Capítulo 140
CAPÍTULO 140
Os dois saíram e caminharam na direção de Gwanghwamun. Embora o céu estivesse limpo, o ar era gélido. A neve acumulada no chão já tinha endurecido, e ambos avançavam com cuidado para não escorregar. Nuvens brancas de vapor saíam de suas bocas.
— Mas para onde estamos indo agora?
— Ali adiante.
Woo Hyun-woo olhou na direção que Marvin apontou com um leve gesto de queixo. Em um dos lados da praça, três ônibus de doação de sangue estavam estacionados em fila.
— Você vai doar sangue?
— Vou.
“Do nada?”
Tinha-o visto olhar pela janela, depois vestir-se às pressas, por isso pensou que tinha acontecido algo urgente. Mas a resposta foi completamente inesperada. Woo Hyun-woo o seguiu apressado enquanto Marvin caminhava com passo firme para a frente.
Marvin entrou em uma tenda improvisada instalada ao lado da imponente estátua do Rei Sejong, no centro da praça. Havia pouca gente.
— Vieram doar sangue? Por favor, nome e número de reserva.
Uma funcionária, aquecendo-se ao lado de um aquecedor dentro da tenda, perguntou mecanicamente ao vê-los.
— Não tenho reserva. Vim me registrar como portador.
— Ah, se é portador, por aqui, por favor. Os dois?
A funcionária levantou-se rapidamente, com uma expressão entusiasmada, e os conduziu ao ônibus mais à esquerda. Nesse momento, Woo Hyun-woo, sem jeito, confessou que ele não.
— Então só um de vocês, certo? Qual é o seu tipo?
— Tipo O.
Enquanto respondia, Marvin olhou de relance a expressão de Woo Hyun-woo. Embora nunca tivessem falado abertamente sobre o assunto, era provável que ele supusesse que Marvin era um alfa, por conta de seu passado no Serviço de Inteligência.
Mas não detectou nenhuma mudança, nem surpresa. Woo Hyun-woo simplesmente deu de ombros com um ar constrangido, como se já soubesse.
— Certo, leve isto para dentro e primeiro faremos um exame de sangue. Checaremos os níveis e depois lhe damos as instruções.
Com a senha “1” em mãos, Marvin subiu no ônibus. Uma enfermeira que esperava ali levantou-se sorridente ao vê-lo e pegou a senha.
Número um. Significava que ele era o primeiro portador do dia a se registrar sem agendamento.
Para os cidadãos comuns, era obrigatório reservar com antecedência, mas os portadores podiam se registrar no local a qualquer momento. Como havia tão poucos, as doações de sangue estavam sempre em falta.
Inclusive, aos portadores não se pedia verificação de identidade. Dadas as características de seus marcadores genéticos, bastava o exame prévio para obter toda a informação necessária. Era exatamente isso o que Marvin buscava.
Desde que tinha se tornado um ômega, não tinha conseguido fazer um check-up adequado. Mesmo tendo se vinculado, não podia descartar que algo tivesse mudado. Em sua situação atual, ir a um hospital não era uma opção. Este era o único método de que dispunha para fazer um exame de sangue.
Enquanto esperavam os resultados, foi feita uma breve entrevista. A enfermeira perguntou por seu tipo de sangue, a data de manifestação e o ciclo de cio. Ele respondeu com certa cautela, mas por sorte não levantou suspeitas.
Cinco minutos depois, a enfermeira olhou para a folha de resultados e começou a marcar os itens.
— Nível de hemoglobina, normal. Pressão arterial, normal. Tipo sanguíneo A. Confirmado como portador tipo O, e a proporção é… 59%. Está um pouco alta.
Não. Na verdade, tinha caído. Quando era alfa, era de 67%. Por quê?
— Como está acima de 50%, vamos classificá-lo em grau R. E além disso, o senhor é vinculado, não é?
Como era de se esperar, parecia que podiam saber até mesmo esse tipo de informação. Marvin forçou um sorriso enquanto esticava um pouco o canto dos lábios.
— Sim. Faz pouco tempo.
— Se ainda estão na fase inicial, tente ter relações frequentes com seu parceiro. Se não houver vínculo suficiente, fica difícil dormir à noite e coisas do tipo. Ah, e se alguma vez precisar ir ao hospital por algum problema de saúde, certifique-se de mencionar que é vinculado. Isso muda a prescrição médica. As mulheres, como quase sempre estão grávidas, costumam se cuidar sozinhas, mas no caso dos homens, muitos tomam coisas sem saber e depois acontece algum problema.
— Ah… sim.
Respondeu brevemente, sem saber muito bem como reagir, deixando a frase no ar. Como não era uma relação de vínculo “normal”, esse tipo de comentário o deixava desconfortável.
Enquanto isso, a enfermeira assinou o relatório de resultados e foi imprimir a etiqueta para colar na bolsa de sangue. Marvin, que continuava sentado na cadeira, perguntou de repente:
— E se… a pessoa não tiver relações com o parceiro por muito tempo, isso afeta em algo? Tem algum efeito negativo?
— Hmm, não especialmente. Só piora um pouco a insônia, esse tipo de coisa.
A enfermeira respondeu com indiferença. E embora Marvin tenha se sentido brevemente aliviado, a explicação continuou em um tom sereno.
— Mas se passar tempo demais… bom, com certeza vai ser difícil para o alfa. Eles não conseguem interromper o período de rut e, se não for com o parceiro vinculado, não conseguem ter relações. Inclusive os inibidores quase não funcionam. Certo, vou tirar o sangue agora. Puxe um pouco mais a manga, por favor.
A enfermeira aproximou-se do lado esquerdo de Marvin para iniciar a doação. Marvin, que esteve escutando em silêncio, levantou lentamente a cabeça.
— O rut não pode ser interrompido?
Ele não sabia. Ou melhor, nem tinha se dado ao trabalho de considerar esse ponto.
— Não, não pode. A interrupção do cio nos portadores tipo O ocorre, em sentido estrito, para proteger o feto. Mas o rut nos tipo A continua acontecendo. Eles não engravidam, não é?
A enfermeira sorriu tranquilamente, como quem diz “é óbvio”, enquanto localizava a veia e inseria a agulha. Logo, a bolsa de doação começou a se encher com seu sangue vermelho.
Antes de se afastar em direção à parte da frente do ônibus, a enfermeira disse para ele chamá-la se sentisse tontura. Mas Marvin ficou com uma crescente sensação de desconcertamento.
Tinha concentrado toda a sua atenção no fato de que, com o vínculo, seu próprio cio era interrompido. Nunca tinha prestado atenção no que acontecia com a outra parte. Mesmo quando era alfa, a vinculação sempre lhe pareceu algo alheio. Em primeiro lugar, nem sabia muito sobre o assunto.
*Ha…*
Marvin soltou um suspiro curto.
“O que é isso? Só vim fazer um check-up, e agora este relatório médico deixou minha cabeça um nó.”
E ainda por cima os inibidores quase não fazem efeito.
Embora pensasse “ele que se vire sozinho”, não conseguia evitar se sentir culpado.
Será que ele sabia? Se me propôs o vínculo sabendo disso, deve ter sido porque pensava em ficar ao meu lado pelo menos por mais algum tempo.
Mesmo sabendo que ele não era alguém que se decepcionasse por coisas assim, Marvin não conseguia evitar a inquietude. Ainda se lembrava de quando ele próprio lhe disse, como se não fosse nada, que não importava, que em um ano tudo desapareceria de qualquer forma.
Marvin mordiscou em silêncio a mucosa interna do lábio enquanto desviava o olhar. Por mais que pensasse a respeito, no fim tudo era assunto de Jang Jin-woo. A esta altura, não havia razão nem necessidade para se deixar levar pelas emoções.
— Obrigada pelo seu trabalho.
Quando terminaram de retirar até a última gota daquele sangue valiosíssimo de classe R, a enfermeira lhe entregou um punhado de coisas: um certificado de doação, biscoitos, suco, ingressos para um festival. Com isso, também recebeu palavras de incentivo para continuar se esforçando no *bonding*.
Era, literalmente, um “sexo *fighting*”.
Quando Marvin saiu do ônibus, Woo Hyun-woo, que o esperava aquecendo-se ao lado de um aquecedor, pôs-se de pé imediatamente para ajudá-lo.
— Não está tonto? Quer sentar um pouco antes de irmos?
— Não exagere. Até quando quase morri por uma hemorragia, me arrastei sozinho por cinquenta metros.
— Sério? Quando?
Marvin soltou uma risada incrédula diante da forma como Woo Hyun-woo levava a sério o que claramente era uma brincadeira. Os dois saíram novamente da tenda, abrigados até os dentes com roupas térmicas.
Tal como Woo Hyun-woo tinha dito, ele sentia sim um pouco de tontura, mas não era nada grave. Marvin entregou-lhe o pacote de lanches que tinha recebido da enfermeira. Pensou em voltar para o *officetel*, mas como já estavam fora, decidiu caminhar em direção a Cheonggyecheon quando Woo Hyun-woo sugeriu almoçarem antes de regressar.
— Hyung, sobre aqueles 2 milhões de wones de antes. Estive pensando, e é melhor ser assim: eu fico com quinhentos, e você com um milhão e quinhentos. De qualquer forma preciso cobrir a passagem de avião para a Suíça, então não posso te dar tudo.
Woo Hyun-woo coçou a testa com a mão enluvada e fungou com força. Mas Marvin puxou um assunto completamente diferente.
— Desde quando você sabia?
— Hã?
— Perguntei desde quando você sabia que sou ômega.
— Ah…
Como se finalmente entendesse a que se referia, Woo Hyun-woo sorriu sem jeito.
— Quando eu estava na Rússia, tinha um hyung que se juntou com um ômega. Esse hyung entrava em rut o tempo todo. Mas com você, embora tenhamos vivido juntos na Suíça, nunca te vi passar por um Rut. Então pensei: deve ser um ômega. Além disso, como sempre tive alfas ao redor, já sei mais ou menos como funcionam essas coisas.
— Também assumiu que meu parceiro era homem por causa disso?
— Sim, algo assim. Hehe.
Woo Hyun-woo riu feito um bobo enquanto abria um suco de frutas do pacote que Marvin tinha lhe dado. Usou o canudo para bebê-lo de um só gole e depois encontrou uma barra de chocolate dentro do pacote. “Esta é para você, hyung”, disse, oferecendo-a a Marvin.
— De qualquer forma, como parecia que você não queria falar do assunto, fingi que não sabia de nada. No começo me surpreendi, mas você sempre deu a impressão de ter um monte de histórias nas costas, então pensei: bom, deve ser só mais uma. E bom, também não é como se fosse algo importante, não é?
De repente, Woo Hyun-woo começou a agir de forma exageradamente alegre, esticando os dois braços para a frente. Marvin o observou com uma sobrancelha erguida.
Devia ter ficado curioso, mas tinha dado um jeito de não perguntar. Nada mal. Tinha pago uma quantia considerável para se livrar dele assim que voltasse à Coreia, mas agora parecia que talvez pudesse mantê-lo por perto por mais um tempo…
— Ah, mas o que vamos comer? Estou com uma fome desgraçada. Vamos comer carne?
“Ele come feito uma besta de verdade… Talvez eu deva mesmo colocá-lo para fora.”
Marvin reprimiu uma risada enquanto acelerava o passo.
Enquanto caminhavam, ainda decidindo o que comer, sem se dar conta já tinham chegado até a praça de Cheonggye. De perto, ouvia-se música no volume máximo. Pelo visto havia algum tipo de evento, e Woo Hyun-woo levantou a cabeça para olhar ao redor.
— Parece que tem um festival ou algo assim. Oh, parece divertido. Será que vai ter comida também?
No rosto de Woo Hyun-woo notava-se claramente a determinação de não passar direto sem dar uma parada. Marvin também deu uma olhada ao redor.
Não muito longe dali, uma faixa do evento balançava com força. Marvin pensou que aquela tipografia lhe parecia familiar. Olhando bem, deu-se conta de que era idêntica ao design dos ingressos que a enfermeira lhe dera no ônibus de doação de sangue. Fingir que não tinha visto não seria fácil.
— Hyun-woo, no pacote deve ter um ingresso. Dá uma olhada.
Admitindo finalmente a existência do passe, Marvin ficou parado esperando. Logo, Woo Hyun-woo encontrou o ingresso para o evento patrocinado pela cidade de Seul dentro do pacote de lanches.
— Uau! Os traços especiais ganham essas coisas só por doar sangue?
Ao vê-lo tão animado, comemorando com entusiasmo, Marvin não encontrou motivos para tentar convencê-lo a ir a outro lugar. O mais provável era que acabassem almoçando ali mesmo, na praça de Cheonggye.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello