Spin Off 03.2
❀ 7 Minutes Of Heaven 03, Parte 2
Spin Off 2 – Save the Date
【Parabéns pelo casamento, Jay. – V】
Jeong-in encarou o cartão em silêncio por um longo momento, depois voltou o olhar para as abotoaduras. Presentear com dois pares significava que era para cada um usar um: Chase e ele mesmo.
Vivian, que era obstinada, meticulosa, por vezes ácida, mas leal. Seu presente de casamento, entregue de sua maneira usual e inesperada, fez um canto do coração dele doer.
Jeong-in pressionou a palma da mão firmemente contra o peito e leu em voz alta as palavras escritas no cartão.
— “Parabéns pelo casamento, Jay”… Ela me chamou de Jay.
— Pois é. Onde ela foi parar com o meu nome? Esqueceu de quem ela é madrinha?
— Não é isso… Ela me chamou de Jay, não de Nerd.
Como pais emocionados com a primeira palavra de um bebê, Jeong-in estava profundamente tocado. Um sorriso suave surgiu nos lábios de Chase enquanto ele o observava.
— …Você tem razão.
Os flocos dourados característicos da pedra criavam um brilho sereno. Jeong-in não conseguia tirar os olhos das abotoaduras e murmurou como se falasse para si mesmo:
— Vão combinar muito com o smoking.
— Estou curioso. Você não tem nenhuma foto? A Vivian não está aqui, me mostra um pouquinho.
— Não. Dá azar ver antes do casamento.
— Um cientista acreditando em superstições? Com medo de que um furacão apareça no dia do casamento?
— Não diga coisas tão azaradas!
Jeong-in olhou ao redor como se procurasse algo e bateu três vezes na mesa de centro de madeira. Não satisfeito, ele sacudiu a mão sobre o ombro como se jogasse sal para trás e, finalmente, fez um movimento de cuspir no chão. Eram todas ações conhecidas de antigas superstições para afastar o azar.
— Vou olhar só uma vez. Me dá seu celular.
Chase não recuou facilmente. Quando ele se aproximou como se fosse realmente tomá-lo, Jeong-in escondeu rapidamente o aparelho atrás das costas.
— Não!
— O quê? Não? Vem cá.
Chase derrubou Jeong-in no sofá e o beijou implacavelmente.
Ele beijou não apenas seus lábios, mas plantou beijos aleatórios na ponte do nariz, nas bochechas e no queixo; depois, puxou a gola da camiseta e pressionou os lábios contra a nuca e as clavículas, dando leves mordidas. Enquanto fazia isso, envolveu o peito de Jeong-in com as duas mãos grandes e acariciou o contorno de suas costelas.
O celular já fora esquecido. Embora Jeong-in se encolhesse dizendo que sentia cócegas, Chase não deu atenção e afundou o queixo entre o pescoço e o ombro de Jeong-in.
— Como uma pessoa pode ter esse cheiro?
Nos Estados Unidos, no momento em que “pessoa” e “cheiro” aparecem na mesma frase, geralmente é interpretado de forma negativa. Como o odor corporal forte é às vezes associado a características raciais, a percepção do cheiro em si é mais sensível e cautelosa. De fato, dados do censo e estudos sociológicos indicam que percepções de higiene e odores corporais variam drasticamente entre culturas, com cerca de 90% dos americanos usando desodorantes diariamente para mascarar o que é visto como uma falha social.
— Hã? Eu acabei de tomar banho. Não é o cheiro do shampoo?
— Não. É diferente. É o cheiro da sua pele.
Por razões semelhantes, não havia uma expressão exata para “cheiro de pele” ali. O “odor corporal”, que em certas culturas orientais pode ser visto como sinal de afeto ou intimidade, era frequentemente tratado naquela cultura como um defeito a ser escondido.
Se você dissesse a alguém que ela tinha um “cheiro de pele”, nove em cada dez pessoas provavelmente pensariam que era um insulto.
— Realmente cheira bem. Limpo como sabão, e doce e aconchegante também.
A ponta do nariz de Chase agora estava próxima ao nariz de Jeong-in.
— Eu gosto do cheiro do seu hálito também.
Farejando como um cachorrinho, ele levantou um dos braços de Jeong-in e enterrou o rosto em sua axila, esfregando a cabeça vigorosamente.
— O cheiro aqui também é bom. Mesmo quando você sua. Como isso é possível?
— Ah! Dá cócegas! Para!!
Com a respiração dele tocando a pele sensível, Jeong-in riu como se fosse desmaiar e empurrou a testa de Chase com a palma da mão.
— Para com isso e confere logo se não tem nenhum erro no cartão! Preciso colocar os endereços e enviar tudo agora mesmo!
Chase, que mal olhava para o cartão, enfiou a cabeça direto para dentro da camiseta de Jeong-in.
Estava um frio tão cortante que o hálito branco saía a cada inspiração. Os invernos de Cambridge já eram brutais por si só, mas este ano teve um recorde de neve.
Devido à neve que caiu na noite anterior, o Aeroporto Logan estava um caos desde cedo. Enquanto alguns aviões mal conseguiam decolar e outros anunciavam cancelamentos, o voo das 8h30 para LA continuava anunciando atrasos em intervalos de trinta minutos.
Depois de duas xícaras de café, algumas respostas de e-mails de trabalho e alguns alongamentos, o avião levando Jeong-in e Chase finalmente deixou a pista e decolou pouco antes das 10h30.
Eles pousaram no aeroporto de LA por volta das 14h. Assim que saíram da aeronave, o ar quente que os atingiu os fez abandonar as roupas pesadas de inverno.
O momento em que você mais percebe o quão grande é a América é durante as férias de Natal, como esta, ao voltar para casa. Eles haviam voado apenas algumas horas, mas a estação mudara completamente.
O aeroporto de LA também estava lotado de pessoas saindo antes do Natal e das festas. No entanto, diferenciava-se do Aeroporto Logan e seus voos cancelados pelo fato de a atmosfera estar cheia de empolgação.
Ao sair do aeroporto, um sedã preto os esperava. Sempre que Chase vinha, um veículo dedicado enviado pela família Prescott sempre aparecia para buscá-lo. Era uma cena que não era mais estranha para Jeong-in.
O motorista, cujo rosto eles já tinham visto várias vezes, cumprimentou-os com um semblante radiante e perguntou imediatamente:
— Devo ir direto para a casa do Sr. Lim?
— Por favor.
Enquanto estavam em Bellacove, era tratado como uma regra não escrita que cada um ficasse em sua respectiva casa. Nominalmente, era para passar tempo com suas próprias famílias, mas os dois ficavam grudados todos os dias.
Chase agora era praticamente da família de Jeong-in, mas, mesmo assim, ele frequentemente pulava a janela do quarto de Jeong-in. Era um romance emocionante que lembrava os anos de adolescência.
O sedã preto virou na Willow Street, em Baywood. Diante do cenário familiar da rua passando pela janela, os cantos da boca de Jeong-in se ergueram ligeiramente. Chase olhou para o seu perfil e disse:
— Sua mãe vai ficar tão surpresa.
— Sim.
Normalmente, o recesso de Natal começaria na quarta-feira, mas os dois tiraram dois dias de folga e chegaram no sábado. Jeong-in estava animado desde cedo com a ideia de fazer uma surpresa para a mãe.
Desde a infância, Suzy fora a rocha de Jeong-in, um guarda-chuva protegendo-o da chuva.
Ainda fechando sua loja apenas um dia por semana, ela havia comprado o salão de manicure dois anos atrás sem empréstimos, depois de começar pagando aluguel e economizar muito. Contratando funcionárias jovens para trabalhar com ela, a loja estabilizou-se gradualmente e agora estava razoavelmente bem estabelecida.
É claro que algumas coisas ainda não haviam mudado. Uma delas era o Camry vermelho, com quase vinte anos de uso, estacionado na rua em frente à casa.
— Minha mãe deve estar em casa.
Os dois saíram do carro, passaram pelo familiar Camry vermelho e caminharam até a frente da casa.
Um sorriso formou-se nos lábios de Jeong-in enquanto ele apertava a campainha. Ele estava imaginando o rosto de Suzy, com os olhos ficando redondos de surpresa ao vê-lo.
Mas a porta não abriu mesmo depois de um longo tempo. Lá de dentro, que estivera silencioso como um rato, de repente veio um som de algo quebrando. Jeong-in franziu a testa.
— O que foi isso?
— Ela caiu?
Com as palavras de Chase, a expressão de Jeong-in endureceu. Ele vasculhou apressadamente a bolsa, tirou as chaves e abriu a porta rapidamente, entrando na casa.
A casa de Jeong-in tinha uma estrutura onde as escadas ficavam logo à frente ao abrir a porta principal, com a cozinha à esquerda e a sala de estar à direita. Seguindo pelo corredor ao lado da escada, chegava-se ao banheiro e ao quarto de Suzy.
Jeong-in varreu rapidamente a sala de estar primeiro. Mas não havia ninguém lá.
— Mãe! Mãe?
— J-Jeong-in!
Suzy, usando um avental, surgiu da cozinha em um estado de agitação. A surpresa e a confusão eram evidentes em seu rosto.
Jeong-in, parado com Chase logo atrás dele, lançou um olhar em direção à cozinha. A primeira coisa que chamou sua atenção foram duas taças de vinho pela metade sobre o balcão da ilha.
Ao lado delas, havia vestígios de uma preparação culinária intensa. Vários vegetais sendo cortados, fatias finas de carne que pareciam estar descongelando e um caldo que estivera fervendo. Ele conseguia imaginar vagamente o cardápio.
— Você não disse que suas férias começavam na quarta-feira?
Observando Suzy perguntar com o rosto perplexo, a expressão de Jeong-in tornou-se peculiar.
Assim como ele encontrara seu verdadeiro parceiro de vida, Jeong-in pensara que seria bom se sua mãe também encontrasse alguém novamente e iniciasse um novo amor. Por isso, ele mencionava constantemente todo homem de meia-idade que conhecia e chegou ao ponto de instalar ele mesmo um aplicativo de namoro no celular dela.
Mas Suzy repetidamente balançava as mãos com uma risada. Casar-se três vezes era demais, dizia ela, e agora sentia-se mais confortável vivendo sozinha.
Mas, vendo isso agora, toda aquela intromissão afetuosa não passara de interferência desnecessária.
Jeong-in varreu a casa com olhos travessos. Seu olhar demorou um pouco mais na porta fechada do banheiro e nas escadas. Ele presumiu que o companheiro de Suzy estivesse escondido em algum lugar da casa.
— Onde ele está?
— Qu-quem?
Diante da reação incomumente gaguejante e inquieta de Suzy, os olhos de Jeong-in tornaram-se mais brincalhões.
Nesse momento, Chase tocou levemente o braço de Jeong-in e apontou com o queixo para a janela da cozinha. A janela estava escancarada, com a cortina balançando suavemente à brisa. Como o Chase nos velhos tempos, quando entrava e saía furtivamente pela janela, alguém claramente fizera uma saída apressada por ali.
Diante da situação absurda, porém divertida, Jeong-in não pôde deixar de cair na risada.
— Apresente-nos. Por que você o deixou ir embora?
Suzy baixou os ombros, como se admitisse que fora pega. Constrangimento e timidez cruzaram seu rosto simultaneamente. Ela mudou de assunto rapidamente, tentando redirecionar a conversa.
— Vamos falar sobre isso mais tarde… Primeiro, vamos pelo menos nos abraçar.
Suzy puxou Jeong-in para um abraço primeiro. Depois, abriu os braços para Chase também. Chase, agora bastante acostumado a ser abraçado por Suzy, recebeu naturalmente a mão dela dando tapinhas em suas costas.
— Você tem passado bem?
— Sim, graças à senhora.
Justo quando estavam prestes a desfazer o abraço, Suzy de repente bateu palmas, como se lembrasse de algo.
— Oh, deixem-me ver!
Ela ergueu as mãos esquerdas de Jeong-in e Chase, uma de cada vez. Viu os anéis de noivado brilhando lado a lado nos dedos anelares de ambos. Olhando para eles, os olhos de Suzy imediatamente ficaram marejados.
— Oh, céus, eles são lindos.
Suzy abriu os dois braços novamente e, desta vez, puxou os dois para um abraço de uma só vez.
— Parabéns, Jeong-in. Parabéns, meu filho de cabelos loiros.
Chase fechou os olhos com força. Uma sensação desconhecida, mas calorosa. Ele estava aprendendo vagamente o que significava o afeto familiar.
— Vocês dois já comeram?
— Não. Tivemos um atraso de mais de duas horas e a comida do avião estava terrível.
— Então corram e lavem as mãos. Vamos comer primeiro.
Suzy foi direto para a cozinha e preparou apressadamente uma refeição para os filhos. Ela descongelou arroz e tirou todos os acompanhamentos disponíveis. Também preparou um cozido rico, adicionando os vegetais e a carne ao caldo que estivera fervendo.
Pouco depois, os três sentaram-se à mesa com o cozido fumegante ao centro. Antes mesmo de pegar a colher, Jeong-in falou como se estivesse esperando por isso:
— Que tipo de pessoa ele é?
Suzy hesitou por um momento, como se contemplasse o que dizer e como dizer. Então, soltou um curto suspiro e começou sua história como se confessasse um segredo.
— Lembra que eu te disse, alguns anos atrás, que o chão da sala estava rangendo muito?
— Sim. Eu lembro.
— Ele é o empreiteiro que veio consertar.
Jeong-in inclinou a cabeça levemente, vasculhando a memória. Definitivamente, houve um período de obras por um tempo porque uma infiltração havia apodrecido parte da madeira sob o piso. Mas isso já fazia mais de três anos.
— Você está saindo com ele há tanto tempo e não disse nada até agora?
— Nos primeiros anos, éramos apenas amigos. Almoçávamos juntos, eu ajudava se ele precisasse de uma mãozinha… Só começamos a namorar seriamente há menos de um ano.
Suzy continuou sua história enquanto servia o cozido em tigelas para Jeong-in e Chase.
No início, ela o via apenas como um empreiteiro que fazia um bom trabalho. Ele era habilidoso e alguém que demonstrava através de ações, em vez de palavras.
Ele sempre chegava no horário marcado, consertava silenciosamente outras coisas quebradas e nunca negligenciava nem mesmo os pequenos serviços. Então, quando ele ajudou na reforma do salão, as conversas cotidianas começaram a fluir naturalmente.
Embora não fosse nativo de Bellacove, ele estava estabelecido lá há mais de dez anos e geria uma equipe de reformas de interiores. Ele tinha uma boa reputação na vizinhança e alta credibilidade.
Ele fora divorciado uma vez e obteve a custódia da filha no processo. O fato de sua filha frequentar a Wincrest High criou um tópico comum entre eles.
— Com razão você disse que não precisava de um aplicativo de namoro.
Com as palavras de Jeong-in, Suzy riu sem jeito. Então, ela trouxe um tópico diferente, como se mudasse de assunto.
— Ah, ele aparentemente está trabalhando em um projeto dos Prescott também. Algo sobre uma grande construção perto da Oak Hill Drive? Ouvi dizer que todos os empreiteiros e paisagistas qualificados desta área se reuniram lá…
— Uau! Mãe! O que é isso?
Nesse momento, Chase interrompeu com uma voz ressonante do outro lado da mesa. Jeong-in olhou para Chase com uma expressão confusa. Chase segurava algo na ponta de seus chopsticks. Era um cogumelo shiitake que ele havia pescado do cozido.
Jeong-in respondeu incrédulo:
— É um cogumelo.
— Eu sei disso. Mas ele tem formato de flor?
Chase pegou o cogumelo com cortes decorativos e o colocou em sua tigela de arroz. Vendo isso, Suzy esqueceu o que estava dizendo e exclamou em admiração:
— Oh, céus, o Chase agora usa os pauzinhos completamente como um coreano. Você costumava segurá-los estilo sushi. Assim, cruzados em X.
Chase bateu orgulhosamente os pauzinhos um no outro algumas vezes no ar. Mas, apesar de seus esforços para mudar de assunto, Jeong-in inclinou a cabeça e perguntou:
— Vocês estão construindo um banco perto da Oak Hill Drive ou algo assim? Não tem nada além de vinhedos lá, certo? É bem deserto também.
— Como eu saberia?
Chase sorriu com um rosto despreocupado e, mais uma vez, desviou rapidamente:
— Mas, mãe, está tudo bem comermos isso? Parece que a senhora fez para comer com ele.
— Não se preocupe. O que eu não daria aos meus filhos?
— Ainda assim, eu me sinto mal. Já que comemos a comida que vocês dois iam ter, nós vamos convidá-la na próxima vez.
— Realmente, Chase, você…
Suzy sorriu timidamente e lançou a Chase um olhar afetuoso.
Jeong-in observava sua mãe em silêncio.
Mesmo quando Suzy completou quarenta anos, ela não tinha uma única ruga ao redor dos olhos, e as pessoas frequentemente a confundiam com uma estudante universitária na casa dos vinte.
Mas agora, rugas que revelavam sua idade haviam se assentado naturalmente em seu rosto. O tempo deixa vestígios nos rostos das pessoas que amamos dessa forma. Jeong-in sentiu-se inexplicavelmente triste por o tempo ter passado para sua mãe tanto quanto ele havia crescido.
Como se sentisse os sentimentos de Jeong-in, Chase segurou silenciosamente a mão dele por baixo da mesa. E disse a Suzy:
— Espero que vocês venham ao casamento juntos.
Suzy piscou surpresa, e Jeong-in também virou a cabeça diante das palavras inesperadas. Chase continuou:
— A pessoa com quem a senhora está saindo. A filha dele também. É claro, gostaríamos de conhecer todos vocês primeiro.
Enquanto Jeong-in se detinha nos vestígios agridoces do tempo no rosto de sua mãe, Chase estava oferecendo naturalmente as palavras que ele deveria ter dito primeiro. Pensando que ele realmente se tornara sua família, seu cônjuge, seu apoio, o coração de Jeong-in encheu-se de uma abundância calorosa.
Enquanto isso, Suzy estudava cuidadosamente a expressão de Jeong-in.
— Você quer mesmo conhecê-lo?
Jeong-in assentiu sem hesitar. Diante daquele aceno curto, os olhos de Suzy oscilaram. Após um tremor sutil que poderia ser confusão ou alívio, surgiu uma expressão de certa forma emocionada.
Já que as coisas haviam chegado a esse ponto, não havia motivo para adiar. Jeong-in sugeriu dar uma festa de Ano Novo naquela casa. Não parecia má ideia conhecer uma pessoa nova no início de um novo ano.
No rosto de Suzy, enquanto ela segurava o telefone e perguntava ao parceiro sobre a agenda, o entusiasmo único de alguém que acaba de iniciar um relacionamento era plenamente evidente. Até mesmo Jeong-in, ao observá-la, sentiu seu coração palpitar inexplicavelmente.
Após combinarem o encontro, Chase e Jeong-in puseram-se a limpar a cozinha lado a lado. Como se provassem os anos que passaram juntos, eles estavam em perfeita sintonia ao enxaguar a louça, carregar a máquina e organizar as sobras de comida.
Chase não ficou mais tempo e voltou para casa. Era para dar a Jeong-in um tempo a sós com sua mãe depois de tanto tempo.
Naquela noite, Jeong-in sentou-se no sofá ao lado de Suzy e assistiu à Netflix. Como sempre, compartilharam um cobertor sobre os ombros e colocaram um reality show dramático chamado Married in the Hamptons. Tudo era surpreendentemente natural, exatamente como se tivessem rido e sussurrado naquele mesmo lugar ainda ontem.
Depois de assistirem a dois episódios seguidos, a noite já havia caído profundamente, e os dois trocaram “boa noite” antes de irem para seus respectivos quartos.
Jeong-in olhou lentamente ao redor de seu quarto.
Estantes cheias de livros de referência, uma escrivaninha com marcas pesadas de uso, uma cama de solteiro coberta com um edredom xadrez azul.
Qualquer um veria que era o quarto de um adolescente viciado em estudos.
Como se ignorasse o fluxo do tempo, este quarto ainda permanecia dez anos no passado. Os livros que ele lera quando criança, os cadernos de redação que usara naquela época, a caneca com o logo de Harvard que usara como porta-lápis, tudo estava igual.
Embora cercado por coisas familiares, um canto de seu coração ondulava com emoções desconhecidas.
Ao ouvir a história de romance de Suzy hoje, Jeong-in percebeu novamente: ele não era o único diante de um novo começo.
Ele não poderia continuar se agarrando a este quarto como um fragmento de uma máquina do tempo para sempre.
Jeong-in pensou que deveria organizar este espaço em breve. Se usaria o quarto como escritório, quarto de hóspedes ou sala de hobbies, ele agora deveria deixar a escolha para sua mãe.
Mas hoje era uma exceção. De alguma forma, hoje ele só queria ser o seu eu da infância.
Jeong-in jogou-se na cama e pegou o Snowball que estava ao lado de seu travesseiro. Com o passar do tempo e a perda de viço do algodão, o corpo do bicho de pelúcia parecia ter encolhido um pouco. Segurando aquele animal familiar como um velho amigo, Jeong-in olhou fixamente para o teto.
Marcas de adesivos ainda permaneciam aqui e ali no teto.
Aos doze anos, quando ele chegara pela primeira vez a esta casa, preocupada que ele ficasse com medo de dormir sozinho em um andar diferente, Suzy cobrira densamente o teto do quarto de Jeong-in com estrelas que brilhavam no escuro, uma por uma. Por volta dos quinze, ele as arrancara dizendo que eram infantis, mas algumas marcas ainda permaneciam teimosamente em seus lugares.
Seria isso a “melancolia pré-casamento”?
Um sentimento estranho subitamente apoderou-se de Jeong-in. Era apenas tornar-se casado no papel, mas em algum lugar dentro de seu coração algo se agitava inquieto. Como se tudo no mundo ao seu redor fosse mudar completamente.
Esta casa aconchegante permaneceria aqui inalterada no futuro, e as memórias deste lugar também permaneceriam obstinadamente como aquelas marcas de adesivos. No entanto, seu coração sentia-se melancólico. Se ele se arrependia do tempo que passara ou se temia as mudanças que viriam, nem o próprio Jeong-in sabia dizer com clareza.
De repente, sentiu uma nostalgia dolorosa de algo.
Jeong-in abriu silenciosamente a porta e saiu, descendo as escadas mal iluminadas até o primeiro andar. Passando pelo corredor, parou em frente ao quarto da mãe e bateu cuidadosamente na porta.
— Mãe.
Quando não houve resposta após chamar em voz baixa, ele elevou um pouco o tom.
— Mãe, você está acordada?
Logo, uma voz sonolenta respondeu do outro lado da porta.
— Não, pode entrar.
Quando ele abriu a porta e entrou, Suzy sentou-se parcialmente com o rosto estremunhado.
— Posso dormir com você hoje, mãe?
— Claro.
Como uma criança que procura a mãe no meio da noite após um pesadelo, Jeong-in dirigiu-se à cama de Suzy.
— Que sorte a minha — Suzy riu e levantou o cobertor para abrir espaço para ele.
Jeong-in se aconchegou na coberta aquecida pelo calor do corpo de sua mãe.
— Quanto tempo faz que eu não durmo com o meu bebê?
— Que horror, que bebê o quê?
— Não importa quantos anos você faça, sempre será um bebê para a mamãe.
Os dois, deitados lado a lado, ficaram em silêncio por um tempo. Suzy foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Sabe, Jeong-in. A mamãe não entende muito bem sobre casamentos entre pessoas do mesmo gênero… Quando vocês entrarem, quem vai primeiro? Tem alguém para te entregar ao noivo?
— Nós não sabemos muito mais do que você, mãe. Vamos apenas seguir o que parecer certo na hora.
— Isso é bom.
O rosto de Jeong-in, que havia rido junto com Suzy, logo ficou sereno. Ele olhou fixamente para o teto e disse:
— Tenho pensado muito no papai ultimamente.
— No seu pai? Por quê?
Suzy virou-se de lado para Jeong-in. Ele continuou falando, com o olhar ainda fixo no teto.
— O sobrenome que recebi do papai logo será diferente. Eu só… me perguntei qual seria a reação dele se estivesse aqui.
Após um momento de silêncio, Suzy falou com uma voz gentil.
— Se o seu pai estiver assistindo lá do céu, ele ficaria muito feliz.
— Mesmo sendo com um homem? Ele não ficaria surpreso?
— Bem… Ele ficaria surpreso no início. Depois, ficaria feliz.
Jeong-in riu suavemente. Naquela risada fraca, havia uma mistura de saudade, alívio e uma pontinha de tristeza.
— Jeong-in.
— …Sim.
— O papai faleceu, mas ele vive em você. Aparência e personalidade são hereditárias, você sabe. O papai vive no seu rosto, no seu jeito de falar e nas suas ações. Ele influenciou sua carreira também e ajudou a fazer de você quem você é agora.
Suzy fez uma pausa e acrescentou uma piada leve.
— O papai está em você até quando você faz cálculos matemáticos complexos. Olhe para a mamãe. Eu sempre erro contas simples quando vou ao mercado.
Jeong-in soltou uma risadinha e disse:
— É verdade.
Apenas aquela breve troca de risos com a mãe pareceu acalmar consideravelmente seu coração inquieto. Suzy deu tapinhas lentos no peito de Jeong-in.
— Durma bem. Meu bebê.
— Você também, mãe.
Os dois fecharam os olhos lentamente. O calor transmitido pelo cobertor e a respiração familiar abraçaram calorosamente até mesmo seus corações. Assim, a noite morna e terna se aprofundou.
Acordando de um sono revigorante, Jeong-in espreguiçou-se calmamente e subiu as escadas para o segundo andar. Havia sido uma noite de sono profundo, como se tivesse voltado à infância, coberto por uma manta com o cheiro de sua mãe e recebendo seus carinhos.
Jeong-in parou no meio do caminho ao abrir a porta de seu quarto casualmente. Chase estava profundamente adormecido na cama. Ele usava o travesseiro de Jeong-in e apertava o Snowball nos braços.
— …Chay?
Quando chamou em voz baixa, as sobrancelhas de Chase tremeram como se um inseto tivesse roçado seu rosto. Ele provavelmente escalara pelo telhado e entrara pela janela tarde da noite. E parecia ter caído no sono enquanto esperava por Jeong-in.
Um sorriso espalhou-se naturalmente pelos lábios de Jeong-in. Aproximando-se silenciosamente e sentando-se de leve na cama, ele balançou suavemente o ombro de Chase. Os cílios dourados firmemente fechados tremeram e se abriram devagar.
— Chay, por que você está aqui assim?
— Mmm… Eu vim, mas você não estava… Achei que estivesse conversando com a sua mãe… Esperei e… me deu sono, então só dormi.
Sua voz estava rouca e seus olhos mal se abriam. Seu cabelo loiro bagunçado parecia exatamente com cabelo de boneco.
A visão daquele homem grande, incapaz de suportar apenas uma noite de solidão e acordando abraçado a um pequeno bicho de pelúcia, era ao mesmo tempo ridícula e insuportavelmente fofa e amável. Jeong-in finalmente não resistiu e abraçou Chase com força.
— Dormiu bem?
— Sim…
Chase moveu o corpo e acomodou a cabeça na coxa de Jeong-in. Então, enterrou o rosto no estômago de Jeong-in e esticou os braços para abraçar sua cintura.
Jeong-in deu tapinhas no corpo grande de Chase e esperou pacientemente que ele acordasse totalmente.
Quando os dois desceram as escadas lado a lado, Suzy estava na sala olhando para o celular com uma xícara de café na mão. Sentindo a presença deles, ela ergueu o olhar e caiu na risada ao descobrir Chase descendo com Jeong-in.
— Parece que você esquece onde fica a nossa porta da frente toda noite?
Chase deu de ombros e respondeu com uma risada brincalhona.
Depois de beberem uma xícara de café cada para espantar a sonolência persistente, os dois saíram de casa. Quando Chase disse que havia um lugar para irem juntos, Jeong-in assentiu sem perguntar nada. Ele definitivamente pensou que estavam indo para aquele hospital que Chase dissera querer visitar.
Sem dar nem alguns passos para fora da porta da frente, Jeong-in parou abruptamente.
— Uh…? O carro…
Um Porsche conversível prateado estacionado na rua brilhava sob a luz do sol da manhã.
Era uma aparência familiar, mas definitivamente não era o carro que Chase costumava dirigir. Aquele carro, que lhes deixara tantas memórias, tornara-se o primeiro veículo de prática de habilitação da sua prima Olivia e, após ser arranhado e batido muitas vezes e capotar feio, fora finalmente sucateado, ele ouvira dizer.
O carro diante de seus olhos era um modelo novo da mesma marca que Chase dirigia na época. Quase dez anos se passaram e o painel e o interior mudaram completamente, mas o design da silhueta fluida mal havia mudado.
Chase, que caminhara até o carro primeiro, abriu a porta do passageiro e esperou por Jeong-in.
— Entre.
Jeong-in moveu-se silenciosamente, tomado por um sentimento estranho. Há muito tempo, ele se lembrava vagamente de seu eu de dezoito anos, com o coração batendo forte ao subir pela primeira vez no banco do passageiro do conversível prateado.
— Sinto como se devêssemos estar indo para a Wincrest High.
Acompanhado pela risada baixa de Chase, o carro deslizou suavemente pela estrada.
O conversível prateado que entrou na Palmgrove Drive acelerou sem hesitar em direção ao destino definido. Jeong-in inclinou a cabeça interrogativamente, segurando o cabelo esvoaçante com os dedos. Pelo que ele sabia, o hospital que Chase dissera querer ver ficava em direção a San Martin, mas esta estrada seguia em uma direção completamente diferente.
— Não estamos indo para San Martin? Para onde vamos agora?
— Você saberá em breve.
O carro de Chase rapidamente deixou o centro da cidade. As lojas desapareceram uma a uma, e os vinhedos estendiam-se longamente entre árvores densas em ambos os lados da estrada. Esta estrada chamada Oak Hill Drive era um caminho tranquilo, com fazendas de vinho espalhadas esparsamente.
Justo quando ele pensou que estavam saindo de Bellacove, o carro virou à direita em uma estrada mais estreita e sinuosa. Mesmo assim, Jeong-in não sabia para onde Chase estava indo. Muito tempo havia passado, e ele nunca estivera aqui em plena luz do dia.
— Hã? Isto é…
Somente após ver o portão de ferro erguendo-se alto diante dele, Jeong-in percebeu que já estivera naquele lugar no passado.
A memória ainda estava fresca. O portão de barras pretas coberto de teias de aranha tinha uma placa de advertência onde se lia “Propriedade Privada: Proibida a Entrada” e estava envolto firmemente com correntes, tornando impossível até pensar em entrar.
Mas agora aquele portão estava escancarado, como se esperasse por alguém.
Coisas que não eram visíveis na escuridão daquela época revelavam-se claramente sob a luz deslumbrante do sol. Não, não era apenas visível porque estava claro. Uma paisagem que não existia antes desdobrava-se diante de seus olhos.
A estrada que definitivamente fora um caminho de terra acidentado estava suavemente nivelada. Não era apenas cimento despejado. Como o acabamento de cascalho que ele vira em praças de estilo europeu, pedras naturais foram cuidadosamente incrustadas uma a uma, fazendo com que toda a superfície da estrada parecesse um mosaico cintilante.
Seguindo aquela estrada mais para o interior, um canteiro de obras revelou-se. Escavadeiras amarelas e empilhadeiras levantavam poeira enquanto se moviam atarefadas de um lado para o outro e, além delas, um edifício esplêndido, reminiscente de um clube de golfe ou resort, exibia sua grandiosidade.
A parte frontal do edifício ainda passava por um intenso trabalho de paisagismo. De um lado, o contorno de canteiros redondos já estava definido, e mudas de árvores com as raízes protegidas esperavam para serem plantadas aqui e ali.
Onde o solo fora profundamente escavado, operários trabalhavam cobrindo tudo com mantas impermeáveis; aparentemente, ali nasceria um lago.
Jeong-in perguntou com uma expressão atônita:
— O que exatamente… você está construindo aqui?
— Você disse que não queria um salão de banquetes luxuoso para o nosso casamento. Disse que ficaria feliz em uma floresta ou em um campo. Apenas um lugar que fosse significativo para nós seria o ideal.
Chase estendeu uma das mãos e apontou para algo. O olhar de Jeong-in seguiu lentamente a ponta de seu dedo.
Na borda da colina, erguia-se uma estrutura clássica com um telhado em cúpula redonda. O pavilhão, ao qual vários trabalhadores se dedicavam freneticamente em obras de restauração, fora outrora nada mais que um esqueleto de atmosfera sombria.
Aquela era a propriedade da família Prescott para onde Chase o levara no dia em que Jeong-in participou da competição acadêmica. Um lugar que fora usado como observatório e salão de banquetes ao ar livre por mais de cem anos — de 1900 até o início dos anos 2000 — e depois abandonado por décadas.
— Estou tentando recriar a era de ouro dos Prescott. Como uma cena de O Grande Gatsby que seja significativa para nós.
Os lábios de Jeong-in se moveram, mas nenhuma palavra saiu. Ele apenas piscou atordoado e olhou para Chase.
— Vem cá.
Chase segurou a mão de Jeong-in e o conduziu.
O lugar onde Jeong-in parou, instantes depois, era exatamente onde os dois haviam estendido um tapete barato comprado em um mercado e se sentado lado a lado, acabando por adormecer enquanto contemplavam a vista noturna sob a luz das estrelas.
Naquela época, a vista pontilhada de estrelas era incrivelmente bela. Agora, ostentava uma textura de beleza completamente diferente sob o sol radiante.
Abaixo de seus pés, o contorno da cidade e a linha costeira do oceano espalhavam-se de forma revigorante como uma pintura panorâmica. Sobre as colinas curvas que abraçavam o mar, viam-se camadas de vinhedos que logo brotariam, e além deles a superfície do oceano iluminada pelo sol brilhava suavemente como escamas de peixe.
Jeong-in exclamou sem perceber:
— Uau…
Chase segurou o ombro de Jeong-in, que olhava para o mar distante, e o virou para o lado oposto.
— Entraremos por ali e montaremos o arco do casamento bem neste ponto. E trocaremos nossos votos debaixo dele.
De repente, sua visão pareceu distante. Ele se sentia feliz e surpreso e, de alguma forma, incapaz de acreditar, como se estivesse um passo removido da realidade.
— Quando… você começou a preparar tudo isso?
Com o aperto subindo do peito até a garganta, Jeong-in perguntou com a voz levemente rouca.
— Pouco depois de você me pedir em casamento.
Jeong-in virou a cabeça lentamente e olhou ao redor mais uma vez. Sobre aquele espaço inacabado, ainda em construção, uma paisagem imaginária se sobrepôs.
Durante o dia, eles trocariam votos na encosta ensolarada entre flores e árvores e, quando a noite caísse, a recepção começaria tendo como pano de fundo uma vista noturna que lembrava a luz das estrelas.
A luz suave dos lustres, talheres de prata perfeitamente arranjados sobre mesas cobertas com linho branco, o som elegante de cordas fluindo e o riso das pessoas brindando com taças de champanhe.
E, no centro de tudo, duas pessoas prometendo o “para sempre”.
A paisagem daquele dia que ainda estava por vir estava sendo desenhada com uma vivacidade inacreditável bem ali, naquele exato momento.
Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Othello&Belladonna