento, era possível conseguir uma dose por cerca de cem mil won, motivo pelo qual ganhou o apelido de “ecstasy nacional”. Como os efeitos colaterais praticamente não apareciam em usuários de curto prazo, atualmente quase não havia operações de repressão.
A missão pela qual Kim Do-jin era responsável, na Suíça, consistia justamente na negociação do segundo lote experimental dessa manifestanfetamina. Um pequeno instituto de pesquisa chamado Maxona, localizado em Basileia, tentava produzir em FDC¹ tanto essa droga quanto supressores e, por acidente, acabou criando um verdadeiro agente de manifestação. Como os testes clínicos eram difíceis de realizar, passaram a procurar um parceiro comercial. Diversas farmacêuticas e governos demonstraram interesse, e a Coreia também entrou em contato por meios não oficiais.
Nesses casos, normalmente agentes com identidades falsas eram enviados como intermediários independentes. Assim, caso a negociação fracassasse, o governo não sofreria prejuízo político nem seria criticado futuramente por questões éticas.
Kim Do-jin assumiu o papel de corretor e conduziu uma negociação favorável ao governo coreano, sob a condição de comercializar o protótipo e o esquema técnico que pudesse ser reproduzido em versões genéricas. Porém, de repente, mudou de ideia e iniciou uma nova negociação com o lado russo.
Constrangida pelo desvio de conduta de um de seus agentes, a agência de inteligência tentou cancelar completamente a transação. Contudo, por algum motivo, ordens vindas de instâncias superiores determinaram que ela prosseguisse. Após muita discussão, a negociação foi retomada sob a condição de que Kim Do-jin recebesse cinco milhões de dólares em dinheiro vivo. Ao mesmo tempo, outro agente de campo que estava nas proximidades foi enviado às pressas. Esse agente era Marvin.
Na época, dizia-se que aquela operação havia provocado intensos debates até mesmo entre os escalões mais altos do governo. A questão era se um governo, e não uma empresa privada, deveria desenvolver um novo medicamento. Entretanto, alguém insistia repetidamente que, já que era impossível erradicar os agentes de manifestação de curto prazo, seria melhor fornecer oficialmente um produto mais seguro e de qualidade superior. Outra pessoa aprovou imediatamente essa opinião. Quem estava por trás disso nunca foi revelado.
Como só podiam confiar na palavra dos pesquisadores de que o produto era estável o suficiente para ser vendido como medicamento, decidiram trazê-lo primeiro e avaliá-lo depois. Muito tempo depois que tudo deu errado, o vice-chefe Choi Hyung-il comentou que, se soubessem a verdadeira natureza daquela amostra, o governo teria reconsiderado a operação.
Será mesmo?
Com o passar do tempo, Marvin se tornava cada vez mais cínico. Talvez realmente tivessem reconsiderado. Ainda assim, o resultado seria o mesmo. Na verdade, se soubessem desde o início que o agente de manifestação de segunda geração era uma droga capaz de provocar uma verdadeira transformação de traços, não teriam ficado ainda mais determinados a obtê-lo?
A eficácia da droga já havia sido comprovada pelo próprio Marvin. A amostra era autêntica. Após sete dias tomando o medicamento, ele voltou a se manifestar completamente, desta vez como um Ômega.
— Por favor, me leve para este endereço.
Ele entrou em um táxi e mostrou o endereço ao motorista. Não era muito longe. O navegador indicava cerca de dez minutos até o destino.
Logo em seguida, tentou entrar em contato com Yang Jin-man, mas ele já estava em outra ligação.
[Hoje parece que você vai ter que fechar o salão.]
Depois de enviar a mensagem, recebeu outra ligação de Jin-yong. Ele disse que havia chamado a polícia, mas não sabia se a denúncia tinha sido registrada corretamente. Informaram que um policial que estava nas proximidades chegaria primeiro para isolar a cena e, em seguida, viriam os detetives. Marvin queria examinar o corpo pelo menos uma vez antes que eles chegassem.
[Nota de rodapé]
¹ FDC (Fixed Dose Combination): medicamento de combinação em dose fixa, no qual vários fármacos são reunidos em uma proporção específica.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello