Capítulo 132
CAPÍTULO 132
— Dá a impressão de que o senhor já sabe de tudo. Precisa mesmo de uma resposta? Sim, eu o conheço.
Era impossível fingir não reconhecer a foto de Heo, o subdiretor, deitado em uma cama de hospital com o rosto completamente destruído.
A raiz de todo esse desastre.
Se aquele desgraçado não tivesse aberto a boca sobre a droga, Tae-gwan não estaria sentado ali para começo de conversa. O que deveriam ter feito era cortar o ar dele de uma vez, mas o diretor Cho tinha lidado com as coisas de forma mansa demais.
— O senhor ordenou a agressão diretamente?
Diante da pergunta do promotor, Tae-gwan franziu os lábios com aborrecimento, respirou fundo e encostou-se para trás. E essa pergunta tão óbvia agora?
— Não. Houve um mal-entendido, então pedi para verificarem bem a situação, nada mais.
— Que tipo de mal-entendido? Seja específico.
O promotor, com um tom seco, lançou outra daquelas perguntas de praxe. Estava com as pernas cruzadas, os olhos fixos na tela do notebook, e os dedos digitavam sem parar. Não demonstrava o menor interesse no acusado à sua frente.
Tae-gwan esfregou a barba por fazer e, após uma breve pausa, escolheu com cuidado as palavras. Sem dúvida, aquilo era uma guerra de egos. Mas responder na mesma moeda a uma provocação assim era coisa de idiotas. Achava que o mais inteligente seria engolir o orgulho e tirar algo útil da situação.
Já tinha pensado nisso antes de vir: esse cara não é fácil.
Depois de resistir a ele por cerca de um mês, o promotor não hesitou em enviar um pedido formal de cooperação ao governo chinês assim que Tae-gwan se recusou a comparecer. O advogado tinha lhe dito que quando a promotoria se move com tanto empenho, é preciso decidir rápido: ou desaparecer e renunciar a todos os negócios na Coreia, ou se apresentar, entregar o necessário e negociar um acordo para reduzir a pena.
Tae-gwan optou pela segunda opção. Tinha em mãos algo que acreditava ser valioso para a promotoria, então pensou que ainda podia jogar suas cartas.
A lista de clientes que usavam o fármaco.
Não sabia quanto poderia valer realmente, mas era o tipo de material que a promotoria saberia como explorar quando fosse preciso. Hoje em dia, os escândalos por drogas batiam mais forte do que os de celebridades.
Com um leve sorriso, Tae-gwan inclinou-se na direção do promotor.
— Como o senhor deve saber, quando se comanda um negócio, podem surgir todo tipo de mal-entendidos. Ao trabalhar com subordinados, sempre há incidentes, ruídos… E claro, não somos exatamente um grupo que leva uma vida exemplar perante a sociedade. Sei que isso gera preconceitos. Eu entendo. Mas isso não significa que a pessoa tenha que carregar coisas que não fez, não é?
O promotor continuava digitando no notebook sem olhar, como se as palavras de Tae-gwan não lhe interessassem nem um pouco.
— Agora mesmo estão tentando montar uma narrativa como se na Dongyang estivéssemos fabricando e distribuindo o ativador de forma organizada. Mas isso não é verdade. Para ser sincero, nós só nos encarregávamos de transportar e entregar a mercadoria.
— E quem foi que pediu para vocês transportarem?
É isso. Finalmente, uma reação.
— O presidente Yoon Jo-beom, da Jingang. Disse que ele se responsabilizaria, para colocarmos o produto em nossa embarcação, algo assim. Aquele senhor gosta de tudo que envolve pílulas e bagunça. Ele mesmo usava, distribuía entre os conhecidos, e o que sobrava, nossos rapazes vendiam. No máximo colocavam em saquinhos de um ou dois gramas. Se vão me condenar por isso… bom, não tenho muito mais a dizer. Enfim, sinto muito.
Tae-gwan deixou de lado por completo sua atitude arrogante, corrigiu a postura e abaixou a cabeça. Se conseguisse fazer com que o contrabando fosse tratado apenas como transporte, poderia se safar, e a venda de menos de um quilo do ativador de efeito curto podia ser resolvida com uma simples multa.
Além disso, as vendas direcionadas ao público geral estavam registradas em nome do subdiretor Heo, então legalmente não havia nada que o prendesse a isso. Sua ideia era assumir apenas uma responsabilidade ética como superior hierárquico e sair do apuro com essa linha.
Mas então, o promotor sorriu.
— ……
Tae-gwan apertou a mandíbula. Por que está rindo, esse filho da puta? Se fosse para rebatê-lo, o lógico seria mostrar outra prova e pressioná-lo, mas nem isso. O promotor simplesmente ergueu um canto da boca como se tivesse ouvido uma história divertida, e tirou outra foto.
— Reconhece a pessoa nesta imagem?
A conversa foi cortada abruptamente. Não houve reação alguma a tudo o que ele tinha explicado até agora. Nada de respostas, nem uma opinião; como se tudo o que foi dito não importasse em absoluto. Ele só tinha que responder à próxima pergunta.
Tae-gwan limpou a garganta e juntou os lábios carnosos com incômodo. Perder a cabeça aqui só vai me prejudicar. Recebeu a foto que o promotor lhe estendia.
Desta vez era a imagem de um cadáver. Do rosto até o corpo todo, tinha a pele azulada, o típico “smurf” provocado por uma overdose de ativador.
Não o conhecia pessoalmente, mas achava que sabia quem era. Com certeza era aquele cantor do hotel turístico que o subdiretor Heo relatou como “acidente” em setembro do ano passado.
Alguém disse que isso tinha chegado ao promotor por um vazamento, e parece que foi justo por esse cara. Sorte desgraçada. Em uma cidade pequena era fácil resolver as coisas com um pouco de dinheiro, mas também era comum que, quando algo explodisse, todos os caminhos levassem ao mesmo lugar. Enfim, um lugar com prós e contras bem marcados.
— Não o conheço bem.
Não havia outra opção a não ser negar.
— Entendo. Então, qual o senhor acha que foi a causa da morte?
— É… bom, parece uma overdose de ativador.
O promotor assentiu como se ele tivesse respondido corretamente. Depois tirou da pasta um monte de depoimentos. Ao folheá-los por cima, Tae-gwan viu que incluíam rotas de aquisição do ativador, quantidade de vezes que as testemunhas mantiveram relações sexuais após o consumo, e inclusive alguns relatórios detalhados sobre gravações em vídeo.
Uma inquietação crescente começou a tomá-lo. Antes que pudesse examinar bem tudo aquilo, o promotor deslizou mais um documento sobre a mesa.
— Este é um pouco mais complicado. Mas como o senhor trabalha no ramo, talvez entenda de imediato. Examine.
O formato do documento era o de um laudo de análise química. Tae-gwan mexeu levemente os lábios e começou a lê-lo rapidamente.
Esta amostra corresponde a um composto modificado do chamado “ativador de manifestação de efeito curto” ou manifestanfetamina, com uma sequência de bases alterada, e conclui-se que pode provocar os seguintes efeitos e efeitos colaterais:
A. Em indivíduos não portadores do genótipo, incrementa o índice de manifestação genética no corpo e, após uma ingestão superior a sete dias, podem apresentar-se sintomas de manifestação durante o período de abstinência…
Tae-gwan folheou rapidamente o relatório de seis páginas e ergueu a cabeça para olhar para o promotor.
— De onde veio isso…?
— Se já terminou de examinar, vamos resumir. Durante os últimos três anos, a Dongyang Liquor esteve introduzindo sistematicamente manifestanfetamina no país por meio de navios da Jin-gang Shipping, correto? Utilizavam hotéis turísticos como o Daegyeong Hotel como base para distribuí-la regularmente a civis. Até aqui o senhor reconhece?
— Não… não é exatamente isso…
Que porra é essa? Por que de repente ele está vindo tão forte?
Tae-gwan umedeceu os lábios com a língua e respirou fundo antes de responder.
— Dizer “sistematicamente” é um pouco exagerado. Como o senhor deve saber, os navios também dependem de datas de atracação e…
— Estou ocupado. Esses detalhes o senhor conta no julgamento. Responda apenas com sim ou não.
— ……
— Durante o processo de distribuição, vocês chamaram influenciadores para gravar ilegalmente vídeos sexuais e vender o produto? E ao mesmo tempo, promoveram uma versão modificada do ativador sob o nome de ‘ativador permanente’? Em setembro do ano passado, um homem na casa dos vinte anos morreu após consumir tal produto. Existem indícios de que membros do grupo Dongyang intimidaram e manipularam o namorado presente na cena. O senhor deu essa ordem diretamente?
— Não, isso… promotor, não foi assim…
— Em novembro do ano passado, em meio à importação de aproximadamente dez toneladas de manifestanfetamina a partir do porto chinês de Shidao, o membro da sua organização Heo Sang-je foi espancado até ficar meio incapacitado. Em relação a isso, outro membro, Jo Yang-heon, declarou que recebeu instruções da cúpula de que podia matá-lo se quisesse. O senhor também nega isso? Porque a vítima exige uma punição criminal com todas as forças.
Aquele maldito filho da puta do Heo…
Na testa de Tae-gwan formaram-se rugas profundas. Seu olhar desceu até a pilha de fotos e depoimentos que agora repousavam diante dele. Naquele curto espaço de tempo, eles realmente se prepararam com tudo. Isso já não parece uma simples jogada de blefe…
Tae-gwan mordeu os lábios secos, imerso em uma breve, porém intensa deliberação.
Há coisas que a pessoa deve ter em mente ao entrar na promotoria: a extrema gentileza do promotor, ou seu excesso de confiança.
Os novatos e os jovens tendem a cair na primeira. Esperam ser pressionados, mas em vez disso, o promotor os apoia e demonstra empatia. Assim, sem perceber, terminam admitindo tudo. Tae-gwan, é claro, não era desse tipo.
Para aqueles que “entendem um pouco de leis”, utiliza-se antes a segunda tática: o promotor atua. Mesmo que não tenha nada, finge ter tudo. Às vezes sai com um “nos vemos no julgamento, já tenho o necessário”, e outras, simula ter informações que nem sequer conhecia, só para obter vantagem na conversa.
Neste caso, o mais importante é distinguir o que é real do que é falso. Se errar, pode perder tudo e terminar fazendo exatamente o que a promotoria exigir. Nem se fala em negociar a pena: até poderia acabar carregando crimes que não cometeu.
Então, qual é a situação atual?
O promotor à sua frente não está atuando: ele mostrou suas cartas de verdade. Só os depoimentos de testemunhas já passavam de trinta declarações. Todas essas testemunhas poderiam se apresentar em massa perante o tribunal e explicar, de forma fluida e convincente, por que a Dongyang Liquor tinha importado e distribuído as drogas, qual rota tinha seguido, e como tentaram encobrir a morte provocada pelos efeitos colaterais.
Além disso, parecia que também tinham garantido como evidência uma amostra do ativador de segunda fase. Isso fez com que a raiva voltasse a ferver em Tae-gwan. Aquele filho da puta do Go Hyeong-jun, não só foi espalhar droga por aí sem avisar, como ainda vem dar uma de valentão. Maldito imbecil.
— Se não tem mais nada a dizer, assumo que não reconhece as acusações. Encerramos por aqui. Obrigado pelo seu tempo. Nos vemos no julgamento.
— Não, espere um momento. Promotor, me escute um segundo. Por favor, promotor.
Tae-gwan, sem perceber, agarrou a lapela do paletó do promotor bem no momento em que este se dispunha a recolher suas coisas para ir embora. O olhar do promotor, interrompido em seu caminho, recaiu sobre ele.
Tae-gwan forçou um sorriso sem graça. Era uma imagem patética, mas agora mesmo tinha que se agarrar até à barra das calças dele se fosse necessário. Tinha desperdiçado tempo, jogando com a situação, acreditando que podia sondar o terreno, sem perceber o quão avançada já estava a investigação. Idiota.
— Ouvi dizer que a promotoria está em conversas com a oposição estes dias… Se me permitir, tenho uma proposta interessante que poderia ser útil para vocês.
— Estou ocupado. Dez segundos.
— Não, dez segundos não é suficiente. Me dê cinco minutos. Só cinco.
O promotor, ainda de pé, olhou para o relógio e virou-se com má vontade.
— Não me interessa muito ouvir. Há pouco tempo fui passado para trás em grande estilo, então não confio facilmente em ninguém.
— Como?
— Restam poucos segundos.
Tae-gwan teve a absurda sensação de ouvir o ponteiro dos segundos de um grande relógio marcando o tempo atrás das costas do promotor: >>tic-tac, tic-tac…<<
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello