Capítulo 76
A tempestade do dia anterior deixara as ruas em uma verdadeira bagunça. Se alguém pisasse no lugar errado, a água espirrava em todas as direções, por isso, todos caminhavam com cuidado, mantendo os olhos no chão.
O jovem que acabara de sair da delegacia não era exceção. Ele passou a mão pelo queixo coberto por uma barba por fazer e desviou das poças com passos longos e desiguais.
Segurando o telefone, parecia estar procurando algo. Dez minutos depois, chegou a uma lanchonete de fast-food. Pediu imediatamente dois hambúrgueres e uma cola. Assim que se sentou, desembalou um dos hambúrgueres com uma das mãos e fez uma ligação.
— Acabei de ser liberado. É. Haah…
Ele apoiou o cotovelo na borda da cadeira, visivelmente irritado. Puxou o cabelo agora desgrenhado para trás e continuou a chamada. Sua garganta devia estar seca. Ele abriu a tampa da bebida e tomou um gole longo direto do copo. Quando estava prestes a dar uma mordida no hambúrguer, pausou e respondeu à pessoa do outro lado da linha.
— Não, nós também não imaginávamos que eles estivessem tão assustados. Você nos disse para manter as coisas naturais e evitar suspeitas. Por que você não conversa com o líder da equipe de novo?
Passara pouco do horário do almoço, então o restaurante não estava lotado. No entanto, conforme sua voz aumentava, as pessoas próximas começaram a olhar na sua direção. Percebendo isso, o jovem baixou ligeiramente o tom e virou as costas.
— É. Eu só disse que estava deprimido por não conseguir um emprego e fui para as montanhas. Eles não pressionaram mais. De qualquer forma, não há provas. Mas, que inferno, a polícia apareceu ontem com aquele desgraçado. Aquele que fez um buraco na minha cara.
Ele esfregou a cicatriz na bochecha, continuando a praguejar.
— Meu Deus, eu nunca mais queria ver aquele cara… O quê, eles estão todos conectados? Que merda… soldado aposentado o cacete. Para mim, ele parecia na ativa.
Ele tomou outro gole de cola. Frustrado, mastigou o gelo ruidosamente entre os dentes.
— Não podemos parar de pegar trabalhos daquela mulher? Continuo recebendo missões como essa e agora meu rosto está ficando conhecido.
Ele pressionou a mão contra a testa franzida. As reclamações continuaram enquanto a ligação se arrastava. O jovem tinha apenas uma exigência: mais dinheiro. O trabalho estava ficando mais difícil e ele queria mais verbas operacionais. Mas o outro lado não parecia ceder, e seus palavrões escalaram.
O hambúrguer intocado em sua mão permanecia inteiro. Toda vez que ele tentava dar uma mordida, a pessoa na linha dizia algo irritante e ele precisava rebater. No fim, a chamada terminou sem nenhum progresso. O jovem jogou o hambúrguer na bandeja e resmungou um xingamento baixo.
— Puta blue ocean de merda…
Ele se reclinou na cadeira, lembrando-se da promessa que o fisgaria dois anos atrás. Um idoso sentado em diagonal do outro lado olhou de relance. Os palavrões tinham sido altos demais. O jovem virou o resto da cola em uma tentativa de esfriar o próprio temperamento.
De repente, a entrada do restaurante ficou barulhenta. Um grupo de estudantes do ensino médio, provavelmente de uma escola próxima, entrou apressado. Uma fila se formou rapidamente nos caixas eletrônicos.
— Ei, peguem os lugares primeiro!
Mochilas começaram a pousar sobre as mesas vazias. Duas garotas reivindicaram a mesa à frente dele. Pelo visto, o plano de comer seu almoço tranquilamente fora por água abaixo. Ele olhou para elas com uma expressão incomodada.
Justo naquele momento, a porta se abriu novamente. Desta vez, um homem entrou.
Vestindo uma jaqueta escura e um boné de beisebol abaixado, o homem não pediu nada e caminhou direto para o interior. O olhar do jovem naturalmente o seguiu. O homem abriu caminho com calma pelo caos dos estudantes que corriam e jogavam bolsas para todos os lados, indo em direção à mesa do jovem. Sem dizer uma palavra, sentou-se em frente a ele.
— ……
Um lampejo de inquietação cruzou a expressão antes aborrecida do jovem. Ele não parecia feliz em vê-lo, mas também não o expulsou. Imaginou que o cara pudesse aparecer — mas não tão rápido.
O homem falou primeiro.
— É um alívio. Eu estava um pouco preocupado que você fosse a um restaurante coreano tradicional ou algo assim.
Era uma coisa estranha de se dizer, mas o jovem entendeu. Ele gostava do barulho. Ninguém ouviria o que falassem ali. Os estudantes estavam ocupados demais tagarelando entre si.
— Você é surpreendentemente civilizado. Achei que iria me estrangular no banheiro ou algo do tipo.
O jovem bateu o copo de cola vazio na mesa e olhou para ele. Os olhos bem desenhados do homem se curvaram levemente, como se estivesse divertido com a piada.
Até mesmo ontem, ele notava como o sujeito era bonito. Não sabia o nome dele. Quando o alvo lhe fora designado, tudo o que lhe disseram era que o homem era um soldado aposentado das forças especiais. Subestimou com base nisso e pagou o preço. Se a seringa tivesse perfurado apenas alguns centímetros mais alto, ele poderia ter ficado cego. Se fora sorte ou misericórdia, ele não saberia dizer.
— Claro, essa teria sido a abordagem mais eficaz. Mas prefiro resolver isso pacificamente, se possível. Se isso não funcionar, farei apenas o que faço normalmente.
Os olhos do homem, ocultos sob a sombra do boné, brilhavam com uma intensidade calma. Estava claro que ele estava pronto para usar a força, se necessário.
— Então não vamos escalar as coisas. Eu também não estou a fim de brigar agora. Especialmente não com todas essas crianças ao redor.
O jovem apoiou o queixo na mão e mexeu no hambúrguer. Sinceramente, não achava que conseguiria vencer em 1×1. E não ia proteger o segredo do ontem por lealdade, não pela quantia que estava recebendo.
— Aonde você é filiado?
O homem perguntou.
— Uma empresa de segurança privada. Não posso dizer o nome.
— Uma PMC ilegal, presumo.
O jovem riu de forma sem jeito. O cara claramente entendia do assunto.
— Nós temos licença, mas quase não pegamos trabalhos. Clientes coreanos não contratam capangas hoje em dia. Então me juntei a alguns antigos contatos, mas… é. Nada demais.
Não havia sentido em esconder. O jovem entregou seu hambúrguer ainda embalado.
— Quer?
— Onde você fez seu treinamento?
O homem nem sequer olhou para o hambúrguer.
“Não está interessado em bancar o simpático, pelo visto.” O jovem desembalou o hambúrguer ele mesmo e deu uma mordida com uma cara de “tanto faz”.
— Servi na 11ª Brigada Aerotransportada. Fiz algumas missões no exterior. Após a baixa, trabalhei como mercenário em São Petersburgo. Mas eu era de segundo escalão. Mal vi ação. Fui porque ouvi dizer que havia demanda por quem falava coreano por causa da Coreia do Norte. Mas não deu em nada, então voltei.
Ele falava entre as mastigadas, explicando sua trajetória casualmente.
— Se você chegou à unidade aerotransportada, deve ter recebido boas propostas aqui. Por que ir para a Rússia?
— Eu gosto de viver no exterior. Paga melhor também. Se você fica aqui, eles só querem que você permaneça no exército para sempre. Originalmente, eu queria rodar por aí e ganhar uma insígnia Raven, mas reprovei no segundo teste físico. Aparentemente, a menos que você seja um Alfa, mal tem uma chance. Disseram que não há Betas nas linhas de frente.
Com isso, o homem ergueu uma sobrancelha.
— Há alguns.
Os olhos do jovem oscilaram. Ele acabara de confirmar o que suspeitava sobre a bagagem do homem e sentiu uma onda de satisfação.
“Eu sabia. Aquela postura não veio do nada.”
Mas ele não planejava se intrometer mais. Naquele ramo, as pessoas respeitavam limites não ditos. O homem também devia saber disso, oferecendo apenas o suficiente para dar uma pista de suas origens.
— Por que vocês sequestraram Oh Jae-young?
À palavra “sequestraram”, o jovem olhou ao redor. Ninguém estava prestando atenção neles. Ele suspirou e deixou o hambúrguer sobre a mesa.
— A verdade é que ele veio até nós por conta própria. Aquele local era apenas o ponto de encontro. O cara é um viciado. Um junkie de Smurf.
O homem não disse nada, apenas escutou.
— O cliente prometeu drogas a ele. Mas, para consegui-las, ele teria que ir para algum centro de pesquisa por algumas semanas. Achamos que estava tudo combinado, mas de repente ele disse que não ia mais. Então ligamos para o cliente. Eles disseram que não. Tínhamos que levá-lo. A primeira fase já estava em andamento e tinha que ser ele. Então assustamos ele um pouco. Foi só isso.
Se tivessem mandado abduzi-lo desde o início, teria sido mais fácil. Tentar ser humano só deixou as coisas confusas. O trabalho em si parecia nojento. Até mesmo o encontro naquele local na montanha, claramente parte de algo obscuro, não era o tipo de trabalho deles.
— De qualquer forma, nós o tratamos o mais decentemente que pudemos. Deixamos que ele fizesse uma ligação para o parceiro dele, por isso. Mas espere, aquele cara era mesmo o namorado dele? Quais eram as chances? Eu verifiquei o telefone dele e o contato estava salvo como “Sexy Baby” com corações de ambos os lados.
A expressão do homem escureceu pela primeira vez. Ele até soltou um breve suspiro, mas manteve a voz firme.
— E onde ele está agora?
O jovem ergueu o queixo, com os lábios se contraindo como se fingisse pensar. “Sei lá”, respondeu ele de forma vaga, e os olhos do homem se afiaram instantaneamente.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello