Capítulo 86
Capítulo 86
Quando promotores fazem a transição para a política, eles levam um dote. Geralmente, são arquivos de casos antigos ligados à facção oposta — materiais de investigação enterrados ou relatórios baseados em denúncias que receberam, mas nunca deram seguimento. A gravidade do crime não importava. Tudo o que precisavam era de algo capaz de acender a indignação pública. A escala sempre podia ser inflada mais tarde.
Quando Byun Jeong-hoon, formado na 34ª turma do Instituto de Pesquisa e Treinamento Jurídico, fez contato com parlamentares do partido de oposição, trouxe consigo acusações de especulação imobiliária contra o líder do governo na câmara. Os valores eram substanciais, mas o caso era complexo. Se a mensagem não estivesse clara, poderia facilmente sair pela culatra.
O promotor Jang Jin-woo acabara de dobrar o dote de Byun Jeong-hoon. Ele entrou no quarto de hotel com provas do erro crasso de quase 3 trilhões de won do Serviço Nacional de Inteligência e do conluio suspeito com a maior empresa farmacêutica do país.
A princípio, as provas pareciam frágeis. Mas no momento em que o nome do filho do atual presidente foi mencionado, o membro de maior escalão do partido de oposição à mesa deu luz verde imediata.
Em troca da promessa de criar impulso para uma equipe de investigação especial na primavera, eles garantiram o recrutamento prioritário do promotor Jang Jin-woo. Toda a exposição na mídia seria gerida através do partido de oposição, e o ex-Vice-Promotor-Geral Byun Jeong-hoon se filiaria oficialmente ao partido antes da eleição geral. O acordo estava selado.
Para o promotor Jang Jin-woo, isso significava garantir um padrinho político que não tinha nada a perder. Para Byun Jeong-hoon, era uma oportunidade de expandir sua influência. Não havia motivo para recusar. Quando um parlamentar da oposição brincou dizendo que aquilo poderia derrubar uma agência de inteligência inteira, o promotor Jang Jin-woo não o corrigiu. Não estava inteiramente errado.
Conforme o promotor Jang Jin-woo deixava o hotel, seus passos eram firmes. Ele não sentia culpa, nem necessidade de se desculpar com ninguém. Não tinha interesse em se agarrar ao poder para ganho pessoal, mas não hesitava em usar sua alavancagem por uma questão de eficiência.
A filosofia jurídica de Gustav Radbruch enfatizava a igualdade perante a lei, significando que o status social e a influência de um réu não deveriam alterar o peso de seu crime. A filosofia do promotor Jang Jin-woo era guiada por princípios semelhantes. Ele não fazia distinção entre alvos. Fosse um funcionário corrupto enchendo os próprios bolsos ou um idoso roubando arroz do supermercado para alimentar o neto, ele não demonstrava simpatia.
Ele já havia oscilado incontáveis vezes entre ser um promotor respeitado e um mimado sem coração da promotoria. Aliados e inimigos mudavam constantemente. Alguns até brincavam que ele tratava a promotoria como um passatempo. De certa forma, ele gostava dessa reputação.
Gostava de desafiar expectativas. Tinha estudado impulsivamente para o exame da ordem só para provocar o tio materno, que se gabara para os parentes sobre o futuro brilhante de Jin-woo sob sua asa. Após passar no exame, candidatara-se para se tornar promotor em vez de juiz, simplesmente porque o avô sugerira que ter um juiz na família não seria nada mau. Foi quando sua família lhe dera permissão para viver como bem entendesse.
À exceção do diretor do Grupo Segyeong, Jang Hyun-u, ninguém na família ousava lhe dar broncas. Até mesmo o diretor Jang Hyun-u, que se preocupava com o irmão mais novo inconsequente, passara a ligar com menos frequência.
Sem ninguém para contê-lo, suas ambições cresciam. O promotor Jang Jin-woo se perguntava até onde conseguiria subir por conta própria.
Quando seria o momento em que a dura realidade — a de que o mundo não era tão fácil quanto ele pensava — finalmente se aplicaria a ele?
Não era particularmente difícil. Tudo o que precisava fazer era refrear seus desejos. Cada vez que os outros falhavam em controlar os seus e cometiam erros, ele subia mais um degrau. Era um homem egoísta, indiferente às opiniões ou ao afeto alheio. Esse vazio mantinha seu julgamento afiado e objetivo.
Ele obtinha o que queria rapidamente e descartava com a mesma velocidade. Perdia o interesse pelo que já possuía. Conquistar o atraía mais do que acumular.
E até agora, tudo fora fácil demais.
No momento em que entrou no táxi que o aguardava, seu telefone tocou. O número não estava salvo, mas ele já sabia de quem se tratava.
— Aqui é Jang Jin-woo.
— Aqui é Choi Hyung-il. Tudo bem falar?
O promotor Jang Jin-woo olhou para o motorista de táxi segurando o volante.
— Sim, pode falar.
— Mandei alguns homens ao apartamento de Kim Do-jin, mas o item não está lá.
Choi Hyung-il foi direto ao ponto, sua franqueza um pouco irritante. Rápido, ao menos.
— Já checaram? Que pena. Me disseram que estaria lá.
O promotor Jang Jin-woo respondeu com calma, mas sua expressão o traiu. No fundo, ele esperava que encontrassem a amostra. Precisavam do item para engrenar as coisas de vez.
Se o outro lado fizesse uma bagunça de verdade, ele teria motivos para uma denúncia formal. Não podia continuar juntando as peças com base em meras suposições para sempre.
Além disso, havia uma condição, por mais vazia que fosse, já estabelecida nas negociações deles. A esperança absurda de uma promoção acelerada e inesperada ainda pairava. Mas do jeito que as coisas estavam se desenrolando, o progresso seria lento.
— Eu já estava começando a achar que você estava me enrolando, mas felizmente encontramos outra coisa lá. Não parece que você me preparou uma armadilha, então acho que nossa confiança continua intacta.
— Posso perguntar o que encontraram?
— Dinheiro.
— Dinheiro?
O motorista olhou para ele pelo retrovisor e rapidamente desviou o olhar quando os olhos deles se cruzaram.
— Parte do adiantamento que enviamos a ele. Os números de série batiam, então recuperamos para o tesouro nacional. De qualquer forma, obrigado pela cooperação. Me avise se conseguir mais informações. Parece que as coisas estão ficando tensas por aí também. Se cuide.
— Posso perguntar por que você está tão desesperado para encontrar esse item?
Ele não esperava uma resposta honesta, mas queria testar a reação. A resposta de Choi Hyung-il foi inesperadamente cínica.
— Bem… não sou eu que estou procurando. Ordens de cima. Quando mandam pular, a gente pula. O que mais pessoas como nós podem fazer?
O Serviço Nacional de Inteligência estava sob o controle direto do presidente. Então, quando Choi Hyung-il mencionou “de cima”, referia-se à Casa Azul. Era mais ou menos o que o promotor Jang Jin-woo suspeitara.
— Mais uma coisa. Por que você ainda está pagando a pensão daquele traidor? Qual é a jogada?
Se um agente secreto desgraçado ainda estava sendo cuidado, provavelmente significava que sua traição não fora voluntária. Em outras palavras, o Estado havia ordenado.
Um suspiro fraco veio através do receptor. Não era de acusação, apenas de cansaço. O promotor Jang Jin-woo percebeu que Choi Hyung-il, o primeiro vice-diretor, estava cansado de fazer coisas que não queria.
— Vocês, promotores, nunca sabem quando deixar as coisas passarem. O quê, você e o Marvin estão ficando próximos? Vocês dois pareciam bem íntimos. Por que você foi àquela exposição médica, afinal? Ele disse que estava doente e você foi cuidar dele?
O promotor Jang Jin-woo deu uma risada sem humor.
— Se você está me vigiando, vou abrir uma reclamação formal.
Ele protestou em um tom que não tinha nada de ameaçador. Então, ele vinha sendo seguido. Sua decisão de ir ao lançamento do livro e se encontrar com o ex-Vice-Promotor-Geral Byun Jeong-hoon fora uma boa jogada. Para quem estivesse de fora, pareceria um simples networking entre promotores.
— Vamos comer algo em breve. Precisamos resolver a situação do Marvin também. Não é algo para discutir pelo telefone. De qualquer forma, vou desligar.
Choi Hyung-il encerrou a chamada abruptamente. O táxi já havia entrado na avenida principal.
Resolver a situação do Marvin? Ele não gostou do som daquilo. Não era como se Marvin fosse um fugitivo que precisavam rastrear. Não cabia a ele decidir a qual lugar pertencia?
O promotor Jang Jin-woo franziu a testa e abriu uma mensagem no celular. Era do gerente do Hotel Daegyeong, enviada às 9 horas da manhã.
“Recebi as chaves do carro e acabei de sair. Entro em contato novamente na terça-feira.”
Marvin saíra cedo naquela manhã como se estivesse fugindo. Claro, o promotor Jang Jin-woo não pedira para ele ficar, então fora escolha dele.
Aquele não era um terreno desconhecido. Muitas pessoas agiam de forma diferente depois de se deitarem com ele. Ele entendia por que ficavam na defensiva, mas essa sensibilidade o irritava.
Essa era parte da razão pela qual ele evitara relacionamentos por tanto tempo. Ele simplesmente não tinha interesse no motivo pelo qual os outros sofriam, então confissões e términos o deixavam indiferente.
E, no entanto, ele se pegava querendo repetir a experiência com Marvin. Suas reações honestas eram revigorantes, e o sexo fora melhor do que o esperado, muito diferente de seus encontros passados. Não parecera a típica dinâmica alfa-ômega, mas sim… apenas duas pessoas aproveitando uma à outra.
De repente, o telefone em sua mão tocou novamente. O leve sorriso que ensaiava em seus lábios desapareceu no mesmo instante.
— Sim, aqui é Jang Jin-woo.
— Olá, Promotor. Aqui é do tribunal. Estamos revisando a lista de presenças que o senhor reenviou para o julgamento agendado para o dia 7…
Conforme a realidade o puxava de volta, as cenas vívidas que vinham passando em sua mente evaporaram instantaneamente.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello