Spin Off 03
❀ 7 Minutes Of Heaven 03
Spin Off 2 – Save the Date
Chiiik — Com o som das portas se fechando, o trem de alta velocidade deslizou para fora da plataforma.
Pela janela, as estruturas de aço da Boston South Station recuaram e desapareceram, e a paisagem cinza-pálida característica do início da manhã passou correndo pelo vidro.
Jeong-in segurava um copo para viagem em uma das mãos e pressionava levemente os lábios contra o calor morno para bebericar o café. Então, ele encostou-se lentamente no assento.
Hoje era o dia que haviam decidido fazer a prova dos smokings que usariam na cerimônia. Havia alfaiatarias perfeitamente decentes perto da Harvard Square, mas Vivian foi irredutível. Tinha que ser absolutamente em Nova York.
Ela passou um longo tempo expondo sua adoração por Nova York, dizendo que era a capital da moda e o berço das tendências. Quando Jeong-in se rendeu e aceitou a viagem para Nova York, ela então insistiu que ele deveria ir sozinho, sem o Chase.
Chase não conseguia tempo de qualquer maneira. Comparado a ele, constantemente fustigado por plantões e chamadas de emergência, Jeong-in tinha mais flexibilidade de horário. É claro que a vida de um pesquisador de empresa farmacêutica nunca era tranquila, mas pelo menos ele conseguia garantir um dia para si.
Vivian estava depositando uma paixão quase obsessiva nesses preparativos de casamento, como se sua vida dependesse disso.
No dia seguinte à sua confirmação como madrinha, ela criou um grupo no chat para os três. E, a partir daquele momento, a janela de mensagens começou a ser literalmente bombardeada.
Não apenas fotos de trajes cerimoniais, mas tudo, desde conceitos de iluminação do salão de recepção até coisas triviais como centros de mesa — todos os tipos de fotos e links choviam. As notificações tocavam dezenas de vezes por dia.
Em poucos dias, Chase considerou seriamente se deveria bloquear o número dela. Jeong-in riu e o impediu, mas ele realmente entendia como Chase se sentia.
A boutique que visitariam hoje também era um lugar que Vivian havia explorado pessoalmente. Aquele local secreto no Upper East Side de Manhattan tinha a reputação de ser o lugar onde figuras do mundo político e empresarial, cujos nomes todos reconheceriam, mandavam fazer sob medida seus smokings de casamento e diversos trajes cerimoniais.
Quantas roupas ele teria que experimentar hoje? O pesadelo daquele dia antes do baile de formatura, quando passaram por uma transformação sob a direção de Vivian, flutuou na mente de Jeong-in. Naquele dia, Jeong-in aprendera pela primeira vez que trocar de roupa podia ser uma atividade que drenava tanta energia.
De repente, ele se lembrou do que Vivian dissera ao telefone naquela manhã.
— A transformação precisa aparecer de forma mais eficaz, então pareça o mais desleixado possível hoje.
— Desleixado? Como eu faço isso?
— Apenas vista-se como você faz normalmente.
Rindo da lembrança, Jeong-in olhou para baixo para escanear seu visual uma vez.
Coincidentemente, Jeong-in estava vestido quase no mesmo estilo daquele dia. Uma camiseta branca com uma camisa xadrez por cima, jeans azul claro naturalmente desbotados nos joelhos pelo uso frequente e tênis gastos. Adicione a isso uma mochila estufada com bagagem, já que ele planejava passar a noite. Vivian definitivamente despejaria sermões no momento em que o visse.
Jeong-in continuou olhando pela janela com um pequeno sorriso ainda nos lábios. Árvores de inverno desaparecendo rapidamente para trás, velhos armazéns ao lado dos trilhos fluindo e, acima deles, a luz nebulosa do sol da manhã deslizando silenciosamente sobre o ar frio.
Ele tirou o laptop da mochila. Respondendo a vários e-mails e reorganizando dados deixados em seu caderno de laboratório, o tempo voou, e o cenário lá fora já havia mudado para uma paisagem urbana cinzenta.
Quando fechou a aba aberta do navegador e verificou a bateria quase esgotada, o trem finalmente chegou ao centro de Manhattan.
Assim que saiu da estação, Jeong-in vestiu uma jaqueta leve acolchoada. Em vez de a temperatura estar significativamente mais baixa que a de Boston, o vento cortando entre os prédios parecia agudamente cortante.
Não era sua primeira vez em Nova York. Mas, a cada visita, ele não conseguia afastar a impressão de uma cidade estranha e fria. As sirenes das ambulâncias perfuravam seus ouvidos mesmo de longe, e todos que caminhavam pelas ruas pareciam ocupados.
Embora houvesse bastante gente que insistia em Nova York, dizendo que até a vizinha Nova Jersey parecia sufocante, Jeong-in achava que nunca conseguiria se tornar um nova-iorquino. Para uma pessoa da Califórnia, acostumada a um ritmo tranquilo, esta cidade era rápida e afiada demais.
Espremendo-se entre a multidão aglomerada, Jeong-in pegou um táxi às pressas. E chegou a uma boutique de luxo na rua mais glamorosa.
Jeong-in parou brevemente e olhou para o edifício. O exterior chamativo com fachada de vidro parecia ostensivo desde o início. Parecia ter cerca de cinco andares e, a julgar pela ausência de placas visíveis ou guias de andares pelo lado de fora, pareciam ocupar o prédio inteiro.
Jeong-in, que não tinha talento para a moda, sempre se sentia de certa forma pequeno ao vir a lugares como este. Era uma sensação semelhante a estar na frente de um consultório de dentista antes de uma consulta.
Após respirar fundo, sua expressão tornou-se mais resoluta enquanto ele empurrava a maçaneta da porta de vidro.
Assim que entrou, uma funcionária vestida impecavelmente de uniforme, sem espaço para um único desalinho, aproximou-se. Embora ele quisesse desesperadamente dar meia-volta e sair quando ela perguntou “Como posso ajudá-lo?”, Jeong-in se conteve.
Quando ele pronunciou cuidadosamente o nome de Vivian, um olhar acolhedor cruzou o rosto da funcionária, como se fosse um bilhete de entrada especial. Logo, Jeong-in foi guiado a um elevador dentro do edifício e seguiu para o último andar, o quinto.
O salão espaçoso no quinto andar era como um showroom gigante.
O teto era alto, e uma iluminação sutil de lustres instalada por toda parte iluminava o espaço intensamente. Vestidos e smokings estavam organizados ordenadamente por cor e material, pendurados rente às paredes, e no centro, um grande sofá estava posicionado de frente para os provadores e espelhos de corpo inteiro.
Ele conseguia ver as costas de Vivian em um minivestido de estampa única e botas que chegavam às coxas. Ela estava parada em frente a uma arara com smokings pendurados com esmero, pegando e guardando as peças uma a uma com uma expressão pensativa, percorrendo-as lentamente.
— Vivian.
Vivian virou a cabeça e aproximou-se com um sorriso brilhante. Os dois se abraçaram naturalmente como velhos amigos. Quando ela se afastou, olhou Jeong-in de cima a baixo como se o estivesse inspecionando e então caiu na risada.
— Sério, você é tão consistente.
— Vou aceitar isso como um elogio.
Vivian balançou a cabeça como se estivesse se rendendo.
Ter uma aparência excepcional e nem sequer pensar em maximizá-la e utilizá-la mais era algo que ela simplesmente não conseguia entender. Mas essa era precisamente a identidade do nerd que ela conhecia, Jay Lim.
Ela informou brevemente à funcionária que guiara Jeong-in que o noivo havia chegado e que preparasse a prova. Então, ela casualmente entrelaçou o braço ao de Jeong-in e o conduziu ao sofá no centro do salão.
— O Chase não está preocupado por você estar aqui em Nova York por dois dias inteiros?
— Preocupado?
— Existe um ditado que diz que Nova York é a capital mundial dos gays. E se alguém te roubar de mim?
Jeong-in respondeu, contendo um riso.
— Nosso relacionamento é baseado em confiança mútua. Se ele se preocupa, é com coisas como eu ser furtado ou passar mal por comer alguma comida de rua errada.
— …Certo. Isso provavelmente é o normal.
Por um momento, Jeong-in não deixou passar o brilho amargo que cruzou os olhos de Vivian.
— Vivian?
Em vez de responder, ela rapidamente assumiu uma expressão familiar. Então voltou ao seu estado despreocupado, como se nada tivesse acontecido.
Funcionários uniformizados moviam-se de forma ocupada, porém fluida como água corrente, arrumando a mesa em frente ao sofá.
Em um balde de gelo a um canto, repousava uma garrafa de champanhe cujo rótulo, por si só, exalava luxo. Taças de cristal tipo flute perfilavam-se ao lado, e um prato de petiscos com nozes, queijo e figos maduros foi colocado ao centro.
Uma imagem vaga formou-se na mente de Jeong-in. Uma cena de magnatas ricos sentados em torno deste sofá com vários assistentes, selecionando vestidos e smokings.
— Vamos começar com uma taça de champanhe.
Antes mesmo de Vivian terminar de falar, um funcionário se aproximou e pegou a garrafa de champanhe. Ele removeu a rolha silenciosamente e, em seguida, despejou com cuidado o líquido dourado repleto de bolhas efervescentes nas duas taças.
As taças tilintaram com um som límpido, e Jeong-in deu um gole generoso para umedecer a garganta. As bolhas que estouravam de forma refrescante tinham um aroma cítrico nítido e, ao final, a doçura sutil de pêssego maduro deixava um retrogosto agradável.
Aproveitando o momento em que o humor de ambos havia suavizado graças ao champanhe, o gerente, que se aproximou discretamente, perguntou a altura e o tamanho da cintura de Jeong-in.
— Então traremos algumas amostras. Que tipo de sapatos devemos preparar para a prova?
Diante da pergunta do gerente, Jeong-in pareceu um pouco em dúvida e lançou um olhar para Vivian em busca de ajuda. Vivian interveio como se estivesse esperando por isso.
— Oxfords de amarrar, preto clássico. Qual o tamanho do seu sapato?
— 40.
— Realmente pequeno. Você faz compras na Gap Kids?
Enquanto Jeong-in lançava um olhar de leve reprovação para Vivian, o gerente, que anotara o tamanho do sapato, retirou-se em silêncio.
Vivian pegou a garrafa de champanhe e perguntou enquanto reabastecia a taça vazia de Jeong-in:
— Vocês decidiram a data e o local?
— Sim. A data é 14 de abril, mas tudo o que sei sobre o local é que é em Bellacove.
— Por que esse momento especificamente?
— Apenas… Abril tem um significado para nós.
Vivian assentiu de forma estranha e, imediatamente, fez um gesto para a secretária que estava ao seu lado.
— Então precisamos enviar os cartões de Save the Date agora mesmo. Procure empresas de cartões. Lugares onde possamos ver amostras reais.
A secretária assentiu com familiaridade e puxou o telefone imediatamente. Observando as mãos dela se movendo pela tela em uma velocidade tremenda, Jeong-in voltou seu olhar para Vivian com o rosto um pouco atordoado.
— Já?
— Como assim “já”? Faltam apenas cinco meses.
— É verdade, mas…
Os métodos de entrega de convites de casamento americanos diferiam dos da Coreia. Embora os convites formais fossem geralmente enviados cerca de um mês antes do casamento, havia a cultura de enviar primeiro o que poderia ser chamado de aviso prévio — os cartões Save the Date. Usados para anunciar a data do casamento e a localização aproximada com antecedência, para que os conhecidos pudessem reservar aquele dia, eram tipicamente enviados cerca de seis meses antes da cerimônia.
— Vamos cuidar disso enquanto estamos aqui.
— …Tudo bem.
Diante do ímpeto de Vivian, Jeong-in apenas assentiu obedientemente.
Em pouco tempo, o gerente retornou com vários funcionários. A arara que eles trouxeram estava repleta de smokings; mesmo em uma contagem rápida, parecia haver bem mais de dez. Ele teria que experimentar todos aqueles? Jeong-in sentiu um breve calafrio na espinha.
O gerente retirou e mostrou um terno que estava bem na frente. Era um paletó branco com um leve tom creme.
— Para casamentos do mesmo sexo, tons de branco são bastante populares.
Vivian soltou um longo suspiro e apontou com o queixo para Jeong-in, que estava sentado ao seu lado trocando de sapatos.
— Sr. Hewitt, olhe para ele. Olhe para esta pele pálida que parece não ter nada a ver com férias ou bronzeamento, como se nunca tivesse chegado perto de uma praia. Se colocarmos roupas brancas sobre isso, seremos capazes de distinguir se é uma pessoa ou espuma de leite?
— Mas tons de preto podem deixá-lo ainda mais pálido… Então, devo trazer mais tons de cinza?
— Bom. E tons de azul também. A cor dos olhos do noivo dele é azul.
Quando o gerente sussurrou instruções, os funcionários que haviam desaparecido rapidamente retornaram trazendo outra arara. Estava cheia de smokings em tons de azul, desde um azul gélido próximo ao branco até um marinho profundo.
Vivian disse com os olhos brilhando de empolgação:
— Vamos começar?
E assim, a brincadeira de boneca de Vivian começou. Como ele já havia passado por isso antes do baile de formatura, esta seria a “segunda temporada”.
Para verificar o ajuste adequadamente, Jeong-in teve que trocar de roupa dezenas de vezes, sempre usando camisa social e sapatos. Indo e voltando do provador para o espelho, suas pernas perdiam a força e sua mente ficava cada vez mais nublada.
Cada vez que Jeong-in saía com uma roupa nova, Vivian continuava tirando fotos e disparando comentários.
— Cinza demais.
— Azul excessivo.
— Subtom amarelado demais.
— Parece sombrio.
Para Jeong-in, todas as cores pareciam iguais, mas aos olhos de Vivian elas pareciam completamente diferentes, como maçãs e laranjas.
Então, o gerente puxou um conjunto mais ou menos do meio da arara. Era um paletó com uma cor curiosa que parecia mudar dependendo da luz. À primeira vista, parecia cor de água. Mas também parecia um cinza claro e, de certos ângulos, uma sutil tonalidade de lavanda passava por ele.
Os olhos de Jeong-in, cansados de trocar de roupa tantas vezes, estavam turvos e sem foco. Mas, no momento em que viu aquele conjunto, seu olhar aguçou-se, como se a lente de uma câmera borrada tivesse recuperado o foco.
Era um tom bizarramente familiar, como se alguém tivesse usado a ferramenta conta-gotas para capturar a cor da parte mais clara das íris de Chase.
Enquanto Jeong-in encarava intensamente o tecido com seu brilho luxuoso, Vivian olhou para ele com uma expressão intrigada.
— Por quê? Você gostou desse?
— Parece a cor dos olhos do Chase.
Vivian deu um pulo e agarrou o paletó do smoking, segurando-o contra o rosto de Jeong-in enquanto ainda estava no cabide.
— Mm, nada mal. Experimente.
Quando Jeong-in, ainda com o rosto cansado, foi ao provador e saiu vestindo o smoking, viu uma das sobrancelhas de Vivian se erguer. Um bom sinal.
— Não precisa ver mais nada. Vamos com este tecido.
Embora tivesse sido uma provação e tanto, a decisão foi tomada rapidamente. No entanto, como se algo o incomodasse, a hesitação logo nublou o rosto de Jeong-in.
— Mas… eu não deveria pedir a opinião do Chase também?
— Ele vai dizer que está lindo mesmo que você vista trapos.
Jeong-in soltou uma risadinha suave. Aquilo realmente soava como algo que o Chase faria.
— Certo, vamos para o próximo passo.
— Próximo?
Ele pensara que tinham terminado após escolher o tecido, mas era um equívoco ingênuo. Vivian imediatamente lançou a próxima instrução sem nem recuperar o fôlego.
— Agora, vamos olhar os modelos? Sr. Hewitt, poderia trazer paletós de abotoamento duplo? Mostre-nos gravatas e abotoaduras também.
Jeong-in voltou para o provador e experimentou cerca de mais cinco smokings, e teve que testar cada tipo de gravata em seu pescoço, uma por uma.
Reta, borboleta, seda, cetim, fosca. Como se nenhuma delas fosse sequer parecida, Vivian comparava meticulosamente cada detalhe.
Depois disso, ele teve que ficar parado enquanto tiravam suas medidas. Ombros, braços, peito, cintura, comprimento das pernas. Mãos segurando a fita métrica moviam-se de um lado para o outro por todo o corpo de Jeong-in.
Quando o processo aparentemente interminável finalmente terminou, quatro horas inteiras haviam se passado.
Tendo assinado a confirmação do pedido, Jeong-in soltou um longo suspiro e jogou seu corpo cansado no sofá. Então, pegou sua taça, metade cheia de champanhe já sem gás, e virou-a de um gole só.
— Ah, Vivian. Você pode me enviar aquelas fotos do smoking que tirou antes?
Vivian pareceu cautelosa ao perguntar: — Por quê?
— Para mostrar ao Chase.
— O quê? Absolutamente não. Você não sabe que o noivo não pode ver a noiva no vestido de casamento antes da cerimônia? Isso vale para os noivos também. Dá azar!
Na verdade, esse era um tabu que aparecia principalmente em casamentos heterossexuais tradicionais.
A crença de que dá azar o noivo ver a noiva em seu vestido antes da cerimônia originou-se nos costumes de casamento da Europa medieval. Como casamentos arranjados eram comuns na época, essa superstição foi criada para esconder a noiva, caso o noivo a visse antes e mudasse de ideia, rompendo o noivado.
Jeong-in decidiu não expressar esse conhecimento que aprendera em uma aula de antropologia na faculdade. Ele pensou que não seria ruim proporcionar ao Chase um momento de surpresa.
— É por isso que você me disse para vir sozinho hoje? Para que o Chase não pudesse ver?
— Bem, isso entre outras coisas.
Vivian, que estava se fingindo de inocente, virou a cabeça de volta para Jeong-in.
— A propósito, você reservou um hotel?
— Não, ainda não.
— Quer ir para o meu apartamento?
Jeong-in encarou Vivian em silêncio. Após vários segundos de um olhar intenso e mudo, Vivian tardiamente deu um pulo.
— O que você está pensando, seu nerd! É um apartamento de quatro quartos!
— Bem, se for esse o caso… eu aceito o convite.
Quando Jeong-in abriu um largo sorriso, Vivian semicerrou os olhos e lançou-lhe um olhar como se ele fosse um chato. Mas, naquele olhar, estava o afeto familiar que se demonstra a um velho amigo.
Logo, os dois deixaram a boutique e atravessaram o centro de Nova York em um Mercedes com motorista.
Vivian sugeriu parar em um restaurante famoso para jantar, mas Jeong-in, já exausto, balançou a cabeça. O compromisso que acabaram escolhendo foi delivery de comida chinesa. Vivian escolheria o menu e Jeong-in insistiu em pagar.
O apartamento de Vivian era uma cobertura em um prédio alto localizado no Upper East Side de Manhattan.
Ao entrar, a sala de estar que se revelava imediatamente lembrava uma galeria de arte. Pinturas abstratas modernas pendiam amplamente nas paredes, e sofás de couro italiano e mesas de vidro repousavam sobre o piso de madeira clara com acabamento liso.
Vivian mostrou a Jeong-in o quarto de hóspedes que ele usaria e entrou no quarto principal.
O quarto de hóspedes era um espaço limpo, sem bagunça. Tinha uma cama queen-size, dois criados-mudos e uma cômoda baixa, com um banheiro privativo interno.
Após terminar um banho relaxante, Jeong-in vestiu as roupas que trouxera e saiu para a sala de estar. A porta de Vivian ainda estava fechada e, além da grande janela da sala, a glamorosa vista noturna de Nova York brilhava.
Jeong-in afundou-se no sofá macio e abriu o laptop sobre os joelhos. Enquanto verificava se havia e-mails acumulados, uma notificação apareceu no topo da tela: “Chamada de vídeo recebida”. No momento em que confirmou o nome de quem chamava, um sorriso suave floresceu no rosto de Jeong-in.
Quando ele clicou levemente no botão verde, o rosto de Chase preencheu a tela. Seu rosto atraente, como o de um protagonista de filme de romance não importa quando você o visse, capturou imediatamente a atenção. Atrás dele, a sala de estar familiar da casa deles espalhava-se como um pano de fundo.
— Acabou de sair do trabalho?
— Sim. Você está na casa da Vivian?
— Sim. É como a casa de um nova-iorquino de revista. Vou te mostrar, espera.
Jeong-in virou o laptop para mostrar a Chase o espaço além da tela. O interior contido, porém sofisticado, preencheu o ângulo. Sobre a mesa, havia um vaso com mais de cem tulipas carmesim profundas, adicionando um glamour pesado a todo o ambiente.
— Bem legal, né? Ouvi dizer que o aluguel em Manhattan é um absurdo. A Vivian deve ganhar muito dinheiro!
Observando Jeong-in sussurrar como se revelasse um segredo, Chase sorriu como se o achasse fofo. Mas aquele sorriso logo mudou para saudade.
— Eu realmente acho que não conseguiria ter um relacionamento à distância.
— Por quê?
— Sinto que estou morrendo de saudade de você.
— Nós nos vimos esta manhã, sabe? Eu nem estou aqui há um dia inteiro.
Jeong-in riu como se ouvisse uma piada sem graça. Mas o rosto de Chase na tela ainda parecia melancólico.
— Pensar em você não estar ao meu lado parece estranho. Acho que não consigo viver assim.
Desta vez, Jeong-in tornou-se um pouco sério também. As palavras de Chase não soavam apenas como reclamações passageiras.
— Acho que já ouvi isso antes. Quando seu código postal muda, seu coração muda também.
Chase queria ir para o hospital da Califórnia que lhe oferecera uma especialização. Dentro da cirurgia cardiotorácica, a área que ele desejava estava sendo pesquisada de forma mais ativa na Costa Oeste, perto do Vale do Silício.
Mas, se Jeong-in decidisse ficar em Boston, os dois enfrentariam inevitavelmente a distância física.
— Deveríamos testar por dois dias? Se conseguimos viver como um casal à distância.
— Eu odeio só de pensar nisso.
Chase deixou a frase morrer e deitou-se de bruços no sofá. Seus olhos, olhando para a tela com o queixo apoiado em uma almofada, pareciam infinitamente gentis. Era um grande problema que até seu bico parecesse fofo.
— Eu não quero ficar separado. Quero comprar o jornal juntos e fazer palavras cruzadas, e nos fins de semana quero comer pipoca e assistir a filmes abraçado com você. Nada de chamadas de vídeo ou sexo por telefone, mas estar realmente dentro de você.
— …Que romântico.
Com a reação de Jeong-in, Chase, que havia enterrado o rosto inteiro na almofada, sacudiu o corpo de tanto rir.
Após hesitar brevemente, perdido em pensamentos, Jeong-in falou com uma expressão séria:
— Eu também sinto falta da Califórnia. Quero estar perto da minha mãe.
O sol suave o ano todo, as palmeiras sussurrando com a brisa do mar, a linha costeira cintilante.
A paisagem calorosa que ele encontrou quando imigrou pela primeira vez veio à mente. Bellacove fora o início das dificuldades para Jeong-in, mas foi, em última análise, o lugar que lhe dera o presente inesperado de Chase.
O lugar onde ele se tornara adulto através de inúmeras colisões e mal-entendidos, perdão e reconciliação. Agora, parecia uma segunda cidade natal.
— Vamos visitar aquele hospital durante o recesso de Natal. Devemos analisar todas as opções antes de decidir.
— Sério?
— Se eu tiver permissão para ir com você.
— Com certeza!
Chase soltou um longo suspiro com uma expressão muito mais aliviada.
— Sinto sua falta. Que horas você volta amanhã?
— Hum, não tenho certeza. Escolhemos as roupas para a cerimônia, mas a Vivian quer escolher os cartões de save the date e os convites amanhã.
— Eu deveria estar aí com você, desculpe.
Chase perguntou se havia fotos dele no smoking, e Jeong-in balançou a cabeça enquanto explicava o quão irredutível Vivian fora.
— Eu deveria ir para a cama cedo hoje. Assim o amanhã chega mais rápido e posso te ver.
— Bom trabalho hoje também. Durma bem.
— Apareça nos meus sonhos, baby.
— Vou tentar.
Chase levou as pontas dos dedos aos lábios e depois as aproximou suavemente da câmera. Era um gesto como se enviasse um beijo para Jeong-in.
— Vá logo desligar e descansar.
— Você desliga primeiro.
— Não. Você desliga primeiro.
— Por favor. Você desliga primeiro. Eu não consigo.
Após a continuação daquela discussão infantil, Jeong-in finalmente pressionou o botão de encerrar chamada primeiro. Jeong-in, que erguera a cabeça com um sorriso calmo, assustou-se tanto que seu corpo deu um solavanco e ele massageou o peito.
— Você me assustou!
Vivian estava parada, encostada diagonalmente na parede da sala com os braços cruzados, observando Jeong-in.
— Que cena. Vocês dois não suportam ficar separados nem por um dia depois de dez anos?
— Nove anos.
Quando Jeong-in a corrigiu, Vivian deu de ombros como se não importasse. Com o cabelo preso de qualquer jeito com uma scrunchie, ela estava sem maquiagem e com roupas confortáveis. Jeong-in deixou escapar uma exclamação sem perceber.
— Uau.
— O quê?
— Primeira vez que te vejo sem maquiagem.
Vivian, cujas sardas apareciam levemente sobre a ponte do nariz e cuja expressão parecia cerca de 30% mais suave que o habitual, caminhou em direção à cozinha.
— Eu pedi a comida. Quer vinho?
— Claro.
Vivian sentou-se no sofá comprido oposto à poltrona onde Jeong-in estava e entregou-lhe uma taça. A doçura do vinho tocando sua língua deixou a atmosfera um pouco mais relaxada.
— Obrigado. Eu poderia contratar um organizador de casamentos.
— Estou fazendo isso porque quero. Além disso… eu precisava de algo para me distrair.
Vivian deixou a frase morrer e levantou sua taça. A expressão amarga que aparecia aqui e ali o incomodava. Ela parecia ter alguma preocupação que guardava apenas para si. Mas, antes que ele pudesse abrir a boca, ela mudou de assunto primeiro.
— Sabe de uma coisa? Agora só aparece conteúdo de casamento no meu FYP.
Olhando para a tela do celular que Vivian mostrou, era realmente verdade. Tours de vestidos, penteados para convidados, até vídeos de “primeiro olhar” capturando o momento em que o noivo ou a noiva se veem pela primeira vez em seus trajes — o algoritmo dela estava completamente dominado por casamentos.
No momento em que a garrafa de vinho recém-aberta estava pela metade, a comida chinesa que pediram chegou.
Caixas de papel com macarrão de ovo, frango à laranja, carne mongol e rolinhos primavera preencheram fartamente a grande mesa de centro.
Quando Jeong-in, pronto para comer, sentou-se no chão em vez de no sofá, Vivian arqueou as sobrancelhas surpresa.
— Senta assim também. É muito mais confortável.
Vivian, ainda com uma expressão cética, aproximou-se de Jeong-in e sentou-se no chão com as costas apoiadas no sofá. Então, seus olhos se arregalaram, surpresos. A altura da mesa era perfeita.
— Muito melhor, não é?
— Bem. Nada mal.
Os dois se concentraram na comida e no vinho, movendo seus pauzinhos freneticamente.
Somente após abrirem a segunda garrafa de vinho é que Vivian começou a contar sua história.
— Nerd. Você já ouviu falar do “debate do fio solto”?
— Não. O que é isso?
— Por exemplo, imagine que há uma colega médica de quem o Chase é próximo no hospital onde trabalha. Essa mulher… no seu caso, deveria ser um homem? Enfim, essa pessoa vê um fio solto na camisa do Chase e não diz nada, apenas o remove com a mão. Você ficaria bem com isso?
— Isso é motivo de debate?
— Sim. Porque existe uma diferença de intimidade entre dizer a alguém que há um fio solto e simplesmente removê-lo com a mão sem dizer nada.
Jeong-in imaginou a cena brevemente e inclinou a cabeça.
— Acho que eu não me importaria, na verdade.
— Sério? Mesmo se essa pessoa fosse incrivelmente bonita?
— Eu já disse antes. Nosso relacionamento é…
— Certo, certo. Eu sei. Baseado em confiança mútua.
Era um tom um pouco sarcástico, levemente amargo. Jeong-in olhou para Vivian com uma expressão intrigada.
— O que houve? Alguém removeu um fio solto do seu namorado?
— Não exatamente isso, mas… uma das agentes dele fica me incomodando. Ela é super inteligente. Formada na Ivy League como você. Era Brown ou Columbia?
Os olhos de Jeong-in se arregalaram ligeiramente. Não por estar surpreso com o histórico acadêmico de uma estranha, mas porque era inesperado que Vivian se importasse com tais coisas.
Embora não tivesse interesse em futebol americano, exceto quando Chase jogava, ele sabia que o namorado de Vivian, Elio Maddox, era um jogador da NFL bastante famoso.
— Essa agente está dando em cima do seu namorado?
— Não, não exatamente.
— Então qual é o problema?
— É o oposto. O Elio removeu. Na verdade, era um fio de cabelo. Aquele desgraçado era um mulherengo famoso. Ele era assim antes de me conhecer, mas quem sabe. Talvez ainda esteja fazendo isso e eu apenas não saiba.
Vivian disse que, em vez de estar feliz ou confortável no relacionamento, estava sempre tensa e ansiosa.
Elio Maddox, com recordes de dois prêmios de MVP e um título do Super Bowl, era um quarterback estrela da NFL no auge da carreira. A existência dele era um excelente acessório que colocava Vivian no centro dos holofotes sociais, e ela não negava esse fato.
Mas ela disse que o relacionamento deles fora um jogo contínuo de empurra e puxa desde o início e não era muito diferente agora. Até onde ela poderia contê-lo, onde a linha era cruzada. Parecia um tipo de jogo de poder onde tudo precisava ser calculado.
Mesmo depois de passarem a noite juntos na casa dele, ela disse que nunca conseguia parar de pensar se ele queria que ela fosse embora ou se queria que ficasse até de manhã.
Para Vivian, que parecia querer um conselho, Jeong-in falou após um momento de hesitação.
— Por que dizem que relacionamentos são difíceis? Porque exigem responsabilidade, sacrifício e compromisso.
— E então? Já que são originalmente difíceis, você está me dizendo para ser responsável, me sacrificar e ceder?
Quando Vivian perguntou de volta com um ar um tanto descontente, Jeong-in imediatamente balançou a cabeça.
— Não, de jeito nenhum. Não é isso que eu quero dizer.
— Então?
— É verdade que relacionamentos são difíceis. Mas quando você encontra a pessoa certa… então se torna fácil. Tudo é natural, você não precisa forçar nada. Mesmo parados, vocês são atraídos um pelo outro como ímãs, naturais como peças de um quebra-cabeça que se encaixam perfeitamente.
— …
Após um momento de silêncio, Vivian perguntou com uma expressão travessa, como se buscasse algo para se consolar.
— Me conte sobre quando vocês brigaram pela primeira vez. Quando foi? Por que brigaram?
Jeong-in, percebendo vagamente os sentimentos dela, vasculhou brevemente sua memória.
— Nós brigamos muito, mas o que eu lembro é… ah, tem uma.
— O quê?
— Logo depois que começamos a namorar. Sempre que eu e o Chase tínhamos uma discussão ou se eu ficava um pouco magoado, ele sempre fazia a mesma coisa: “Quer que eu te compre um sorvete?” ou “Quer ir tomar um iogurte congelado?”. Qualquer um via que era um hábito de quando ele namorava garotas antes.
Vivian soltou uma risadinha. Era uma briga tão adoravelmente apropriada para a idade. Mas, como se fosse lembrada de sua própria situação, sua expressão logo se tornou amarga novamente.
Jeong-in abriu a boca com cuidado enquanto observava a expressão dela.
— Você quer terminar?
— …Aquela pessoa é o Elio Maddox. Este ano ele entrou na lista de “Homens Mais Sexys do Mundo” da GQ, e o salário dele é de 50 milhões de dólares. Isso sem contar os comerciais e ensaios fotográficos. Ele é amigo do ator Graydon Hart e é convidado para o Met Gala todo ano.
— E?
— Eu conseguiria encontrar alguém melhor que isso?
Aqueles eram os verdadeiros sentimentos de Vivian. Um mundo onde a pessoa com quem você namora e sai se torna suas próprias especificações técnicas. Aquele mundo alimentado por flashes massivos era diferente do mundo que Jeong-in conhecia. As regras a seguir certamente seriam diferentes também.
Jeong-in não conseguiu dizer nada precipitadamente e apenas a encarou fixamente.
Não era apenas o Chase que era afetado pela magia daqueles olhos negros; como se estivesse desarmada, Vivian começou a revelar a história que guardava dentro de si.
— Minha mãe veio de um concurso de beleza. Quase a última geração do auge dos concursos. Meu pai participou como patrocinador naquela competição e eles se conheceram lá.
Embora Vivian falasse com um rosto calmo, havia um peso acumulado naquelas palavras como um velho jugo. Jeong-in ouviu silenciosamente.
— Desde a infância, eu sempre ouvi coisas assim. Você tem que ser bonita, tem que ser magra. É assim que você consegue se casar com um bom homem, um homem rico.
As palavras de que o casamento é o destino final da vida. Vivian cresceu condicionada por essas palavras e se aprimorou de acordo com elas. A infância de ter que provar sua qualificação para ser amada dentro dos padrões alheios pode ter criado a “ela” do presente.
Jeong-in girou silenciosamente sua taça de vinho e depois ergueu a cabeça como se lembrasse de algo.
— Isso é de uma entrevista muito antiga que eu vi… Vivian, você conhece a Cher?
— Claro. Ela é uma atriz de filmes antigos.
— Sim. Alguém que foi tanto cantora quanto atriz. A mãe da Cher sempre dizia a mesma coisa: “Você precisa sossegar agora, encontrar um homem rico e se casar”. Então a Cher disse: “Mãe, eu sou a pessoa rica”.
— …
Em meio ao silêncio de Vivian, Jeong-in continuou.
— Vivian, você já é essa pessoa rica. Olhe para esta casa onde você mora. Olhe para a sua vida.
Sutis ondulações apareceram nos olhos calmos de Vivian. Não perdendo aquela brecha, Jeong-in trouxe evidências para dar persuasão às suas palavras.
— Quando as células replicam o DNA, elas têm um sistema para detectar e corrigir erros sozinhas. Acho que as pessoas têm algo semelhante. Na minha visão, isso é exatamente esses pressentimentos aguçados ou sentimentos de ansiedade que você tem. É um tipo de sistema avisando para não trazer algo como uma mutação para a sua vida, para escapar de loops ameaçadores. Ser capaz de sentir essas emoções é, na verdade, um traço evolutivo bastante alto.
— Você está dizendo que eu me sinto ansiosa para não me colocar em perigo? Então… eu sou… bastante evoluída?
— Sim, exatamente.
— …
Após encarar Jeong-in em silêncio por alguns segundos, Vivian pegou a almofada ao lado dela e o bateu levemente. Seu rosto parecia um pouco corado.
— Eu entendo por que a Madison gostava de você. Seu nerd, você é realmente perigoso, não é?
Jeong-in deu de ombros com indiferença, como quem diz “fazer o quê”. Então ele continuou em voz calma.
— Há momentos em que tudo parece uma bagunça. Quando isso acontece, se você focar em uma coisa realmente importante, misteriosamente o resto gradualmente encontra seu lugar. Tudo o que você precisa é de tempo, e algo que valha a pena gastar esse tempo.
Vivian, que estivera observando Jeong-in em silêncio, de repente deu um pulo de seu assento. Então, dizendo “Vou dormir!”, ela entrou no quarto principal sem olhar para trás.
Tão caprichosa.
Balançando a cabeça, Jeong-in limpou grosseiramente as taças de vinho restantes e a mesa bagunçada, depois foi para o quarto de hóspedes dormir.
Na manhã seguinte, Jeong-in acordou sobressaltado por uma batida alta na porta.
Enquanto tentava organizar os pensamentos, encarando o teto do quarto desconhecido, a porta se abriu com outra batida.
Vivian colocou o rosto pela fresta e, assim que seus olhos se encontraram, ela entrou no quarto como se estivesse esperando por aquele momento. Então, sem hesitar, sentou-se na beira da cama.
— Nerd! Eu terminei com o Elio.
Jeong-in, ainda vagando na fronteira entre o sonho e a realidade sob os lençóis, piscou e perguntou:
— O quê? Quando? Como?
— Acabei de fazer por mensagem. Ele está no Texas agora.
Tendo ouvido notícias tão surpreendentes antes de acordar totalmente, Jeong-in esfregou os olhos e se sentou. Embora a realidade ainda não tivesse se assentado, ele podia ver claramente que o rosto de Vivian estava estranhamente radiante. Ela tinha uma expressão revigorada e aliviada, como alguém que acaba de extrair um dente dolorido.
— Sinto-me aliviada. Vou fazer o que você disse. Você disse que o que importa é o tempo e algo em que gastar esse tempo, certo?
— Sim.
Vivian cerrou o punho como se estivesse fortalecendo sua determinação.
— Então, decidi focar toda a minha energia no seu casamento.
— Uau… Isso é realmente… ótimo…
— Então levante-se agora mesmo. Vamos às compras!
A expressão de Jeong-in tornou-se gradualmente desolada.
— Chay!
No momento em que desceu do trem, ele viu Chase acenando do outro lado da plataforma.
Jeong-in correu em velocidade máxima e se jogou nos braços dele. Então, enterrou o rosto no peito largo de Chase e agiu de forma estranhamente carente.
Chase pareceu surpreso e tentou observar o rosto de Jeong-in. Quando ele gentilmente envolveu as bochechas de Jeong-in com suas mãos grandes e levantou cuidadosamente sua cabeça, viu o rosto de uma criança que não havia sofrido nada além de injustiças.
— O que houve! Você está bem?
— A Vivian é um monstro.
Jeong-in estendeu o smartwatch no pulso como se fosse uma prova. A tela mostrava que sua contagem de passos diários e o tempo de atividade estavam em mais de três vezes o seu valor habitual.
— Você caminhou pelo Central Park ou algo assim?
— Você acredita que todos esses passos foram apenas de compras?
Chase conteve um riso e deu tapinhas afetuosos nas costas de Jeong-in.
Ingenuamente, Jeong-in pensara que, uma vez ajustado o smoking, estariam prontos. Mas aquilo era apenas o começo.
Primeiro, foram comprar sapatos para combinar com o smoking. Ele achava que todos os sapatos sociais masculinos eram basicamente iguais, mas, mais uma vez, Jeong-in estava errado. Sapatos com nomes desconhecidos foram listados: Oxfords, Derbys, monk straps, brogues.
Brilho demais parecia ostensivo, mas o fosco era casual demais. Bicos finos faziam você parecer um vendedor insistente, mas arredondados demais deixavam os pés grandes.
Uma marca era clássica, outra era contemporânea, e Vivian não deu descanso aos pés de Jeong-in.
O que finalmente escolheram foi um sapato Oxford da Prada em couro envernizado preto com bico arredondado, silhueta elegante e detalhes sutis de costura.
Em seguida, foram comprar um terno casual para o jantar de ensaio na noite anterior ao casamento, e uma roupa para trocar na recepção após a cerimônia.
Normalmente, apenas a noiva troca de vestido. Dançar na recepção e circular pelas mesas para cumprimentar os convidados torna o vestido pesado ou desconfortável demais. Enquanto isso, o noivo, no máximo, afrouxa a gravata ou tira o paletó.
Mas Vivian foi firme. Reutilizar um smoking em nada menos que um casamento da família Prescott estava absolutamente fora de questão.
Os itens que compraram atingiram um nível que não podia ser carregado à mão, então foram enviados organizadamente via FedEx e chegariam em dois dias.
A jornada final foi visitar uma empresa de impressão de convites. Jeong-in tinha planejado apenas escolher um online, mas, novamente, Vivian balançou a cabeça. Ela disse que precisavam considerar a questão tátil que não podia ser vista em uma tela.
A espessura do papel, a profundidade do relevo, a diferença entre o brilho e o fosco da tinta. Como uma CEO escolhendo cartões de visita de luxo, ela tocou e examinou dezenas de amostras uma a uma, comparando-as.
Eventualmente, selecionaram tanto os cartões de save-the-date quanto os convites, finalizaram o contrato e agora só precisavam agendar o envio online.
Superar as duas grandes montanhas dos trajes formais e dos convites em sua viagem de dois dias a Nova York foi, certamente, uma conquista. Mas o preço foi brutal. Jeong-in estava tão exausto que suas pernas vacilavam a cada passo.
— Você pode ficar chocado quando vir a fatura do cartão mais tarde.
Quando Jeong-in murmurou isso, Chase soltou uma risadinha e estendeu a mão.
— Eu não adoraria nada mais do que isso. Me dá a bolsa.
Chase transferiu naturalmente a mochila pesada de Jeong-in para o seu próprio ombro.
Seria o alívio de encontrar alguém confiável novamente? Toda a força esvaiu-se de seu corpo. Jeong-in murchou como um sorvete derretido e inclinou todo o corpo contra Chase.
Chase envolveu os ombros de Jeong-in com firmeza. Meio que o carregando, ele suportou o peso de Jeong-in e saiu da plataforma.
Os dois seguiram para o estacionamento e entraram no SUV de Chase. Chase abriu a porta do passageiro para Jeong-in, fechou-a cuidadosamente após ele entrar, jogou a mochila no banco de trás e dirigiu-se ao assento do motorista.
O carro ligou suavemente e cortou as ruas noturnas de Boston em direção a casa. Com o som suave do motor e as vibrações sutis, suas pálpebras tornaram-se pesadas como chumbo.
Chase lançou um olhar para o banco do passageiro.
— Sono?
— Sim.
— Mas aguenta só mais um pouco para dormir bem em casa. Você sabe que não consegue voltar a dormir se for interrompido.
— Tudo bem.
Jeong-in, que mal conteve o sono no carro, tomou banho assim que chegaram em casa. O jato de água quente lavou a poeira e o cansaço acumulado.
Sacudindo o cabelo ainda úmido, ele foi para a sala e pegou a bolsa que havia jogado de qualquer jeito.
— Chay! Vem cá. Vou te mostrar as amostras dos convites.
Ao chamado de Jeong-in, a porta do quarto de hóspedes se abriu. Como se estivesse malhando, Chase usava uma camiseta regata e shorts. Seus braços, com músculos mais saltados que o normal, brilhavam de suor.
Chase contornou o sofá, apoiou as mãos no encosto e inclinou o corpo sobre Jeong-in. Jeong-in vasculhou o bolso frontal da bolsa e tirou dois pequenos envelopes. Um era o cartão de save-the-date, o outro era o convite formal.
— Este é o save-the-date, este é o convite.
O cartão azul-celeste com uma fita de organza em um dos cantos trazia um texto em caligrafia cor de limão, pedindo alegremente que as pessoas reservassem um tempo para Chase Prescott e Jay Lim.
O convite, por outro lado, tinha um design muito mais imponente. O fundo branco-acinzentado claro possuía uma textura luxuosa, com os nomes completos dos dois homens gravados em fonte clássica no centro. Abaixo, estava a data do casamento, 14 de abril, mas o local ainda estava em branco.
Chase acariciou o lóbulo da orelha de Jeong-in com a mão e disse afetuosamente:
— Você escolheu algo lindo. Bom trabalho.
— Quando você vai me dizer o que escrever no campo do local?
— Espere só mais um pouco.
Até agora, os dois haviam passado por inúmeras negociações em torno do casamento. Decidiram não exceder 100 convidados e concordaram em pular a festa de noivado e a despedida de solteiro em troca de um jantar de ensaio.
Foi o resultado de repetidos compromissos, coordenando suas respectivas prioridades, expectativas familiares, agendas e outras condições práticas, trocando vários “vales” ao longo do caminho.
Mas, no fim das contas, a pessoa que detinha a chave deste casamento era Chase. Jeong-in havia pedido primeiro, então Chase pedira repetidamente para que ele deixasse os preparativos do casamento inteiramente em suas mãos.
Com Chase mantendo o local do casamento em segredo até o fim, Jeong-in fez um pequeno bico e, de brincadeira, afastou a mão dele que acariciava seu lóbulo.
Após afastar mais uma vez a mão que buscava uma oportunidade de deslizar para sua nuca, Jeong-in abriu o zíper da mochila, planejando organizar suas coisas.
No momento em que abriu bem a bolsa, algo desconhecido chamou sua atenção. Era uma pequena sacola de compras cuidadosamente escondida entre as roupas.
— Hã? O que é isso?
Com os olhos brilhando de curiosidade, Jeong-in tirou a sacola de papel e removeu cuidadosamente o conteúdo. Dentro havia um estojo de joias do tamanho da palma de sua mão, feito de couro azul-marinho escuro.
— O que é isso?
Chase também parecia curioso; sem sair do lugar, ele inclinou o corpo para olhar o estojo na mão de Jeong-in.
Quando ele abriu a tampa com cuidado, revelaram-se dois pares de abotoaduras posicionados lado a lado sobre veludo preto. Tinham acabamento totalmente em prata fosca, com incrustações de lápis-lazúli precisamente cravadas no centro.
Ele viu um pequeno cartão, do tamanho de um cartão de visitas, preso na parte interna da tampa. Jeong-in o puxou com as pontas dos dedos.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Othello&Belladonna