Capítulo 175
CAPÍTULO 175
No dia seguinte, às 20h.
O entregador acomodou o pacote de hambúrgueres já embalados e deu partida na moto. O destino era um apartamento antigo e humilde nas proximidades. Estacionando o veículo ao lado do canteiro de flores perto da entrada, o entregador correu em direção ao elevador que estava prestes a fechar.
— Ah, muito obrigado.
O homem que estava lá dentro segurou a porta com calma. Ao conferir o endereço, viu que iam para o mesmo andar. Ganhou alguns segundos.
Assim que o elevador parou no 11º andar, o entregador saiu em disparada como uma mola e praticamente arremessou a sacola no chão. Em seguida, apressou-se em voltar e entrou de novo no elevador. Nesse meio-tempo, o homem caminhou pelo corredor. Vendo de relance, seu perfil era extremamente bonito, o que lhe causou surpresa enquanto a porta se fechava novamente.
Teve a impressão de que ele não morava naquele prédio, mas o que ele tinha a ver com isso? O entregador acelerou a moto em direção ao próximo destino.
O hambúrguer ficou por um longo tempo jogado no corredor frio. Apesar de o entregador ter tocado a campainha antes de ir embora, não houve reação do lado de dentro. O cliente parecia estar ocupado com outra coisa, pois o pacote permaneceu esquecido por bastante tempo.
Até que, finalmente, a porta se abriu. Junto com o barulho alto de um jogo, um braço robusto se esticou para fora e pegou a sacola. No exato instante em que ia retornar trazendo apenas o lanche, a porta do apartamento se escancarou de vez e o homem que pegava o hambúrguer caiu de costas no chão.
Num piscar de olhos, a porta foi trancada com firmeza novamente, e gritos impregnados de pavor vazaram para o corredor. Ouviam-se baques secos da cabeça batendo no assoalho de madeira e o som de algo se quebrando. Havia até berros implorando por socorro misturados ao barulho, mas ao redor tudo permanecia calmo e ninguém deu atenção.
A confusão logo cessou. Podia-se ouvir alguém chorando. Não por tristeza ou algo do tipo, mas sim um soluço convulsivo que saía por não conseguir suportar a dor física.
— Argh… Dói. Ah, porra… Porra.
Marvin olhava em silêncio para o homem jogado de bruços no chão da sala, chorando e babando. A cena do hambúrguer rolando pelo chão lembrava bastante aquela época.
“Ele gosta de hambúrguer de frango?”
Por causa do recheio exposto, a sala ficou imunda. O sangue nasal, a saliva e as lágrimas que o homem derramava também sujavam o chão abundantemente.
Ele já não parecia ter forças para contra-atacar. Agarrando o braço quebrado sem saber o que fazer, contorcia o corpo todo.
— Porra, dói demais. Ah, caramba… Mãe…
Marvin rangeu os dentes e se agachou em silêncio ao lado do rosto do homem que soluçava. Era aquele rosto mesmo. Não havia ido ao lugar errado.
— 15 de abril. Das cinco pessoas que estavam juntas no subsolo do V1 Hotel, me diga o nome de apenas uma. Afinal, todos os outros entregaram um por um.
— O quê? Argh…
O homem soltou um gemido involuntário. Tentava responder de qualquer jeito, mas a dor era tamanha que não conseguia raciocinar. Sentia que o osso do nariz também tinha afundado. Queria tocar, mas, com medo, não conseguia nem encostar a mão e apenas chorava alto. Ao mesmo tempo, sua respiração falhava.
Porra. É aquele desgraçado daquela época. Ouviu dizer que ele não tinha morrido, mas como não houve novidades por meses, baixou a guarda. Disseram que, se o deixasse escapar, ele o perseguiria até o fim do inferno, e sentir como se o ceifador da morte estivesse ali fez seu corpo tremer por inteiro. Para sobreviver, a única saída era entregar um nome.
— Ah, aquele… Kwon Yong-min, o cara que fez a revista corporal naquela hora.
— Esse aí já foi finalizado.
— Quê?
Com o rosto empanado de lágrimas, o homem apressou-se em dar outro nome:
— Ah, sim. Então… *Cough*, Kyung-jae, Park Kyung-jae…
— Esse morreu.
— O quê? Ele morreu?
Levou um susto tão grande que ficou de boca aberta. A atitude indiferente dele, como se estivesse apenas mandando lembranças, deixou-o ainda mais sem palavras.
Marvin olhou para o homem com uma expressão impassível. Em seu íntimo, emitia o veredito.
Pensando bem, todos os que se envolveram naquela luta não tinham grandes diferenças entre si. Afinal, eram apenas mercenários pagos para fazer o serviço, sem nenhum rancor pessoal envolvido. A única questão é que um sujeito chamado Park Kyung-jae teve muita coragem para esfaquear Woo Hyun-woo em vez de Marvin, enquanto este que estava deitado aqui simplesmente não esteve disposto a se dedicar tanto.
No entanto, a vida era exatamente assim: decidida por uma linha tênue. Por essa diferença mínima, Marvin sobreviveu e Woo Hyun-woo morreu. Por essa razão insignificante, Marvin viveu e Kim Ji-ah morreu.
Marvin estava assimilando a lógica do mundo à sua própria maneira.
— Snif… Não me mate. A gente só fez o que mandaram. Aquele desgraçado do Diretor Hong… *Cough*, aquele cara é um verdadeiro filho da puta. Eu… Eu posso testemunhar para você. Vou entregar tudo, dizendo que foi ele quem mandou. Aquele cara… *Sob*.
O homem se contorcia como se injustiçado, com o rosto coberto de lágrimas.
— Não precisa. Não vou levá-lo a julgamento.
— *Sob*… E-então?
Marvin não respondeu. Olhou para ele com uma expressão apática, como se dissesse que não era da conta dele.
— 15 de abril. Subsolo do V1 Hotel. Me dê um nome. Não me faça repetir a mesma coisa.
Com medo de que ele estivesse irritado, o homem apressou-se em soltar outro nome:
— L-Lee Kyung-oh.
Pelo visto, felizmente era um nome ainda válido. Um leve toque de interesse passou pelo rosto de Marvin.
— O número de telefone.
— Ahn? Ah, sim… *Sob*…
Com as mãos sujas de sangue, o homem puxou o celular às pressas. Sem conseguir mover um dos braços, vasculhou a lista com a mão trêmula até finalmente encontrar o número.
Marvin apenas escutava em silêncio os dígitos ditados com hesitação. Vendo que ele não anotava em lugar nenhum, o homem piscou os olhos e, de repente, um pensamento lhe veio à mente.
“Porra, ele decorou?”
Nisso, teve o braço quebrado pisado de novo e soltou um urro de dor. De tanto chorar, já nem saíam mais lágrimas.
— Por que está fazendo isso de repente… *Cough*… Faz tempo que não trabalho com o Pessoal de lá. Porra, eu caí fora, por que só agora… Argh…
Observando em silêncio o homem gritar desesperadamente, Marvin assentiu com a cabeça. Concordava com aquilo.
— Pois é. Teria sido bom se eu tivesse vindo mais rápido.
Com uma expressão de lamento, Marvin se levantou.
— É que faz pouco tempo que eu ressuscitei.
Sem demonstrar intenção de dar explicações detalhadas, Marvin foi ao banheiro e lavou as mãos. Limpou o sangue, ajeitou as roupas desalinhadas e voltou até o homem caído no chão.
— Olha para cá.
*Clique.* Tirou uma foto. Sem tempo para cobrir o rosto, a imagem expôs o estado trágico e ensanguentado exatamente como estava.
“Acabou? Para quem ele vai mandar isso?”
Embora apreensivo, o homem guardava uma esperança no fundo do peito. Seu olhar estava fixo nas mãos limpas de Marvin.
Conferindo a foto, Marvin guardou o celular de volta no bolso, curvou a cintura e olhou para o homem.
— Não tenho motivos para te matar agora. Afinal, não foi você quem esfaqueou o Hyun-woo. Mas, se você complicar as coisas, aí passarei a ter um motivo. Entendeu o que quero dizer?
— S-sim. Entendi. *Sob*… Vou ficar quieto. É sério.
Aquele homem era o Bicho-Papão. Não era um capanga de bairro, mas um verdadeiro ex-agente secreto cujo trabalho era matar pessoas. Não era algo que se resolveria chamando a polícia. O correto era abaixar a cabeça e não tentar nenhuma idiotice.
— Certo. Agora chame uma ambulância.
— S-sim. Obrigado. *Sob*.
Com o alívio de ter saído vivo, o homem desatou a chorar copiosamente mais uma vez. Deixando-o para trás, Marvin virou o corpo.
O tempo que permaneceu ali não passou de dez minutos.
Três dos cinco haviam sido resolvidos. Restavam dois, além daquele que fecharia a conta por último. Às suas costas, ouvia-se o choro do homem chamando a emergência pelo 119. Marvin ignorou o elevador e desceu pelas escadas.
Depois de ver sangue, sentiu fome. Marvin entrou em uma loja de conveniência perto da Estação Hoegi e comprou um lámen de copo e uma barra de chocolate.
Bem nessa hora, um grupo de estudantes que saíra do cursinho ocupava o espaço ao lado do micro-ondas comendo. Marvin colocou água quente no copo ao lado deles e passou os olhos pelas notícias do portal no celular. Logo, seu olhar ficou fixo em uma matéria. Havia a foto de um rosto que ele não queria ver.
[Sem respostas sobre candidatura, mas já em campanha com os cidadãos?]
Era uma matéria que usava diretamente uma foto postada no SNS pessoal de alguém. Recentemente, as aparições do chefe de gabinete Lim Sang-wook na mídia eram frequentes.
Marvin notou a ponta do terno no canto extremo da foto do chefe de gabinete. Observando a foto em silêncio, pesquisou no SNS todas as fotos postadas na mesma data.
Não tinha.
Aqui também não saiu.
Havia apenas uma foto em que um perfil passando podia ser visto de forma embaçada. Marvin ampliou bastante aquela parte e deixou o celular sobre a mesa.
Imerso em pensamentos por um instante, ele logo abriu a tampa do lámen. Colocou o macarrão no ponto certo para dentro da boca. No entanto, seu olhar continuava fixo na foto em que Jang Jin-woo aparecia.
“Só alguém do meu nível para reconhecer.”
Marvin resmungou mentalmente e engoliu o macarrão. Sentia certo orgulho sutil por ter encontrado mais um rastro do paradeiro dele.
Outras pessoas não saberiam. Ele era extremamente minucioso e nunca cometia erros. Talvez aquilo nem fosse um erro, mas sim um rastro fruto do desinteresse. E ele estava coletando esses rastros.
Ele estava aprontando alguma coisa. E ainda por cima jogando no outro time.
Marvin olhou para a silhueta fraca de Jang Jin-woo revelada na foto e pensou em suas intenções. Como não estava em posição de ir ao encontro dele, aquilo era o melhor que podia fazer.
Passou mais algumas notícias.
Matérias sobre Hong Kyung-wook, envolvido em manipulação de ações, injeções ilegais de drogas e até um escândalo de favores sexuais com um ex-idol, continuavam surgindo aos montes.
[Promotoria: “Não há como não denunciar”]
[Presidente economiza palavras: “Lamento ao povo”]
Quem teria vazado aquilo? Não fora ele. Afinal, a maior parte do conteúdo ele sequer conhecia.
Poucos lugares conseguiriam soltar tantas fontes de uma só vez. Ou era a oposição, ou a promotoria. Ou talvez ambos.
Hong Kyung-wook estava recluso. O partido governista, atingido por notícias ruins às vésperas da eleição, mantinha distância da Casa Azul, enquanto a oposição espalhava abertamente que um grande evento estava previsto para antes do feriado de Ano Novo Lunar. A certeza de que Jang Jin-woo estaria envolvido nisso vinha de seus passos recentes.
Aquele homem que parecia jamais ceder desmantelou a Equipe Especial de Investigação com as próprias mãos. Graças a isso, tornando-se o principal inimigo da oposição, ele orbitava ao redor de Lim Sang-wook sem que ninguém percebesse. Se alguém de fora olhasse, pareceria que ele estava se vendendo ao poder, mas o promotor Jang Jin-woo que ele conhecia não era uma pessoa tão medíocre.
Marvin tomou o caldo quente do lámen e abriu a embalagem da barra de chocolate. Deu uma mordida e olhou vagamente para fora da loja de conveniência. Então, murmurou sozinho:
— Até onde o senhor pretende ir?
Sem perceber, esfregou o pulso. Sentia pena da marca da marcação, que agora quase desaparecera a ponto de não ser vista.
No máximo mais um mês? O tempo de liberdade que ele lhe dera de presente estava chegando ao fim. O problema foi ter desperdiçado tempo demais involuntariamente, mas não havia o que fazer. Afinal, ele também era apenas um humano com um corpo que se desgastava com o uso.
Nisso, o celular colocado sobre a mesa acendeu.
[Mercado Hyundai de Daerim-dong, loja nº 52-1]
Marvin olhou em silêncio para a mensagem que surgiu na tela. O serviço que havia encomendado pagando em dinheiro tinha chegado. Olhando para o relógio, ainda eram 20h30. Como não era tão tarde, daria para resolver aquilo ainda hoje.
Como se estivesse reabastecendo o combustível, Marvin colocou o resto da barra de chocolate inteira na boca, sacudiu as mãos e se levantou da cadeira.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello