Capítulo 158
CAPÍTULO 158
— Está gostoso.
Diante do comentário de Jang Jin-woo, Kim Marvin mostrou uma leve expressão de alívio. Ele também parecia estar gostando, pois não parava de dar mordidas no x-burguer. Enquanto isso, o sol começava a se pôr. A luz do entardecer que se esgueirava entre os edifícios da frente tingia de um tom avermelhado a franja de Kim Marvin.
Pensando bem, o penteado dele tinha mudado. Quando trabalhava como gerente na Daegyeong, sempre usava a testa à mostra, mas desde que voltou da Suíça vinha usando a franja caída para baixo. Dava a ele um ar mais jovem, mas ele não gostava que ela cobrisse seus olhos. Embora parecesse que ele fazia isso de propósito para ocultar o rosto.
O momento de comer o hambúrguer acabou rápido. Para Jang Jin-woo, era a primeira refeição desde a manhã, então um hambúrguer duplo desapareceu num piscar de olhos. Amassou a embalagem vazia, colocou-a no saco de papel e tirou uma garrafa de água para beber.
Kim Marvin, ao seu lado, também tinha terminado o dele e estava limpando as mãos. De maneira natural, pegou o saco de papel que Jang Jin-woo tinha organizado, jogou os restos de lixo fora e perguntou:
— Está ocupado?
O rosto de Jang Jin-woo, que estava inclinado para o encosto, voltou-se para ele.
— Dá para levar. Ultimamente tenho dormido bem, então estou em boa forma.
Seus olhares se cruzaram e por um momento fez-se silêncio. Não havia como Kim Marvin não entender o significado daquelas palavras.
Kim Marvin esboço um leve sorriso e voltou a olhar para a frente.
— Fico feliz.
Uma vez que estavam marcados, não havia muito o que fazer. Instintivamente, seus corpos se sentiam mais confortáveis um com o outro, então quanto mais tempo passavam juntos, ou quanto mais estreito era o espaço compartilhado, mais seus traços se estabilizavam. E o resultado disso acabava sendo coisas como cochilos inesperados.
Terem adormecido juntos no apartamento de Jang Jin-woo alguns dias atrás tinha ocorrido pela mesma razão. Era quase ridículo que, depois de ficarem discutindo, terminassem dormindo profundamente como se nada tivesse acontecido. Nenhum dos dois mencionou isso diretamente, mas era fácil supor que, assim como um tinha melhorado sua condição, o outro também.
— Tem que voltar?
perguntou Kim Marvin, deixando claro que não pretendia interferir. Desta vez, Jang Jin-woo assentiu devagar.
— Às oito.
Kim Marvin olhou para o relógio e confirmou que ainda tinham aproximadamente uma hora.
Tirou o telefone e enviou uma mensagem. No mesmo instante, o telefone de Jang Jin-woo vibrou. Com uma das mãos no bolso do casaco, conferiu a mensagem de Kim Marvin e olhou para ele como quem pergunta o que aquilo significava.
— É um número que se acredita que o sunbae Do-jin tenha usado quando veio à Coreia no ano passado e no retrasado. Quero obter o histórico de chamadas.
— Então o hambúrguer era um suborno. Para que quer o histórico?
— Caso haja alguma conexão que eu não tenha identificado. Além disso, ultimamente tenho tido algum tempo livre, não há nada urgente para fazer. Do lado de Hong Gyeong-uk também não houve contato, e o escritório presidencial está cumprindo as condições como corresponde.
Kim Marvin afastou ligeiramente as pernas, apoiou os braços sobre as coxas e se inclinou para a frente. Conversava com Jang Jin-woo como se estivessem falando de coisas triviais, enquanto observava as pessoas que passavam.
— Que bom. Então é melhor descansar um pouco. Não é tão comum ter momentos tranquilos como este, não é?
— Não, não é.
Ele inspirou fundo.
— Por isso também parece um pouco estranho. Como não tenho cio nem nada, sinto que vivo como um beta normal.
— Não parece lhe agradar pouco.
— Para mim é um luxo.
Kim Marvin soltou uma leve risada e esfregou o queixo, guardando para si o que ia dizer a seguir. Seu olhar se estendeu para longe e permaneceu ali por um tempo. Era difícil saber até onde ia. Jang Jin-woo, que observava em silêncio a parte de trás da cabeça dele, perguntou:
— Se você tivesse nascido como uma pessoa comum, acha que teria sido melhor? Mesmo assim teria escolhido esse trabalho?
— Não sei. Eu gosto de trabalho físico, então provavelmente teria seguido um caminho parecido, mas… não acho que teria feito algo tão extremo.
Não estavam se olhando nos olhos, mas Jang Jin-woo sentia que já conhecia sua expressão.
Quando falava de si mesmo, sempre fingia naturalidade por costume. Mesmo agora, provavelmente estava escondendo qualquer gesto sério ou suavizando-o com um sorriso para não parecer afetado demais.
Antes, essa atitude lhe parecia interessante, mas agora o inquietava o que ele escondia por trás.
— Pode não ser algo que você queira ouvir, mas esse trabalho combina com você, Kim Marvin. Você tem capacidade para isso, então eu gostaria que, mesmo se você nascesse de novo, fizesse a mesma coisa.
Sabia bem que era algo que Kim Marvin tinha feito com orgulho. Não queria que, pelo modo como as coisas tinham terminado, ele negasse completamente sua vida passada.
Jang Jin-woo já tinha formado uma avaliação completa de Kim Marvin. Salvo pelo fato de que sua humanidade às vezes atrapalhava seu caminho, era, sem dúvida, um agente de elite que o governo não devia perder.
Talvez por isso sentisse cada vez mais o impulso de intervir na vida dele.
Era um homem que vivia de forma imprevisível. E querer interferir e meter a mão em alguém assim não era exatamente um bom sinal.
Ainda assim, esse desejo tão instintivo de querer possuir algo brilhante… não parecia algo a que alguém comum como ele pudesse resistir.
Inevitável.
Essa foi a conclusão a que Jang Jin-woo chegou. Decidiu definir assim a natureza desses sentimentos estranhos que ultimamente se estendiam em direção a Kim Marvin. E, claro, não tinha a menor intenção de resistir. Não havia razão para se esforçar em algo que claramente ia fracassar.
A luz do entardecer que tinha pousado sobre o cabelo de Kim Marvin se tornava cada vez mais intensa. Depois de um longo silêncio, Kim Marvin finalmente se endireitou e levantou o tronco. Olhou fixamente para Jang Jin-woo, sentado ao seu lado, e disse:
— Sabe de uma coisa?
Jang Jin-woo ergueu ligeiramente uma sobrancelha e sustentou o olhar dele em silêncio.
— Como o senhor não costuma ser alguém falso, tudo o que diz soa como uma verdade absoluta. Chega a ser bastante confortante.
Os lábios de Kim Marvin desenharam uma suave curva. Depois, com um olhar mais relaxado, inspirou o ar da tarde enquanto observava as pessoas caminhando pela rua.
Talvez, naquele momento, estivesse até sentindo uma leve afinidade com elas. Como se ele também estivesse se impregnando um pouco dessa vida de gente comum: encontrar alguém depois do trabalho, jantar juntos, compartilhar o cotidiano.
Jang Jin-woo, que o observava, de repente se deixou levar por um impulso. Sem cálculos nem segundas intenções, uma sinceridade sem filtros escapou de sua boca.
— Posso te beijar?
A cabeça de Kim Marvin, que tinha ficado rígida como se o tempo tivesse parado, virou-se lentamente para ele. No início abriu os olhos com surpresa, como se pensasse que tinha ouvido mal, mas ao ver que Jang Jin-woo não retirava o que disse, sua expressão se encheu de desconcertante espanto.
Aqui? Agora?
Essas perguntas pareciam cruzar sua mente uma atrás da outra enquanto movia os lábios, mas no fim só disse uma coisa:
— Por quê…?
Parecia que, para ele, a razão era mais importante do que o lugar ou o momento. E se era assim, Jang Jin-woo não tinha muito mais a dizer.
— Porque eu quero.
— …….
Ao ver que Kim Marvin continuava sem se mexer e apenas o olhava fixamente, Jang Jin-woo soltou uma risada.
— … Se eu disser isso, com certeza você não vai deixar.
Desviou ligeiramente o olhar e acrescentou uma desculpa em tom brincalhão.
— Se eu te beijar, acho que vou dormir muito bem esta noite. E até poderia trabalhar mais duro.
No fundo, estava dizendo que tudo aquilo era culpa dele. Era descarado, mas também havia nisso o desejo de que Kim Marvin aceitasse, fingindo-se de desentendido atrás dessa justificativa. No entanto, não parecia funcionar.
— Não precisa dar desculpas assim. Antes o senhor fazia isso sem pedir permissão.
Nos olhos de Kim Marvin, que oscilavam com complexidade, misturavam-se frieza e calor.
— É verdade. Naquela época eu não tinha nada a perder.
O eco desse “agora é diferente” pareceu ressoar em algum lugar.
Kim Marvin fechou a boca. Ao mesmo tempo, apertou com força o interior de suas bochechas e olhou para Jang Jin-woo com ressentimento. Por que suas bochechas, agora mais magras, pareciam se tingir de vermelho?
Jang Jin-woo sentiu o impulso de dissecar a mente dele. Queria saber que palavras tinham lhe vindo naquele instante, o que ele estava contendo.
Suas emoções se agitavam, e a marca da união em seu pulso ardia intensamente. Doía como uma queimadura, a pele formigava.
Mas não houve sorte.
Kim Marvin não se irritou nem discutiu. Simplesmente se levantou do assento. E sem olhar para trás, foi embora.
Jang Jin-woo, que ficou sozinho, esboçou um sorriso amargo. A sensação de ter sido rejeitado com o corpo todo era mais brutal do que tinha esperado, mas isso não significava que pudesse conter-se de dizer o que queria.
Repetiu em sua mente a palavra inevitável e ficou olhando na direção por onde Kim Marvin tinha ido. Mas já não havia rastro dele.
Não era a primeira vez que passava por algo assim, então já estava acostumado. O tempo que podia segurá-lo em suas mãos se tornava cada vez mais curto, e quando se dava conta, ele sempre desaparecia.
Sacudiu o sorriso carregado de um suspiro e olhou a hora. Já era momento de ir embora. A luz alaranjada do entardecer que caía sobre seu rosto inclinado para cima lhe pareceu surpreendentemente deslumbrante.
Nesse momento, viu que alguém caminhava em sua direção. Pensou que era uma ilusão, mas claramente era Kim Marvin, que se aproximava com o casaco esvoaçando. Ao contrário de antes, vinha meio passo mais rápido, arfando.
Antes que pudesse lhe perguntar o que acontecia, algo incrivelmente suave tocou seus lábios. A saliva e os feromônios do seu parceiro de marca, que deslizaram por sua língua, despertaram todos os sentidos que dormiam dentro do corpo de Jang Jin-woo.
— …….
Foi só um segundo, talvez dois, mas foi sem dúvida um beijo. Embora Kim Marvin tenha se separado em seguida e se virado novamente para desaparecer entre os pedestres como se nada tivesse acontecido, esse fato não podia ser negado.
Sua visão ficou turva. Era aquela hora em que nem mesmo um sábio antigo saberia distinguir entre um cão e um lobo. Jang Jin-woo tampouco pôde discernir em absoluto a intenção de Kim Marvin, então não teve outro jeito senão continuar sentado no banco, como cegado, durante um bom tempo.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello