Capítulo 10
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Capítulo 10 – Quando a Lei Sangra
O sangue não deveria existir no reino das estrelas.
E, no entanto, ali estava ele, escorrendo da palma de Elian, marcando o mármore dourado do Altar do Véu com um vermelho quase profano.
As mãos dele tremiam. O punhal cerimonial ainda quente. Ao seu redor, o Conselho dos Signos mantinha-se em silêncio absoluto, como se palavras não pudessem alcançar o que estava acontecendo.
— Que isso não seja entendido como punição — disse Capricórnio, por fim, sua voz ressoando como trovão distante. — Mas como rito. Um teste. A lei que julga também deve sangrar.
Elian nada respondeu. A dor física era pouca, quase simbólica. Mas o gesto… o gesto feriu mais fundo que qualquer lâmina.
O punhal cortara sua carne, sim, mas também selara uma nova fase: ele agora era o Julgador que havia sentido. O imparcial que ousara desejar. E, por isso, precisava provar que ainda era digno.
— A ferida deve ser exposta à constelação de Libra — completou Virgem. — Se o céu aceitar o sangue, seu cargo permanece. Se a constelação negar, você será substituído.
Scorvan, sentado ao fundo, cerrou os punhos. Queria intervir. Gritar. Rasgar o céu se preciso fosse. Mas sabia que um gesto impensado poderia tornar tudo pior. O julgamento, dessa vez, era celestial — e nenhuma palavra mortal poderia interferir.
Elian deu um passo à frente, cambaleante.
A constelação de Libra pulsava acima. Não era só um agrupamento de estrelas. Era viva. Era o espírito da Justiça cósmica, milenar, imparcial, fria.
Ele ergueu a mão ferida.
— Eu não sou mais o mesmo. — Sua voz soou baixa, porém firme. — Mas ainda sou o que pesa o certo e o errado. Apenas… agora entendo que às vezes o que é certo sangra, e o que é errado seduz. E só quem sente pode discernir a diferença.
O sangue pingou da ponta dos dedos dele.
E as estrelas… piscaram.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Então, uma luz suave caiu do céu — não quente, não fria. Apenas… justa.
A ferida começou a se fechar. Devagar, como se a própria balança costurasse sua carne.
O salão prendeu a respiração.
— A constelação… aceitou — sussurrou Peixes.
— Mas ela oscilou — rebateu Sagitário, ainda desconfiado. — O Julgador está mudando. E se mudar demais…
— Ele renasce — disse Scorvan, se levantando. — Não é isso que sempre tememos? Que os signos deixem de ser símbolos e se tornem vivos?
— Isso traria caos — respondeu Áries, se adiantando. — Emoção demais nas cadeiras do zodíaco e perdemos o equilíbrio do mundo.
Elian se virou para ele.
— E onde estava o equilíbrio quando os humanos morreram em guerras decididas por nossas ordens frias? Quando famílias foram partidas por julgamentos baseados em regras que já não se aplicavam aos seus corações?
A dor ainda queimava na sua mão, mesmo curada.
— Eu não quero destruir o equilíbrio. Quero torná-lo real. Vivo. Capaz de errar. Capaz de aprender.
Câncer olhou para ele com lágrimas discretas.
— Isso é pedir que os deuses sintam.
— E por que não? — retrucou Elian. — Sentir não é fraqueza. É aceitar que mesmo o eterno pode se transformar.
Scorvan caminhou até ele. A presença dele era sombra e calor ao mesmo tempo.
— Você está diferente, Elian.
— Eu estou me tornando — respondeu o Julgador, olhando para o céu. — Talvez isso assuste, mas é o único caminho para não nos tornarmos tiranos com coroas de estrelas.
Uma estrela cadente riscou o horizonte. Silenciosa. Simbólica.
— Então, que comece a transformação — disse Aquário, finalmente. — Mas saiba, Libra… toda mudança tem preço.
Elian assentiu.
— E eu estou disposto a pagar.
—
Naquela noite, em seu aposento revestido por véus flutuantes e paredes de luz líquida, Elian sentou-se no parapeito, os cabelos longos balançando com o vento estelar. Sua mão ainda latejava, como se a constelação tivesse deixado uma marca em seu sangue.
Scorvan entrou sem ser anunciado.
— Você foi corajoso — disse, baixo.
— Fui humano — corrigiu Elian, olhando para ele.
Scorvan aproximou-se, parando ao lado dele.
— A constelação aceitou seu sangue… mas e o seu coração? Já se aceitou como é agora?
Elian demorou a responder. Depois, num sussurro:
— Estou tentando.
Scorvan tocou a mão marcada.
— Então me deixa tentar com você.
Elian fechou os olhos.
Pela primeira vez, não se sentiu dividido entre o dever e o desejo.
Pela primeira vez, sentiu que os dois podiam coexistir.
E pela primeira vez… chorou.
Mas não foi tristeza. Foi libertação.
—