Capítulo 153
CAPÍTULO 153
Há vários dias as nuvens pareciam inchar cada vez mais e, finalmente, hoje a chuva desabou. As gotas pesadas batiam com força contra o guarda-chuva. Fazia muito tempo que não caía um temporal daqueles.
Com o corpo esfriado pela umidade, Kim Marvin caminhou rapidamente em direção ao táxi que tinha chamado com antecedência. O guarda-chuva que havia pegado emprestado não cobria bem seus ombros, e as gotas caíam sem parar sobre seu casaco.
Taque.
Assim que a porta se fechou com esse som, o barulho da chuva batendo em seus ouvidos abafou. O taxista, que assistia a um vídeo no celular preso no suporte, desligou a tela rapidamente e deu partida no motor.
— Bem-vindo.
— Para Gwanghwamun.
— Certo.
Como se já soubesse o destino, ele colocou em funcionamento o GPS que já tinha deixado preparado. Teve que esperar um bom tempo, mas, por ser uma corrida longa, não se importava. Além disso, era um cliente que pagaria em dinheiro. Pensando que o trânsito poderia complicar por causa do tempo ruim, arrancou com o táxi sem demora.
No banco traseiro, Kim Marvin segurava alguns documentos de papel. Duas folhas tamanho A4, amassadas e completamente encharcadas. Havia saído com tanta pressa que não conseguiu guardá-las direito. Dobrou-as ao meio e as enfiou bem fundo no bolso interno, como se nunca mais fosse tirá-las de lá. Em seguida, virou o olhar para a janela.
Através do vidro coberto pela chuva, dava para ver a placa “Centro Ômega Sejong”. Com a partida do táxi, o edifício logo desapareceu de sua vista, mas o olhar de Kim Marvin permaneceu fixo naquele ponto, como se ainda estivesse vendo seu rastro.
Em silêncio, repassou a conversa de dez minutos atrás.
“Naquela época, bem… isso aqui ficava tão cheio que não cabia nem mais um pé. O inibidor Tipo O era caro, sabe? Agora você vai ao hospital e te dão de graça, mas naquele tempo não existia nada disso. Havia muitos ômegas que não podiam tomar o remédio, tinham acidentes, e quando se davam conta já estavam grávidos e vinham para cá. Nos momentos mais movimentados, cheguei a fazer dezenas de partos por dia.”
O funcionário que estava sozinho na secretaria parecia estar entediado. Em vez de responder diretamente às perguntas, deixou-se levar pela nostalgia e começou a falar disso e daquilo.
“Também havia bastantes casos de ômegas que nem sequer estavam registrados no centro e apareciam de repente, segurando a barriga. Como naquela época a aceitação social não era boa, aguantavam o máximo que podiam até não aguentar mais e vir. Mas o que íamos fazer? Tínhamos que atendê-los. Quando essas pessoas davam à luz, nós tínhamos que contatar urgentemente abrigos infantis do país inteiro. Perguntávamos se havia algum lugar disponível e os mandávamos para lá sem mais nem menos.”
Aquela informação nua e crua, acompanhada de uma leve compaixão cravou-se de forma violenta na mente de Kim Marvin. Felizmente, a loucura daquela época, que funcionava como um reino de reprodução descontrolada, já tinha terminado. Segundo a explicação final do funcionário, hoje em dia as gravidezes por acidentes durante o cio eram raras, e mal restavam algumas poucas mães registradas no centro.
O funcionário devolveu os documentos a Kim Marvin e bateu com a ponta da caneta no número escrito no canto superior direito.
“Olhe, este é o número de identificação. Os que começam com 28 são do centro de Bukseul, os que começam com 37 são daqui, Sejong, os 14 são de Gyeongsang, e assim por diante. Mas este documento começa com 28, não é? Então essa pessoa não nasceu aqui. É isso mesmo.”
A conclusão era simples.
Parecia um erro. Naquela época, coisas assim eram tão comuns que não dava para evitar, segundo explicou.
Só então Kim Marvin entendeu por que tinha tido que escutar toda aquela longa explicação.
Quando saiu da secretaria, a chuva já caía a cântaros. Ao ouvir que podia levar um dos guarda-chuvas que estavam sobrando, Kim Marvin saiu com os documentos ainda na mão. Era um dia profundamente deprimente.
Deixou que essa sensação de queda livre seguisse seu curso, fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto. O barulho das rodas dos carros no asfalto molhado ressoava com força do outro lado da janela.
Rompendo o silêncio, o celular no seu bolso começou a vibrar. Levou um bom tempo para tirá-lo, como se lhe custasse se livrar daquele incômodo.
[Hyung, você não está no officetel? Quando volta?]
[Já comprei o carro. É bonito]
Abaixo da mensagem de Woo Hyun-woo surgiram várias fotos de um carro usado branco, tiradas de vários ângulos.
Com apenas um olhar para baixo, os lábios de Kim Marvin se curvam ligeiramente.
Dias atrás, os quinze milhões de wones que a equipe do chefe de gabinete tinha prometido foram depositados na conta de Woo Hyun-woo. Kim Marvin disse a ele que comprasse um carro com o dinheiro restante dos vinte milhões que tinha recebido de Go Hyeong-jun da outra vez e usasse o resto como quisesse. Não se importava se ele sumisse com tudo. Na verdade, pensava que também não seria nada mau se a relação terminasse assim.
Mas parecia que Woo Hyun-woo realmente tinha a intenção de cumprir sua promessa de emprestar seu nome até que a injustiça com seu hyung fosse resolvida.
[Achei uma hamburgueria foda perto da estação Seongsu.]
[Vamos juntos.]
[Eu pago!]
Kim Marvin ficou olhando por um tempo as mensagens que continuavam chegando e começou a digitar uma resposta. Justo quando tinha escrito “[Não era você que estava de dieta? Já largou?]”, de repente entrou uma ligação.
O dedo que tocava o teclado parou imediatamente.
— ……
Não o tinha salvo nos contatos, mas apenas de olhar o número conseguiu reconhecer de quem se tratava. Como não tinha motivo para evitar, apertou o botão de atender em seguida.
— Alô. Kim Marvin.
— Então você atende quando eu ligo. Onde você está?
Através da voz de Jang Jin-woo, ouvia-se o som da chuva. Parecia que ele também estava a caminho de algum lugar.
— Saí um momento para resolver um assunto. Agora estou voltando.
— Recebi a amostra de sangue que você enviou. Já saiu o resultado preliminar. Quer ouvir agora?
Naquele instante, o olhar vago de Kim Marvin ficou tenso.
— Quero.
— Venha até a minha casa. Conversamos com calma.
Kim Marvin olhou para o relógio no pulso e perguntou:
— Que horas fica bom para você?
Talvez pela atitude de Kim Marvin, que aceitou sem hesitar ao saber que já havia resultados, ouviu-se uma breve risada do outro lado.
— E se eu disser que agora mesmo?
— ……
O som da chuva que ressoava em seus ouvidos parou. Com o barulho de uma porta de carro se fechando, o ambiente ao redor de Jang Jin-woo ficou em silêncio. Em seguida, ouviu-se o roçar de roupas e um breve som mecânico dando as boas-vindas ao entrar no veículo. Kim Marvin pôde imaginá-lo automaticamente saindo do trabalho e entrando no carro.
Calculou mentalmente a distância até a casa de Jang Jin-woo em Seul.
Afinal de contas, tinha sido ele quem tinha pedido o exame de sangue. E também era ele quem queria saber os resultados o quanto antes. Não havia razão para se fazer de durão.
— Vou levar cerca de uma hora a partir de agora.
— Vamos chegar mais ou menos ao mesmo tempo, então entre primeiro. Vou avisar para te darem o cartão de acesso; pegue com a recepção. A senha da porta é a mesma do apartamento em Oseong.
— ……
Às vezes, aquele homem o deixava profundamente confuso. Agia como se não fosse permitir que ninguém se aproximasse, mas em momentos inesperados abria as portas com total facilidade. E, além disso, fazia isso como se para ele não tivesse a menor importância, a ponto de a reação do outro parecer exagerada.
Aquele era justamente um desses momentos. Tinha criado uma situação em que nem sequer era possível dizer que esperaria do lado de fora. Claro, ainda assim era melhor do que terminar como daquela vez na cafeteria, conversando sem dizer nada de importante.
— Entendido.
Após desligar, Kim Marvin mudou o destino do táxi. Em seguida, mandou uma mensagem para Woo Hyun-woo. Diante do aviso de que poderia demorar um pouco, a resposta foi de que o esperaria sem problemas.
O táxi já avançava às margens do rio Han. A chuva não dava sinais de trégua e encharcava Seul inteira.
Demorou mais de uma hora, quase uma hora e dez minutos. Após digitar a senha que lhe era familiar, Kim Marvin entrou segurando o cartão de acesso ao elevador e observou o interior do apartamento.
Na casa de Jang Jin-woo havia rastros de alguém morando ali. Tênis de corrida sujos de terra, um copo de água que tinha deixado pela manhã, a porta do quarto entreaberta. Já não morava em Oseong, mas em Seul.
Kim Marvin se jogou no sofá. O couro macio fez seu corpo deslizar, ficando meio reclinado. Então, sobressaltado pelo toque da campainha, levantou-se de pulo.
Achou estranho o dono da casa tocar a campainha, por isso abriu a porta, mas era um funcionário do edifício que entrou empurrando uma mesa com rodas.
— O promotor disse que ia comer. Posso deixar aqui?
— Ah, sim.
Kim Marvin assentiu sem saber direito o que dizer.
O funcionário deixou a mesa carregada de comida coreana — a começar por galbijjim — na entrada da cozinha. Depois, após dizer “bom apetite”, desapareceu como o vento. Parecia ter esperado até que Kim Marvin chegasse para trazer a refeição rapidamente.
A mesa, equipada inclusive com um pequeno réchaud para manter os pratos quentes, era claramente para duas pessoas.
“Parece até que a ordem das coisas se inverteu…”
Kim Marvin não se atreveu a se sentar imediatamente e ficou de pé, esperando pelo dono da casa. Por sorte, não demorou muito até que Jang Jin-woo chegasse.
Ao vê-lo se aproximar meio sem jeito em direção à entrada, esboçou um leve sorriso. Após tirar os sapatos e entrar na sala, disse:
— Traz boas lembranças.
Embora tivesse sido por pouco tempo, eles haviam morado juntos, então a situação também não parecia de todo estranha para Kim Marvin.
Jang Jin-woo era alguém que passava a maior parte do dia fora, exceto quando dormia. Quando voltava para casa, quase sempre Kim Marvin estava lá, e não era raro ele ir até a sala para cumprimentá-lo. Talvez por isso, sentia como se tivesse voltado alguns meses no tempo.
— Já trouxeram a comida.
— Sim. Pensei que estaria com fome, então pedi. Poderia ter começado sem mim.
Jang Jin-woo deixou a pasta na sala e afrouxou a gravata. Em seguida, ao ver que Kim Marvin continuava de pé sem nem tirar o casaco, parou.
— Por que você ainda está assim?
Seu tom demonstrava certo desagrado diante da atitude de Kim Marvin, que claramente não parecia ter a intenção de ficar muito tempo. Sem outra opção, Kim Marvin tirou o casaco e o deixou no sofá.
Afinal de contas, já tinha vindo até ali. O melhor era seguir o fluxo. Recusar-se até mesmo a dividir uma simples refeição seria ridículo.
Kim Marvin pegou o celular e abriu a conversa com Woo Hyun-woo. Enquanto escrevia brevemente que hoje não daria e que ele comesse sozinho, Jang Jin-woo saiu do closet.
Com os botões da camisa abertos e as mangas dobradas, deixou um envelope com documentos sobre a mesa. Depois, puxou duas cadeiras para frente da mesa móvel onde a comida estava servida e se sentou.
— Comprou o micro-ondas?
— Hã?
Kim Marvin, que estava digitando a mensagem, ergueu a cabeça em direção a ele. Jang Jin-woo estava com o olhar fixo em seu próprio celular. Parecia ter notado que ele estava falando com Woo Hyun-woo.
— Ah, sim. Comprei.
Jang Jin-woo cruzou as pernas e apoiou o queixo na mão sobre a mesa.
— Na Se-gyeong?
— Sim.
Ele assentiu levemente, curvando apenas um canto dos lábios. Não era nem de longe uma expressão de agradecimento por ter usado o lugar.
Esfregou o queixo com o dorso da mão e ficou encarando Kim Marvin fixamente. Como se tivesse algo a dizer, ergueu o rosto e depois o baixou novamente, passando o polegar pelos lábios.
Não parecia irritado, mas tampouco de bom humor. De repente, veio à mente de Kim Marvin a imagem de Woo Hyun-woo empolgado se exibindo com os cupons que tinha conseguido na frente de Jang Jin-woo. E lhe passou um pensamento absurdo pela cabeça: o de que logo poderiam proibi-lo de pisar na Se-gyeong pelo resto da vida.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello