Capítulo 88
Capítulo 88
O caminhão seguiu viagem por o que pareceu uma eternidade. Quando ele finalmente desviou da cidade e se aproximou do porto, o relógio já passava das 18 horas. As docas, envoltas pela penumbra do crepúsculo, foram onde o caminhão finalmente parou. Figuras sombrias emergiram da escuridão, aglomerando-se ao redor dele. Sem uma palavra, abriram com força as portas de carga.
O motorista saiu apressado da cabine, acenando os braços. — Eu disse que não carreguei uma caixa sequer! Até deixei o carrinho para trás para provar!
Mas os homens o ignoraram, subindo no compartimento de carga vazio. Passaram as lanternas dos celulares por todo o interior, confirmando que estava limpo, antes de finalmente saírem. Um deles ergueu a mão, sinalizando para um homem que estava a alguns passos de distância.
O homem assentiu e caminhou em direção à administração do porto, onde uma figura de terno, provavelmente o gerente do local, e outros dois homens em trajes formais esperavam. Ele se aproximou do homem de óculos.
— Os dois caminhões de 5 toneladas estão aqui. Vazios, exatamente como o senhor pediu. Deve ser suficiente para carregar tudo de uma vez.
O Diretor Jo tirou um cigarro de sua carteira, a ponta acendendo em um tom vermelho vivo. Ele deu uma tragada profunda antes de falar. — Ótimo. Eles emitiram um mandado de repente, então tivemos que agir rápido. Fiquem de prontidão.
O homem curvou a cabeça e voltou para o seu grupo. Perto do guindaste de carga da doca, meia dúzia de homens robustos se amontoavam ao redor de uma fogueira improvisada, esfregando as mãos contra o frio. De tempos em tempos, seus olhares se voltavam para o horizonte, esperando pelo navio.
— Mas por que estamos movendo tanto produto de repente? Como vamos conseguir lidar com tudo isso?
O gerente do porto voltou-se para o Diretor Jo, com uma expressão amargurada. Ter sido arrastado para ali àquela hora não melhorara em nada seu humor. O Diretor Jo bateu a cinza do cigarro, sem se impressionar.
— Aquele promotor de Seul pegou nosso rastro, não foi? Se formos fechados por alguns anos, qual é o ponto de ficar sentado em cima de todo esse estoque? Teremos que desovar tudo com prejuízo, é melhor do que nada, não é?
— Por que não vender na China? Ouvi dizer que temos armazéns garantidos no Porto de Seokdo.
O Diretor Jo desdenhou. — A diferença de preço é de dez vezes. E a polícia chinesa está infestando aquele lugar. Acabaríamos pagando mais em subornos do que lucrando.
Nesse momento, um homem de touca preta veio correndo na direção deles, arfando. Ambos os homens voltaram a atenção para ele.
— Você o trouxe? — perguntou o Diretor Jo, já sabendo a resposta.
— Sim, dei um jeito de colocar ele no porta-malas. Jesus, aquele cara deve pesar uma tonelada, erguê-lo quase quebrou minhas costas.
O Diretor Jo deu uma risada seca. — Ele costumava ser um lutador peso-pesado, nos tempos de UFC. Aí ele se meteu com o Ômega errado e teve a vida arruinada. Nós o recolhemos das ruas, demos comida, demos um emprego, e é assim que ele nos recompensa? Mordendo a mão que o alimenta.
Seu olhar fixou-se no sedã preto estacionado por perto, cujo porta-malas presumivelmente guardava o homem em questão. Ele deu outra tragada, como se quisesse que o homem o ouvisse.
— Quando o navio chegar, carreguem-no e joguem-no ao mar no meio da viagem.
O homem de touca hesitou. — Er… mas ele ainda está respirando.
A voz do Diretor Jo soou assustadoramente calma. — Exatamente.
O homem piscou, e então entendeu o que estava sendo pedido. Ele engoliu em seco e assentiu. O gerente do porto, parado ao lado deles, fingiu não ouvir nada.
O Diretor Jo deu um sorriso de escárnio diante da covardia repentina do gerente. Sempre muito valente até que os riscos se tornam reais.
— Sua filha não estava estudando no Canadá?
— Ah, er… sim, ela está lá há um tempo. Gosta tanto que quase não volta para a Coreia.
— Deve ser difícil com a taxa de câmbio ultimamente, né?
— É, bem… — O rosto do gerente se contorceu enquanto ele procurava seus cigarros. O Diretor Jo fez um gesto com o queixo para seu assistente, que prontamente ofereceu um cigarro ao gerente. Ele aceitou, acendendo com a mão trêmula. A chama oscilou contra seu rosto preocupado enquanto ele exalava uma nuvem de ansiedade.
Jo se aproximou. — O Presidente Yun mencionou que você tem trabalhado duro. Disse para te fazer um acordo, pagar por quilo pelo carregamento desta noite. Dez toneladas, então… — Ele fez as contas de cabeça. — Isso dá cem milhões limpinhos. Nada mal para uma noite de trabalho, né?
Os olhos do gerente se arregalaram. Cem milhões? Assim, tão fácil? Seu rosto se iluminou, a tensão anterior derretendo.
— Uau, q-quero dizer, nós nem precisamos inspecionar os navios da Jingang! Nossos rapazes já sabem como funciona. O Presidente Yun é realmente… um pilar da comunidade. Precisamos de mais pessoas como ele na política, eu juro. — Ele riu nervosamente, o pavor de antes substituído por uma excitação eufórica.
O Diretor Jo escondeu seu nojo atrás de um sorriso de canto. A mesma velha história. Outra pessoa faz o trabalho sujo, e os engravatados embolsam o dinheiro. Todos os anos, dezenas de bilhões fluíam da Dongyang para os bolsos do Presidente Yun, tudo pelo privilégio de mover produtos por Oseong. Apenas o nome daquele homem abria portas, cortava custos e garantia segurança. Uma pena que tudo estivesse prestes a acabar.
Que diabo desencadeou isso tudo?
O Diretor Jo amarrou a cara, tragando o cigarro. Algum louco de Seul estava xeretando em Oseong, causando problemas, denunciando supressores, alocações ilegais e o que mais fosse. Como se isso fosse fazer diferença. Quando a polícia invadisse o navio na terça-feira, ele já estaria vazio. Eles garantiriam que aquele promotor ficasse com cara de idiota, ensinando-lhe uma lição que não esqueceria.
— Quanto tempo até o navio chegar?
— Saiu da China hoje cedo. Deve estar aqui dentro de uma hora. Está com frio? — O tom do gerente havia esquentado consideravelmente. — Eu disse para você esperar lá dentro. Tome um café, relaxe. A ligação vai chegar logo.
O Diretor Jo soltou uma risada diante da bajulação repentina do homem. Ele apagou o cigarro e foi para dentro, com o assistente logo atrás.
Os homens na doca, perdidos em suas conversas, não notaram a sombra se destacando da grade do segundo andar da administração do porto. Com um sussurro de vento, ela saltou para o chão e desapareceu no estacionamento.
Marvin fez o caminho de volta para o carro de Jang Jin-woo, que estava estacionado a uma distância segura. Enquanto caminhava, pegou o celular, procurando o número de Jin-woo. Apertou para ligar sem hesitar.
Algo estava acontecendo de novo. Algo grande demais para lidar sozinho. Desta vez, Jin-woo tinha que atender.
Pelo menos agora ele sabia que o Executivo Heo não estava mentindo sobre o golpe. Mas a língua solta daquele homem selara seu destino cedo demais. Sinto muito, cara. Você está por conta própria.
A chamada chamou e chamou. Jin-woo mencionara que estaria na Promotoria do Distrito Oeste hoje. Qualquer que fosse sua agenda, Marvin não aceitaria um não como resposta. Finalmente, Jin-woo atendeu, com a voz ríspida.
— Estou no meio de uma coisa. Falamos mais tarde.
Marvin o interrompeu antes que ele pudesse desligar. — Isso é importante. Se você não me ouvir agora, vai se arrepender.
Uma pausa. Jin-woo percebeu a urgência em sua voz. Ao fundo, Marvin ouviu o som de movimento, provavelmente Jin-woo se deslocando para um lugar mais reservado.
— Tudo bem. Fale.
— O Executivo Heo foi pego. Parece que já deram uma surra nele. A Dongyang está resolvendo isso “internamente”, se é que você me entende. — A voz de Marvin baixou. — Enquanto isso, eles estão adiantando um carregamento da China para hoje à noite, provavelmente para desovar os supressores antes de você agir. Eles sabem que você está na cola deles. Qual é o plano?
— Onde você está agora?
— Perto da administração do porto. Eu estava jantando em uma loja de conveniência quando ouvi o motorista falando. Segui ele até aqui. Eles têm dois caminhões de 5 toneladas prontos para carregar, parece que vão limpar tudo hoje à noite. O navio chega dentro de uma hora.
Jin-woo soltou um suspiro pesado. Já estava calculando seu próximo passo, provavelmente acionando o reforço policial. Marvin insistiu:
— Você está planejando alertar a polícia imediatamente? Tem algo estranho no ar. O Executivo Heo não nos entregaria voluntariamente e, além de você e de mim, quem mais sabe dessa operação?
— A equipe de investigação da Delegacia de Polícia de Oseong foi informada. Pedi para ficarem de prontidão no local.
— Então tem alguém vazando informações.
Os pedidos de cooperação investigativa da promotoria eram confidenciais. Se os detalhes estavam vazando, significava que a corrupção vinha de cima e se estendia por toda a polícia de Oseong.
Jin-woo ficou em silêncio. O raciocínio de Marvin atingira em cheio o ponto crítico.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello