Capítulo 139
CAPÍTULO 139
Jang Jin-woo pensava que aquilo devia ser a frustração por ter perdido uma boa carta.
Kim Marvin era uma bomba viva. Alguém que podia se tornar uma carga enorme para este governo. Por isso, para eles, era um alvo que devia ser eliminado; enquanto para o seu lado, se as coisas dessem errado, era uma excelente ficha com a qual ameaçá-los. Se conseguisse retê-lo, era uma carta com um potencial de uso infinito. Ter perdido aquilo só fazia com que a sensação de perda fosse ainda mais amarga.
E era só isso? Kim Marvin tinha tomado uma decisão que ia muito além de suas expectativas. Mesmo depois de ele ter oferecido o controle da espada chamada promotoria, escolheu um caminho difícil e recusou sua mão. Para Jang Jin-woo, essa decisão era algo impossível de compreender.
Por isso não conseguia parar de pensar nele. Ter se entregado de cabeça ao trabalho durante os últimos dois meses também tinha sido, em parte, para demonstrar que a decisão de Kim Marvin tinha sido um erro.
Queria demonstrar-lhe que podia encurralar todos aqueles sujeitos sem necessidade de mencionar sequer o seu nome. Acaso não tinha lhe prometido? Tinha dito que o ajudaria a se reincorporar, que lhe daria a oportunidade e, no entanto, ele tinha fugido com todas as suas forças. Era, em certo sentido, um ato de protesto.
Se ele estivesse observando o desenrolar dos acontecimentos de algum lugar, a essa altura já deveria ter se dado conta. De que, no fim das contas, estar do lado da promotoria também era sua melhor opção.
Mas, mesmo assim, não dava as caras. Voltava a errar em seu prognóstico: pensou que ele já teria regressado.
E agora, inclusive tinha em mãos a amostra. Esse homem, que continuava superando uma e outra vez todas as suas expectativas… já não sabia como lidar com ele. Parecia-lhe admirável e, ao mesmo tempo, o exasperava o fato de ser tão impossível de controlar.
Jang Jin-woo, sem se dar conta, pressionou a bochecha com a mão que tinha apoiada sob o queixo. Essa sensação de frustração sem saída voltava a se transformar em uma sede de feromônios.
Naquele momento, a porta se abriu novamente e a promotora Park Yoon-jeong regressou à sala.
— A SNBio já caiu. Estão me dizendo que o partido da oposição vai apresentar a denúncia esta tarde mesmo.
Com uma careta torcida no lábio superior, expressou seu desgosto. Pelo visto, o velho chato ao telefone era o promotor-chefe de Daejeon. Soava como se tivesse dito a ela que em Seul já estavam prontos para receber o caso, então que não gastassem forças à toa.
— Nossa, que rápido.
— Dá para ver que estão felizes.
Com isso, o caso passaria desde o início para a promotoria de Seul, assim que a denúncia fosse formalizada. Havia muita discussão sobre se era melhor que Oseong o processasse e o enviasse a Seul, ou que entrasse diretamente como denúncia externa. Mas, no fim, estava claro que tudo se movia em função dos interesses políticos. Inclusive na mídia já circulavam artigos insinuando que no projeto de desenvolvimento farmacêutico da SNBio havia conexões com o governo atual.
— E quem vai ficar encarregado do assunto?
— Byeon Jeong-hoon, ex-subdiretor da Procuradoria Geral. Parece que quer usar isso como desculpa para conseguir uma candidatura.
— Uf, tapete de flores.
Os promotores, com um sorriso sarcástico, voltaram a abrir seus notebooks. Desde que se rebelou contra o procurador-geral e foi embora, todos sabiam que ele acabaria entrando na política, mas sua estreia estava sendo espetacular. Todos sentiam, ao mesmo tempo, certa antipatia… e certa inveja.
— Promotor Jang, tudo bem?
A promotora-chefe, já sentada, olhou de relance para Jang Jin-woo. Foi ele quem conseguiu a declaração do chefe da organização criminosa, o que abriu o caminho para a unidade especial. Queria confirmar se por acaso ele estava chateado porque as coisas tinham se movido sem consultá-lo.
— Desde o princípio era difícil que nós levássemos o caso da SNBio, já que a sede principal fica em Seul. Dizem que assim que a equipe da especial for formada, vão te chamar. Sua casa também é em Seul, então você só precisaria ir. Embora ir e vir vá ser um pouco incômodo.
Jang Jin-woo limitou-se a sorrir, sem dizer nada. Ao contrário do que ela temia, ele já sabia que a denúncia por parte da oposição seria apresentada.
Aliás, assumindo que o primeiro julgamento terminaria mais ou menos no verão, também sabia que, com a reorganização do outono, seria reatribuído à promotoria central, à qual originalmente pertencia. Já tinha sido acordado que, com a desculpa de que a investigação se prolongava, ou de que seria preciso reconhecer seus méritos ao finalizar, seu nome seria incluído como parte da lista branca, de uma forma ou de outra.
Maldita Oseong.
Era um lugar onde só abundava gente corrupta, por isso se destacavam com mais força aqueles que não eram. Para um promotor, também era o ambiente perfeito para colocar à prova a própria integridade.
Afinal de contas, era um cargo para o qual só restavam dois anos. Por isso, quase todos os promotores daqui já tinham aceitado subornos em algum momento, e fazer vista grossa era parte da rotina.
Por isso, quando Jang Jin-woo prendeu Yoon Jo-beom, presidente da Jinkang Shipping, as únicas pessoas que realmente aplaudiram foram a promotora Park Jeong-eun e a promotora-chefe. Os demais só estavam ocupados olhando de relance, preocupados de que se descobrisse o que eles mesmos tinham recebido antes.
Por isso, quando se soube que Jang Jin-woo seria transferido para Seul, todos o parabenizaram como se fosse uma boa notícia própria. Esse era o pano de fundo.
— Nossa, promotor Jang, que inveja.
— O anúncio oficial sai na semana que vem? Então você vai ter que ir em meados do mês, não é?
Ao terminar a reunião e se dispersarem, os comentários soavam sinceros. Mas o convite para sair para beber à noite era só uma formalidade. Jang Jin-woo voltou a dar a mesma desculpa de sempre, de que não gostava de álcool, e foi sozinho para casa ao terminar o expediente.
O apartamento estava impecavelmente limpo. Também tinham retornado os ternos e camisas, perfeitamente lavados a seco.
Como de costume, checou os cantos da casa em busca de sinais. Mas não havia pegadas nos pratos da cozinha, nem respingos de água na pia do banheiro. Desde que a faxineira veio de manhã, ninguém mais tinha estado ali. Sua tênue esperança, mais uma vez, terminou sem resposta.
Jang Jin-woo abriu lentamente a porta do quarto pequeno onde Marvin costumava ficar. Em cima da cama, havia um conjunto de roupa esportiva que Marvin costumava pegar emprestado, cuidadosamente dobrado sobre a colcha. E em um canto da escrivaninha, descansava uma correspondência.
Era o cartão de Natal que chegou logo após a partida de Marvin.
Agora que pensava nisso…
Jang Jin-woo pegou em silêncio o envelope de correio registrado que continha o cartão.
[Província de Gangwon, cidade de Cheongsu, rua Hyeonbuksan, 66. Centro Nacional do Câncer. Edifício B, quarto 306, Kim Ji-ah]
Foi isso o que o confundiu no início. Pensou que, se tinha lhe dado esse endereço e podia receber cartões de sua família, certamente significava que logo regressaria.
Só um mês depois se deu conta de que tudo tinha sido uma ilusão sua. O cartão ficou ali abandonado, como se zombasse dele, e da parte de Marvin não chegou absolutamente nenhuma mensagem. Depois, simplesmente o tinha deixado ir de sua memória.
Jang Jin-woo observou em silêncio o endereço do remetente, depois tirou o celular do bolso. Logo buscou o número de telefone do Centro Nacional do Câncer. Enquanto segurava o aparelho na mão, formaram-se rugas em seu cenho.
“Jamais pensei que chegaria a fazer algo como isto.”
Com um sorriso sarcástico, apertou o botão de chamada. De imediato começou a tocar uma gravação automática, acompanhada de uma música de fundo. Pouco depois, alguém atendeu a ligação.
— Boa tarde. Ligo com uma consulta… Estou procurando uma paciente com o nome Kim Ji-ah. Seria possível falar com ela?
Jang Jin-woo, com um pequeno cartão verde decorado com giz de cera ondulando em sua mão, esperou a reação do outro lado.
Depois de vários dias de neve incessante, finalmente o tempo se firmou de vez. Nas ruas, a neve acumulada brilhava sob o sol intenso. Havia tanta luz que quase dava vontade de colocar óculos escuros.
Marvin, enquanto observava a brilhante cidade branca através da janela, levou uma bolinha de chocolate à boca. O doce se partiu com um estalo seco e o sabor se espalhou em sua língua. Woo Hyun-woo, sentado no sofá, deu-lhe uma bronca ao ver aquilo.
— Hyung, isso já parece um vício. Desde que voltou para a Coreia, piorou, não acha? Que tipo de pessoa come doces o maldito dia todo?
Mas Marvin, sem se abalar diante da crítica certeira, colocou outra bolinha na boca.
Desde que voltou para a Coreia, sua ansiedade tinha se intensificado, exatamente como dizia Hyun-woo. Mas o que podia fazer? Era instinto.
— Um saquinho de manhã, outro à noite. Se não os termino, não consigo dormir.
— E ainda por cima dorme assim que acaba de comê-los? Uau! E por que não engorda nem um grama? Este mundo é uma merda injusta.
Woo Hyun-woo murmurou praguejando contra a crueldade genética, mas de repente deu um pulo do sofá.
— Oh! O dinheiro entrou!
Ao mesmo tempo, no celular de Marvin também apareceu uma mensagem.
[Depósito concluído. Custou-me muito conseguir esse dinheiro, então use com cuidado. Se decidir fazer isso, me avise. Te dou duas semanas. Se você fugir, vou denunciar o dono da conta à polícia.]
Marvin franziu a testa ao ver o emoticom de uma coruja encarando-o com olhos afiados. Toda vez que Ko Hyeong-jun tentava se fazer de amigável, dava-lhe uma mistura de incômodo e rejeição. De muitas formas, era o tipo de pessoa mais irritante que conhecia.
— Mas quem é esse cara que, assim do nada, te manda vinte milhões de wones?
Diante da pergunta de Woo Hyun-woo, Marvin respondeu com total calma:
— Um comprador.
Então, de repente se levantou da janela e começou a vestir o casaco que tinha deixado jogado perto da entrada.
— Ah, o que disse que provavelmente ofereceria mais do que ninguém? Então você já decidiu vender a mercadoria para ele? Mas… não é muito pouco vinte milhões?
Marvin, que já estava com o rosto quase completamente coberto por um cachecol e gorro, calçou também um par de botas forradas. Woo Hyun-woo, sem se dar conta, já estava ao lado da porta de entrada.
— É só a taxa de entrada. Os lances reais começam agora.
— Ohhh! E vão oferecer tipo… centenas de milhões?
Woo Hyun-woo ficou preso em suas fantasias enquanto Marvin completava o traje vestindo as luvas.
— Provavelmente. Mas ainda não contatei o último comprador.
Diante dessa nova informação, Woo Hyun-woo olhou para ele surpreso.
— Tinha mais um?? Eu não sabia. E por que você ainda não ligou para ele?
Marvin desviou o olhar e murmurou em voz baixa:
— Não sei… Tive a impressão de que esse ia querer pechinchar mais do que qualquer outro.
“Bom, se não atender agora, simplesmente fica de fora.”
Com os lábios ocultos atrás do cachecol, Marvin murmurou para si mesmo. Em seguida, deu duas palmadinhas nas mãos enluvadas, pronto para sair.
O inverno brutal de Seúl era como veneno para Marvin. Naquele momento, lembrou-se de por que no início só tinha se candidatado para países do Sudeste Asiático, como as Filipinas. À prova de frio, ele já estava completamente blindado.
— Hyung, sobre os vinte milhões… Vamos ao banco sacar? Ou você tem uma conta para a qual eu possa transferir?
— Gaste você.
— Hã?
Woo Hyun-woo olhou para ele piscando, sem entender.
— Falei para você usar. É o pagamento pelo que você passou na Suíça.
Marvin, sem vontade de continuar explicando, empurrou a porta do apartamento com o ombro. Com um rangido, o ar frio do corredor invadiu o ambiente. Woo Hyun-woo levou um momento para processar o que acabara de ouvir, mas assim que entendeu, apressou-se a pegar seu casaco e sair atrás de Marvin.
— Ei, hyung! Se continuar entrando assim, sem aviso, no meu coração… Haah… vou acabar me apaixonando de verdade, sabia? Pode se responsabilizar por isso? Homem maldito! Aonde você vai? Tem que me levar com você!
Atrás de Woo Hyun-woo, que o perseguia às pressas, a porta do apartamento se fechou com uma batida seca.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello