Capítulo 09
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Capítulo 9 – O Julgador que Vacila
O Salão dos Signos se erguia como uma catedral feita de constelações. Doze tronos flutuavam ao redor da cúpula de luz. Cada signo tinha seu assento, mas o de Libra era o único que nunca ficava vazio — até agora.
Elian estava de pé no centro, sozinho.
À sua frente, os outros signos se reuniam. Áries, com os punhos cerrados. Touro, imponente como uma muralha. Gêmeos, divididos entre o riso e o desprezo. Câncer, inquieto. Leão, fulgurante. Virgem, fria como neve. Sagitário, inclinado sobre o arco. Capricórnio, imóvel como pedra. Aquário, com olhos de tempestade. Peixes, em silêncio profundo. E, por fim, Escorpião — o trono de Scorvan, vazio.
— Inaceitável — disse Áries, a voz cortante como lâmina. — Um juiz não pode ser contaminado.
— Ele não está contaminado — retrucou Câncer, baixo, mas firme. — Está… em conflito.
— O conflito é corrupção — disse Capricórnio. — E corrupção traz ruína.
Elian respirou fundo. Tentava manter a expressão serena, mas a balança ao seu lado tremia, os pratos oscilando com violência. Ele sabia: o conselho sentia sua instabilidade. Era impossível esconder.
— Que o juiz fale por si — disse Leão, com sua imponência habitual. — Se há verdade no que se sussurra entre os ventos do cosmos, então nos diga, Libra: beijou ou não beijou o Escorpião?
O salão ficou em silêncio.
A pergunta era uma flecha, e a resposta, uma guerra.
Elian hesitou. Seu coração gritava. Seu dever berrava mais alto.
— Sim — disse, finalmente.
Um murmúrio de consternação percorreu os tronos. A balança parou por um segundo. E, quando voltou a se mover, um dos pratos afundou abruptamente.
— Você sabe o que isso significa — sussurrou Virgem, olhos estreitos. — Significa que sua imparcialidade se foi. E sem ela, a balança vira arma.
— A profecia está despertando — disse Sagitário. — O Julgador se tornou desejo. E quando o desejo pesa mais que a justiça, o céu se rompe.
Elian ergueu os olhos.
— Então é isso? Um beijo anula milênios de serviço? De decisões equilibradas? De guerras evitadas?
— Um beijo não é só um beijo quando vem do Julgador — respondeu Peixes, finalmente falando. — É um sinal. E nós precisamos decidir o que ele anuncia.
— Um erro — disse Touro. — Que pode ser corrigido se Libra abdicar.
— Não. — A resposta veio antes que Elian pudesse abrir a boca. Todos se viraram.
Scorvan.
Vestia preto e prata. Os olhos eram sombras líquidas. As palavras dele cortavam mais que qualquer espada.
— Se vão condená-lo por se permitir sentir, condenem a mim também. Pois se ele vacilou, foi porque eu provoquei o abismo.
Leão se levantou, indignado.
— Escorpião, este julgamento é sobre Libra!
— Não. — Scorvan desceu os degraus e parou ao lado de Elian. — Este julgamento é sobre medo. O medo de que o Julgador seja, enfim, humano demais para continuar julgando. O medo de que amor e justiça não possam coexistir.
Ele olhou para Elian.
— Mas eles podem.
Elian não conseguiu evitar. Estendeu a mão, tocando o braço de Scorvan, e a balança estremeceu — só que, dessa vez, não desequilibrou. Os pratos voltaram ao nível.
Câncer arregalou os olhos.
— Isso é impossível…
Aquário se inclinou, analisando.
— Não. Isso é… novo.
— O que você fez? — perguntou Virgem.
Elian deu um passo à frente.
— Pela primeira vez, talvez eu esteja julgando com o coração e não apenas com a balança. E o equilíbrio surgiu não da neutralidade… mas do sentimento sincero.
Capricórnio franziu o cenho.
— Está dizendo que amor pode ser critério de justiça?
— Estou dizendo que ele pode ser parte da verdade.
Um novo silêncio. Mas, desta vez, não era raiva. Era dúvida. Uma rachadura na muralha do dogma.
Áries cruzou os braços.
— Isso é perigoso.
— Sim. — Elian concordou. — Mas tudo que é verdadeiro é.
Scorvan sorriu de canto, discreto.
— Então, o que acontece agora?
Gêmeos se levantou, ambos em uníssono:
— Agora, deixamos o cosmos decidir.
Do alto do salão, uma estrela cadente cortou o teto translúcido. A luz caiu como uma chuva suave sobre a balança.
E ela, enfim, repousou.
Equilíbrio.
Mesmo em meio ao caos.
—
Mais tarde, a sós no terraço celeste, Scorvan e Elian observavam as estrelas.
— Isso ainda pode nos destruir — disse Elian, baixo.
— Talvez. Mas… você já pensou que talvez sejamos o recomeço?
Elian olhou para ele, os cabelos longos balançando ao vento, os olhos cheios de algo que ele ainda não sabia nomear.
— E se eu cair?
— Eu te seguro — disse Scorvan, sem hesitar.
E, pela primeira vez desde que nasceu, Elian acreditou que não estava só.