Capítulo 87
Capítulo 87
Tarde de segunda-feira.
Marvin estava sentado em uma cadeira de plástico frágil do lado de fora de uma loja de conveniência no primeiro andar do Edifício Samik, no Condado de Oseong, juntando os pedaços para um jantar tardio. Um copo pequeno de macarrão instantâneo, dois kimbaps triangulares e uma linguiça defumada. Estava vencida, de acordo com o funcionário de meio período que a jogara como um brinde. Sem motivo para recusar. Ele a mordeu como se fosse um cigarro, o ar frio adormecendo seus dedos.
O caldo do macarrão esfriou mais rápido do que ele conseguia tomá-lo. Marvin mastigou a linguiça distraidamente, pegando o celular. A tela brilhou em resposta: 8.000.000 de won, o saldo total de sua conta. Ele ainda não havia enviado o dinheiro para Jang Jin-woo.
O promotor fora gentil o suficiente para cobrir antecipadamente a conta do hospital de 14.000.000 de won, mas não dissera uma única palavra sobre o reembolso desde então. Nenhum sinal, nenhum lembrete. Quase como se tivesse esquecido.
Que conveniente.
Marvin roía a linguiça, perdido em pensamentos. A natureza humana era uma coisa instável. Naquela época, ele jurara que juntaria cada won que tivesse para pagar pelo menos a metade. E, no entanto, aqui estava ele, enrolando, apegando-se a desculpas.
Eram as pinturas. Com 8.000.000 de won, ele poderia comprar mais duas, talvez três obras de Kim Ji-a. Mas seu orgulho se recusava a entregar um dinheiro que não precisava entregar, especialmente quando a casa de Jang Jin-woo em Seul fazia 14.000.000 de won parecerem troco de pão.
Ele suspirou. Pensar demais era uma perda de tempo. No fim, transferiu primeiro o dinheiro para as pinturas de Kim Ji-a. A lógica fria lhe dizia que não podia se dar ao luxo de pagar Jin-woo de qualquer maneira, não sem passar fome. Ele precisava viver, e três refeições por dia de macarrão instantâneo não estavam sendo suficientes.
O anoitecer se aproximava. As pernas longas de Marvin se estendiam à sua frente, sua sombra se acumulando no pavimento como tinta derramada. Ele já havia queimado 100.000 won desde que chegara a Oseong. 10.000 com comida, o resto engolido pelo posto de gasolina. Jang Jin-woo dirigia uma fera de carro que devorava combustível. Encher o tanque era uma cortesia básica, mas a despesa doera. Por que diabos ele insistira em vir com o próprio carro até aqui…
— Patético — murmurou Marvin para si mesmo. Se deixasse seus pensamentos espiralarem, afundaria em autoaversionamento.
— O que é patético? — Uma voz ecoou atrás dele. Jin-yong sentou-se na cadeira vazia ao seu lado, esfregando as mãos contra o frio. A funcionária da loja de conveniência olhou na direção deles, a curiosidade tremeluzindo em seus olhos.
— O almoço — resmungou Marvin.
— Ah, eu pensei— Jin-yong se interrompeu, fungando. — De qualquer forma, a polícia me chamou hoje. Sobre o hyung Seon-jin.
Marvin pousou o celular, finalmente olhando para ele. Estava se perguntando sobre isso.
— Encontraram ele?
Jin-yong balançou a cabeça. — O boletim de ocorrência de desaparecimento foi registrado, mas o celular dele está desligado, nenhuma atividade no cartão de crédito. Os policiais disseram que, a menos que seja uma criança ou um idoso, eles não dão prioridade a homens adultos. Muitos fugitivos, aparentemente. Disseram que a namorada dele é a melhor aposta para rastreá-lo. — Ele hesitou. — Espera, hyung, quando foi que você e o hyung Seon-jin começaram a namorar?
Marvin desviou o olhar, tomando seu macarrão em resposta. Algumas perguntas não mereciam respostas.
— Falando nisso — continuou Jin-yong, alheio — o hyung Seon-jin é o mais engraçado. Sempre falando mal do gerente na minha frente, e depois escapando de mansinho para comer sementes de abóbora sozinho. Que hipócrita. — Ele se corrigiu. — Ah, sem ofensas! Quero dizer—
Tarde demais. O silêncio de Marvin disse tudo.
Jin-yong se mexeu, inquieto. — De qualquer forma, sem sorte com a família?
— Ele é um bebê de rut — disse Marvin categoricamente. — Sem família.
A expressão de Jin-yong escureceu. — Raro, né? A maioria das crianças do Centro se manifesta a essa altura. A genética desempenha um papel enorme. Mas ele já passou dessa idade sem sinal nenhum… — Ele parou, balançando a cabeça. — Patético como algumas pessoas fingem que não se importam quando é óbvio. Coitado.
Marvin colocou o copo no chão, um gosto amargo na boca. Perguntou-se por que se dera ao trabalho de seguir pistas até aquele lugar esquecido por Deus. Pena? Nojo? Ambos deixavam um resíduo azedo.
— Viu o Executivo Heo por aí?
Jin-yong piscou. — O Heo? Agora que você mencionou, não. Ele estava todo empolgado depois da visita do chefe da última vez, mas sumiu desde então. Os guardas estavam aqui hoje, no entanto.
— Quem?
— O careca e aquele com a cicatriz perto do olho. Vi os dois fumando no estacionamento mais cedo. — Jin-yong encarou Marvin. — Espera, você vai se juntar à gangue agora? Tá rolando um boato de que você anda saindo com a turma de Dongyang desde que começou no hotel.
Marvin rasgou a embalagem do seu último kimbap, engolindo-o de uma vez. Ele abriu uma garrafa de água. — Eu me demiti.
O queixo de Jin-yong caiu. — Já?
Marvin assentiu, virando a água. A resposta inesperada fez Jin-yong esfregar a testa. — Huh. Acho que é isso, então.
Marvin andara negligenciando os deveres do hotel ultimamente. Até Yang, o chefe, parecia ter desistido dele, não o chamando mais como antes. Os funcionários sussurravam que ele se demitiria em breve, seja para a Dongyang ou de volta para Seul. Com demissões se aproximando, alguns estavam morbidamente curiosos sobre seu próximo passo. Jin-yong era um deles.
— Hyung, e quanto ao hotel—
— Com licença! Está frio. Querem um pouco de café? Temos que jogar estes fora até hoje à noite de qualquer maneira.
A aparição repentina da funcionária interrompeu Jin-yong. Ela estendeu dois cafés coados, sorrindo. — Para o seu amigo também!
Os olhos de Jin-yong se arregalaram. — Para mim também?
Ela assentiu, balançando os copos na direção de Marvin. Pague e passe para ele, dizia o gesto dela.
— Uau… obrigado! — Jin-yong derramou-se em agradecimentos, como se nunca tivesse recebido um café grátis na vida. A funcionária, que parecia ser uma estudante do ensino médio ou recém-ingressa na faculdade, mordeu o lábio para esconder um sorriso, e depois voltou rapidamente para dentro. Ela se demorou perto do caixa, tirando discretamente uma foto de Marvin com o celular antes de digitar furiosamente, os dedos voando.
— Caramba, ela é linda. Por que está trabalhando aqui? Hyung, você está com sorte. Você recebe isso o tempo todo, não é? A vida é tão injusta.
Jin-yong esticou o pescoço para olhar de novo, e então notou o copo na mão de Marvin. Seus olhos brilharam. — Ela te deu o número dela, não deu? Checa o fundo do copo! Aposto que está lá. PQP, eu sabia! — Ele estava praticamente vibrando, como se ele próprio tivesse recebido uma cantada. A conversa anterior sobre Seon-jin, o hotel e o futuro desapareceram de sua mente.
Marvin, sem se impressionar, tomou um gole do café. Nem se deu ao trabalho de checar. De graça era de graça, mas seu interesse era nulo.
Jin-yong não estava errado. Isso já acontecera antes. Só nunca com alguém tão jovem. A bebida quente ajudou a aliviar o frio em seus ossos, porém. Ele terminou o último kimbap. Vencido o caramba. Estava gostoso.
Ao lado dele, Jin-yong ainda tagarelava, elogiando o café como se fosse ouro líquido. Na verdade, ele estava apenas encantado com o rosto da funcionária, mas bancava o descolado.
Então, um barulho forte de motor ecoou. Um caminhão de carga de 5 toneladas parou ruidosamente do outro lado da rua. O motorista, um homem de meia-idade, saltou e se apressou para entrar na loja de conveniência.
— Esse Light — pediu ele. Enquanto a funcionária buscava seus cigarros, o telefone dele tocou. Ele atendeu, ainda se atrapalhando com a compra. Saindo, acendeu o cigarro, com a chamada ainda colada na orelha.
— É, é assim mesmo. Acabei de receber a notícia. O navio está chegando hoje à noite em vez da próxima terça-feira. Tenho que mover os produtos da Jingang o mais rápido possível.
As orelhas de Marvin se levantaram. Próxima terça-feira. Navio. Produtos da Jingang. Ele guardou as palavras, tendo o cuidado de não reagir.
Jin-yong, enquanto isso, estava ocupado salvando o número da funcionária no celular, resmungando que “a vida era sobre aproveitar as oportunidades”. Estava distraído demais para notar o foco de Marvin se afiar.
— De qualquer forma, desculpe pelo cancelamento repentino. Da próxima vez, beleza? Até mais. — O caminhoneiro desligou, apagando o cigarro. Ele olhou para o café de Marvin. — Eles vendem isso aqui?
— Sim.
O homem voltou para dentro e pediu um para si. Marvin observou, depois se levantou abruptamente. — Banheiro.
Ele se esgueirou para trás da loja como um fantasma. Jin-yong, ainda maquinando sobre o celular, nem sequer olhou para cima. Estamos quase lá, pensou. Se eu conseguir que o hyung me ajude a quebrar o gelo…
O caminhoneiro reapareceu, café na mão, subindo de volta na cabine. Jin-yong mal registrou o sedã preto que o seguia de perto enquanto ele acelerava.
Caramba, até carros luxuosos vêm aqui?
Cinco minutos se passaram. Depois dez. Jin-yong franziu a testa. — Espera, este lugar tem banheiro para clientes?
Ele checou o celular e tentou ligar para Marvin. Sem resposta. Trinta minutos depois, desistiu, arrastando-se de volta para o hotel sozinho, com seu grande plano esquecido.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello