Capítulo 134
CAPÍTULO 134
O painel indicando “Bern” apareceu no horizonte. Isso significava que a bifurcação estava se aproximando. Marvin mudou de faixa e se preparou para sair da autoestrada.
Ele estava dirigindo há mais de uma hora sem ter dormido direito, então seu corpo estava dormente. Não havia como evitar: a insônia o estava consumindo. No começo, pensou que fosse por estresse, mas apenas um mês atrás compreendeu a verdadeira causa.
Deficiência de feromônios do parceiro de marcação. Marvin sentia fome por Jang Jin-woo todas as noites, como uma planta que não recebe nutrientes.
Era algo que ele não havia previsto, mas não o incomodava em excesso. Afinal, os dois últimos meses sem episódios de cio tinham sido incrivelmente tranquilos. Inclusive as dores de cabeça crônicas que o atormentavam desapareceram. Então, o que importava um pouco de insônia?
Além disso, não era como se não tivesse uma forma de suportar. Consumir canela e chocolate o ajudava a se estabilizar um pouco. Por sorte, os feromônios de Jang Jin-woo não tinham aromas do tipo amadeirado nem floral. Se fosse esse o caso, Marvin teria que ter se resignado a mastigar pétalas secas e cascas de árvore todos os dias.
Como se fosse para comemorar, Marvin tirou um chocolate do bolso e o colocou na boca enquanto girava lentamente o volante.
— Doce… perfeito — murmurou.
Pouco depois, saiu finalmente pela alça de acesso em direção a Berna. Dentro do carro não se ouvia nada além do leve zumbido do motor; nem sequer havia ligado o rádio. Como não tinha recebido nenhuma mensagem, deduziu que para Woo Hyun-woo ainda era de madrugada.
Ao chegar ao centro de Berna, estacionou o carro em um local adequado e caminhou em direção ao endereço em questão. Um edifício europeu comum e corrente. Diante do portão vermelho havia uma grande placa onde se lia “Proibido estacionar em frente à entrada”.
Checou as caixas de correio. No primeiro andar funcionava uma clínica odontológica privada do Dr. Schulmann. O segundo e o terceiro andar pareciam ser residências. Na caixa de correio do terceiro andar havia um nome: Kim. As sobrancelhas de Marvin se ergueram.
Recuou lentamente alguns passos e ergueu o olhar para o edifício. Conseguia ver a janela do terceiro andar, coberta por uma cortina. Não parecia haver nenhuma grande conspiração escondida ali.
Olhou a hora. Apenas oito horas. Pareceu-lhe cedo demais para tocar a campainha, então se dirigiu a uma cafeteria logo em frente. Pediu um café da manhã leve.
Um cappuccino com bastante canela polvilhada e um croissant de chocolate. De sua mesa, observava o edifício através do vidro enquanto voltava a formular a pergunta que o rondava há dias:
Por que Kim Do-jin enviou a amostra para esse endereço?
Talvez tivesse interpretado mal a palavra “casa” quando saiu da boca de Do-jin. Ou talvez o que ele tinha enviado não fosse a amostra, mas outro pacote sem relação.
À medida que essas ideias negativas se multiplicavam, de repente, uma mulher asiática saiu do edifício com um saco de lixo. Os olhos de Marvin se abriram. A cem metros de distância, era óbvio que ela morava no terceiro andar.
Ele saiu correndo e, bem no momento em que a mulher sacudia as mãos e se virava, Marvin se aproximou e falou diretamente em coreano:
— A senhora mora aqui?
— Ai, que susto! — exclamou ela, sobressaltada.
Vestia roupas esportivas confortáveis e arrastava chinelos. Ao ouvir de repente seu idioma natal, abriu os olhos de par em par.
— Sim? Sim. Por quê?
Pensou que talvez fosse um turista perdido, algo comum naquela região. Mas a aparência do homem não dava essa impressão de forma alguma.
— Desculpe a dureza da pergunta, mas… a senhora não teria recebido um pacote no verão passado? Estava em nome de Kim Do-jin.
— Kim Do-jin? No ano passado? Ah, sim, sim!
Com uma expressão de surpresa, apontou o dedo para ele.
— Ah, finalmente o senhor Kim Do-jin veio! É sério, passei um bom tempo mal porque não conseguia falar com você.
Não era o que Marvin esperava. Observou com cautela a expressão da mulher, que inclusive parecia contente em vê-lo.
— …Entendo.
Pelo visto, ela o havia confundido com o sunbae Do-jin. O que significava, em resumo, que não se conheciam de nada. Não era fácil adivinhar que tipo de relação tinham.
— Naquele momento ele me pediu o favor com urgência, então mandei o mais rápido possível. Mas dentro havia remédio, sabia? Por isso devolveram na alfândega. Para enviar medicamentos é preciso anexar certos documentos. Se tivesse me dito com antecedência, eu teria te orientado. Entre, por favor.
Abriu a porta e convidou Marvin para entrar. Sua atitude despreocupada deixou a mente dele dada a um nó.
Poderia ser uma armadilha. Mas não fazia sentido supor que ela estivesse esperando justo naquele dia. O incidente tinha ocorrido há bastante tempo, e ela não tinha como antecipar a visita.
Tampouco parecia estar improvisando. Desde sua primeira reação, não mostrava sinais de estar na defensiva.
Marvin, ao contrário de outros, era um agente de campo treinado. Mesmo que alguém conseguisse ocultar 99% de suas intenções, aquele 1% restante sempre vinha à tona. Mas nela não se via nada.
— Depois que devolveram, voltei a contatá-lo imediatamente. Mas não houve resposta, não atendia o telefone nem nada. Me deixou num aperto. Não acontece muito em casos como este.
Subiu as escadas e abriu a porta do terceiro andar. Marvin examinou rapidamente o interior. Poderia parecer tanto uma moradia quanto um escritório. Talvez fosse ambas as coisas.
— Então, o pacote…
— Aqui está. E se eu jogasse fora e depois você me pedisse para reembolsar? Deixei exatamente como estava, com a etiqueta de devolução e tudo. Um segundo.
Deixou Marvin na entrada e entrou em um cômodo. Era possível ver pilhas de caixas empilhadas por todo o lugar. Na sala havia uma mesa de trabalho, e no painel de cortiça da parede estavam pendurados recibos, avisos postais, e-mails impressos e cartões de visita.
Sobre a mesa, Marvin encontrou livros técnicos e um cartão que revelava sua profissão.
[Compre por intermediação, serviço de redirecionamento, aluguel de endereço de escritório virtual. Disponível para toda a Europa.]
Pelo visto, a mulher tinha vários trabalhos secundários alugando seu endereço para envios. Sua ocupação principal parecia continuar sendo a de estudante universitária, e sua carreira não tinha nenhuma relação com genética ou medicina.
Naquele momento, ela saiu para a sala com uma caixa nas mãos.
— Aqui está.
Marvin baixou o olhar para a caixa que ela lhe entregou. Uma caixa de papelão comum e corrente. Inclusive a fita da embalagem parecia estar um pouco descolada. Não me diga que isso é…?
— Eu não abri, foi na agência de correios quando revisaram, suponho.
Por sorte, o conteúdo em seu interior ainda estava selado.
— Mas você vai ter que pagar algo pelo armazenamento. Ficou comigo por mais de meio ano e, na verdade, foi um risco para mim porque não sabia o que tinha dentro…
— Ah, me desculpe. Quanto lhe devo?
A mulher coçou a cabeça, pensativa. Também era sua primeira vez com um caso assim, e não parecia saber quanto cobrar.
— Não sei… uns 50 francos pelo menos.
— Aqui está.
Marvin entregou-lhe duas notas de 50 francos. O rosto até então sério da mulher iluminou-se com um sorriso radiante.
— Muito obrigada. Quer que eu reenvie?
Na caixa ainda estava colada a guia original de envio para a Coreia. O destino era: 35, rua Jayang-ro, distrito Sangnok, cidade de Ansan, província de Gyeonggi. A casa da irmã de Kim Do-jin.
— Não, vou levar pessoalmente.
— Está bem. Mas no aeroporto também podem reter medicamentos se não levar receita, então tome cuidado.
Marvin assentiu com um leve sorriso para tranquilizá-la.
— Claro, obrigado.
— Tenha uma boa viagem.
Depois de resolver o incômodo assunto do pacote e ainda ter cobrado uma boa comissão, a voz da mulher soava mais alegre do que nunca.
Quando a porta se fechou atrás dele e desceu as escadas do edifício, Marvin acessou a página dos correios suíços pelo celular. E então confirmou um detalhe que tinha passado despercebido.
Como suspeitava, o serviço de coleta utilizado por Kim Do-jin só permitia envios dentro do território suíço.
Em resumo, Kim Do-jin, estando completamente vigiado na casa segura, solicitou um serviço de redirecionamento operado por uma residente coreana na Suíça para poder tirar a amostra. Conseguiu enviá-la com sucesso, mas foi retida na alfândega e, desde então, ficou armazenada por meses.
Provavelmente não pôde mais acompanhar o caso porque, simplesmente, já estava morto.
Diante de uma sequência tão absurda quanto insólita, Marvin não pôde deixar de soltar uma risada incrédula. Claro que se esconder entre civis é um dos princípios básicos em inteligência, mas… usar um serviço de redirecionamento?
— Hah… Sunbae…
Na verdade, mesmo morto, Kim Do-jin tinha o talento de chutar a bunda da gente pelas costas.
Suspirando, Marvin saiu do prédio. Restava apenas uma última verificação a ser feita.
Enquanto caminhava a passos lentos, recebeu uma ligação de Woo Hyeon-woo. Não tinha intenção de atender. Estava prestes a presenciar uma revelação crucial em sua vida e não queria que ninguém o interrompesse.
Já dentro do carro, Marvin abriu o pacote. Após rasgar o plástico selado com embalagem dupla e tripla, finalmente apareceu uma caixa.
Na etiqueta impressa podia-se ler o logo: MAXO-NAR. E dentro dela havia…
— ……
Dentro da caixa estava o que tanto tinha procurado: um tubo transparente com pó branco.
Três compartimentos para tubos de ensaio; o do centro estava vazio. Não era difícil imaginar onde esse tinha sido utilizado.
Com uma expressão carregada de emoções, Marvin fechou a caixa em silêncio.
— Ha…
Escapou-lhe outra risada, sem conseguir evitar. Que aquele objeto estivesse jogado num simples serviço de redirecionamento pessoal, enquanto tanta gente se matava procurando com os olhos sangrando… Não podia ser mais patético.
Naquele momento, o telefone tocou novamente. Marvin, que acabar de tirar um cigarro, pressionou o botão do viva-voz do carro. A voz de Woo Hyeon-woo ressoou com força no interior do veículo.
— Hyung-nim! Onde você está? Aconteceu alguma coisa? Está bem? Pegou o carro? Alô?
O tom exaltado de sua voz retumbava diretamente em seus ouvidos.
— Estou ouvindo, então baixe a voz.
— Uau! O que é isso? Desapareceu desde a manhã e eu estava preocupado pra caramba. Pelo menos mande uma mensagem! Onde você está?
— Em Berna.
Marvin deu a partida no motor do carro. Já tinha cumprido seu objetivo, não havia razão para ficar mais tempo.
— Berna? O que está fazendo aí? E não vai checar o telefone do carteiro? Está tendo um monte de atividade.
— Não precisa. Já encontrei o que procurava.
— Ahn? O quê? Encontrou o quê? Ah, encontrou! É sério? Onde estava? Foi por isso que foi para Berna?
O carro passou por uma curva acentuada, e a caixa no banco do passageiro quase caiu com um baque seco. Marvin estendeu a mão para segurá-la e acelerou ainda mais.
— Sim. Chego antes do almoço, então vamos comer carne. Naquele lugar que você disse que adorou da outra vez.
Do viva-voz, estourou um grito abafado. Woo Hyeon-woo estava claramente eufórico, e Marvin esboçou um leve sorriso imaginando-o dar pulos de alegria.
Era hora de recomeçar o jogo. E desta vez, sem dúvida, ele tinha a melhor mão.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello