Capítulo 62
— Quando um ciclo de heat se aproxima, partículas de feromônio se misturam com a respiração emitida por aqueles que possuem características. Normalmente, as pessoas sentem o cheiro, mas eu percebo de forma diferente. É semelhante a reconhecer uma certa atmosfera. Então, se o aroma é forte ou fraco, não importa muito para mim.
— É porque você é um portador de características nato?
— Foi o que ouvi. Quando eu era jovem, achava isso fascinante e divertido, mas, à medida que fui envelhecendo, tornou-se cada vez mais incômodo.
Ele reclinou-se profundamente em sua cadeira, como um herói lamentando o superpoder indesejado que havia adquirido:
— Lembra daquele velho filme de Hollywood com uma premissa semelhante? Sobre um homem que conseguia ouvir os pensamentos íntimos das mulheres? No começo, ele estava radiante, correndo atrás de uma e de outra, mas, no fim, não conseguia nem pisar fora de casa. As ruas estavam inundadas de vozes que ele não queria ouvir. Qualquer coisa que você aprende contra a sua vontade traz miséria. É apenas informação inútil.
Tendo compartilhado inadvertidamente uma curiosidade desnecessária, Marvin pareceu ligeiramente constrangido:
— Então, a primeira vez que você reconheceu minha característica, foi na verdade por causa do meu ciclo de heat.
Jang Jin-woo apenas ergueu o canto da boca sem dizer uma palavra. Era uma expressão estranhamente sugestiva, como se dissesse: “Se é nisso que você quer acreditar, tudo bem.” Marvin não sabia a verdade, mas decidiu não indagar mais.
O que importava?
Como Jin-woo havia identificado sua característica já não tinha mais qualquer importância. Independentemente de como começara, estar vinculado a ele acabara sendo algo bom. Caso contrário, Marvin estaria fervendo vivo em uma panela sem nem perceber que a água estava esquentando. A vida de um peão descartado era imprevisível.
Marvin se levantou silenciosamente. Quando abriu a porta, um investigador conduziu alguém que esperava do lado de fora para o escritório de Jin-woo. Afastando-se como uma peça substituível, Marvin deixou a promotoria bem depois do anoitecer.
Na noite seguinte, Marvin estava sentado no escritório do hotel, cumprimentando um visitante indesejado que não via há algum tempo. Uma leve dor de cabeça, febre baixa e um enjoo moderado haviam se instalado.
Ele pensara que os sintomas haviam mudado, mas talvez não.
Claro, se tivesse que escolher entre desejo sexual e dor, esta última era preferível. Ao menos dores de cabeça podiam ser tratadas com analgésicos. Não havia remédio para a luxúria. Ele já tinha supressores em mãos. Poderia tomá-los amanhã à tarde ou, no mais tardar, antes de dormir.
— Vamos sair agora?
Oh Jae-young, que acabara de começar seu turno, colocou a cabeça para dentro pela porta do escritório. Eles haviam combinado de jantar juntos hoje. Ele usava um cachecol azul-marinho e um quepe preto de estilo militar. Embora costumasse se vestir bem, o traje de hoje parecia excessivo.
— Sim, vamos.
Marvin levantou seu corpo pesado e deu um passo para fora. No caminho para um restaurante de miúdos grelhados perto do hotel, cruzaram com alguns membros da equipe de apresentações. Surpresos com a parceria inesperada, eles se juntaram ao grupo, curiosos.
Antes que Marvin percebesse, a reunião havia se transformado em um jantar de equipe completo, descarrilando totalmente seu plano de sondar sutilmente Oh Jae-young sobre o medicamento de manifestação.
— Ah, você não sabia? O Presidente Yang era mesmo alguém e tanto naquela época. Quando ele assumiu o Daegyeong Hotel, foi um negócio todo em dinheiro vivo. A conta bancária dele era recheada…
— Ei, não foi ele o cara que vendeu os próprios artistas e fugiu para cá? Um grande figurão.
Histórias sobre o passado de Yang Jin-man chiavam ao lado dos miúdos grelhados. Antes do ramo hoteleiro, ele dirigira uma empresa de entretenimento que colapsou após se envolver em um escândalo de favores sexuais para políticos. Embora vários políticos tenham sido indiciados, o próprio Presidente Yang saiu ileso desde o início.
— Aquele garoto que morreu naquela época, eu fiz uma audição com ele uma vez. A dança dele era só razoável, mas, caramba, o rosto dele era irreal. Dá para saber com um olhar que ele era um Omêga. Mas, porra, que choque. Aquilo não foi praticamente um experimento humano? Mais parecido com tortura do que com agressão.
O caso havia terminado com o suicídio do idol Omêga que o expusera primeiro. Nenhum dos implicados no escândalo foi preso. Apenas o empresário, que testemunhara a favor do idol, foi preso por difamação.
E o antigo chefe deles? Ele descera para o Condado de Oseong e comprara o Daegyeong Hotel em dinheiro vivo. Essa era a história.
— O Presidente Yang tem contatos. Naquela época, ele fez acordos com os escalões superiores. Fique quieto e eles te deixam ir embora. Desgraçado do caralho.
Marvin suspeitava que o Vice-Diretor Choi Hyeong-il estivesse envolvido em algum ponto dessa bagunça. Embora o NIS raramente interferisse na política interna, não era algo inédito. Provavelmente, essa conexão era a razão pela qual Marvin fora enviado para cá.
Yang Jin-man era o epítome do interesse próprio, não se importando com nada além do próprio ganho. Homens assim eram facilmente comprados. Dada a própria profissão de Marvin, vivendo de informações e traições, ele não podia condenar o Presidente Yang abertamente. Ele simplesmente escutava em silêncio, aliviando sua consciência do único modo que podia.
— Ei, por que não tem nenhum segurança no hotel hoje?
A pergunta de alguém cortou abruptamente o desabafo sem fim.
— Ah, é mesmo? Aconteceu alguma coisa na Dongyang?
Marvin olhou para cima. A pessoa ao seu lado, mastigando miúdos, respondeu:
— Não foi hoje que o grande chefe deles da China chegou? Provavelmente convocaram todo mundo.
— Ah, então foi por isso que o Gerente Kim não foi trabalhar lá hoje?
Oh Jae-young naturalmente se virou para Marvin em busca de confirmação. Sem saber desse acontecimento, Marvin não tinha resposta. Sua ausência na Dongyang Liquor era simplesmente porque ele não precisava mais ir até lá.
— O Diretor Heo devia estar se borrando de medo, correndo para lá. Mas por que essa visita repentina?
— Faço ideia. Eles têm negócios obscuros demais. Ah, você viu o Cha Kyung-soo na TV? Caramba, quase não o reconheci.
Uma conversa leve fluiu enquanto o assunto mudava para outros tópicos. Mas Marvin sentiu uma apreensão repentina. O grande chefe era aquele coreano-chinês que Jin-woo mencionara, Tae-gwan? Embora o aparecimento do figurão pudesse ser algo bom, também acendia alertas.
Naquele momento, como se fosse combinado, seu telefone tocou. A expressão de Marvin enrijeceu quando viu quem chamava.
— Com licença, preciso atender a isto.
— Sim, vá em frente.
Ele saiu apressadamente da mesa e deu um passo para fora:
— Alô?
A voz do Diretor Heo, sussurrada e tensa, veio através da linha:
— Gerente Kim, temos um problema. Não sei se o grande chefe ficou sabendo de algo ou o quê, mas ele enviou de repente o seu hyungnim, o Diretor Jo. Ele disse que vai entrevistar os candidatos pessoalmente. Porra, venha para cá agora.
Marvin franziu a testa, confuso:
— Agora? Pensei que fosse na próxima semana.
— Faço ideia. Ele disse que vai voar de volta amanhã de manhã, então estão trazendo os candidatos hoje à noite. Apenas mostre o seu rosto, é só isso. Não se preocupe. O Diretor Jo tem modos, ele não vai forçar nada. Na verdade, isso é até melhor. O sujeito original é um tarado nojento.
Do que diabos ele estava falando? Forçar o quê? Aquela “entrevista” era algo do tipo? O pensamento era desconcertante.
— Apenas venha para cá. Eles estão jantando em Hyeonyeon-dong agora, então venha até as 9. Apareça, pegue o negócio e vá embora. Entendeu?
— E se eu não for hoje à noite? Não posso pegar o remédio?
— Bom, você até poderia, mas vai demorar uma eternidade. Tem outros esperando também. Se eles pegarem primeiro, a próxima rodada não vai ser antes de um mês.
Marvin mordeu o lábio. Era uma oportunidade boa demais para deixar passar. Mas ele ainda não confiava totalmente em Heo.
— O quê? Por que está hesitando? Você não estava todo animado para conseguir isso? Ficou com medo? Ah, porra. Eu vou estar bem aí com você. Está tudo bem. Apenas venha pegar o negócio. Às 9, certo?
A ligação terminou abruptamente, mas a resposta era óbvia. Ele tinha que ir. Se fosse apenas para buscar o medicamento de manifestação, o risco era mínimo. Na verdade, poderia ser uma oportunidade melhor para identificar os nomes principais do esquema.
A única preocupação era seu estado atual. A aproximação de seu ciclo de heat o deixava indisposto. Se as coisas corressem bem, ótimo; mas, se dessem errado, poderia ser desastroso.
— Surgiu uma urgência. Eu preciso ir. Já paguei a conta.
— Hã? Ei, eu disse que ia te pagar um jantar!
Oh Jae-young levantou-se rapidamente da mesa, parecendo decepcionado enquanto tentava parar Marvin.
— Na próxima vez. Só nós dois.
Diante disso, o rosto de Oh Jae-young se iluminou, sua boca ficou entreaberta antes de ele tossir e se sentar novamente. Para as perguntas curiosas dos outros, ele respondeu alegremente: “É, nós estamos ficando próximos.” Marvin os deixou para trás e caminhou rapidamente para o carro estacionado no hotel.
Sentado no banco do motorista, ele tirou o supressor do bolso do casaco. Considerou tomá-lo antecipadamente, mas decidiu que era muito cedo. Com um curto suspiro, guardou a seringa de volta e ligou para Jang Jin-woo.
Sem resposta. Logo em uma hora dessas.
Com uma expressão sombria, Marvin checou o relógio. O local que Heo dera ficava em uma área residencial um pouco afastada do centro, a uns bons 20 minutos de carro. Não havia tempo a perder. Ele enviou rapidamente uma mensagem para Jin-woo:
“A Dongyang mudou o cronograma de repente. Estou indo pegar a mercadoria agora. Explico os detalhes depois. Se não ouvir de mim em uma hora, por favor, envie alguém para o endereço abaixo.”
Em seguida, pegou a arma no porta-luvas, enfiou-a na cintura e deu partida no carro.
Eram 20h35.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello