Capítulo 29
He Siyu: “…”
Sang Ning abriu a porta do carro e saiu, despedindo-se educadamente:
— Vou indo.
Então fechou a porta e entrou na residência dos Nan.
A atmosfera dentro do carro congelou instantaneamente. O motorista e o assistente Yan, nos bancos da frente, prenderam a respiração, com medo de fazer até o menor ruído que pudesse chamar a atenção de He Siyu para a presença deles.
Mas o carro permaneceu em um silêncio assustador. O assistente Yan e o motorista trocaram um olhar, talvez o chefe não estivesse zangado, afinal?
Bem, o chefe já havia enfrentado inúmeras tempestades. Certamente, ele teria grandeza suficiente para não guardar rancor de uma garota tão jovem por causa de uma coisa tão insignificante.
O assistente Yan ergueu os olhos cautelosamente para o retrovisor outra vez, apenas para ver o rosto de He Siyu carregado de desagrado.
Ele engoliu em seco e perguntou rigidamente:
— Chefe, devemos voltar para a empresa agora?
He Siyu puxou a gravata.
— Sim.
A atmosfera opressiva persistia. O assistente Yan lançou outro olhar pelo retrovisor e tentou aliviar o clima com uma risadinha constrangida:
— A senhorita Nan acabou de voltar do interior e ainda é jovem. Provavelmente ainda não está acostumada com certas coisas, então talvez suas palavras tenham lhe faltado um pouco de tato.
He Siyu soltou um escárnio.
— Eu pareço me importar?
O assistente Yan encarou seu olhar gélido e forçou um sorriso.
— Não…
A expressão de He Siyu continuava tempestuosa, e a caneta em sua mão direita quase entortava sob a força de seus dedos.
De repente, seu celular vibrou. Com uma expressão carrancuda, ele o desbloqueou e viu uma solicitação de amizade no WeChat.
Um avatar de gato. Suas sobrancelhas se franziram.
Ele tocou na notificação. A solicitação dizia: “Esta é Nan Sangning.”
Suas sobrancelhas se ergueram levemente, e a hostilidade de antes desapareceu em um instante. Recostando-se preguiçosamente no banco, ele examinou a solicitação com uma expressão muito mais tranquila.
Então era por isso que ela havia pedido seu contato, queria adicioná-lo no WeChat.
O assistente Yan e o motorista perceberam a mudança bizarra na atmosfera do carro e não conseguiram resistir a espiar novamente pelo retrovisor. Para seu horror, viram os lábios do chefe se curvarem em um leve sorriso enquanto ele olhava para a tela do celular, parecendo quase sereno.
De alguma forma, aquilo era ainda mais assustador do que a expressão carrancuda de antes.
O assistente Yan estremeceu e imediatamente desviou os olhos, encarando rigidamente a estrada à frente.
He Siyu tocou tranquilamente em “Aceitar solicitação de amizade”.
—
Sang Ning voltou para a residência dos Nan quando seu celular vibrou, uma notificação informando que He Siyu havia aceitado sua solicitação.
Ela piscou. Esperava que ele a rejeitasse por despeito. No fim das contas, ele não era tão mesquinho quanto havia imaginado.
Ji Yan havia lhe dito que, nos dias de hoje, fazer ligações era considerado indelicado. Quando duas pessoas trocavam informações de contato, o WeChat era o meio preferido. A menos que fosse algo urgente, enviar uma mensagem era uma atitude de alta inteligência emocional, pois respeitava os limites da outra pessoa.
Sang Ning levou o conselho a sério. Agora, seu WeChat estava cheio de contatos, incluindo Nan Siya e Nan Muchen.
Ela abriu a conversa com He Siyu e o cumprimentou educadamente:
[Olá, Sr. He.]
Era melhor manter um pouco de decoro, não havia necessidade de antagonizá-lo completamente.
Dois minutos depois, He Siyu respondeu:
[Hum.]
“Hum”? O que aquilo queria dizer?
Sang Ning franziu a testa. Ele estava satisfeito ou irritado?
Ela ainda não gostava muito de trocar mensagens. Sem poder ver a expressão da outra pessoa, era difícil avaliar seu humor.
Mas, pensando bem, He Siyu sempre fora impossível de decifrar. Mesmo pessoalmente, ela nunca conseguia descobrir o que ele estava pensando.
Que homem problemático.
Sang Ning subiu para seu quarto, pegou sua pipa, papel e caneta e saiu para a pequena varanda para compor uma partitura.
Desde que o avô descobrira que a Velha Madame He gostava de suas apresentações de pipa, ele havia comprado especialmente uma para ela, insistindo que praticasse diligentemente para conquistar a simpatia da velha senhora. Afinal, os benefícios para a família Nan seriam incontáveis.
Mas Sang Ning raramente tinha tempo para tocar. Sua agenda estava lotada, havia coisas demais para aprender, sem mencionar a confusão que era a família Nan. Primeiro, ela precisava se familiarizar novamente com as melodias.
Sua varanda era pequena, mas dava para o jardim dos fundos, banhado pela luz do sol. Em um canto havia uma cadeira suspensa, onde Sang Ning adorava se enroscar com um livro.
A essa altura, ela já havia se adaptado completamente à vida na residência dos Nan e sabia exatamente como aproveitá-la.
Ela abriu a porta da varanda e imediatamente avistou um casal de amantes desafortunados no jardim abaixo.
— Siya, como você pôde acabar assim? Sabe o quanto isso me dói?
— Não é como se você se importasse comigo. Se eu realmente tivesse me afogado, você provavelmente estaria aliviado, já que ficaria livre para se casar com Zhan Yijun!
— Não ouse dizer uma coisa dessas! Siya, será que preciso arrancar meu coração para provar o que sinto por você?!
— Irmão Zheng, não faça isso consigo mesmo — soluçou Nan Siya. — Sinto muito por ter descontado em você. Eu só estou… tão frustrada por ser tão inútil, sempre caindo nas armadilhas dos outros, sempre sendo intimidada.
Chen Zheng a puxou para os braços.
— Como alguma dessas coisas poderia ser culpa sua? A culpa é daquela sua irmã venenosa! Você é pura e bondosa demais não tem como competir com a maldade dela!
Nan Siya ergueu para ele os olhos marejados de lágrimas.
— Então… você acredita em mim, não é?
— É claro! Mesmo que o mundo inteiro caia nas mentiras de Nan Sangning, eu sempre estarei ao seu lado. Jamais duvidarei de você!
— Irmão Zheng… — Nan Siya chorou, enterrando o rosto no peito dele.
Os dois se agarraram um ao outro, completamente entregues ao próprio melodrama.
Sang Ning observou a cena sem expressão.
Nan Siya estava errada em uma coisa: Sang Ning não era completamente indiferente a conflitos. Sempre que aqueles dois apareciam, agrediam seus olhos e ouvidos.
Nan Siya pareceu sentir seu olhar e, de repente, ergueu a cabeça, encarando Sang Ning com os olhos cheios de lágrimas.
— O que você está fazendo aqui?!
Chen Zheng imediatamente a protegeu, lançando um olhar furioso para Sang Ning.
— Nem pense em encostar um dedo na Siya enquanto eu estiver aqui!
Sang Ning: “…”
Ela respondeu com indiferença:
— Primeiro, este é o meu quarto.
Segundo, vocês estão me incomodando.
Nan Siya e Chen Zheng: “…”
Chen Zheng apertou ainda mais Nan Siya contra si e zombou:
— Não finja que é inocente. Eu sei exatamente como você tem perseguido a Siya a cada oportunidade. Você pode enganar o tio e a tia Nan, mas não a mim! Vou deixar uma coisa bem clara: se você se atrever a encostar nela novamente, não vou deixar isso barato!
Nan Siya olhou para ele com adoração, os olhos transbordando gratidão.
— Irmão Zheng…
Sang Ning: “…”
Ela havia sido incluída de repente naquele estranho teatrinho deles?
Chen Zheng, confundindo seu silêncio com medo, continuou:
— Vou deixar bem claro para você: não importa quais truques use, você jamais substituirá a Siya. Mesmo que consiga chegar ao topo usando suas artimanhas, eu jamais permitiria que uma mulher cruel e calculista como você se tornasse minha noiva!
Sang Ning: “…”
Às vezes, diante de um absurdo absoluto, tudo o que se podia fazer era rir.
Mas ela se conteve. Se risse, Chen Zheng poderia interpretar aquilo como flerte.
Sua voz estava gélida.
— Sr. Chen, você está se superestimando. Aos meus olhos, você nem sequer serve como segunda opção.