Capítulo 124
— Esse filho da puta está completamente cego pela ambição. Eu disse para ele deixar você ir e ele me veio com essa de que queria a subdireção da promotoria da área metropolitana. Um puto louco. Encontrou um caso e pensou: Pronto, esta é a minha oportunidade.
Choi Hyeong-il soltou uma risada seca, como incrédulo. Marvin, sem se mover nem um milímetro, simplesmente escutava em silêncio a conversa que saía do telefone.
— Não sabia que o VIP estava envolvido?
— Sabia, sim. Mas, no final das contas, o presidente está fazendo isso pelo bem de todos, não é? Mesmo que se torne público, se a intenção for bem explicada, o povo vai entender. Também tenho a lista dos pesquisadores que receberam os diagramas. Se os intimarmos e perguntarmos, com certeza tudo se esclarece, não acha?
— …
— Ou é porque tem tanto a esconder a ponto de não poder deixar que nem isso venha à tona?
Marvin, que também se perguntava qual seria a resposta para aquilo, olhou fixamente para seu antigo superior. Mas Choi Hyeong-il desviou o olhar com dissimulação e parou a reprodução do arquivo. Como se com isso já bastasse, guardou o telefone no bolso outra vez.
— Agora você entende bem, não é? Enfim, não sei que história há por trás de você estar ao lado desse cara, mas deveria deixá-lo. Ele continua grudado em você porque vê que você está deixando espaços, que pode se infiltrar e conseguir algo para ele também.
— ………
— Disse que ia conseguir a amostra em um mês, não foi? Pois veja, nem uma única palavra desde então. Um infeliz que não tem nada, mas que vive gritando como se tivesse o mundo nas mãos. Eu já sabia que isso ia acontecer.
Choi Hyeong-il criticou Jang Jin-woo com dureza. Queria que Marvin descarregasse toda a sua raiva sobre ele.
Parecia que tentava apontar para alguém ainda pior do que ele mesmo, para depois se esquivar por trás. Mas, ironicamente, Marvin não sentia raiva de Jang Jin-woo. O que sentia era um grande vazio.
Na gravação, Jang Jin-woo se mostrava como um homem cego pela ambição, mas não parecia que tudo o que dizia era uma mentira. Ele não era alguém que dizia coisas só por dizer. Marvin, surpreendentemente tranquilo, pensou que talvez uma parte do que ele dizia fosse sincera, e que ter escutado ao menos aquilo, mesmo que assim, era melhor do que nada.
— Não dê mais voltas nisso. Apenas saia do país. Vamos te dar apoio até que você se adapte.
Diante do silêncio persistente, Choi Hyeong-il finalmente olhou para o rosto de Marvin.
— O que foi? Ficou impactado? Não me diga que nesse tempo você já entregou o corpo, o coração e tudo.
Não queria explicar nada. Sua bagagem emocional já estava cheia. Não queria colocar mais raiva nem mais ressentimento.
Mesmo se jogasse essa gravação na cara de Jang Jin-woo, não receberia consolo algum. Então, que sentido fazia transbordar emocionalmente aqui, sozinho? Se você não espera nada, tampouco se decepciona, tinha-lhe dito ele alguma vez. E agora, por fim, entendia o quão real era essa frase.
— … Eu sabia que o senhor já tinha feito um acordo com ele.
— É mesmo? Ele também te contou isso?
Que cara difícil de entender. Choi Hyeong-il riu por baixo e coçou o queixo. Depois acrescentou que ele era um sujeito deturpado, com quem já não valia a pena continuar lidando. Também lhe insinuou que, se quisesse que o pintor de quem Marvin comprava quadros pudesse receber tratamento, tinha que sair do país ainda esta semana. Uma forma sutil de forçá-lo a decidir.
Marvin sorriu debilmente. Já não fazia falta perguntar quem tinha vazado o nome de Kim Ji-a para a Secretária.
De repente, sua mente começou a retroceder… até o princípio de tudo.
Um contato repentino da central em Berlim. Uma ordem para entrar de imediato na Suíça. A traição de um companheiro. A transformação de seu traço. O homem que lhe prometeu vingança em seu lugar. E o sexo, a persuasão e as ameaças. Em todas essas lembranças que se espalhavam como um gráfico virado de ponta-cabeça,
nem uma única vez tinha sido tratado como um fim em si mesmo e não como um meio. Provavelmente agora mesmo, e no futuro também, continuaria sendo igual. A única coisa que devia mudar era ele mesmo.
— Entendido. Primeiro tenho que sobreviver, então aceitarei as condições. Mas preciso de dinheiro. Levem-me algum dinheiro em espécie, por favor.
Diante da menção tão direta sobre dinheiro, o rosto de Choi Hyeong-il se franziu com inquietação.
— Por quê? Quanto?
— Uns vinte milhões.
Tendo antecipado uma cifra dez ou vinte vezes maior, Choi Hyeong-il levou a mão ao peito com alívio e aceitou encantado.
— Está bem. Então você vai sair do país de imediato?
— Sim.
Diante da resposta clara de Marvin, o rosto de Choi Hyeong-il se iluminou.
— Boa decisão.
Mais uma vez, deu-lhe umas palmaditas no ombro, orgulhoso de que Marvin atuasse tal como ele tinha previsto.
— Não tem por que andar tão desanimado. Assim que eu tiver a oportunidade, te tiro por outra via. De qualquer forma, este governo não vai durar mil anos, você acha que vão te ter lá a vida toda? Eh?
Sem perceber, Marvin soltou uma risadinha suave. Achava ter escutado algo similar uns meses atrás. E o resultado era este.
Choi Hyeong-il o seguiu para fora do carro, como se fosse se despedir, enquanto Marvin descia sem a menor dúvida. Seu rosto tinha uma expressão estranhamente aliviada, o que levou Marvin a perguntar-lhe em tom de brincadeira:
— O senhor também comprou ações da S&N Bio?
— Ah? Por que pergunta isso?
Quem dera as tivesse. Assim poderia entendê-lo de forma um pouco mais humana.
Mas Choi Hyeong-il umedeceu os lábios ressecados com a língua enquanto observava com cautela a expressão de Marvin. Vendo-o assim, sentiu que não precisava perguntar-lhe mais nada.
— Estou indo.
Marvin saiu do estacionamento subterrâneo, que parecia uma caverna, e caminhou em direção à superfície. Depois, saiu para uma rua onde a temperatura tinha caído de golpe e pegou um táxi.
Parecia que agora tinha que dar o passo que menos desejava.
re: Sou Kim Joo-yeong da Universidade Donghwa. Sobre o fármaco manifestampetamina de nível 2…
Sou Kim Joo-yeong da Universidade Donghwa. Anexo os resultados da terceira fase do fármaco manifestampetamina de nível 2.
O experimento comparativo com o grupo de risco de que falamos pelo telefone da última vez parece que levará algo mais de tempo. Fazer camundongos ômega é mais difícil do que eu pensava.
E sobre o relatório de parecer e o comparecimento como testemunha que você me propôs, vou pensar mais um pouco. É que sou meio covarde.
Jang Jin-woo leu o breve e-mail que acabava de chegar ao seu celular. Era de um professor da Universidade Donghwa a quem tinha conhecido na feira médica em que tinha estado com Marvin da outra vez.
Depois desse encontro, ele mesmo tinha se identificado e lhe encomendado a análise do ativador de segundo nível. Embora se comportasse como uma serpente escorregadia, parecia que os resultados lhe pareciam bastante interessantes, já que sua atitude com as análises era sempre entusiasmada.
Segundo o que tinha revelado até agora, podia-se dizer que o efeito do ativador de segundo nível que circulava por Oseong era bastante permanente.
Contudo, os efeitos colaterais eram tão severos que afirmava que aqueles que o consumissem não aguentariam até que o efeito do fármaco se manifestasse. Náuseas, cefaleias, hemorragias. Inclusive poderia levar à morte em casos extremos: havia muitas formas em que podia colocar em risco a saúde do consumidor.
O curioso professor Kim Joo-yeong tinha utilizado este fármaco para se tornar o líder dos camundongos alfa. Mas, por desgraça, nenhum dos camundongos que tinha conseguido se acasalar com outro. Embora os camundongos ômega tivessem passado por uma manifestação bem-sucedida, pouco depois todos acabaram morrendo. No e-mail, ele suspirava várias vezes dizendo que, como se fosse mentira, nem um único tinha conseguido sobreviver.
Saindo da promotoria, Jang Jin-woo reencaminhou o e-mail do professor Kim Joo-yeong com uma nota breve que dizia “Agradeço sua revisão”. Nesse momento, apareceu uma mensagem de texto. Não era uma janela de chat de aplicativo de mensagens, mas um SMS enviado diretamente para seu número.
Daegyeong Manager
100 metros em linha reta em direção às 3 horas
O remetente era “Daegyeong Manager”. Jang Jin-woo franziu a testa enquanto observava a mensagem por um momento. Não era pelo conteúdo estranho que tinha chegado como uma ordem de videogame, mas pelo nome com o qual o contato estava salvo.
Ainda o tinha salvo com esse nome?
Tinha sido durante a investigação preliminar como testemunha do caso de atribuição ilegal. Ao salvar rapidamente o número de Marvin naquele momento, tinha escrito assim.
Como sempre se comunicavam por aplicativo de mensagens, não tinha pensado muito nisso, mas parecia que já era hora de mudar. Por suposto, não tinha nem ideia de que entre seus próprios contatos ainda havia montes de nomes que levavam anos salvos como “representante tal” e similares.
Nesse momento entrou uma ligação. Era do membro da oposição a quem Jang Jin-woo acabava de reencaminhar o e-mail do professor Kim Joo-yeong.
— Sim, pode falar.
Jang Jin-woo respondeu enquanto caminhava em linha reta na direção das três horas que Marvin lhe tinha indicado. Gostava da sensação do ar frio do inverno roçando sua pele. Ao percorrer a metade dos cem metros, avistou Marvin, de pé sobre a pista de quatro faixas, quieto, esperando por ele.
Depois de armar aquele escândalo e desaparecer por alguns dias, parecia que tinha voltado a descer para Oseong. Com certeza tampouco tinha tido outra alternativa mais efetiva. Decidiu passar por cima de toda essa deriva recente, valorizando que ao menos ele tivesse uma capacidade de análise da realidade mais rápida do que o esperado.
Embora agora sim pensasse em dizer-lhe para parar de sair de casa como bem entendesse. Não importava se chegasse tarde, mas tinha que dormir lá. Se o fazia por ansiedade, inclusive estava disposto a adiantar a acusação contra Hong Gyeong-uk. De qualquer forma, para a primavera do ano seguinte, o mais tardar, pensava em pôr fim a todo esse lamaçal.
Sem perceber, Jang Jin-woo já tinha parado bem em frente a Marvin. Do outro lado do auricular, seu interlocutor continuava expressando preocupações sobre os componentes do fármaco, mas ele escutava por um ouvido e deixava sair pelo outro. Em vez disso, focava toda a sua atenção na pessoa à sua frente. Marvin parecia molhado, como se estivesse sob a chuva, embora não fosse o caso.
Por que teria pedido para vê-lo em um lugar como este? Justo quando começava a se perguntar, Marvin se aproximou dele de repente. E, ao aproximar seus rostos, inclinou ligeiramente a cabeça.
— ……?
A princípio não entendia o que ele estava fazendo. Só quando os lábios frios de Marvin se abriram e sua língua morna o invadiu, Jang Jin-woo se deu conta de que Marvin o estava beijando. E não só isso: fazia-o com intensidade, inclusive com entusiasmo.
— Não, ou seja… se lidarmos assim com isso, não vão dizer que estamos usando um morto? O promotor Jang não apresentou a acusação na época, não é? Se os jornalistas cavarem, no final a postura só vai se complicar…
Do outro lado do telefone ainda se escutava uma voz preocupada, mas nada disso entrava mais em sua cabeça. Marvin, centrado unicamente em se apoderar de seus lábios, inclinou-se para a sua outra orelha — a que não segurava o telefone — e lhe sussurrou:
— É que alguém está me seguindo com o olhar… Preciso dar a impressão de que fomos direto para o hotel. Poderia colaborar?
Ao olhar na direção que Marvin apontou, notou um SUV preto estacionado não muito longe. Pensou que talvez ele buscasse provocar uma situação comprometedora para distrair aqueles que o vigiavam. Olhando para esses olhos que piscavam com um brilho estranho, Jang Jin-woo murmurou com calma:
— Deputado, surgiu algo urgente. Entro em contato mais tarde.
E desligou sem mais. Levou os dedos aos lábios, como querendo recuperar a sensação do beijo fugaz, e perguntou:
— Você podia ter ido para casa. Por que tem que ser um hotel?
— Há motivos para isso. A única coisa de que precisamos é parecer que entrei no hotel em pleno cio. Coopere um pouco, sim?
Para Jang Jin-woo, a proposta se mostrou bastante atraente. Com um sorriso que ia se formando lentamente, tomou a mandíbula de Marvin e a aproximou de si em sinal de resposta.
— Com prazer.
E então, deu-lhe um beijo tão intenso que o torso de Marvin, apoiado na barreira metálica da rua, terminou por se inclinar para trás.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello