Capítulo 176
CAPÍTULO 176
Ouvia-se chinês por toda parte. Como eram poucos os estabelecimentos que exibiam suas razões sociais de forma visível, ele deu voltas duas ou três vezes pelo mesmo lugar.
Atravessando um corredor escuro entrelaçado como uma teia de aranha, chegou a um ponto mais aberto, onde finalmente pôde ver lojas com uma estrutura razoável de restaurantes e bancadas.
50, 51-1, 51-2…
E 52-1.
A placa onde se lia “Cheonghaesa” fora pendurada pelo antigo dono, pois não combinava em nada com a atmosfera da loja. Pelo contrário: um papel colado ao lado do pilar, onde estava escrito “Bebida” em letras garrafais, revelava a verdadeira identidade daquele lugar.
Marvin abriu a porta de vidro empoeirada e entrou. Podia-se sentir o cheiro sutil de cigarro mofado. Na vitrine, fileiras de bebidas destiladas trazidas da China se alinhavam e, abaixo delas, caixas e mais caixas de soju e cerveja coreanos estavam empilhadas. Um funcionário sentado diante de uma pequena mesa, descascando amendoins, cumprimentou-o em chinês, imaginando que fosse um cliente.
— Gostaria de falar com o dono daqui.
Ao ouvir aquele sotaque limpo de Seul surgir de repente, o funcionário hesitou com uma expressão surpresa. Observando as roupas e a aparência de Marvin de alto a baixo, perguntou quem ele era. Marvin respondeu que era um velho amigo.
— Amigo?
O funcionário juntou com a língua os resíduos de amendoim que restavam na boca e soltou um som de desconfiança. Bem nessa hora, a porta da loja se abriu e alguém entrou.
— Seu desgraçado, não falei para você não ficar fumando porra de cigarro no estabelecimento?
— Ah, chefe. Tem alguém procurando pelo senhor.
— Quem?
O homem que entrava irritado colocou a sacola plástica preta que carregava no chão e ergueu o rosto. Os três se olharam ao mesmo tempo. Em meio à atmosfera constrangedora, um silêncio momentâneo pairou, e o rosto do homem que reconheceu Marvin se contorceu aos poucos.
Marvin se aproximou dele.
— Há quanto tempo. Vamos conversar um pouco.
— …Puta que pariu!
Com profunda repulsa, o homem bateu a porta e saiu para o lado de fora novamente. Marvin o perseguiu no mesmo instante. Uma perseguição repentina começou pelo mercado. O homem fugia arremessando qualquer pilha de lixo acumulada ao lado, como se mandasse não ir atrás dele.
— Vamos conversar só um minuto, Diretor Hur! Senhor Hur Sang-je!
— Não vem atrás de mim, porra!
Ele corria com todas as forças, determinado a não ser pego por Marvin de jeito nenhum. Chegou a gritar para as pessoas que estavam no mercado para pegarem aquele sujeito. Todos olhavam curiosos para ver o que estava acontecendo, mas ninguém se meteu. Como não era algo raro de ver, imaginavam que fosse apenas mais alguém fugindo por calotear dinheiro e sendo pego.
Talvez por falta de ajudantes, a fuga do Diretor Hur não durou muito. Embora ofegasse com seu corpo robusto tentando despistar Marvin de qualquer maneira, não era o suficiente. No fim, ele teve o cacetete do pescoço agarrado por Marvin bem em frente ao beco das carnes cozidas, impregnado de cheiro de carne de porco.
— Por que está fugindo? É só uma conversa.
— Conversa o cacete, porra, me solta! Por que veio me procurar, por quê?!
Com uma expressão de puro nojo, o Diretor Hur sacudiu a mão de Marvin. Ser pego fora inevitável, mas reagiu com agressividade, como se quisesse impedir que ele voltasse a tocá-lo. Chegou até a pegar um pé de porco que estava na frente de uma loja e começou a balançá-lo de um lado para o outro.
— Não encosta em mim, é sério. Não vou mais me envolver com vocês de jeito nenhum. Cai fora daqui!
Marvin observava em silêncio o Diretor Hur tentar se livrar dele com gestos exagerados. Sabia que não seria bem-vindo, mas não imaginava que ele teria uma reação tão histérica. Diante daquela resposta desconcertante, resolveu esperar para ver.
— Só tenta pôr a mão em mim para você ver! Vou gritar. Este bairro é perigoso. Por mais que você seja o Chefe Kim, aqui arrancam seus órgãos sem ninguém saber, sabia? Ahn?
— Não é nada disso, então abaixe isso aí. É só uma conversa, por que tanta tempestade em copo d’água?
— Porra, e você acha que eu não ia fazer tempestade?! Quase fui para o outro mundo por me juntar a vocês! Faz pouco tempo que terminei minha reabilitação. Já caí fora dessa vida! Não sei de mais nada, não vi mais nada!
— Já entendi, então se acalme. Não vou encostar em você.
Marvin gesticulou com as duas mãos abertas para tranquilizá-lo. Ele próprio também preferia não usar a violência, se possível.
Bem nessa hora, a porta da casa de carnes deslizou e uma mulher de meia-idade saiu. Quando o olhar dos dois se voltou para ela, a mulher começou a despejar xingamentos sem mais nem menos, perguntando onde aqueles loucos pensavam que estavam para atrapalhar os negócios dos outros.
A voz era tão estridente que as bocas dos dois homens em impasse se fecharam naturalmente. Após esbravejar por um bom tempo, ela apontou para o pé de porco na mão do Diretor Hur e exigiu o pagamento. Embora a carne já tivesse sido toda retirada, restando apenas os ossos, alegou ser uma mercadoria à venda e pediu uma nota de dez mil won.
Graças a isso, a atmosfera se organizou até certo ponto. Não querendo arrumar confusão sem necessidade, Marvin tirou o dinheiro da carteira, pagou no lugar dele e fez um sinal com os olhos para o Diretor Hur ir embora. O Diretor Hur também soltou um palavrão baixinho e colocou o pé de porco de volta no lugar. Fazer mais escândalo só pioraria as coisas.
Os dois saíram do beco do mercado. Caminhando a um passo de distância com má vontade, o Diretor Hur acabou se resignando. No meio do caminho, ao ver Marvin prestes a entrar no lugar errado por não conhecer o trajeto, disse “Vem por aqui” e tomou a frente para guiar o caminho.
Dez minutos depois, os dois estavam sentados frente a frente em uma casa de espetinhos de cordeiro, com uma garrafa de baijiu servida sobre a mesa.
Sobre a grelha quadrada de carvão, a carne de cordeiro assava soltando fumaça. Marvin, que não tinha muito interesse nos petiscos, tomou um gole do destilado. O Diretor Hur estava com o corpo virado pela metade para fora da mesa.
— Quando você recebeu alta?
Marvin perguntou enquanto servia a bebida no copo dele.
— No início deste ano.
— Foi rápido. Ouvi dizer que você tinha virado um meio-cadáver.
— Como não tinha dinheiro, fiz tratamento ambulatorial. Satisfeito?
Marvin deu um sorriso irônico diante da resposta ríspida do Diretor Hur. Parecia ter guardado bastante rancor dele.
Afinal, ele tentara salvar a própria pele se juntando ao outro lado e acabou sendo eliminado da organização imediatamente. Se tivesse tido um pouco mais de azar, a esta altura teria virado comida de peixe. Ouviu dizer que, mesmo no hospital, ele confiara demais na promotoria e abrira a boca, sendo completamente expulso daquele mundo hoje em dia.
— Mas ainda assim você é habilidoso. Até abriu uma loja.
— O que aprendi a fazer foi roubar, então do que mais eu viveria? É tudo dívida.
— A Dongyang não fala nada? Imagino que haja conexões com eles por aqui.
Por ser uma organização que realizava vários negócios com a China, parecia improvável que ficassem parados ao saberem que o Diretor Hur abrira uma loja em Daerim-dong.
Com uma expressão amarga, o Diretor Hur pegou o copo de soju. Puxando o ar pelo nariz, como se fosse sem jeito falar sobre aquilo com a própria boca, respondeu:
— Eles faliram de vez. Depois que o Chefão se foi daquele jeito, o Diretor Jo fugiu e os caras de baixo se dispersaram todos. Mas disseram que um tal de Jung-bum, um garoto que o Diretor Jo andava para lá e para cá, fugiu levando o dinheiro da organização. Hoje em dia, se não pagar essa molecada, eles não vivem na organização. Lealdade não existe mais. Foram todos para outros lugares, oras.
— Foi mesmo o Diretor Jo quem matou o Tae-gwan?
— Porra, por que está perguntando isso para mim?
O Diretor Hur virou o copo de soju de uma vez só, fazendo um som áspero na garganta. Em seguida, pegou um espetinho de cordeiro que chiava na grelha. Marvin apenas assentiu em silêncio, mexendo no copo à sua frente.
— É verdade. Então eu gostaria de perguntar diretamente a ele. Onde ele está agora?
— Lá vem você de novo. Eu não me meto mais com vocês. Mande a polícia pegar. Eu não sei de nada.
O Diretor Hur contorceu o rosto tomado por profundo desgosto. Mudar a posição do corpo ainda mais de lado fez com que ele ficasse praticamente sentado de viés na cadeira.
— Vim aqui justamente porque não posso fazer isso. Me conte. É que eu também quero perguntar uma coisa ao Diretor Jo.
— Perguntar o quê? Já não acabou tudo? Até a promotoria tirou o corpo fora. É por isso que pergunto: para que arrumar uma briga que nem tinha como vencer desde o início? Só serviu para estragar o negócio dos outros que estava indo muito bem. O que é isso? Agiram como se fossem julgar o governo… O que tem demais em pegar um único filho do presidente?
O Diretor Hur despejou suas frustrações.
Ele tinha razão. Pegar um único Hong Kyung-wook não era grande coisa.
Marvin ostentou um sorriso ambíguo e encheu o copo de bebida.
— É verdade. Da sua perspectiva, Diretor Hur, você pode dizer isso. Afinal, o que você sofreu foi grande demais comparado ao que fez. Seu corpo ficou todo arruinado. Onde dói mais? Quando chove, fica dando pontadas?
Diante da atitude de Marvin, que de repente saíra em sua defesa, o Diretor Hur lançou-lhe um olhar desconfiado, perguntando-se qual seria a intenção dele. Porém, Marvin apenas deu de ombros e inclinou o copo.
— Como eu também sou alguém que ganha a vida usando o corpo… sei que, quando ele se estraga de vez, vira uma dor de cabeça para o resto da vida.
O silêncio pairou após as palavras de Marvin, murmuradas como se falasse sozinho. O Diretor Hur apenas esvaziou o copo em silêncio. Em seguida, assoprou um espetinho de cordeiro bem assado, colocou-o na boca e mastigou. Depois de comer um inteiro, quebrou o silêncio de repente:
— Aqui em mim, as costelas foram todas para o espaço. A mandíbula nem fecha direito. Mal consigo comer, sabe? Quando vou fazer besteira, não consigo nem chupar uma vagina. A saliva fica escorrendo todinha.
— Que barra.
Marvin assentiu com uma expressão exagerada e concordou com ele. Continuou enchendo o copo dele como se o incentivasse a prosseguir. Foi quando o Diretor Hur levantou a camisa de vez e mostrou as costas.
— Está vendo isso aqui? A pele sofreu necrose total. Naquela época, aqueles caras ficaram me queimando com ferro em escala industrial. Dói pra caralho, sabia? O rosto também ficou assim, mas fiz enxerto de pele, então até que dá para encarar. Olha só aqui.
Ele aproximou a bochecha e o queixo, mostrando a Marvin as marcas sutis do enxerto que restaram. Ouvira dizer que o rosto dele fora esmagado, mas parecia que não fora por pancada, e sim derretido por queimadura. Dava para entender o motivo de ele tremer de pavor e querer manter distância de Marvin.
— O meu foi aqui.
Marvin, imitando o Diretor Hur, desabotoou de repente os botões da camisa e mostrou o peito. A cicatriz recente entre o esterno esquerdo e a lateral do corpo ficou exposta.
— A bala raspou perto do coração. Se estivesse só um pouco mais perto, eu teria morrido. Mas não pude nem ir ao hospital, e as sequelas foram brincadeira não.
— O que você está dizendo? Por que o Chefe Kim levaria um tiro?
O Diretor Hur piscou os olhos e olhou para Marvin. Seu corpo, que estava virado de lado, gradualmente voltou para a posição frontal, ficando completamente de frente para Marvin.
— Aconteceram umas coisas. As coisas se complicaram desgraçadamente.
Vendo Marvin sorrir de forma fraca, o Diretor Hur demonstrou uma expressão intrigada.
— Mas o quão complicado ficou para você não conseguir nem ir ao hospital? Aconteceu algum acidente? Onde você esteve esse tempo todo?
— Jo Won-dong.
— Ahn?
Diante do Diretor Hur, que fazia uma cara de quem pergunto onde diabos ficava aquilo, o copo foi preenchido novamente. Marvin deu um sorriso amargo e empurrou o copo. O Diretor Hur olhou de relance para baixo e esvaziou o copo rapidamente. Em seguida, aproximou a parte superior do corpo, como se pedisse para ele contar os detalhes.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello