Capítulo 123
O clima em Seul levava vários dias com um frio persistente e escalafriante. Cada vez que o ar úmido e gelado roçava a pele nua, as pessoas reunidas no estacionamento se estremeciam.
Mas por mais que alguém se agasalhasse, não era possível andar com o rosto coberto. Todos, com as bochechas igualmente enrubescidas, aqueciam as mãos junto ao aquecedor instalado na sala de espera enquanto aguardavam aqueles que deviam buscar.
Uma das reuniões de antigos companheiros da mesma idade em Yeouido, chamada “Joamhoe”, acabava de celebrar ali sua festa de fim de ano antecipada. Embora fosse um grupo amistoso de apenas umas vinte pessoas, um de seus membros tinha sido nomeado comissário nacional nesse mesmo ano, elevando consideravelmente o estatus do grupo. Por isso, o estacionamento estava repleto de sedãs pretos.
O carro de Choi Hyeong-il também estava entre eles. Marvin o esperava bem ao lado, fumando um cigarro.
Um dos assistentes que aquecia as mãos junto ao aquecedor fez um gesto para Marvin, convidando-o a se aproximar. Parecia que todos os demais já se conheciam bem, e ouviam-se murmúrios amistosos de conversa.
— Não, é que eu sou motorista de aplicativo. Chamaram-me pelo aplicativo, então cheguei um pouco antes.
Queria deixar claro que, embora parecesse conhecer todo mundo, ele preferia não se meter.
— E o que tem a ver? Está frio.
O assistente, que parecia um pouco mais velho, bufou pelo nariz e esfregou as mãos. Marvin lhe respondeu com um sorriso leve e voltou a levar o cigarro aos lábios.
Foi então que a porta do restaurante de carnes, um prédio de três andares, abriu-se de par em par e os clientes saíram em bando.
De imediato, os motoristas e assistentes que estavam junto ao aquecedor correram para seus veículos. Seguiram-se longas saudações e bons desejos de despedida. Entre os que se despediam dos que partiam, também apareceu Choi Hyeong-il.
Uma vez que a lotada frente do local se esvaziou um pouco, Choi Hyeong-il começou a caminhar em direção ao seu carro acompanhado por outra pessoa. Marvin apagou o cigarro e se aproximou deles.
— Chamaram o 0876 para um motorista?
Nesse instante, Choi Hyeong-il, que estava conversando com um conhecido, virou a cabeça. Seu rosto se contraiu de forma quase imperceptível, embora seu amigo não parecesse ter notado e o olhasse com estranheza.
— O que foi? Você não disse que hoje ia se controlar? E já tomou outro gole?
— Eh? Ah, bom…
Choi Hyeong-il olhou para o lado e improvisou uma desculpa. Seu amigo, ao vê-lo estufar o peito com força enquanto passava a língua pelos lábios ressecados, soltou uma risada entre os dentes.
— Claro, é que se o ministro te serve outra, como você vai dizer não? Gente como nós tem que abaixar a cabeça e engatinhar.
Deu um par de tapinhas em suas costas, sem notar o clima, e logo de repente dirigiu seu olhar para Marvin, que esperava junto ao assento do motorista.
— Ei! Mas que bonito o motorista, hein? Um rosto desses fazendo serviço de motorista? Parece que a economia está difícil ultimamente. Ei, Hyeong-il, se eu tivesse nascido com esse rosto, já estaria em uma agência de talentos. É que… caminhando pela rua, com certeza dão cartões de visita e tudo, não é?
O tom em que falava deixava claro que o álcool já tinha subido bastante.
— Sim, estive me preparando para algo durante bastante tempo, mas a empresa me apunhalou pelas costas e tudo veio abaixo.
Marvin respondeu-lhe com total descaramento. Choi Hyeong-il soltou um suspiro e virou a cabeça fingindo não saber de nada.
— Ah, é mesmo? O que você era, ator? Ídolo? E agora está fazendo trabalhos de meio período porque está sem um tostão?
— Isso mesmo.
— Uau, merda. A vida sim é uma porcaria, não é? Mas, ei, o que aconteceu? Te passaram a perna? Você devia processar. Eu tenho licença de advogado, quer que eu te ajude?
— De novo com a sua mania de se meter em tudo? Já vai embora. Eu também estou cansado.
Choi Hyeong-il tratou de cortar o momento empurrando-lhe as costas, como para tirá-lo de cima.
— Ah, mas a gente também pode dar uma força para um jovem trabalhador, não é? Vejamos, me dá um cartão, por favor. Na próxima vez eu te ligo.
Pensou que ia se esquivar com alguma desculpa, mas Marvin tirou tranquilamente um cartão do bolso.
— Muito obrigado. Espero sua ligação.
Choi Hyeong-il franziu a testa enquanto recebia o objeto que Marvin lhe estendia. A primeira coisa que saltava à vista era a frase “Serviço disponível 24/7, condução expressa” impressa em tamanho grande.
De onde tirou isso agora? Sempre tinha esse tipo de detalhe estranho bem preparado.
Choi Hyeong-il despediu-se de seu amigo e subiu no assento do carona.
— Já que você está aqui, me leva para casa dirigindo.
Com cara de esgotamento, reclinou o encosto. Marvin o observou em silêncio, com os olhos fechados e todos os seus pontos vulneráveis expostos, em uma espécie de ato de arrogância que dizia você não vai ter o descaramento de me atacar, vai?
Ligou o motor. Depois, no navegador do carro, buscou o ícone em forma de casa, pressionou-o e deu a partida.
O carro parou no estacionamento subterrâneo de um complexo de apartamentos em Yongsan. Choi Hyeong-il continuava com os olhos fechados, mas Marvin sabia que ele estava acordado. Pela luz do teto do carro, suas sobrancelhas se moviam levemente de forma intermitente.
Como se soubesse todas as desculpas e mentiras que ele estava formulando mentalmente, Marvin foi quem quebrou o silêncio primeiro.
— Ontem me reuni com a secretária Park Sang-hee.
Tinha omitido todos os antecedentes, mas Choi Hyeong-il não pediu explicações.
— Entregaram-lhe todos os documentos?
— Sim.
Marvin virou a cabeça para olhá-lo a partir do assento do motorista. Choi Hyeong-il murmurou sem abrir os olhos:
— Então não pense em nada estranho e aceite. É sua última oportunidade. Se deixar passar isto, já não poderei te ajudar.
Um suspiro escapou de seus lábios.
— Fui eu quem propôs à secretária Park. Que não valia a pena se desgastar mais, que era melhor deixar você ir. Afinal de contas, você é a vítima, não é? Por isso ela pediu a aprovação dos superiores e te preparou esta saída. Só se faça de desentendimento e aceite.
Dizia-o como se estivesse lhe fazendo um grande favor, enfeitando sua intervenção como uma façanha pessoal. Sempre era assim. Eu fui o que te cobriu até o final. Agora só resta depender de mim. De repente, vieram à mente de Marvin todos os dias em que, por essa aparente generosidade, tinha se esforçado desesperadamente.
— Você não tem nenhum vínculo aqui na Coreia. Lá se vive bem. Tem uma boa paisagem, quase não há coreanos…
— Por que fez isso comigo?
Marvin o interrompeu. E fez a si mesmo a mesma pergunta.
Por que fez isso comigo?
Ao notar que o tom de Marvin era diferente do habitual, Choi Hyeong-il abriu lentamente os olhos. Ao redor das pálpebras enrubescidas marcavam-se rugas profundas.
—… O quanto você descobriu?
— Não sei. Mas estou seguro de que o filho do presidente e seu colega de escola são uns pervertidos.
Choi Hyeong-il suspirou fundo e assentiu com a cabeça. Pelo visto, tinha resumido bem para ele.
— Não é uma desculpa, mas… eu soube depois. Quando Do-jin me pediu especificamente que te levasse, achei estranho, sim. Mas pensei que era porque vocês se conheciam. Nunca imaginei que aquele maldito faria algo assim. Se eu soubesse…
— Se soubesse, teria tentado impedi-lo?
Marvin o olhou com uma expressão serena. Talvez pelo tom sem acusação direta, Choi Hyeong-il hesitou em responder. No final, deixou de enfeitar as palavras.
—… Sinto muito.
Embora soubesse, o máximo que poderia fazer era adverti-lo. Porque o propósito de tudo isto nunca foi simplesmente “converter Kim Marvin em ômega”. A operação Mechona já estava em andamento, e a participação ou não de atores secundários como ele não mudava nada.
Marvin soltou uma risada áspera e ficou em silêncio por um momento. Não é que estivesse esperando um pedido de desculpas. Mas ao ouvi-lo, já não tinha mais nada a dizer. Pensou que, de todas as formas, não conseguiria nada se zangando com ele.
Contudo, havia algo que ainda martelava em sua cabeça.
— Isto… foi Hong Gyeong-uk quem montou o plano por meio do VIP? Ou foi ele quem se juntou a um plano já existente e o fez colapsar? Ainda não sei quem foi o arquiteto original de tudo isto.
Choi Hyeong-il, que tinha mantido os lábios firmemente selados, soltou um pequeno estalo.
— Até onde eu sei, a proposta da operação veio diretamente da Secretária. Verifiquei várias vezes com o secretário Im. Disseram-me que a revisão real do projeto foi feita já no comitê de transição. Isso faz bastante tempo. Por mais que seja o filho do presidente, não poderia ter se envolvido tanto.
— Então, o que busca agora a Casa Azul? E o senhor, subdiretor… por que continua se apegando assim? Ofereceram-lhe o cargo de diretor-geral ou algo do tipo?
— Ha, se fosse assim, nem teria pensado duas vezes.
Virou o olhar para a janela como se ele mesmo estivesse farto de tudo isto.
— Parece que o VIP realmente acredita que isto é viável. Como se o tivessem doutrinado a fundo ou algo assim…
Deixou a frase no ar, mas logo lançou um olhar de soslaio para Marvin. Notava-se certa dúvida em seus olhos, embora não tenha durado muito. Terminou por soltar tudo de uma vez.
— Como o desenvolvimento vai lento, agora quer que lhe levemos uma amostra. Enfim, você e ele, ambos estiveram sob a minha responsabilidade, então agora cabe a mim limpar a bagunça. E o que eu ia fazer? Trazer à tona que o segundo filho do presidente está envolvido? Eu também tenho família para sustentar, sabe?
Suspirou profundamente e ajeitou-se no assento. Talvez estivesse com o estômago cheio, porque afrouxou o cinto da calça, que o apertava, e limpou a garganta.
Aquele que em seu dia foi um agente disfarçado de elite dentro do Comitê de Defesa Nacional, agora tinha um abdômen similar ao de qualquer homem de meia-idade.
Na parede do estacionamento, intensamente iluminada, lia-se em letras grandes o nome da marca do complexo de apartamentos. No para-brisa do carro, junto a uma foto familiar, havia um ursinho de pelúcia com um cartaz pendurado que mostrava o número de contato em caso de ausência. As coisas que ele tinha que proteger estavam por todas as partes.
— Se eu conseguir a amostra, o que acontecerá?
Nesse momento, ele o olhou surpreendido. Mas quase de imediato, como se algo lhe viesse à memória, sua expressão murchou.
— Fala disso que supostamente estava na casa de Do-jin? Esqueça. Nós já revistamos o lugar como que com uma lupa e não encontramos nada.
Havia algo estranho em suas palavras.
— E como soube que poderia haver uma amostra na casa do veterano Do-jin?
Até agora, só uma pessoa conhecia esse dado. Como se pudesse ler o torvelinho no pensamento de Marvin, Choi Hyeong-il estalou a língua e lhe deu um conselho:
— Marvin, aqui você tem que ter muito bom senso. Quem você acha que é o maior filho da puta de todos os que se meteram neste assunto?
Nesse instante, Marvin entendeu a quem ele estava se referindo. Não foi capaz de dar uma resposta imediata, e Choi Hyeong-il tirou seu telefone e reproduziu um áudio.
— É que esse garoto é muito carente emocionalmente. Se alguém lhe demonstra um pouco de afeto, logo ele se apega.
— Também me pareceu isso.
Marvin ficou imóvel. Reconhecia essa voz e esse tom bem demais. Parecia uma gravação direta, amplificada com microfone de ambiente. Quando o olhou com cara de o que é isto?, Choi Hyeong-il apenas deu de ombros. É tal como você ouve, dizia com esse gesto.
— E o que ele disse? Que vai entregar ao promotor Jang? Não acho que seja tão idiota.
— Só me disse o superficial. Estava frustrado, então lhe dei um pouco de apoio. Logo me dirá onde guarda. Porque acredita que estamos do mesmo lado.
Porque acredita que estamos do mesmo lado.
Essa última frase que Jang Jin-woo tinha soltado no final começou a ser reproduzida uma e outra vez na cabeça de Marvin, sem parar. Marvin ficou completamente imóvel, como se tivesse se transformado em uma estátua de pedra.
⚖ ─── Α · Β · Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello