Capítulo 148
CAPÍTULO 148
A sala do promotor estava incomumente movimentada. Várias pessoas com quem ele tinha uma boa relação de outras salas vieram visitá-lo.
— Vai levar até isso tudo de verdade?
— Cara, essas coisas vão ter por lá também. Pra que levar até isso?
— Ah, dizem que ele vai usar uma sala alugada à parte. Vai que não tá pronta no primeiro dia, o trabalho não pode atrasar. Além disso, o promotor não gosta desse tipo de situação.
O investigador Kim Ho-seok sorria enquanto segurava nos braços uma caixa cheia de grampeadores, pastas e itens de papelaria. Os reunidos na sala o parabenizavam, mas ao mesmo tempo o olhavam com uma certa tristeza.
Para ele era uma boa oportunidade, já que o promotor Jang Jin-woo o tinha escolhido pessoalmente para levá-lo, mas eles, que por um tempo seriam realocados para outras salas, não podiam deixar de se sentir um pouco ressentidos por não receberem a mesma atenção.
— O promotor sabe mesmo escolher bem a sua gente.
— Claro, o nosso investigador tem experiência em crimes também. Com certeza pesquisou bem antes de levá-lo.
— Dizem que quase não tem casos em que alguém é selecionado assim. Até em Seul vão se surpreender, não é?
— Ai, não digam isso, vocês me deixam pressionado.
Kim Ho-seok sorriu levemente enquanto arrumava sua mesa.
Seguiria o promotor Jang Jin-woo, que tinha sido alocado na equipe especial de investigação, e mudaria seu local de trabalho por um tempo.
Uma semana atrás, quando Jang Jin-woo lhe perguntou se estaria disposto a ir se o recomendasse, aceitou sem hesitar. Não sabia quanto tempo duraria, mas mesmo no melhor dos casos, teria que ficar em Seul durante vários meses. Se tudo desse certo, poderia até acabar se estabelecendo lá de forma permanente.
Como não tinha família que dependesse dele, não havia necessidade de pensar demais. Na verdade, aceitava aquilo com certo orgulho, como se tivesse sido reconhecido por um viciado em trabalho.
— Manda bem lá. Pensa que você representa Oseong e dê suas opiniões ativamente, entendeu?
— Sim.
— Me liga de vez em quando. Tô com muita curiosidade pra saber como o caso vai se desenrolar.
— É estritamente proibido transmitir informações internas da equipe especial. Não entrem em contato uns com os outros.
Quem apareceu quebrando o clima animado não foi outro senão Jang Jin-woo. Abriu a porta de golpe, entrou e, olhando para Kim Ho-seok, perguntou:
— Se já terminou de juntar suas coisas, pode ir embora mais cedo hoje. O senhor disse que amanhã vai pegar o dia de folga?
— Sim.
O investigador Kim Ho-seok respondeu com uma expressão incômoda. Sem ser o protagonista, tinha acabado reunindo gente e causando barulho desnecessariamente.
Os outros funcionários, percebendo o clima, se dispersaram rapidamente e voltaram para suas mesas. Ao mesmo tempo, não puderam deixar de admirar mais uma vez o quão descaradamente insensível Jang Jin-woo era até no último dia. Embora fosse uma pena não poder ir para Seul, pensar que não teriam que vê-lo por alguns meses também parecia algo libertador.
— Entendido. Então nos vemos na quarta-feira. Me disseram que vão distribuir os postos quando chegarmos lá, então fique ciente disso.
— Sim. O senhor também já vai embora agora, promotor?
— Vou passar na delegacia por causa do caso do abandono de mãe e filha no apartamento Urim e depois vou direto pra casa. Todo mundo saindo no horário.
Olhou para os funcionários da sala e se despediu de forma casual antes de sair.
O clima tinha suavizado bastante e a atmosfera do início da primavera continuava. Até a semana passada vinha neviscando, mas hoje a temperatura tinha subido o suficiente para nem precisar de cachecol.
A instabilidade do clima na Terra se intensificava ano após ano. Naquele ritmo, em um par de meses talvez tivessem que ligar o ar-condicionado. Além disso, as noites tropicais de Seul batiam recordes a cada ano.
Jang Jin-woo abriu a porta do carro enquanto, de forma natural, imaginava em sua mente sua residência depois do verão. Jogou a bolsa no banco traseiro e tirou o casaco. Depois se sentou no banco do motorista, cheio de ar frio, e passou a mão pelo rosto seco com sua mão grande.
Embora devesse começar a trabalhar em Seul a partir de quarta-feira, tinha acumulado tantos casos que levaria tempo para organizá-los. A maioria já tinha sido reatribuída, mas ainda restavam alguns que precisavam de uma revisão mais profunda. Um deles era um crime grave, por isso hoje se dirigia pessoalmente à delegacia.
Tirou a chave do carro e apoiou a mão no volante. E bem no momento em que estava prestes a dar a partida—
Nisso—
De repente, alguém abriu a porta do banco do passageiro e subiu no carro. Jang Jin-woo virou a cabeça por instinto e franziu a testa.
Tinha certeza de que não havia ninguém por perto… quando…?
— Vai pra casa? Dirija.
Kim Marvin tirou o boné com naturalidade e mostrou o rosto. Jang Jin-woo semiabriu os olhos e observou o intruso que tinha aparecido de repente.
Não era que estivesse surpreso com sua identidade. Desde o momento em que aquela figura escura subiu no banco do passageiro, soube que era Kim Marvin. O que o intrigava era de onde ele tinha saído.
— Aparece aqui e ali como um raio.
Jang Jin-woo pensou na expressão “gênio eremita”. Kim Marvin, que tinha se soltado da própria coleira, agora demonstrava suas habilidades sem reservas. Fez com que pensasse que talvez tivesse subestimado demais o “corvo” do Serviço de Inteligência de Segurança, de quem diziam que podia matar alguém e desaparecer sem deixar rastros se quisesse.
— Não é algo tão difícil. Eu liguei e me disseram que você ainda não tinha saído do trabalho. Fiquei esperando no estacionamento.
— Não te vi de jeito nenhum.
— O campo de visão humano é bastante estreito. Especialmente para funcionários ocupados e com muitas coisas na cabeça, o que veem é ainda mais limitado. Provavelmente fez uma seleção inconsciente.
Diante da explicação aparentemente lógica de Kim Marvin, Jang Jin-woo balançou a cabeça.
— Não concordo. Com essa lógica, você deveria ter sido a coisa mais visível pra mim.
— O que quer dizer?
— Que eu estava te esperando.
Jang Jin-woo sorriu levemente, aproveitando a reação de Kim Marvin, que o olhava como se não pudesse acreditar. Ao mesmo tempo, pisou no acelerador e colocou o carro em movimento.
— A propósito, chegou antes do que eu esperava. Achei que fosse demorar mais.
O carro de Jang Jin-woo entrou de imediato na faixa da esquerda ao entrar na pista. Kim Marvin se deu conta em seguida de que aquela não era a direção para o apartamento de Jang Jin-woo.
Se ele ainda estava trabalhando, então ele tinha se intrometido sem avisar. Era alguém que praticamente não tinha horário fixo e só trabalhava, então não seria alguém que receberia de bom grado um estorvo.
No entanto, Jang Jin-woo continuou dirigindo sem dizer nada. Não pediu para que descesse nem disse que conversariam depois, então era praticamente o mesmo que permitir que o acompanhasse. Kim Marvin, com cautela, puxou o assunto que tinha preparado.
— Tem uma coisa sobre a qual eu gostaria de saber a sua opinião, promotor.
E esperou pela pergunta que deveria vir a seguir. O lógico teria sido que lhe perguntasse por que não tinha ligado, uma objeção completamente razoável. Porque Jang Jin-woo era esse tipo de pessoa.
No entanto, ele se limitou a assentir levemente. Não parecia ter interesse demais na justificativa de por que ele tinha ido até lá. Dava a impressão de que seu critério de eficiência tinha ficado bem mais flexível.
O interior do carro estava completamente impregnado com o cheiro dele. Aquele perfume de nome desconhecido que sempre usava, misturado levemente com o cheiro de cigarro. Até o leve aroma do couro dos bancos, sem uma única mancha de poeira, aquecido pelo aquecedor do veículo, permanecia intacto.
Quando tinha subido no carro dele pela primeira vez, Kim Marvin tinha pensado que aquele lugar era como uma fortaleza. Um mundo isolado que, uma vez dentro, ficava completamente desconectado do exterior. Era como se até o ar dentro do carro estivesse sob o controle total de Jang Jin-woo.
Essa era também a razão pela qual, apesar de ter ido por vontade própria, não conseguia entrar direto no assunto. Sentia que, como antes, poderia acabar sendo arrastado por ele.
Mas dessa vez, se percebesse ao menos um sinal disso, pretendia descer do carro imediatamente.
— Como é o chefe de gabinete Im Sang-uk? Lembro que você já o conheceu.
Kim Marvin foi direto ao ponto. Diante da menção inesperada, Jang Jin-woo demonstrou uma expressão de surpresa.
— Vai direto ao ponto sem rodeios. Pelo menos deveria me explicar o contexto de por que me faz essa pergunta.
O chefe de gabinete presidencial, vindo da promotoria, tinha ligado para Jang Jin-woo no outono passado. O fato de ele estar investigando Kim Marvin por conta própria chegou aos ouvidos do chefe de gabinete, que lhe deu um aviso direto: para que o deixasse em paz. O resultado de Jang Jin-woo ter ignorado completamente aquelas palavras era, precisamente, a situação atual.
— Há alguns dias eu me reuni com a secretária Park Sang-hee. Bom, pra ser exato, não foi uma reunião, mas tá mais pra uma transação.
— Então você entregou a amostra para o gabinete do chefe de gabinete.
— Sim.
Um sorriso difícil de decifrar apareceu nos lábios de Jang Jin-woo enquanto mantinha o olhar para a frente.
— Uma decisão bem a sua cara, Kim Marvin. Eu respeito.
— Teve vários pontos na conversa com a secretária Park Sang-hee que eu não consegui entender. Até agora, eu achava que o gabinete do chefe de gabinete estava tentando conter as perdas geradas pelo caso Maxona. E que buscavam a amostra com esse propósito.
— Mas não é assim?
Jang Jin-woo lançou um rápido olhar para o banco do passageiro.
— Não. Em termos gerais, continua sendo assim. Mas a forma como estão lidando com essa contenção é o que eu não entendo.
— Por exemplo?
— Pra fechar isso da maneira mais perfeita, não deveriam conseguir o desenvolvimento do remédio de manifestação permanente? Afinal, já foram investidos verbas públicas na casa dos trilhões, e se o resultado for bom, não haveria nenhum cidadão na Coreia que reclamasse.
Para eles, a forma mais limpa de resolver tudo era devolver as coisas ao estado original. Desde o começo, a amostra deveria ter sido entregue ao laboratório, e como foi perdida por culpa de um agente governamental, o lógico seria devolvê-la ao laboratório uma vez recuperada.
— Mas a secretária Park Sang-hee disse uma coisa diferente. Que não tá tentando usar a amostra, mas sim impedir que outros a usem. Imagino que esses “outros” se refiram a Hong Gyeong-uk ou à SN Bio.
Que Hong Gyeong-uk quisesse usá-la para seu próprio benefício pessoal era compreensível. Mas que também não quisessem entregá-la à SN Bio era algo que, da perspectiva de Kim Marvin, não fazia sentido.
— Posso entender a questão do Hong Gyeong-uk, mas não consigo entender por que não querem entregar para a SN Bio. Desde o começo, aquele laboratório no complexo de pesquisa de Sejong era só uma fachada, não era? Não era a SN Bio quem realmente ia se encarregar do desenvolvimento? Então por que agora tentam impedir que seja desenvolvido…? Me parece um pouco estranho.
— Bom, poderia ser que o governo queira ficar com a hegemonia.
Diante da resposta de Jang Jin-woo, Kim Marvin assentiu como quem concorda e continuou:
— Ou também poderia ser que, mesmo tendo a amostra, saibam que esse remédio não pode ser desenvolvido desde o começo.
Diante daquela insinuação significativa, as sobrancelhas de Jang Jin-woo se ergueram.
— Uma dedução interessante.
Quando se deu conta, o carro já estava muito perto da delegacia. Mesmo faltando apenas cruzar um semáforo para chegar, Jang Jin-woo reduziu a velocidade e virou para uma rua lateral. Kim Marvin, ao notar que o destino tinha mudado, olhou para o caminho por onde tinham vindo.
Logo, o carro parou em um viela vazia.
— Não tava a caminho da delegacia? Se tem algo urgente, posso esperar.
— Sem problemas. Continue.
Ele estava lhe dando tempo de propósito. Apoiar o braço no encosto de cabeça do banco do motorista, Jang Jin-woo virou completamente o corpo na direção de Kim Marvin.
O carro parado ficou ainda mais silencioso do que antes. Como se agora estivesse preparado para escutar com mais atenção, todo o olhar de Jang Jin-woo se concentrou em Kim Marvin.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello